LFP jogando contra a Ligue 1

Foto: Divulgação/LFP

Foto: Divulgação/LFP

A emoção tem um fator preponderante no futebol. Talvez seja ela que nos mantenha com os olhos atentos a qualquer jogo, mesmo nos dias atuais, onde o vínculo clube-atleta seja cada vez menor e, por consequência, a aproximação com os torcedores se torna ainda menos frequente. Porém, o futebol não pode ser organizado e delineado com emoção. Nos momentos de análises e planejamento, esse sentimento vai pra baixo do tapete e a razão precisa tomar conta do ambiente. É por isso que o argumento da emoção muitas vezes não me desce. O futebol como um todo, olhando num ponto de organização, precisa ser visto como uma série de jogos que podem prender a atenção e não como um só que pode ter grande visibilidade.

Antes que venham fazer um pré-conceito desta matéria, aviso de antemão que não estou falando sobre a velha e interminável discussão de pontos corridos x mata-mata. Falo de outro tema.

Na última semana, o Conselho de Administração da LFP, órgão que gere as duas primeiras divisões do Campeonato Francês e a Copa da Liga, anunciou que dois times subirão e dois cairão na próxima temporada da Ligue 1 e da Ligue 2. Anteriormente, três eram os rebaixados e promovidos. A decisão já era debatida há algum tempo, mas causou as mais diversas opiniões.

O colega Flávio Botelho, integrante de Le Podcast du Foot, foi um dos que manifestou opinião contrária à medida. Na página Ligue 1 Brasil, no Facebook, ele pontuou o seguinte:

Achei completamente desnecessária a mudança. Se fosse que nem na Alemanha, rolando um playoff entre o 18º da Ligue 1 e o 3º colocado da Ligue 2, tudo bem. Agora simplesmente cortar assim… – Flávio Botelho

Bruno Pessa, blogueiro do IG e também integrante de Le Podcast du Foot, foi outro que discordou da mudança, como relata no blog.

Eu, particularmente, compartilho da opinião de Pessa e não gostei da alteração pelo motivo que citei no primeiro parágrafo: a emoção. Sei que pode parecer meio contraditório justificar assim, mas trago dados que comprovam a competitividade (ou a falta dela) na briga contra o rebaixamento na França.

Tradicionalmente, a luta contra o descenso em terras gaulesas é pouco emocionante, porque das três vagas, duas são definidas com alguma rapidez. Em algumas temporadas, isso é até pior. Só para ter uma ideia, em 2014/2015, o Evian, que terminou em 18º na tabela de classificação, ficou cinco pontos atrás do primeiro time fora da zona de rebaixamento – o Toulouse. O Lens, lanterna da temporada, já estava praticamente rebaixado na 34ª rodada – precisava tirar 12 pontos em 12 disputados e tirar oito gols de saldo – e o Metz, penúltimo, caiu dois jogos depois. Ao término da penúltima rodada, já conhecíamos todos os rebaixados.

Na temporada 2013/2014 não foi muito diferente. O Ajaccio terminou a temporada com míseros 23 pontos, 19 atrás do Nice, primeiro time acima da zona de descenso. O Valenciennes já estava praticamente rebaixado na 35ª rodada. A briga só ficou pela terceira vaga – extinta pela LFP – entre cinco times – por fim, o Sochaux caiu.

A última vez em que chegamos à última rodada do Campeonato Francês com apenas um time rebaixado foi na temporada 2011/2012. Na ocasião, o Auxerre, com 34 pontos, não poderia alcançar o Caen, primeiro time fora da zona de rebaixamento, com 38. Porém, Dijon e Ajaccio tentavam sair de lá e, além de puxar o Caen, tentavam colocar no bolo Brest, Sochaux, Lorient e Nice. A vez anterior tinha sido em 2004/2005, quando cinco times tentavam fugir de duas vagas.

E outro detalhe: a temporada 2001/2002 foi a última em que dois times caíram e tivemos briga por uma das vagas até a última rodada… Mas o Campeonato Francês tinha apenas 18 times.

Para a segunda divisão, o argumento é o mesmo. É uma briga há menos. E na Ligue 2, o problema é ainda mais grave. Na Ligue 1, dependendo do caso, você ainda pode por uma Liga Europa estando em 7º nas rodadas finais, por exemplo – vai depender dos campeões das copas nacionais. Na segundona, o 7º lugar já é distante de qualquer coisa tendo três vagas em disputa, imagina com duas?

Por isso que a colocação de Botelho é pertinente: por que não rebaixar dois, mas realizar um playoff entre o 18º da primeira divisão e o 3º da segunda? Parece-me algo mais favorável à competitividade da temporada. Num linguajar popular: vai dar emoção!

Ainda não me apresentaram argumentos que me convençam que a mudança foi realmente boa. Até que me façam pensar contrário, a LFP se equivocou e jogou contra o próprio campeonato ao determinar que apenas dois subam e caiam.

Com quem Gervais Martel está se metendo?

Gervais Martel transformou o Lens de time de segunda divisão em campeão francês

Gervais Martel transformou o Lens de time de segunda divisão em campeão francês

Falar de Gervais Martel é falar de RC Lens. Presidente do clube entre 1988 e 2012, o empresário tirou o time das posições inferiores do futebol nacional e levou a glória máxima em 1998 ao conquistar o Campeonato Francês. Ainda com Martel como mandachuva, a equipe do norte chegou a semifinal da Copa da Uefa de 1999/00.

Sem a mesma força do final dos anos 90 e princípio dos 2000, o Lens voltou a frequentar a zona de rebaixamento do Campeonato Francês na última década e os problemas financeiros começaram a assolar o clube. Já são duas temporadas consecutivas na segunda divisão do país, coisa que não acontecia desde 1989/90 e 1990/91. Em 2012, não deu outra, Gervais Martel deu lugar a Luc Dayan na presidência do clube.

Um ano depois, o empresário sentiu saudade e conseguiu retornar para o norte, mas, dessa vez, trouxe um “amigo” consigo. Dono da Baghlan Group FZCO, empresa que trabalha com o transporte e na exploração de gás e petróleo no Azerbaijão, Hafiz Mammadov comprou o Lens junto com Martel.

Na França, muitos passaram a questionar quem era esse azeri que tomou conta do clube do norte. Uma pergunta ainda mais pertinente é por que Gervais Martel, um dirigente tão bem visto no país, se envolveria com um magnata? Seria Mammadov mais um milionário excêntrico que brinca de Football Manager na vida real? A princípio, não é exatamente isso que descreve o azeri. Seus interesses políticos parecem estar acima das vontades do RC Lens.

Sobre sua índole, uma das denúncias mais graves dá conta do envolvimento com o governo de Ilham Aliyev, presidente do Azerbaijão desde 2003. A Associação Pró-Armênio (país que tem conflito histórico com os azeris e possui boas relações com a França) afirma que Mammadov está diretamente ligado à dinastia Aliyev e que sua entrada no futebol francês é uma infiltração no país. O grupo destaca que as verdadeiras ambições do empresário são políticas e não esportivas e ainda chama o presidente azeri de “ditador”, alertando sobre essa relação governo-empresário.

Não custa reforçar que associações de defesa dos direitos humanos denunciam constantemente o Azerbaijão, que sofre com eventos de repressão, detenção de jornalistas de forma ilegal e suspeitas de manipulação das eleições. Em 2012, Ilham Aliyev ganhou o “troféu” de campeão mundial da corrupção e saber que Mammadov tem ligações com esse tipo de governo é, no mínimo, preocupante para os lensois.

Hafiz Mammadov estaria interessado em qualquer coisa, menos em futebol

Hafiz Mammadov estaria interessado em qualquer coisa, menos em futebol

Por enquanto, sabe-se pouco do acordo entre Lens e Baghlan Group FZCO, mas a imprensa azeri especula que haja um investimento inicial de 25 milhões, porém, não dá para afirmar qual o potencial desse investimento. Apesar do baixo valor de investimento, a imprensa azeri fala que o Lens se tornará mais forte que o AS Monaco de Dmitry Rybolovlev.

Mesmo com pouco conhecimento em torno do acordo, existem especulações sobre quais seriam as intenções do empresário e alguns pontos são, de certa forma, pitorescos. Fala-se muito que uma das ideias de Mammadov (que é membro da Federação Azeri de Futebol) é fortalecer o esporte no país e, em consequência, tornar a nação forte politicamente e mais bem vista na Europa. Uma de suas ideias e trazer jogadores azeris para os mais modernos centros de treinamento do Velho Continente para melhorar a qualidade do futebol no país.

Vale ressaltar que o RC Lens, em 2002, inaugurou La Gaillette, um dos centros de formação de atletas mais bem vistos da Europa. De lá saíram Serge Aurier, Raphaël Varane e Geoffrey Kondogbia, por exemplo.

Se você achou bizarro trazer azeris para treinar no Lens (interesses pessoais na federação nacional acima dos interesses do clube), saiba que alguns veículos de imprensa falam que o Félix Bollaert, um dos estádios mais fantásticos da França, pode ser enfeitado com bandeiras do Azerbaijão (!!!). Sem mais, amigos.

O que se sabe até agora envolve os ainda tímidos investimentos. O Lens trouxe jogadores interessantes como Danijel Ljuboja, Ahmed Kantari e Alphonse Areola, mas os dois primeiros vieram por estarem sem clube e o segundo, por ser uma aposta do futuro do Paris Saint-Germain, chegou por empréstimo.

A maior mudança é no banco de reservas, sem dúvida alguma. Antoine Kombouaré, ex-técnico do PSG, foi contratado. Éric Sikora, último comandante do time, alimentava a expectativa de permanecer no clube, mas voltou a treinar a equipe reserva.

Será a segunda vez que Kombouaré embarcará em um projeto milionário. Da outra vez estava no clube parisiense quando a Qatar Sports Investiments (QSI) chegou a capital, mas durou apenas seis meses. Desta vez, ele parece ser homem de confiança de Gervais Martel e tem tudo para fazer um bom trabalho no norte.

O grande ponto de interrogação é até onde irá esse vínculo com os azeris. O Lens tem tradição e conta com torcedores apaixonados, se envolver com um milionário que tem seu nome envolvido com um governo corrupto e ditador pode manchar o clube e mexer com os brios do torcedor. O ídolo Martel pode ser apenas uma “cortina de fumaça” para as artimanhas de Mammadov.

A ascensão e queda do Quevilly

Após vice da Copa da França, Quevilly se vê próximo do rebaixamento(Foto: Getty Images)

Após vice da Copa da França, Quevilly se vê próximo do rebaixamento
(Foto: Getty Images)

Um time encantou a França em 2012. Não foi o milionário Paris Saint-Germain, nem o renovado Lyon, muito menos alguma das surpresas da atual edição do Campeonato Francês, como Valenciennes e Stade Rennais. Esse time foi o pequenino Union Sportive Quevilly, clube amador das divisões inferiores do país. A equipe da Alta Normandia chegou a final da última edição da Copa da França, sendo que, na época, disputava a quarta divisão francesa.

Durante o trajeto para o Stade de France, o Quevilly deixou times do cacife de Rennes e Olympique de Marseille pelo caminho e deu novo rumo à história que tentou escrever dois anos antes, quando parou no Paris Saint-Germain na fase semifinal. Na decisão, o adversário foi o poderoso Lyon e desta vez não deu para a zebra. Les Gones venceram pelo placar mínimo e deixaram o Quevilly sem o troféu.

Mas nem todo o caminho percorrido no ano foi traçado em vão. O time treinado por Régis Brouard liderou sua chave na quarta divisão e obteve o acesso a terceira divisão do Campeonato Francês. O vice da Copa da França não foi uma mera lágrima no meio de um mar e sim um reflexo de um ótimo trabalho que já vinha tendo resultados satisfatórios em anos anteriores.

Além da semifinal da copa citada anteriormente, o Quevilly sempre havia terminado entre os cinco primeiros da quarta divisão com Brouard no comando técnico. O único ponto negativo era que apenas o líder subia. Quando os canários pararam de bater na trave e finalmente alcançaram seu objetivo, uma debandada aconteceu, a começar pelo próprio Régis Brouard, que se transferiu para o Clermont, time da segunda divisão francesa. Como se perder o mentor já não fosse o bastante, dos onze titulares da final contra o Lyon, apenas Weis, Beaugard – conhecido por ter levantado a taça junto com Cris –, Vanoukia e Diarra permanecem no elenco atual. O detalhe é que poucos se mudaram para clubes de divisões superiores – o que daria a entender que jogar em um clube profissional era uma tentação –, só retratando a dura realidade vivida pelos times amadores.

Agora na terceira divisão, o Quevilly teve um turno para ser esquecido, marcado por difícil adaptação e péssimos resultados. Das 18 partidas disputadas pelos Canários no primeiro turno, nenhuma vitória foi conquistada. Foram 12 derrotas, seis empates e a lanterna do campeonato, sendo que o time mais próximo, o Epinal, está oito pontos na frente.

Régis Brouard deixou o Quevilly e se aventura na Ligue 2(Foto: Getty Images)

Régis Brouard deixou o Quevilly e se aventura na Ligue 2
(Foto: Getty Images)

Além disso, falta comando técnico ao time. O substituto de Brouard foi Laurent Hatton, técnico que conseguiu levar o Pacy Ménilles Racing Club, outra equipe pequena da Alta Normandia, para a terceira divisão. Em quatro meses, Hatton treinou o Quevilly em doze jogos, sendo oito derrotas e quatro empates. Com um início tão ruim, a troca no comando foi inevitável e Farid Fouzari, um treinador de primeira viagem, foi chamado. Antes dessa aventura, ele havia sido auxiliar técnico no Sedan e no Paris FC. Por fim, a mudança não surtiu grande efeito e só piorou a situação do time. Com Fouzari no comando, foram quatro derrotas e dois empates.

Além disso, o Quevilly tem o quarto pior ataque da competição, com apenas 15 gols e a pior defesa, com 32 tentos sofridos. É muito difícil imaginar que saiam desta situação. Boa parte do elenco é formado por atletas amadores da Alta Normandia. Está certo que a terceira divisão não é 100% profissional, mas quem não é capaz de fazer investimentos decentes para sobreviver no campeonato, sofre e é o caso do Quevilly, que além de ter um grupo de jogadores amadores, tenta se virar com um técnico sem experiência.

É triste. Meio ano atrás, nos encantávamos ao ver aquele aguerrido time em campo, o mesmo time que fora de seu estádio – nas fases agudas, precisou jogar no Michel-d’Ornano, estádio do Caen – levava grande público e via seu torcedor empurrá-lo até os últimos respiros. Vale a pena torcer para que o Quevilly permaneça, milagrosamente, na terceira divisão? Será? Será que é certo esperar que se mantenha e sofra mais tempo por lá? Espero que me convençam que seu lugar não é na quarta divisão.