Bom senso londrino

Certa vez, em uma aula de filosofia, meu professor disse: “Bom senso é a consciência que temos do lugar e espaço que estamos ocupando, sabendo exatamente que papeis devemos exercer”. A partir deste dia, penso que quem enfrenta o Barcelona deveria ter esse bom senso dentro das quatro linhas.

É rotineiro ouvir: “Ah, por que não ataca?” ou “por que essa retranca?” dos times que confrontam os catalães. Eu, pelo menos, nunca fui desses. Ora, se o Barcelona tem em quase todo jogo pelo menos 70% de posse de bola, como atacá-los? É preciso ter a bola para atacar, sem ela é quase impossível. Até por isso muitos times acabam jogando numa aparente retranca, quando na verdade são engolidos pela troca de passes adversária.

Só que ao enfrentar um time que tem uma posse de bola que beira o anormal, o adversário tem de ser letal e marcar gols no seu restrito tempo com a bola. Só que poucos times conseguem ter um “faro assassino” quando enfrentam o Barcelona e pecam ao desperdiçar as poucas chances que tem em cada partida.

Drogba fez o único gol de Chelsea v Barcelona (Chelseafc.com)

O Chelsea de Roberto Di Matteo, como um legítimo bandido de cela solitária na prisão, conseguiu cometer a primeira de duas partes do crime que é evitar o bi-campeonato do Barcelona e acabou batendo o time catalão no jogo de ida da semifinal da UEFA Champions League.

O bloqueio defensivo armado pela equipe inglesa foi impecável. Na defesa, John Terry e principalmente Gary Cahill tiveram atuações exuberantes. No meio-campo, havia um aparente 4-1-4-1, mas que por vários momentos pareceu ser um 4-5-1 tradicional, com uma linha de cinco jogadores no meio-campo. Com essa tranca na faixa central, o Barcelona não tinha espaços para trocar passes onde mais gosta, a intermediária ofensiva. Existiam algumas brechas nos flancos, mas o time catalão não conseguia impor seu envolvente toque de bola.

Pelo menos pra mim, os espanhóis não tiveram grandes defeitos na partida, isso valoriza ainda mais a vitória dos Blues. Claro que em alguns lances os atacantes do Barça – principalmente Sánchez – foram um pouco preciosos nas finalizações, mas eles são assim em todos os jogos. Aqueles golaços que podemos ver todas as semanas em jogos do time de Guardiola saem principalmente em lances de extremo capricho blaugrana. Dizer que o Barcelona derrotado na quarta-feira é o mesmo de sempre não chega a ser um erro até porque há certa razão nisso, já que os catalães tiveram a posse da bola, controle territorial e muitas finalizações.

Fàbregas foi um dos que perdeu gols na partida de quarta (Chelseafc.com)

Diferente do time adversário, o Chelsea mostrou enorme inteligência na eficaz jogada que resultou no gol da vitória. A cada bola roubada do Barcelona, você tem de ser veloz e procurar o lado mais frágil da defesa catalã, as laterais. No tento do jogo desta semana, Lampard roubou a bola de Messi (!!!!) e imediatamente lançou Ramires, que disparou nas costas de Daniel Alves. O resto da história você já sabe, gol de Didier Drogba.

Até as estatísticas comprovam o quanto o Chelsea foi letal nesta partida. Segundo o site da UEFA, o Barcelona teve 19 ataques e oito chances claras de gol, sendo duas bolas na trave, enquanto o time de Londres teve três ataques, sendo duas chances claras. Olhando só os números, 50% das grandes oportunidades azuis foram gols. Claro que devemos relativizar isso, já que foram apenas duas chances claras de gol, por conseqüência, um “mísero” gol.

Os ingleses têm chances de se classificar no Camp Nou, mas será um duelo complicado, principalmente porque o Barcelona precisa inicialmente de um gol para forçar o tempo extra. Evitar que os catalães façam um gol em uma partida foi provado por Milan e Chelsea que é possível, mas em dois jogos é uma parada muito complexa.

O bom senso que os adversários do Barcelona devem ter é que eles devem defender-se, diminuir os espaços e tentar ao máximo não ser envolvidos pelo toque de bola adversário, e no ataque, converter em gols as raras chances de gol que tem. Não é anti-jogo, é bom senso, é saber que o estilo do jogo catalão é imponente.

Isso é óbvio, sempre esteve na cara de todos e poucos treinadores percebem, só acabam se lembrando de defender-se. Se o Chelsea for capaz de manter o bom senso, chegará pela segunda vez na história a uma final de UEFA Champions League.

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