Coluna do Futebol Inglês
A nova “era Dalglish” no Liverpool
Era apenas uma questão de tempo. Neste sábado, foi anunciada a demissão de Roy Hodgson do comando do Liverpool. O treinador vice-campeão da Liga Europa com o Fulham na temporada passada teve aproximadamente seis meses para implementar sua filosofia de jogo nos Reds, mas sofreu com a falta de resultados imediatos e não se manteve no cargo. Resultado: largou o time no 12º lugar da Premier League e esteve à frente do pior início de temporada do Liverpool em 57 anos.
Antes mesmo da demissão de Hodgson, nomes como Martin Jol, Martin O’Neill e Rafa Benitez já eram ventilados como possíveis postulantes ao cargo. Todavia, o cargo foi entregue a Kenny Dalglish, aquele que talvez seja a maior lenda da história do clube. Como jogador, conquistou praticamente tudo pelos Reds, com destaque para seis títulos da Premier League e três Copa dos Campeões.
Não menos brilhante foi a sua primeira passagem como treinador, conquistando três títulos da EPL, duas FA Cup e duas Charity Shield. Além de ter atuado em um determinado período como “player-manager”, ele também é lembrado pela dobradinha (Premier League e FA Cup) conquistada na temporada 85-86, fato alcançado por apenas quatro equipes na história do futebol inglês.
É claro que a chegada de Dalglish não tem o objetivo de retomar a “golden age” do clube naquele período, mas renova as esperanças de um time que necessita de tempo para se reconstruir. Pelo fato de ser um ídolo, Dalglish certamente terá a paciência e o respaldo dos torcedores, ainda que os resultados não sejam imediatos. E como se trata de uma reorganização a médio-longo prazo, certamente não serão.
Esta é apenas a primeira medida do novo dono do clube, John Henry, proprietário do consórcio americano NESV (New England Sports Ventures), para devolver o Liverpool ao topo do cenário inglês e mundial. Entretanto, o elenco necessita de abastecimento. Na última janela de transferências, chegaram Konchesky, Danny Wilson, Poulsen, Shelvey, Raul Meireles e Joe Cole, porém nenhum destes causou algum impacto significante.
Recuperar o futebol dos craques Steven Gerrard e Fernando Torres também é um caso a ser tratado como prioridade. Torres é quem possui o desempenho mais pífio. Não só por ser o artilheiro e uma das estrelas do time, mas qualquer atacante que possua uma marca de seis gols em 22 partidas não estará tendo um bom rendimento. Gerrard foi pras redes em oito oportunidades nas 19 partidas que disputou, mas nem de longe demonstra o poder de decisão de outras temporadas.
A princípio, o regresso de Dalglish parece ter sido uma decisão acertada. A sua história no clube tem apenas a contribuir para administrar a pressão que ele certamente sofrerá em Anfield Road. A estreia não foi das melhores: derrota para o Manchester United em Old Trafford, culminando na eliminação do Liverpool na FA Cup. Na EPL, com dez pontos de desvantagem para o Chelsea, 5º colocado até o momento, é muito difícil que o time belisque uma vaga para competições europeias.
Acima de tudo, o primeiro passo é procurar uma movimentação neste mercado de inverno e ajustar a equipe na parte tática – pois o elenco é qualificado. A temporada, que não é das melhores, ainda pode ter um alento: a conquista da Liga Europa. O Liverpool está na fase eliminatória da competição e encara o Sparta Praga nos 16-avos. O fato é que Dalglish possui o mesmo tempo de Hodgson para recuperar a auto-estima do time: seis meses. Pela sua identificação com o clube e com os torcedores, tem tudo pra dar certo.
Maratona de jogos decisiva na Premier League

Nem na neve a bola pára de rolar
Nestas semanas comemorativas de fim de ano (coincidindo com o inverno europeu), muitos campeonatos do Velho Continente dão uma parada e retornam apenas no início do ano seguinte. No Brasil, inclusive, a temporada já termina no início de dezembro. Enquanto em boa parte do mundo da bola este período significa descanso, o que se vê na Premier League é uma verdadeira maratona de jogos, que começa a indicar os postulantes a título, competições européias e descenso.
Contando a partir do “Boxing Day”, acreditem, serão quatro rodadas disputadas em apenas 12 dias. A primeira se encerrou nesta segunda, com a vitória do Arsenal sobre o Chelsea. Por sinal, dentre os sete primeiros na tabela, os Blues foram os únicos que não venceram na rodada. Um dos fatores que explicam essa queda de rendimento é a demissão do assistente técnico Ray Wilkins, ainda no mês passado.
Desde a sua saída, o Chelsea disputou seis partidas e não venceu nenhuma – três empates e três derrotas. Carlo Ancelotti balança no cargo e a distância para a liderança já é de 6 pontos. Os dois próximos confrontos serão em casa (Bolton e Aston Villa), mas nada que pareça suficiente para aumentar a confiança dos torcedores.
A maratona do líder Manchester United promete ser complicada, visto que os próximos adversários, Birmingham e West Brom, costumam dar trabalho quando atuam em casa. O Arsenal também visitará o Birmingham, mas antes encara o Wigan, também fora de casa. Possivelmente, Arsène Wenger opte por escalar reservas em algum destes jogos – o que deve ser rotina na maioria dos clubes –, haja vista que está marcado pro dia 5 de janeiro um duelo decisivo contra o Manchester City, no Emirates Stadium.
Nem sempre a ideia de poupar titulares é vista com tanta naturalidade. Na temporada passada, por exemplo, o Wolves protagonizou uma situação bizarra: para o duelo contra o Manchester United, em pleno Old Trafford, escalou nada menos do que dez reservas com o objetivo de poupar energias para uma sequência de jogos semelhante a esta, indicando que treinador e jogadores do Wolves consideravam o jogo contra os Red Devils praticamente perdido. Resultado: multa de US$ 39 mil aplicada pela Premier League. Algum time se arrisca a repetir a estratégia?
Longe da liderança da EPL há 81 anos, os jogos em casa contra Aston Villa e Blackpool surgem como boa alternativa para o City alcançar o primeiro posto – contando com tropeços dos adversários, claro. Por fim, chegamos ao Tottenham, que dificilmente brigará pelo título (7 pontos a menos e um jogo a mais que o United), mas certamente se manterá nas primeiras posições. Os próximos dois confrontos serão em casa, contra Newcastle e Fulham, o que pode reaproximar o Spurs dos quatro primeiros.
Na contramão destes cinco, outras equipes tradicionais atravessam uma fase complicada. O Liverpool consegue fazer uma campanha pior do que a da temporada passada (na qual ficou em sétimo), ocupando momentaneamente o 10º lugar. O Everton, nove vezes campeão nacional (quarto maior vencedor da EPL), é apenas o 14º. O Aston Villa está uma posição atrás e também atravessa uma fase complicada. A tendência é que ela piore, pois os próximos dois duelos são contra nada menos do que Manchester City e Chelsea, ambos como visitante.
O Fulham, vice-campeão da última Liga Europa, vive uma situação ainda mais dramática. É o primeiro time da zona de rebaixamento, com apenas 16 pontos. Também é o que menos venceu no torneio: apenas duas vezes. O último triunfo foi no dia 30 de outubro – 2 a 0 sobre o Wigan. O West Ham, que também soma 16 pontos e aparece atrás dos Cottagers pelos critérios de desempate, venceu o próprio Fulham na última rodada e dá indícios de recuperação. Nos dois próximos confrontos, frente a Everton e Wolves, ambos em casa, a obrigação é vencer.
Esta não é apenas a reta mais desgastante da competição. Também é a mais imprevisível. O condicionamento físico das equipes é colocado em xeque, assim como a qualidade de seus respectivos elencos – afinal, disputar 4 jogos em 10 dias com os mesmos jogadores parece praticamente impossível. A partir da 22ª rodada, quando a “maratona” estiver encerrada, possivelmente as pretensões de cada equipe na tabela estarão bem definidas. Façam suas apostas.
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O retrato da superioridade
Uma das novidades do blog para este fim de ano e também para 2011 são as novas colunas sobre o futebol internacional. A primeira coluna é de Gabriel Seixas, que falará sobre futebol inglês.
A Premier League tem um novo líder. No duelo direto pelo primeiro lugar entre Manchester United e Arsenal nesta segunda-feira, os Red Devils foram superiores e derrotaram os Gunners por 1 a 0. Ainda que tenha um jogo a menos que os demais times, a campanha do United impressiona: em 16 jogos, são nove vitórias e sete empates.
Há 24 anos no comando do clube, Alex Ferguson e a sua atual série invicta na EPL é superior à atingida pelo seu antecessor, Ron Atkinson. Com dois pontos de vantagem para Arsenal e Manchester City e três para o Chelsea, seria blasfêmia dizer que algo já está definido, porém a boa fase do United não pode ser atribuída ao acaso.
Dos últimos 18 títulos nacionais disputados, os Diabos Vermelhos conquistaram nada menos do que onze. Contudo, a perda da última edição do torneio para o Chelsea parece ter aumentado a sede desta equipe por títulos. Mesmo sem um Rooney tão ativo – envolvido em escândalos e dividindo opiniões entre os torcedores -, o time ganhou novos protagonistas. Atualmente, o principal deles é Nani.
Apontado como o “novo Cristiano Ronaldo” logo quando foi contratado, em meados de 2007, o português tem se firmado como unanimidade. Além de liderar o ranking de assistências na Premier League (10), o meia tem feito exibições individuais brilhantes, credenciando-o como um dos melhores do mundo na atualidade. Não é à toa que o flanco direito de ataque tem sido a principal válvula de escape do United.
Indubitavelmente, Nani tem sido um verdadeiro tormento para os adversários. Por sinal, o setor de meio-campo tem sido um dos pilares do time de Ferguson. Carrick e Anderson fazem um papel exemplar na marcação e saem pro jogo com eficiência. O brasileiro parece finalmente recuperado da lesão que o tirou de boa parte da temporada passada, atuando como um box-to-box.
O coreano Park Ji-Sung é outra grata surpresa, marcando gols decisivos (como o de ontem sobre o Arsenal) e colecionando grandes atuações. Como se não bastasse, jogadores da classe de Giggs, Scholes e Fletcher também são excelente alternativas. Aliás, vale frisar que os dois primeiros jamais podem ser considerados reservas, mesmo porque são uma espécie de “lendas vivas” do clube e apenas me baseio nas últimas escalações da equipe.
O artilheiro do Manchester na temporada é Berbatov, que vive um momento inusitado: ao passo que é o artilheiro isolado da Premier League com 11 gols, ainda não balançou as redes pela Champions League. Falta regularidade para que o búlgaro finalmente faça jus à bagatela de mais de 30 milhões de libras (superior a R$ 80 milhões) investida pelo United em sua aquisição há duas temporadas.
A fase do companheiro Rooney é ainda pior. O pênalti perdido ontem apenas ilustra a fase negra pela qual o ‘Shrek’ atravessa. O escândalo sexual na seleção inglesa, o seu desempenho abaixo da crítica na Copa e a sua possível saída do clube àquela epoca parecem ter afetado não apenas o seu psicológico, mas também seu talento. Rooney ainda não balançou as redes nesta Premier League.
Preocupações à parte, o setor defensivo parece ser o único imune de críticas. Ferdinand e Vidic seguem exemplares na composição da dupla de zaga, tal como os laterais Rafael e Evra. O brasileiro, inclusive, tem suprido uma das principais deficiências da equipe desde a passagem do auge de Gary Neville. O francês dispensa comentários, deixando pra trás de uma vez por todas o fracasso com a França no Mundial.
Nem a eliminação para o West Ham na Copa da Liga é capaz de manchar a (quase) irretocável temporada do Manchester, classificado na Champions e líder isolado da EPL. A invencibilidade do time nas duas principais competições que disputa é fruto da competência de uma equipe que tem no conjunto o seu principal trunfo. Seria exagero dizer que o clássico contra o Chelsea, no próximo fim de semana em Stamford Bridge, pode consolidar de uma vez por todas a soberania dos Red Devils nesta época?




