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Quando o gol era exclusividade dos atacantes…

4 de julho de 2013
Le Jaguar, o brasileiro que fez história no Marseille (Foto: OM 4Ever)

El Jaguar, o brasileiro que fez história no Olympique de Marseille

Foram décadas e mais décadas em que o europeu só via no futebol brasileiro ginga, habilidade e atrevimento com a bola no pé. Somente nos anos 2000 essa imagem ganhou novos contornos e os defensores com sangue verde e amarelo passaram a pintar os gramados do Velho Continente.

Um dos marcos foi a presença de goleiros nos principais clubes do continente. Júlio César, por exemplo, foi considerado o melhor jogador da posição no mundo defendendo a Internazionale. Dida também alcançou status parecido vestindo a camisa do rival, Milan. A Roma chegou a ter Doni, Júlio Sérgio e Arthur como seus goleiros. O último alçou voos mais altos e é destaque do Benfica. Todos eles impulsionados por Cláudio Taffarel, personagem marcante da história do turco Galatasaray entre o final dos anos 90 e início dos 2000.

Um fato curioso é que a França, país onde Juninho Pernambucano, Carlos Mozer, Jairzinho, Paulo César Caju, Sonny Anderson, Raí e outros brasileiros marcaram época, não possui um grande registro de goleiros tupiniquins nos principais clubes.

Mais curioso ainda é que o Olympique de Marseille, time especializado em ‘flops’ brasileiros, como Fernandão, Marcelinho Paraíba, Adriano Gabirú e Édson “Canhão” (considerado sucessor de Roberto Carlos), possui a história mais interessante envolvendo um goleiro de nosso país em terras francesas.

Entre 1936 e 1939, o carioca Jaguaré Bezerra de Vasconcellos defendeu a camisa do OM com maestria. No Brasil, ele também fizera história com a camisa do Vasco da Gama antes de jogar por uma temporada no Barcelona.

Em seus três anos na cidade litorânea, Jaguaré, ou Vasconcellos para os franceses, disputou 69 partidas, todas como titular, venceu 40 jogos, empatou 13 e perdeu 16. Além disso, sua presença foi de extrema importância para o primeiro dos nove títulos nacionais do Olympique de Marseille. El Jaguar, como era apelidado, foi vazado 39 vezes na temporada 1936/37, fazendo com que o saldo do OM fosse de 30 positivos contra 14 do Sochaux. Essa diferença de gols deu o título para os marselheses, pois os dois times terminaram com 38 pontos.

Na temporada seguinte, Jaguaré entrou de vez para o hall de ídolos do Marseille na 29ª rodada do Campeonato Francês. O adversário da ocasião era o FC Sète e a partida ficou marcada pelos vários pênaltis assinalados, momento exato para um goleiro fazer seu nome. Mas nosso personagem decidiu fugir do padrão (o que lhe era normal) para fazer história.

Jaguaré ficou conhecido por suas estripulias debaixo da meta (Foto: OM 4Ever)

Jaguaré ficou conhecido por suas estripulias debaixo da meta

O primeiro dos pênaltis foi para o OM, quando já perdiam pelo marcador mínimo. Vilmos Kohut, cobrador oficial, não estava em campo; Aznar, que seria o atirador imediato, estava baleado e fazia número em campo; Ferdinand Bruhin, capitão do time, parecia relutante em bater e tomou uma decisão ousada: ele apontou para a meta e chamou Jaguaré para a cobrança.

Para o contexto histórico, aquela medida era maluca, afinal, um goleiro nunca cobrou um pênalti, mas para a vida do brasileiro não era nada de outro mundo. Reza a lenda que Jaguaré adorava “brincar” embaixo dos três postes fazendo defesas malucas. Uma das histórias é que só não foi mandado embora do clube mais cedo após fazer uma defesa de bicicleta contra o Racing, porque o Marseille venceu a partida.

Jaguaré, incorporando seu estilo malucão, foi para a bola sorrindo. Com a confiança que poucos ou talvez nenhum outro goleiro teria, ele converteu o pênalti e igualou a partida em 1×1, placar que seria o definitivo, pois o brasileiro ainda defenderia dois tiros da marca fatal do FC Sète.

Esse foi, e é até hoje, o único tento anotado por um goleiro na história do Olympique de Marseille, o segundo maior campeão francês e único time do país a conquistar a Liga dos Campeões da Europa.

Por isso, o PSG pode se gabar de Raí, o Lyon de Juninho, o Saint-Étienne de Aloísio Chulapa e Alex Dias, mas o Marseille pode se orgulhar de ter Jaguaré como seu goleiro artilheiro.

Fotos: OM 4Ever

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