O dia que o quase não existiu

David Batty é um dos que ficou marcado por perder um pênalti decisivo pelo English Team

No dia 30 de novembro de 1872, a Inglaterra não fazia apenas seu primeiro jogo como Seleção, mas também protagonizava o primeiro confronto entre seleções na história do futebol. O duelo contra a Escócia – eterna rival – acabou sem gols. Quase cem anos depois, o então árbitro alemão, Karl Wald, introduziu na Alemanha a disputa por pênaltis, isso em 1970. Este sistema de desempate só foi aparecer em uma Copa do Mundo doze anos depois, na Copa do Mundo realizada na Espanha.

Você pode estar se perguntando neste exato momento: o que a disputa de pênaltis tem haver com o English Team? E o pior: o que tem haver com a Euro? Simples. O time britânico, que mesmo tendo um título mundial, acumula fracassos em todos os tipos de competição, só tem uma vitória nos penais e foi em uma Eurocopa.

Essa vitória aconteceu justamente em uma Euro que tinha tudo pra ser positivamente histórica para a Inglaterra: a Euro 96, realizada na própria Inglaterra.

A união era total, o país inteiro em pró de uma seleção! Todos queriam melhores resultados, já que a melhor atuação inglesa em uma Eurocopa havia sido em 1968, com um terceiro lugar. Desde a edição realizada na Itália até a que seria disputada em 96, seis Eurocopas foram realizadas e o English Team só havia participado de três delas, tendo em todas sido eliminado ainda na primeira fase. Para somar com tudo isso, coloque a ausência na Copa do Mundo de 1994. A Inglaterra tinha a obrigação moral de satisfazer seu torcedor com uma campanha digna.

Mas para poder começar a contar a história da Euro 96, é preciso retornar para a Copa do Mundo de 1990.

A Inglaterra não estava com uma campanha pra lá das melhores. A seleção de Bobby Robson terminara a primeira fase com dois empates e uma vitória magra sobre o Egito – 1×0. Na fase de mata-mata, mais sufoco. Nas oitavas de final, os ingleses só passaram pelos belgas no último minuto da prorrogação, graças a um gol de Platt. Nas quartas-de-final, a Inglaterra foi surpreendida pelo time mais atrevido daquela Copa, Camarões. A vitória por 3×2 só veio na prorrogação, no jogo que foi pra muitos, o melhor da Copa do Mundo de 90.

Mesmo com essa campanha frustrante, a Inglaterra chegava para a semifinal da Copa podendo voltar a uma final desde 1966, quando vencia o torneio dentro de seu país. O adversário da então semifinal era a mesma equipe que derrotara na final da Copa de 66, a Alemanha Ocidental.

Quando beirávamos o minuto de número 60 da semifinal, falta para a Alemanha a poucos passos da grande área. Andreas Brehme é o encarregado da cobrança. A bola é rolada pro então meia da Internazionale, que finaliza firme, a bola desvia em Paul Parker e encobre Peter Shilton. Era o primeiro gol do jogo, o tento que ia tirando a Inglaterra de uma nova final mundial.

Só que na época, o grande nome da Inglaterra era Gary Lineker, que após salvar a Inglaterra nas quartas de final – anotou dois dos três gols ingleses – não mediu esforços para evitar a eliminação do English Team. Lineker recebeu cruzamento de Parker – o mesmo que desviou a bola na hora do gol alemão -, passou pela marcação e atirou cruzado, deixando tudo igual e forçando o tempo extra.

Em sua primeira disputa de pênaltis, os ingleses saíram derrotados

Nos dois tempos de 15 minutos, nada de gols e a Inglaterra passaria a conhecer algo novo em sua já centenária carreira futebolística: a disputa de pênaltis. Tudo ia bem para a Inglaterra! Cobrando primeiro, os ingleses sempre sabiam o que fazer pra se manter em vantagem. A história ia sendo escrita desse modo, até chegar a vez e Stuart Pearce cobrar. A disputa estava 3×3 e o jogador do Nottingham Forest desperdiçou sua cobrança ao bater no centro do gol e ver Illgner defendê-la. Na quinta e decisiva cobrança, Waddle, já vendo sua seleção em desvantagem, decidiu encher o pé e mandou na lua. Era a primeira decisão por pênaltis inglesa e a primeira derrota.

Agora sim podemos voltar para a Euro 96, que como eu disse anteriormente, era de obrigação da seleção de Terry Venables conseguir uma campanha digna.

Isso foi feito na fase inicial. Na estreia, decepção, empate em 1×1 com a Suíça, mas depois viria a vitória sobre a Escócia por 2×0, gols de Paul Gascoigne e Alan Shearer. Depois disso, pouco importava a classificação, já que um rival histórico havia sido derrotado. A goleada por 4×1 sobre a Holanda – se não fosse esse gol de honra anotado por Kluivert, os holandeses seriam eliminados pelo saldo – serviu só pra fechar bem a fase de grupos.

Chega a fase de quartas-de-final e a seleção que enfrentaria a Inglaterra era a Espanha, time que na fase de grupos só conseguira a classificação após vitória heróica sobre a Romênia na última rodada.

Mas pareceu que naquele 22 de junho, os espanhóis jogaram no lixo toda a sua campanha na primeira fase, pois em nenhum momento tremeram diante dos mais de 75 mil ingleses que acompanharam a partida no Wembley. Foi a melhor partida da Espanha naquela edição da Eurocopa.

Ao final de 120 minutos, o placar mostrava 0x0. Uma pena! O jogo tinha sido muito movimentado, com chances de gols pros dois lados. Mas a vida é assim! Pênaltis!

Na disputa de penais, os ingleses foram perfeitos: quatro cobranças, quatro acertos. Um dos jogadores que converteu foi Stuart Pearce, o mesmo que havia desperdiçado sua cobrança em 1990, contra a Alemanha. Após ver a bola balançar as redes, Pearce vibrou de forma acalorada, como se estivesse desabafando pelos vários anos de chacota e humilhação que sofrera por causa do pênalti de 1990.

Ao contrário dos ingleses, o espanhóis falharam na hora H – como era de costume na época –  e Hierro e Nadal acabaram desperdiçando suas cobranças.

Era a segunda disputa de pênaltis da seleção inglesa e sua primeira vitória… O que os ingleses não imaginavam na época é que aquela vitória em 1996 seria a única em disputa de penais.

Southgate ficou marcado por perder o pênalti que eliminou a Inglaterra na Euro 96

Logo na fase seguinte, a Inglaterra daria de cara com a Alemanha, seleção que a derrotara na Copa do Mundo de 1990. Pode-se dizer que vimos um jogo atípico no Wembley. Os primeiros 90 minutos foram tensos, mas com gols. Shearer para a Inglaterra e Kuntz para a Alemanha. Esse placar forçou a prorrogação. Acontece que nos 30 minutos adicionais, o jogo foi bem aberto e não morno como deveria se esperar. Os ingleses chegaram a meter uma bola na trave e Gascoigne perdeu um gol com a trave aberta. Já os alemães tiveram um gol anulado – de forma bem esquisita. Nada que impedisse a disputa de pênaltis.

“Loteria” ou não, o fato é que todos estavam com os pés calibrados na disputa de pênaltis. Menos Gareth Southgate… O na época jogador do Aston Villa foi o sexto cobrador inglês e acabou cobrando fraco, fácil para a defesa de Köpke. Möller converteu o pênalti seguinte colocou a Alemanha na final. Já Southgate, carrega aquela cobrança desperdiçada até hoje, ficou marcado!

A Seleção Alemã iniciara em 1990 com a tradição inglesa de sempre perder em disputas de pênaltis e em 1996, deu sequencia a esse costume. O English Team passou por mais três disputas por pênaltis e foi derrotada em todas – Argentina na Copa de 98 e Portugal na Euro de 2004 e na Copa de 2006.

Uma resposta em “O dia que o quase não existiu

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