Tyton, um titã!

Deve doer decepcionar alguém que te admira. Certamente, esse admirador deve depositar enorme confiança em seus valores e pensamentos, além de lhe defender em todas as horas. Essas pessoas são de certa forma, cegadas pela sua afeição por um ídolo e quando ele os decepciona, a visão volta ou é distorcida para o lado ruim.

Por isso, quem é considerado por alguém como um herói, tem sempre de buscar dar o seu melhor e saber que tem gente que para tudo o que faz só para lhe ver, lhe admirar e compartilhar as emoções vividas naquele momento.

Mesmo assim, os heróis e ídolos não devem abusar de seu prestígio. Decepcionar seus fãs por bobeira ou demérito é burrice e uma hora ou outra seus créditos irão expirar. A alcunha de “herói” pode ser eterna, basta saber usá-la para que chegue a tal estágio.

E quando falamos de futebol polonês, o herói mais recente é Wojciech Szczesny. Nascido em Varsóvia, o goleiro do Arsenal é idolatrado em seu país de origem. Desde que se iniciou a preparação polonesa para a Eurocopa, ele foi um dos mais aclamados e procurados por mídia e fãs. Aos 22 anos, ele parecia saber bem como “alimentar” essa idolatria, para aí sim torná-la algo eterno.

Isso ficou muito claro hoje.

A partida de abertura da UEFA Euro 2012 já ultrapassava os 65 minutos. Gregos e poloneses empatavam em 1×1 e o Estádio Nacional de Varsóvia parecia incrédulo. A Grécia, que se limitou a defender na etapa inicial, descobriu o maravilhoso “outro lado do campo” e decidiu atacar. O resultado disso tudo foi promover uma submissão do selecionado local, que atônito, não conseguia jogar bola.

Mesmo com o susto de sua seleção, a torcida polonesa confiava em seu goleiro. Nem mesmo a estranha saída no gol de empate grego tirava tal admiração por Szczesny. Era ele que seguraria, pelo menos, o ponto de empate. Poderiam questionar, xingar, duvidar e até mesmo levantar outras possibilidades, mas era o arqueiro do Arsenal que tinha depositado da torcida toda a força e fé de um início promissor no torneio.

Mas um tal de Salpingidis decidiu saber se Szczesny era essa bola toda!

O atacante grego, que já havia balançado as redes uma vez na partida, parecia estar descontente com isso e queria aumentar o feito. Aos 23 minutos de jogo na etapa final, ele saiu na cara de Szczesny. “Chuto, não chuto, driblo, passo…” O que fazer? Salpingidis decidiu pôr à prova toda a coragem e hombridade do goleiro adversário ao dar um tapa pro lado e ameaçar o drible. O polonês se viu em uma sinuca de bico. “Cometo o pênalti e arrisco deixar meu time com 10 jogadores e com o placar contra ou o deixo fazer o gol e tentamos furar a retranca com um jogador há mais – o grego Sokratis foi absurdamente expulso na etapa inicial -?” Szczesny optou pela primeira opção.

Szczesny foi o segundo jogador expulso da Euro

Carlos Velasco Carballo, depois de várias decisões controversas durante o jogo, não titubeou: pênalti e expulsão. Szczesny, como todo ídolo tem de apresentar, foi digno, não reclamou e deixou o campo lentamente.

Salpingidis parece que nem esperou para ver o que aconteceria. Cerrou os punhos, balançou os braços e vibrou como se fosse gol, junto com Maniatis, que menos exaltado que o companheiro, esboçou uma pequena satisfação ao saber do pênalti.

Era o fim de tudo para a Polônia. O ídolo e possível herói havia sido expulso, a Grécia faria o gol e o time, que já havia sentido o gol de empate, cairia em um mar de lágrimas sem fim, culminando com uma derrota na estreia.

Eis que surge na história Przemyslaw Tyton. Tudo conspirava contra ele. Mesmo com a torcida lhe apoiando, os mesmos tinham um pé atrás quanto a sua presença em campo, justamente em um momento ingrato. Imaginem: quantos poloneses devem ter dito, antes da cobrança de pênalti, que preferiam que saísse o gol de Salpingidis, só para que Szczesny continuasse em campo? Acredito que não tenham sido poucos.

Só penso como estaria à cabeça de Tyton na hora que Franciszek Smuda olhou para o banco e lhe chamou. Cabeça essa que há menos de um ano preocupou a todos na Holanda, país onde defende o PSV. Tyton se contundiu com um jogador do próprio clube e teve uma concussão cerebral. Embora não tenha acontecido nada de grave com ele, o polonês só voltou aos gramados três meses depois do acontecimento. Era um teste e tanto para o funcionamento de sua cabeça.

Eis que chega a hora. O apagado Maciej Rybus deixou o time e Tyton entrou. O goleiro correu em direção da meta e a primeira coisa que fez foi ajoelhar-se em cima da linha e fazer o sinal da cruz. A Polônia, que é um país quase todo católico, deve ter feito a mesma coisa, torcendo para que uma ação divina viesse proteger o gol do país. Na sua frente estava Giorgios Karagounis, de 35 anos. O grego é um dos remanescentes do título de 2004 e jogar uma partida importante com o estádio todo contra não era nenhuma novidade para ele.

Carballo apitou e a sorte estava lançada.

O destro Karagounis bateu de chapa na bola, procurando o lado direito. Tyton, goleiro de 1,95 de altura, escolheu o canto certo, caiu em cima da bola e a espalmou. Ao levantar-se, o goleiro vibrou como nunca vibrara antes, não era à toa. Assim como ele, vibrei. Não por torcer pela Polônia, mas por presenciar a história sendo escrita. Caso sofresse o gol, o polonês seria só mais um goleiro que tomou gol na Euro, mas ele pegou! É um herói! Foi o grande momento do goleiro!

Tyton voou na bola e salvou a Polônia

Szczesny estava num cantinho obscuro do estádio, olhando atentamente, ao lado de duas pessoas, o que aconteceria no lance. Ao ver a defesa de seu substituto, vibrou como se fosse um gol, como se soubesse que dar sua vida pelo time tivesse realmente valido a pena.

Tyton, conseguiu com isso, se tornar o primeiro personagem marcante da Euro 2012. Não é qualquer um que substitui o grande ídolo da torcida num torneio das dimensões de uma Eurocopa, jogando em casa e com tudo contra, e faz o que ele fez. Mostrando humildade, o goleiro repetiu, ao término do jogo, o gesto feito no momento que entrou em campo e agradeceu a Deus.

Coisas que só o futebol proporciona! Viva Tyton! Primeiro a ser eternizado na edição de 2012 da UEFA Euro!

*Crédito da imagens: Reuters

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