O fator campo

Nunca fui muito adepto do tal “fator-campo”. Sempre achei que se o time é bom em um estádio, é bom em outro também. Claro que o ambiente criado por sua torcida ajuda e dá forças ao time, mas não é ela que faz o caneleiro virar gênio de uma hora pra outra. Porém, em algumas ocasiões, esse fator mostrou o porque de ser tão valorizado. É isso que contarei neste “Conto da Euro”.

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Em 1960, a França recebeu a primeira edição da Eurocopa. Porém, Les Bleus morreram na praia e foram eliminados pela Iugoslávia na semifinal. A decepção foi enorme, isso porque os franceses tinham a vantagem sobre os iugoslavos de 4×2, mas em três minutos – dos 30 aos 33 minutos da etapa final – cederam a virada e o 5×4 eliminou o time mandante.

Quatro anos depois, a Espanha chegou determinada a mudar essa história. Naquela época, o país sede do torneio era definido de acordo com os participantes da fase final da Euro. Foi assim com a França e não foi diferente com os espanhóis, que com apenas uma derrota em seis jogos, se qualificaram para a fase final e foi eleita como país sede.

O formato da competição era simples: quatro times, duas semifinais de jogos únicos, os vencedores duelavam na final, que seria disputada no Santiago Bernabéu em Madrid. Os perdedores teriam de se contentar com a disputa do terceiro lugar, que seria realizada no Camp Nou em Barcelona.

Luís Suárez, mesmo contundido, levou a Espanha para a final (Foto: Empics)

Na semifinal, os espanhóis tiveram muito trabalho. Diante de uma talentosa seleção húngara, a Espanha só conseguiu a vaga para a final com um gol do merengue Amancio Amaro, aos 7 minutos do 2º tempo extra. A vitória teve enorme valor para a Espanha, que além de chegar a sua primeira final de Eurocopa, vencia a Hungria de Flórián Albert, Sándor Mátrai e Lajos Tichy com Luís Suárez, seu principal jogador, atuando contundido desde a segunda etapa.

Na outra semifinal, a União Soviética, atual campeã da Euro, bateu a Dinamarca com enorme facilidade. 3×0 e Viktor Ponedelnik, autor do gol do título dos soviéticos quatro anos antes, estava em grande forma, assim como Valentin Ivanov.

A grande final que seria disputada no Santiago Bernabéu seria realmente “grande”. Quase 80 mil pessoas foram ao estádio do Real Madrid para acompanhar a partida. E Luís Suárez, grande jogador da competição, decidiu a peleja. Foi ele quem cruzou para o gol de Peneda aos 6 minutos de partida, gol que abrira o placar. Khusainov empatou dois minutos depois.

Na hora de decidir, este time espanhol assim fez. Já beirávamos os 40 minutos de partida na etapa final e Amaro – autor do gol que colocou a Espanha na final – tinha a bola dominada na ponta direita. Ele estava sozinho contra a marcação. Tentou de algum modo se virar. Girou pra lá, girou pra cá, até que encontrou espaços pra cruzar. Assim o fez! Amaro ainda contou com a sorte de Shustikov furar na hora de cortar. A bola sobrou para Marcelino Martínez, que em uma violenta cabeçada mandou pras redes. A Espanha poderia finalmente gritar “É campeão!”.

Luís Suárez chegou a declarar que atuou em seleções mais talentosas do que a Espanha de 1964, mas que não ganhou nada. Mas com aquela seleção treinada por José Villalonga, foi diferente. Aquilo era mesmo um time e por isso ergueram a taça.

A Espanha ergueu sua primeira Eurocopa em 1964 (Foto: Getty Images)

Quatro anos depois, a história se repetiu. O formato da fase eliminatória era diferente – oito grupos, os vencedores de cada grupo se pegavam em duelos de mata-mata, os vencedores iam pra fase final –mas a fase final era a mesma, quatro times, duas semifinais de jogos únicos e a final. Inglaterra, Itália, Iugoslávia e União Soviética eram as equipes que disputariam a fase final, que seria realizada na Velha Bota.

Enquanto no Stadio Comunale a Iugoslávia batia a Seleção Inglesa pelo placar mínimo, o jogo disputado no San Paolo só foi decidido na moedinha. Itália e União Soviética ficaram no 0x0 tanto no tempo normal, quanto no extra. Resultado: fomos pro cara ou coroa e os italianos levaram essa.

Essa situação quase ocorreu novamente na final disputada no Olímpico em Roma. Itália e Iugoslávia ficaram no 1×1. Domenghini salvou a Azzurra nos minutos finais, mas o goleiro da equipe, Dino Zoff, disse que “a Itália não merecia empatar”. Merecendo ou não, foi forçado o segundo jogo e nesta peleja, Riva e Anastasi deram o título aos italianos.

E através da história temos outros exemplos de seleções que fizeram valer o fator campo e foram longe na Euro. Em 1984, a França, de Michel Platini, ergueu o troféu jogando a final no Parc des Princes – já com o torneio em um formato semelhante ao atual. Em 1992, a Suécia foi quem surpreendeu e chegou a semifinal da Euro. A Dinamarca, vizinha dos suecos, foi a campeã. Em 96, a Inglaterra morreu em mais uma disputa de penais, daquela vez, na semifinal. E em 2004, Portugal empolgou, cativou o Brasil inteiro por causa de Felipão, mas sucumbiu aos gregos na final.

E em 2012? Será que poloneses e ucranianos surpreenderão a todos e chegarão a colocações inimagináveis? Só com a vinda do torneio para sabermos!

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