Ah, Berlin!

Mesmo com poucos jogos, Hertha e Union já têm histórias para contar

Estávamos no terceiro dia do mês de setembro do ano de 2012. Era uma segunda-feira e teríamos futebol na Alemanha. Dia atípico para a pratica do esporte, não? Para quem tem de dar o sangue para recolocar um time na primeira divisão do país, não é bem assim.

O fato era que aquela segunda-feira seria diferente, não por ter uma simples partida de futebol, mas sim por ter um jogo que chame a atenção, um “derby”. Esses clássicos são os momentos onde a rivalidade se aflora, o orgulho de dominar uma cidade chega ao extremo e o resultado demonstrará que caminho sua vida tomará nos próximos meses, sendo ele uma rota limpa e cheia de boas paisagens ou se será um passeio pelo inferno.

Iriam duelar naquele dia Union e Hertha, dois dos principais times de Berlin, capital alemã. Esse é o típico clássico antagônico, já que o Hertha costuma frequentar a primeira divisão do país e tem um dos estádios mais fantásticos da Europa, enquanto o Union nunca jogou a Bundesliga. Essa alternância de divisão entre os dois times fez com que a peleja da segunda-feira fosse apenas o terceiro duelo oficial entre os times na história.

Os dois confrontos anteriores tiveram enorme valor histórico, não por terem sido os duelos que deram o pontapé inicial na curta história do derby berlinense, mas sim pelo envolvimento do torcedor do Union. Para quem não sabe o estádio do time, o Stadion An der Alten Försterei teve sérios problemas na sua reforma no final da última década. A questão só foi solucionada quando dois mil voluntários ajudaram, de forma não-remunerada, a reconstruir o estádio. A reabertura foi em 2009, num amistoso contra o Hertha, mas o primeiro jogo oficial contra o rival local foi em 2010, num empate em 1×1 pela segunda divisão alemã. Mais de 18 mil pessoas foram ao jogo, sendo que a capacidade do estádio não chega à marca de 17 mil.

20 mil torcedores do Union foram ao Olympiastadion acompanhar o clássico em 2011

Em 5 de fevereiro de 2011, o Union venceu o Hertha por 2×1 no Olympiastadion de Berlin, mas essa não foi sua maior façanha. Das 74 mil pessoas que foram ao estádio, 20 mil eram torcedores vermelhos e brancos. Quem diria que o Union conseguiria levar ao estádio de um rival local, um público maior do que poderia levar em qualquer jogo em sua casa? Simplesmente mágico!

Embora a rivalidade seja recente e a quantidade de jogos oficiais seja irrisória, esse resultado teve grande importância histórica para o Union, talvez até igualando-se ao vice campeonato alemão de 1923 – quando ainda se chamava Union Oberschöweide – ou do vice-campeonato da Copa da Alemanha de 2001. Quem sabe até possamos colocar essa vitória do mesmo nível glorioso das conquistas das copas berlinenses, hoje disputadas por equipes praticamente amadoras.

Para o Hertha, pouco mudou. Naquela temporada, então, podemos dizer que foram tropeços que não atrapalharam seu futuro, pois, ainda assim, subiu para a elite do futebol alemão. Mas para os torcedores, certamente havia uma ponta de angústia no peito. Saber que a torcida de um time muito menor e com história totalmente antagônica a sua, teria motivos para sair na rua e rir de sua cara não era legal e só uma dolorida vitória poderia mudar isso. Digo “dolorida” porque o Hertha precisou cair para reencontrar o Union. Obviamente, não foi de propósito, mas sim uma consequência de um trabalho ruim.

A hora havia chegado! 16.750 pessoas se dirigiram ao Stadion An der Alten Försterei para acompanhar a partida do dia 3 de setembro. Logo de cara, foi estendida uma enorme bandeira, atrás de um dos gols, com referência ao 2×1 do Olympiastadion. A torcida do Hertha também fez valer a sua história e se fez presente em bom número no estádio do rival.

A partida era pegada, mas o nervosismo estava acabando com o Union, que foi dominado durante boa parte do tempo. O reflexo do comportamento em campo e psicológico dos times foi refletido no lance onde Marc Pfertzel perdeu uma bola na defesa de forma ingênua e a triangulação armada por Ben-Hatira, Kluge e Wagner foi concluída de forma perfeita pelo último jogador citado. Um belo gol, comemorada de forma “excêntrica” por Wagner, que dançou feito um robô.

Só que essa robotização passou para o restante do time, que retornou para a etapa final previsível e sem o sentimento necessário para se vencer um clássico. Essa gana sobrou no Union, principalmente no experiente Adam Nemec, que criou pelo menos duas chances de empatar a peleja.

Mas ficou claro que a luz da vitória se encontrava no banco de reservas. Uwe Neuhaus ou Jos Luhukay salvariam o jogo, tirando uma carta da manga. O coringa de Neuhaus foi o jovem Christopher Quiring, de 21 anos. Foi justamente Quiring, que empatou de cabeça, após corte mal efetuado pelo fraquíssimo Hubnik.

A cartada do holandês Luhukay era um brasileiro: Ronny. Ele nunca foi tão importante para o Hertha quanto seu irmão, Raffael, mas as suas cobranças de falta eram decisivas. Como Raffael não está mais no elenco, Ronny virou a solução.

O brasileiro pisou em campo aos 25 minutos da etapa final. Seriam vinte minutos para Ronny tentar mudar os rumos da partida. Mas quem disse que ele precisaria desse tempo todo para escrever seu nome na história do derby? Com dois minutos, ele teve uma falta para cobrar na meia esquerda. Tradicionalmente, Ronny enche o pé esquerdo, ao melhor estilo Roberto Carlos. Não era pelo fato de ser clássico e do jogo estar em placar igualitário que ele mudaria seu estilo. O brasileiro correu e mandou a bomba. A bola passou ao lado da barreira e o goleiro Daniel Haas não conseguiu segurar, ela passou entre suas mãos e morreu dentro das redes. Era a segunda vez que o brasileiro saia do banco e marcava um gol decisivo, a primeira havia sido na estreia contra o Padeborn.

O petardo de Ronny decidiu a partida (Getty Images)

Ronny aproveitou para tirar uma onda na comemoração e decidiu vibrar em frente à torcida do Union, no mesmo canto daqueles que haviam estendido a bandeira citada parágrafos anteriores. Foi um duro golpe aos Rot-Weiß, que não só viram seu time sofrer sua terceira derrota na temporada, como também tiveram de aturar a provocação do rival.

O clássico é novo, os times são completamente opostos, têm histórias cercadas pelas guerras e conflitos, mas que aos poucos vão escrevendo a história de um clássico. Quem sabe um dia, as duas equipes se encontrem em uma fase decisiva da Copa da Alemanha ou até na primeira divisão? Berlin merece isso!

Quem sabe, um dia….

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