Arquivo da categoria ‘Baixando o Nível’

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A ascensão e queda do Quevilly

27 de dezembro de 2012
Após vice da Copa da França, Quevilly se vê próximo do rebaixamento(Foto: Getty Images)

Após vice da Copa da França, Quevilly se vê próximo do rebaixamento
(Foto: Getty Images)

Um time encantou a França em 2012. Não foi o milionário Paris Saint-Germain, nem o renovado Lyon, muito menos alguma das surpresas da atual edição do Campeonato Francês, como Valenciennes e Stade Rennais. Esse time foi o pequenino Union Sportive Quevilly, clube amador das divisões inferiores do país. A equipe da Alta Normandia chegou a final da última edição da Copa da França, sendo que, na época, disputava a quarta divisão francesa.

Durante o trajeto para o Stade de France, o Quevilly deixou times do cacife de Rennes e Olympique de Marseille pelo caminho e deu novo rumo à história que tentou escrever dois anos antes, quando parou no Paris Saint-Germain na fase semifinal. Na decisão, o adversário foi o poderoso Lyon e desta vez não deu para a zebra. Les Gones venceram pelo placar mínimo e deixaram o Quevilly sem o troféu.

Mas nem todo o caminho percorrido no ano foi traçado em vão. O time treinado por Régis Brouard liderou sua chave na quarta divisão e obteve o acesso a terceira divisão do Campeonato Francês. O vice da Copa da França não foi uma mera lágrima no meio de um mar e sim um reflexo de um ótimo trabalho que já vinha tendo resultados satisfatórios em anos anteriores.

Além da semifinal da copa citada anteriormente, o Quevilly sempre havia terminado entre os cinco primeiros da quarta divisão com Brouard no comando técnico. O único ponto negativo era que apenas o líder subia. Quando os canários pararam de bater na trave e finalmente alcançaram seu objetivo, uma debandada aconteceu, a começar pelo próprio Régis Brouard, que se transferiu para o Clermont, time da segunda divisão francesa. Como se perder o mentor já não fosse o bastante, dos onze titulares da final contra o Lyon, apenas Weis, Beaugard – conhecido por ter levantado a taça junto com Cris –, Vanoukia e Diarra permanecem no elenco atual. O detalhe é que poucos se mudaram para clubes de divisões superiores – o que daria a entender que jogar em um clube profissional era uma tentação –, só retratando a dura realidade vivida pelos times amadores.

Agora na terceira divisão, o Quevilly teve um turno para ser esquecido, marcado por difícil adaptação e péssimos resultados. Das 18 partidas disputadas pelos Canários no primeiro turno, nenhuma vitória foi conquistada. Foram 12 derrotas, seis empates e a lanterna do campeonato, sendo que o time mais próximo, o Epinal, está oito pontos na frente.

Régis Brouard deixou o Quevilly e se aventura na Ligue 2(Foto: Getty Images)

Régis Brouard deixou o Quevilly e se aventura na Ligue 2
(Foto: Getty Images)

Além disso, falta comando técnico ao time. O substituto de Brouard foi Laurent Hatton, técnico que conseguiu levar o Pacy Ménilles Racing Club, outra equipe pequena da Alta Normandia, para a terceira divisão. Em quatro meses, Hatton treinou o Quevilly em doze jogos, sendo oito derrotas e quatro empates. Com um início tão ruim, a troca no comando foi inevitável e Farid Fouzari, um treinador de primeira viagem, foi chamado. Antes dessa aventura, ele havia sido auxiliar técnico no Sedan e no Paris FC. Por fim, a mudança não surtiu grande efeito e só piorou a situação do time. Com Fouzari no comando, foram quatro derrotas e dois empates.

Além disso, o Quevilly tem o quarto pior ataque da competição, com apenas 15 gols e a pior defesa, com 32 tentos sofridos. É muito difícil imaginar que saiam desta situação. Boa parte do elenco é formado por atletas amadores da Alta Normandia. Está certo que a terceira divisão não é 100% profissional, mas quem não é capaz de fazer investimentos decentes para sobreviver no campeonato, sofre e é o caso do Quevilly, que além de ter um grupo de jogadores amadores, tenta se virar com um técnico sem experiência.

É triste. Meio ano atrás, nos encantávamos ao ver aquele aguerrido time em campo, o mesmo time que fora de seu estádio – nas fases agudas, precisou jogar no Michel-d’Ornano, estádio do Caen – levava grande público e via seu torcedor empurrá-lo até os últimos respiros. Vale a pena torcer para que o Quevilly permaneça, milagrosamente, na terceira divisão? Será? Será que é certo esperar que se mantenha e sofra mais tempo por lá? Espero que me convençam que seu lugar não é na quarta divisão.

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Um coro em Berlin

25 de dezembro de 2012
22 mil torcedores para celebrar o natal

22 mil torcedores para celebrar o natal

O Union Berlin é um time “Cult” da Alemanha. O clube fica localizado no subúrbio da capital alemã e nunca conseguiu grandes feitos em sua longa história e acaba vivendo a sombra de equipes mais tradicionais, como Hertha e Dynamo. Isso não impede que tenha uma história rica e com enorme participação de seus fanáticos torcedores.

Recentemente, em participação no programa “Esporte@Globo”, comentei um pouco da história do derby berlinense entre Union e Hertha e que mesmo faltando quase três meses para o jogo, mais de 50 mil ingressos já haviam sido vendidos para o confronto do Olympiastadion, só retratando que a torcida mais, digamos, bem abastada do Hertha também comprara a ideia de ter um clássico em sua cidade.

Digo isso porque a maior parte da história envolvendo essas duas equipes tem relação maior com os torcedores do Union. No primeiro clássico da história, que foi apenas em 2010, houve um público próximo de 20 mil pessoas. O detalhe é que o estádio An der Alten Försterei – estádio da Velha Guarda Florestal, em livre tradução – só poderia receber, segundo informações registradas na época, um público em torno de 16 mil.

Na mesma temporada, o Union conseguiu levar um público maior ao imponente Olympiastadion e calou a torcida rival ao vencer por 2×1. Nesta temporada, os dois times se reencontraram e uma enorme bandeira reverenciando o último resultado foi estendida atrás de um dos gols. O Hertha respondeu com uma vitória pelo mesmo placar.

Outra história bacana sobre a casa do Union Berlin é que para poder disputar a segunda divisão na última década, o clube precisaria modernizar o seu estádio. A reforma estava correndo bem, até que, após alguns problemas, a empresa responsável pela reconstrução rompeu o contrato com o Union, deixando o estádio “semiconstruído”. Sem dinheiro, o cenário não era dos melhores para o clube berlinense, até que uma brilhante atitude dos torcedores do time salvou a história. Mais de duas mil pessoas, entre torcedores e moradores da cidade, se disponibilizaram a reformar o estádio de forma voluntária, sem receber nada em troca, apenas a satisfação de poder ver jogos de futebol no An der Alten Försterei.

Mais um show da torcida do Union

Mais um show da torcida do Union

A história mais recente que envolve o Union Berlin e seu estádio acontece desde 2003 nos dias próximos ao natal. O time não vai entrar em campo, afinal, o futebol na terra dos chucrutes para antes que a neve os devore, mas os torcedores berlinenses vão ao estádio mesmo assim. Em 2012, eles se reuniram no Alter Försterei no dia 23 de dezembro. Você pode estar se perguntando uma hora dessas: o que essas pessoas farão em um campo de futebol, na noite que antecede a véspera de natal, sem haver um jogo e em um frio de rachar? Simples, aproveitar o natal com quem tanto compartilhou emoções durante um ano inteiro de torcida pelo Union.

22 mil pessoas – mais gente do que qualquer jogo do time – foram acompanhar o espetáculo. Uma prova e tanto de como a tradição cresceu, pois em 2003, primeiro ano desta reunião, apenas 89 pessoas participaram da cerimônia.

Os portões do estádio foram abertos antes mesmo das 17 horas e, na medida em que fossem entrando, os torcedores recebiam um caderno com todas as canções que seriam entoadas na cerimônia, além de alguns quitutes acompanhados de um bom vinho. Por volta das 19 horas, as luzes do estádio foram apagadas, milhares de velas foram acesas e o sistema de som do estádio começou a tocar o hino do Union Berlin devidamente acompanhado por todos os presentes. Era dado o pontapé inicial ao espetáculo que durou 90 minutos. Foi uma partida inteira marcada pelos cânticos de natal.

Em um tempo em que as famílias se afastam dos estádios por medo da violência e, também, em uma época onde, na Alemanha, milhares de torcedores demonstram desgosto com sérias regulamentações em seus comportamentos nos campos de futebol, ver um público gigantesco se reunir em um estádio de futebol, pura e simplesmente, para celebrar o natal em companhia de outros torcedores de seu time é mágico. É coisa do futebol!

Confira registros desse momento abaixo!

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Ah, Berlin!

9 de setembro de 2012

Mesmo com poucos jogos, Hertha e Union já têm histórias para contar

Estávamos no terceiro dia do mês de setembro do ano de 2012. Era uma segunda-feira e teríamos futebol na Alemanha. Dia atípico para a pratica do esporte, não? Para quem tem de dar o sangue para recolocar um time na primeira divisão do país, não é bem assim.

O fato era que aquela segunda-feira seria diferente, não por ter uma simples partida de futebol, mas sim por ter um jogo que chame a atenção, um “derby”. Esses clássicos são os momentos onde a rivalidade se aflora, o orgulho de dominar uma cidade chega ao extremo e o resultado demonstrará que caminho sua vida tomará nos próximos meses, sendo ele uma rota limpa e cheia de boas paisagens ou se será um passeio pelo inferno.

Iriam duelar naquele dia Union e Hertha, dois dos principais times de Berlin, capital alemã. Esse é o típico clássico antagônico, já que o Hertha costuma frequentar a primeira divisão do país e tem um dos estádios mais fantásticos da Europa, enquanto o Union nunca jogou a Bundesliga. Essa alternância de divisão entre os dois times fez com que a peleja da segunda-feira fosse apenas o terceiro duelo oficial entre os times na história.

Os dois confrontos anteriores tiveram enorme valor histórico, não por terem sido os duelos que deram o pontapé inicial na curta história do derby berlinense, mas sim pelo envolvimento do torcedor do Union. Para quem não sabe o estádio do time, o Stadion An der Alten Försterei teve sérios problemas na sua reforma no final da última década. A questão só foi solucionada quando dois mil voluntários ajudaram, de forma não-remunerada, a reconstruir o estádio. A reabertura foi em 2009, num amistoso contra o Hertha, mas o primeiro jogo oficial contra o rival local foi em 2010, num empate em 1×1 pela segunda divisão alemã. Mais de 18 mil pessoas foram ao jogo, sendo que a capacidade do estádio não chega à marca de 17 mil.

20 mil torcedores do Union foram ao Olympiastadion acompanhar o clássico em 2011

Em 5 de fevereiro de 2011, o Union venceu o Hertha por 2×1 no Olympiastadion de Berlin, mas essa não foi sua maior façanha. Das 74 mil pessoas que foram ao estádio, 20 mil eram torcedores vermelhos e brancos. Quem diria que o Union conseguiria levar ao estádio de um rival local, um público maior do que poderia levar em qualquer jogo em sua casa? Simplesmente mágico!

Embora a rivalidade seja recente e a quantidade de jogos oficiais seja irrisória, esse resultado teve grande importância histórica para o Union, talvez até igualando-se ao vice campeonato alemão de 1923 – quando ainda se chamava Union Oberschöweide – ou do vice-campeonato da Copa da Alemanha de 2001. Quem sabe até possamos colocar essa vitória do mesmo nível glorioso das conquistas das copas berlinenses, hoje disputadas por equipes praticamente amadoras.

Para o Hertha, pouco mudou. Naquela temporada, então, podemos dizer que foram tropeços que não atrapalharam seu futuro, pois, ainda assim, subiu para a elite do futebol alemão. Mas para os torcedores, certamente havia uma ponta de angústia no peito. Saber que a torcida de um time muito menor e com história totalmente antagônica a sua, teria motivos para sair na rua e rir de sua cara não era legal e só uma dolorida vitória poderia mudar isso. Digo “dolorida” porque o Hertha precisou cair para reencontrar o Union. Obviamente, não foi de propósito, mas sim uma consequência de um trabalho ruim.

A hora havia chegado! 16.750 pessoas se dirigiram ao Stadion An der Alten Försterei para acompanhar a partida do dia 3 de setembro. Logo de cara, foi estendida uma enorme bandeira, atrás de um dos gols, com referência ao 2×1 do Olympiastadion. A torcida do Hertha também fez valer a sua história e se fez presente em bom número no estádio do rival.

A partida era pegada, mas o nervosismo estava acabando com o Union, que foi dominado durante boa parte do tempo. O reflexo do comportamento em campo e psicológico dos times foi refletido no lance onde Marc Pfertzel perdeu uma bola na defesa de forma ingênua e a triangulação armada por Ben-Hatira, Kluge e Wagner foi concluída de forma perfeita pelo último jogador citado. Um belo gol, comemorada de forma “excêntrica” por Wagner, que dançou feito um robô.

Só que essa robotização passou para o restante do time, que retornou para a etapa final previsível e sem o sentimento necessário para se vencer um clássico. Essa gana sobrou no Union, principalmente no experiente Adam Nemec, que criou pelo menos duas chances de empatar a peleja.

Mas ficou claro que a luz da vitória se encontrava no banco de reservas. Uwe Neuhaus ou Jos Luhukay salvariam o jogo, tirando uma carta da manga. O coringa de Neuhaus foi o jovem Christopher Quiring, de 21 anos. Foi justamente Quiring, que empatou de cabeça, após corte mal efetuado pelo fraquíssimo Hubnik.

A cartada do holandês Luhukay era um brasileiro: Ronny. Ele nunca foi tão importante para o Hertha quanto seu irmão, Raffael, mas as suas cobranças de falta eram decisivas. Como Raffael não está mais no elenco, Ronny virou a solução.

O brasileiro pisou em campo aos 25 minutos da etapa final. Seriam vinte minutos para Ronny tentar mudar os rumos da partida. Mas quem disse que ele precisaria desse tempo todo para escrever seu nome na história do derby? Com dois minutos, ele teve uma falta para cobrar na meia esquerda. Tradicionalmente, Ronny enche o pé esquerdo, ao melhor estilo Roberto Carlos. Não era pelo fato de ser clássico e do jogo estar em placar igualitário que ele mudaria seu estilo. O brasileiro correu e mandou a bomba. A bola passou ao lado da barreira e o goleiro Daniel Haas não conseguiu segurar, ela passou entre suas mãos e morreu dentro das redes. Era a segunda vez que o brasileiro saia do banco e marcava um gol decisivo, a primeira havia sido na estreia contra o Padeborn.

O petardo de Ronny decidiu a partida (Getty Images)

Ronny aproveitou para tirar uma onda na comemoração e decidiu vibrar em frente à torcida do Union, no mesmo canto daqueles que haviam estendido a bandeira citada parágrafos anteriores. Foi um duro golpe aos Rot-Weiß, que não só viram seu time sofrer sua terceira derrota na temporada, como também tiveram de aturar a provocação do rival.

O clássico é novo, os times são completamente opostos, têm histórias cercadas pelas guerras e conflitos, mas que aos poucos vão escrevendo a história de um clássico. Quem sabe um dia, as duas equipes se encontrem em uma fase decisiva da Copa da Alemanha ou até na primeira divisão? Berlin merece isso!

Quem sabe, um dia….

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