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Guerra sem causa não tem vencedor

1 de novembro de 2012

Pachecos x Eurocêntricos: uma guerra forçada

As comparações entre o futebol praticado no Brasil e no exterior estão longe de encontrar o limite. Diria até mais: o auge dessas discussões só irá chegar em uma nova era, com outras pessoas, novos modos de pensar e analisar tudo que nos rodeia, ultrapassando, inclusive, o âmbito futebolístico. Com a atual perspectiva, na qual me incluo, qualquer conversação comparativa será vazia e sem nexo. Possivelmente, os parágrafos a seguir se incluam nessa visão e nada acrescente a você, meu caro leitor.

O fato é que está cada vez mais rotineiro ver alguém perder a cabeça por ouvir que “o futebol brasileiro está no nível do europeu” ou que “Messi já superou Pelé”. Todas essas discussões não vão a lugar nenhum por serem questões de opinião e em toda questão opinativa, verdade absoluta não haverá, mas existirão diferentes pontos de pensamentos e visões. Umas mais distorcidas do que outras, mas que não deixam de ser opiniões.

Entre os paralelos dos dois continentes, o que mais têm me chateado são os momentos oportunos que fazem com que alguém rebaixe o “adversário”. Não pode ter uma invasão de campo ou uma falha técnica em um estádio europeu para que os “pachecos” não tomem a fala e já digam, de forma irônica, que “na Europa é lindo, aqui é vergonha”. Assim como os “eurocêntricos” parecem ter alguma espécie de alergia com o futebol nacional e sempre relacionem os campeonatos disputados por aqui a várzea.

Aliás, essas relações esdrúxulas que “surgem” entre os países me incomoda demais. Precisa lembrar que tal coisa acontece ou não acontece no Brasil enquanto assisto a um jogo do Campeonato Inglês e vice-versa? Se estou acompanhando uma partida na Inglaterra, dou a entender que quero saber sobre o campeonato deles e somente informações realmente relevantes de outros campeonatos vão me interessar. Saber que a arbitragem britânica também erra ou que no Brasil se dribla mais é completamente irrelevante pro contexto do momento.

Engraçado também como são poucos que tratam os “adversários” com respeito. O exemplo mais clássico está na lista dos concorrentes à melhor do mundo da FIFA com a France Football. Os “pachecos” clamam por presenças nacionais e rebaixam todo e qualquer jogador estrangeiro que não seja Messi ou Cristiano Ronaldo, como se não tivessem capacidade de chegar a tal status. Os “eurocêntricos” rebatem com ofensas atrás de ofensas, novamente relacionando o futebol jogado aqui com a várzea.

Os “pachecos”, porém, caem por terra em seus argumentos ao encherem de elogios jogadores como Falcao García, Kun Agüero e Edinson Cavani. Logo, dão a entender, corretamente, que os melhores atletas de nosso continente estão na Europa. É por essas e outras que o futebol praticado no Velho Continente é o melhor do planeta. É até uma ligação lógica, pois os atletas europeus de maior qualidade não saem de lá e os clubes tem banca pra trazer os melhores sul-americanos, asiáticos e africanos. As exceções são raríssimas, Neymar é uma delas, talvez a única, ou você acredita que tenha um Samuel Eto’o arrebentando na África e que seu clube consiga segurá-lo? Ou que exista um novo Shinji Kagawa no Japão que está tão acima dos demais atletas asiáticos que se ele permanecer mais dois ou três anos por lá irá estagnar na carreira, como fatalmente acontecerá com Neymar? Não tem! É exceção! Na América do Sul, não há uma alma que se aproxime da qualidade de Neymar, é nítido e até as exigentes FIFA e France Football notaram e colocaram o rapaz na lista de melhores do mundo.

Por Neymar estar tão acima dos demais jogadores, quer dizer que não temos bons jogos por aqui? Não! Muitos pensam que sim, mas essa parte tem o famoso “complexo vira-lata”. Eu, por exemplo, acompanho mais o futebol europeu do que o nacional, nunca neguei que troco jogos do Brasileirão por partidas do “Francesão”, mas também não escondo para ninguém que a partida Atlético Mineiro 3×2 Fluminense foi uma das melhores que vi em muitos anos.

Tento me manter o mais flexível possível, afinal de contas, só é possível fazer uma crítica decente sobre determinado assunto se você o conhece e o compreende por sua própria visão, sem a mensagem muitas vezes distorcida que uns e outros passam. Mantenho a posição de que o futebol europeu é melhor e que Messi tem capacidade de superar Pelé – selecionando dois temas que estão em constante debate -, mas mantenho o respeito pela história vencedora e pelas raízes que o futebol brasileiro criou, que mesmo tendo se enfraquecido com o passar dos anos, ainda consegue render bons frutos aos amantes do esporte bretão.

A principal dificuldade é isso entrar na cabeça da maioria das pessoas. Ainda chegará o dia em que entenderei essa obsessão terminal de querer que algo ou alguém de culturas e vivências distantes seja melhor que outro. Se isso já acontece na música, onde uma banda de rock é comparada a um grupo de pagode, imagina no futebol, onde milhares de paixões estão envolvidas? Às vezes penso se essa civilidade não entra em nossas cabeças por debilitação mental ou por desinteresse mesmo…

E por fim, essa discussão ultrapassa os limites do gramado e das salas da diretoria dos clubes e chega na sociedade, porque essa mania extremamente fútil e mesquinha existe em todos os âmbitos de nossa vida. Mesmo jovem, já convivi com diversos tipos de pessoas, de crianças que querem chegar primeiro na sala de aula a adultos que ameaçam famílias de políticos para que outro candidato saia vencedor em uma eleição.

Nessas horas, gostaria de conhecer mais o mundo, viver novas culturas e tirar a conclusão se esta abusiva mania é só dos brasileiros ou se o problema é mundial. Ao mesmo tempo, bate o medo de conhecer o mundo e perceber que essa mania é exclusivamente nossa. Como que explicarei a um estrangeiro que nós, brasileiros, somos tão mesquinhos a ponto de ter de rebaixar algo bom por acreditar que sempre tem de existir outro melhor e soberano? A imagem de povo acolhedor, feliz e simpático que ele provavelmente tem, irá ralo abaixo.

Mas voltando ao futebol, fica complicado imaginar o porquê de sempre haver alguém para encontrar defeitos. Ora bolas, quando vândalos brigam nos estádios não há o papinho de que “é um esporte, é sadio, não dá pra levar a sério”? Então por que não apreciar tudo? Honestamente, faltar com respeito e ignorar o que é produzido em outros países é tão ridículo quanto brigar com uma pessoa por torcer pro time rival, chega a ser xenofobia e completo complexo de vira-lata. Será que é tão difícil gostar do movimentado futebol alemão e do descaracterizado futebol brasileiro – sim, nosso futebol perdeu as características que tinha no passado – ao mesmo tempo? Afinal, é um esporte, é sadio, não?

E é assim que vamos cavando nosso interminável buraco no mundo para nunca mais sair. Se não podemos simplesmente respeitar, entender e analisar com coesão algo que nos faz bem e nos traz emoção a cada fim de semana, imagina assuntos mais sérios…

One comment

  1. Achei muito interessante e relevante seu post.

    Atenciosamente,
    Wallace Alexandre



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