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O Mago da Floresta Negra

1 de março de 2013
Christian Streich mudou a visão em cima do Freiburg(Getty Images)

Christian Streich mudou a visão em cima do Freiburg
(Getty Images)

Por mais de quinze anos, o Freiburg conviveu com um técnico que tinha grande identificação com o time e a torcida, Volker Finke. Foram 16 anos com Finke no comando técnico, saindo da terceira divisão, chegando à elite do futebol alemão e dando breves passadas pela Copa da UEFA – sendo que em 2002, deu trabalho ao futuro campeão Feyenoord – em menos de dez anos. Finke nunca se abalou com um resultado ruim, não à toa, caiu três vezes e subiu mais duas pelo Freiburg. É uma lenda no clube.

Em 2007, Volker Finke entregou o bastão para Robin Dutt, que assim como seu antecessor, levou o Freiburg para a primeira divisão e ainda quase chegou a Liga Europa em sua primeira temporada na elite do país. Dutt topou o desafio de assumir o Leverkusen e o sucessor foi Marcus Sorg, que estava no time sub-17 do Freiburg.

Diferentemente de seus antecessores, Sorg não teve vida fácil e durou apenas um turno no clube, largando o Freiburg em situação delicada na tabela da Bundesliga. Após mais de duas décadas sem demitir técnicos, o clube da Floresta Negra “provou” desse gostinho ao mandar Sorg embora.

Christian Streich, que era assistente de Dutt e também de Sorg, chegou para apagar um incêndio maior do que o imaginado. Semanas após assumir o comando do time, Streich teve uma péssima notícia: Papiss Demba Cissé, um dos poucos, senão único jogador que se salvava em todo elenco do Freiburg, foi vendido para o Newcastle e disputaria a Premier League. Na época, cheguei a comentar que esse foi o atestado de óbito do Freiburg. Mero engano! O “mago” Streich surpreendeu a todos.

O Freiburg fez uma impensável reconstrução de seu elenco na metade da temporada. Oito jogadores chegaram e outros oito deixaram o clube antes do início do segundo turno. Entre os contratados da época, veio Fallou Diagne, zagueiro de 23 anos. O senegalês tomou conta da zaga, antes, muito vasada do Freiburg e é, até hoje, uma das peças de confiança de Streich.

As diversas mudanças em si foram apostas de alto risco e com grande chance de dar errado, mas o pequeno percentual que dava vantagem ao clube da Floresta Negra prevaleceu e o clube teve a sétima melhor campanha do segundo turno, encerrando a Bundesliga em 12º e sem grandes sustos.

Para essa temporada, pouca coisa mudou. O Freiburg seguiu investindo pouco e apostando na juventude de seu elenco. Streich, que ficou conhecido por lapidar atletas como Dennis Aogo, Jonathan Pitroipa, Daniel Schwaab e o ótimo Oliver Baumann ainda na base, tem o segundo time mais jovem da Bundesliga – atrás apenas do Werder Bremen – com 24,2 de média de idade. Entre todos os atletas que entraram em campo com a camisa do Freiburg, onze estão abaixo dos 23 anos.

Schmid é um dos grandes nomes do Freiburg na temporada(Getty Images)

Schmid é um dos grandes nomes do Freiburg na temporada
(Getty Images)

Entre a garotada, dois nomes chamam a atenção: o já citado Oliver Baumann, goleiro titular do Freiburg desde a temporada 2010/11, quando tinha apenas 20 anos, e Jonathan Schmid, meia-atacante franco-austríaco que se tornou titular absoluto desde a chegada de Streich ao clube. Os dois, ao lado de Max Kruse – outro jovem destaque, mas criado no Werder Bremen – e Oliver Sorg – esse sim criado no Freiburg – são os jogadores com maior número de atuações pelo clube na Bundesliga.

Aliás, já que citei Baumann, vale dizer que ele é o jogador mais caro do clube, tendo um valor de mercado de cinco milhões de euros*. Para tomar de exemplo, dez jogadores do Bayern valem menos que isso, porém, são atletas que quase nem jogam ou que acabaram de subir para o time profissional. Isso dá uma dimensão de quão grande é o feito de Streich, que com um elenco barato e pouco badalado, está brigando por vaga nas competições internacionais.

Outro mérito de treinador é saber trabalhar a cabeça do jovem elenco. O natural seria que o time se vislumbrasse com o atual momento e começasse a planejar voos mais altos, quem sabe uma vaga na UEFA Champions League ou o título da Copa da Alemanha – o Freiburg é semifinalista –, mas o próprio técnico deu entrevistas recentes dizendo que pouco se importa com uma disputa internacional e que mais uma temporada na elite do futebol do país seria de bom grado.

Pés no chão: essa é uma das grandes mágicas de Streich. Boa parte do elenco trabalha com ele desde os anos finais da última década e são atletas que já criaram até mesmo vínculos emocionais pelo largo tempo de convivência. Em partes, seu trabalho lembra muito o de Jürgen Klopp no Borussia Dortmund, aonde chegou sem rumo, fez uma “limpa”, puxou garotos da base e fez um bom serviço de garimpagem de talentos em outras equipes, formando uma base sólida e, no caso borussiano, vencedora.

Não podemos deixar de mencionar a estabilidade interna que os treinadores que por lá passam, recebem. Durante 37 anos, Achim Stocker foi o presidente do Freiburg, se tornando o profissional mais duradouro no citado cargo em toda história do futebol alemão profissional. Ele foi o responsável pela vinda de Volker Finke e também pela passagem de bastão a Robin Dutt. Já falecido, Stocker não pôde ver seu pupilo Fritz Keller, vice-presidente no princípio dos anos 90, trazer Christian Streich para uma situação emergencial e ditar novos caminhos para o clube.

A confiança do elenco com Streich é mútua e o carisma do treinador é gigantesco. Esses fatores trazidos pelo Mago da Floresta Negra podem fazer com que o Freiburg chegue longe nos próximos anos, sempre responsabilizando Christian Streich, o homem que caiu de paraquedas no clube, mas com a consciência de onde e como pousar, para levantar logo e seguir em frente. Esse é o Mago da Floresta Negra.

*Dados obtidos no site http://transfermarkt.de/

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