De Genghini a Hoarau: as finais de Monaco x PSG

Sábado será um dia especial para o futebol francês. Monaco e Paris Saint-Germain, os dois principais times do país, se encontrarão no Parc OL para a decisão da Copa da Liga Francesa. Frente a frente, o poderoso ataque monegasco de Falcao García (que é dúvida para o jogo), Bernardo Silva, Mbappé e Lemar contra o milionário time de Cavani e Dí Maria.

Por mais que a Copa da Liga seja um torneio de menor relevância comparado a outros, o jogo pode gerar reflexos no Campeonato Francês, onde ambos disputam o título rodada a rodada. Quem vencer a copa, certamente sairá fortalecido e com a impressão de que poderá abocanhar o torneio nacional nos jogos que restam.

Na história, será o confronto de número 90 entre as duas equipes e o Monaco leva ampla vantagem, com 42 vitórias contra 22 do Paris e outros 25 empates. Em contrapartida, o equilíbrio vem prevalecendo nos anos recentes e, nos últimos dez jogos, foram dois triunfos para os dois times e seis empates.

Apesar desta larga história, será apenas a terceira vez que as duas equipes baterão de frente em uma decisão. Nas outras duas vezes, uma vitória para cada lado.

No ‘esquenta’ para o jogo de sábado, recordo os dois jogos decisivos, que ajudaram a construir a história do confronto:

Genghini dá o título ao Monaco

Monaco levou o caneco em 85 na casa do PSG | Foto: Divulgação/AS Monaco

A primeira vez em que parisienses e monegascos se encontraram em uma final foi na temporada 1984/85, na decisão da Copa da França. Aquele 8 de junho de 1985 tinha sabor diferente para as duas equipes. O PSG vinha de temporada fraca no Campeonato Francês, onde terminou apenas em 13º, e via no torneio eliminatório a chance de salvar o ano (na época pobre, isso foi recorrente). Já o Monaco buscava lavar a alma após perder a decisão para o Metz na prorrogação no ano anterior.

Na época, tirando a decisão, todos os jogos da Copa da França eram de ida e volta e até nisso os dois times se diferenciavam. Enquanto a equipe do Principado chegou à final sem grandes sustos, a agremiação da capital passou por disputa por pênaltis contra o Montpellier na primeira fase e ainda passou apuros com Le Havre (na época, na segunda divisão) e arrancou a classificação para a final nos penais diante do Toulouse.

No jogo decisivo, porém, o time de campanha mais tranquila levou a melhor e aos 14 minutos, Bernard Genghini fez o gol que valeu o título ao Monaco. O meia-atacante, que fez história na seleção francesa, aproveitou rebote de uma falta e, com o goleiro Moutier fora do lance, anotou o tento.

O PSG, que havia jogado a semifinal diante do Toulouse quatro dias antes (precisou reverter um 2×0 contra, passar por prorrogação e pênaltis), sentiu o cansaço e não conseguiu virar o marcador.

Foi a consagração da equipe que tinha ainda como destaques o goleiro Ettori, o lateral Amoros, o meio-campista Puel (que não pode jogar a final) e o atacante Bruno Bellone. Aquela foi a quarta conquista de Copa da França dos monegascos, que viriam a ganhar somente mais uma dali em diante.

Ficha técnica:

Estádio: Parque dos Príncipes

Público: 45.711

Gol: Genghini (14’/1º)

PSG: Moutier – Lemoult, Morin, Jeannol e Bacconnier – Fernandez, Charbonnier, Susic e Lanthier – Toko e Rocheteau | Treinador: Georges Peyroche.

Monaco: Ettori – Liégeon, Stojkovic, Simon e Amoros – Bijotat, Bravo e Genghini – Tibeuf, Anziani e Bellone | Treinador: Lucien Muller.

Hoarau salva uma temporada trágica

Hoarau cravou nome na história do PSG | Foto: Paris SG

Os dois times voltariam a se encontrar em nova decisão mais de 20 anos depois. No dia 1º de maio de 2010, Monaco e PSG enxergavam a final da Copa da França como uma chance de salvar a temporada. Os monegascos viviam tempo de vacas magras, sem títulos desde 2003, enquanto os parisienses, meros coadjuvantes no Campeonato Francês, se sustentavam nas copas, onde haviam chegado a cinco finais no século (aquela seria a sexta).

Olhando para trás, aliás, posso afirmar: que times alternativos!

O Monaco ainda tinha o ótimo Ruffier no gol e apostava suas fichas no brasileiro Nenê, que tempos depois brilharia no próprio PSG. Ainda no time monegasco de Guy Lacombe estavam Djimi Traoré, ex-Liverpool, e Eduardo Costa. Já o Paris tinha no gol o folclórico Apoula Edel (que teve ótima atuação na final), Claude Makélélé e Ludovic Giuly comandando o elenco e um Christophe Jallet com cabelo na lateral.

Por fim, quem levou a melhor foi o PSG na prorrogação, com um gol de Guillaume Hoarau, que ganhou um espaço especial no coração dos torcedores parisienses com esse tento. Hoarau virou uma espécie de ídolo da época mais humilde do clube, se é que podemos dizer assim.

Aquele título foi um divisor de águas para as duas equipes. O Paris só voltaria a erguer um caneco depois de receber a singela injeção monetária da Qatar Sports Investiments, enquanto o ASM seria rebaixado no ano seguinte, iniciando um processo de reconstrução que vem atingindo um ponto próximo do ápice nessa temporada.

Stade de France – Saint-Denis

Público: 77.000

Gols: Hoarau (15’/1ºP)

Monaco: Ruffier – Modesto, Mongongu, Puygrenier e Traoré – Eduardo Costa (Sagbo 111’), Mangani (Haruna 55’), Pino (Maazou 86’), Alonso e Nenê – Park | Técnico: Guy Lacombe

PSG: Edel – Jallet (Traoré 116’), Camara, Sakho e Armand – Makelele, Clément, Giuly (Luyindula 77’) e Sessegnon – Hoarau e Erding (Ceará 65’) | Técnico: Antoine Kombouaré

Time da Martinica tenta a sorte contra clube da Ligue 1 na Copa da França

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

A Copa da França talvez seja a copa nacional que forneça as mais deliciosas histórias para os amantes do futebol alternativo. Quem aqui não se lembra do pequenino e amador Quevilly chegando à decisão para enfrentar o Lyon? Ou então do Calais RUFC perdendo o título de virada para o Nantes no último minuto? Não são poucos os causos onde os Davis derrotam os Golias em terras gaulesas.

A edição da temporada 2014/2015 da competição já começou e três fases já foram disputadas. No primeiro fim de semana de 2015, os times da primeira divisão ingressam no torneio na fase de 32 avos de final e logo de cara teremos o primeiro Davi contra Golias futebolístico. O Club Franciscain, da Martinica, terá pela frente o Nantes, time da primeira divisão francesa e três vezes campeão da Copa da França. Será a primeira vez que os martinicanos enfrentarão um clube da elite francesa.

Mas antes de começarmos a falar do jogo em si, é importante explicar o porquê de um time da Martinica disputar um torneio francês. A Martinica é uma ilha vulcânica no arquipélago das Antilhas, com fronteiras marítimas com a Dominica e Santa Lúcia. Ela pertence à França, seu idioma é o francês e o hino nacional é a Marselhesa. É um – entre tantos – territórios franceses fora da Europa (no caso da Martinica, no Caribe).

A Federação Francesa de Futebol (FFF), responsável pela organização da Copa, concede vagas na competição para times dos departamentos ultramarinos. São duas vagas para a Martinica, assim como para a Ilha de Reunião, Guadalupe e Guiana e uma vaga para Mayotte, Nova Caledônia e Taiti. Todos esses times entraram na sétima fase da competição, a primeira a ser disputada. De todos estes países, apenas a Martinica, com o Club Franciscain, continua com representante no torneio.

Para se tornar o time martinicano na competição, foi preciso vencer um torneio regional disputado apenas por times da Martinica. A estreia na etapa francesa foi na sétima fase: vitória por 2×0 sobre o Sainte-Geneviève, equipe que atualmente está no grupo C da quinta divisão do país. Na fase seguinte, o time da Martinica repetiu o placar para cima do Lormont US, da sexta divisão francesa.

Os resultados parecem discretos, mas esta é a primeira vez em mais de 20 anos que o Club Franciscain atingiu a fase de 32 avos de final. A última vez foi na temporada 1992/1993 e a primeira foi dez temporadas antes. Um feito impressionante para o segundo maior campeão da Martinica – são 16 títulos, três há menos que o Club Colonial de Fort-de-France.

Plantel

O atual elenco é formado por jogadores amadores, mas muitos deles frequentam as convocações da seleção martinicana. Alguns possuem histórias peculiares, como Patrick Percin, de 38 anos. Quando tinha 15 anos, ele fez um teste no AJ Auxerre, mas teve problemas de adaptação e voltou ao país natal. Mais experiente, aos 27 anos, assinou contrato com o Amiens e jogou a segunda divisão francesa. A passagem foi curta, entretanto: apenas um ano de duração.

Na Martinica, contudo, Percin tem uma bela história. Foi campeão nacional com o Club Franciscain em oito oportunidades, e pela seleção martinicana fez um dos gols mais importantes da história do futebol no país. Em 2002, durante a Copa Ouro, ele fez o tento da vitória por 1×0 sobre Trinidad e Tobago, na última rodada da fase de grupos. O triunfo qualificou Martinica para as quartas-de-final do torneio pela primeira vez na história – não passariam dali, sendo eliminados nos pênaltis por Canadá.

O atacante Steeven Octavia, de 27 anos, é outro que tem passagens interessantes na carreira, mas em outros solos. Em 2008, ele foi convocado por Éric Cantona para disputar a Copa do Mundo de Futebol de Praia que seria realizada justamente na França.

Foto: Léia Santacroce - France 3

Foto: Léia Santacroce/France 3 – O Club Franciscain, de Octavia (foto) já está na França

Mas Octavia, Percin e demais jogadores seriam capazes de bater o FC Nantes, adversário da fase de 32 avos de final? Os Canários terminaram 2014 em boa fase, ocupando a sétima colocação do Campeonato Francês com 30 pontos, tendo a terceira defesa menos vazada, com somente 17 gols sofridos. Além disso, o Nantes venceu os últimos três jogos oficiais que fez no último ano – dois pela Ligue 1 e um pela Copa da Liga.

O que pode favorecer o Club Franciscain é o ataque pouco efetivo do time da primeira divisão. Os Canários fizeram 19 gols em 19 partidas no Campeonato Francês, tendo o quarto pior ataque do torneio. O Nantes não fez mais de dois gols em nenhum jogo, além de ter vencido por dois gols de diferença somente uma vez. Entretanto, o time comandado por Michel Der Zakarian fez quatro gols nas duas aparições pela Copa da Liga, tendo goleado o Laval por 4×0 e o Metz por 4×2.

Os martinicanos, entretanto, não se sentem pressionados. Em entrevista à Europe 1, o técnico Jean-Marc Civault acredita que a partida será uma recompensa para todos os atletas do elenco. “Será um prazer jogar em La Beaujoire e enfrentar todos esses jogadores profissionais”, contou.

Caribenhos unidos

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução – Roger Sulty (foto) será um dos 180 caribenhos em La Beaujoire

La Beaujoire pode receber 37 mil pessoas, e alguns desses torcedores serão do time martinicano. Conforme o presidente da associação Flamme franciscaine (“Chama franciscana” em tradução livre), Roger Sulty, três ônibus com 60 torcedores cada sairá de Paris na manhã de sábado (3), chegando ao estádio faltando pouco mais de uma hora para o início da partida. Segundo Sulty, seria só um ônibus, mas a procura foi tão grande que teve de conseguir mais dois para a viagem.

A delegação martinicana já está na França desde a última terça-feira (30/12). A medida de chegar cedo visa à adaptação com o clima, já que os atletas estão acostumados com as altas temperaturas do Caribe, e também com as cinco horas de diferença entre o país caribenho e o europeu.

Por que na França?

A Copa da França tem um regulamento bem claro quanto aos mandos de campo das partidas: se você enfrenta um time que está ao menos duas divisões abaixo da sua, a equipe da divisão inferior joga em casa. Ou seja: se um clube da 1ª divisão enfrenta um da 3ª, o time da terceirona joga como mandante. Agora, se esse mesmo time da elite batesse de frente com um adversário da 2ª divisão, o mando iria para sorteio.

Essa história não vale para Nantes x Club Franciscain. Há um ponto no regulamento da competição que prevê que, a partir da fase de 32 avos de final, os clubes do exterior precisam ir à França para jogar. Por que isso aconteceu? Pedido dos clubes grandes, que argumentavam a distância da viagem, calendário apertado e toda aquela velha história.

A Liga da Martinica chegou a fazer um pedido para que a partida entre bretões e martinicanos fosse realizada nos subúrbios de Paris, onde há uma grande comunidade caribenha, mas a FFF negou e, a pedido dos próprios caribenhos, o mando de campo foi revertido.

Mas isso não é motivo para amedrontar os martinicanos. A confiança está exalando e o Club Franciscain está pronto para continuar escrevendo sua história de superação em campos franceses.

Nantes e Club Franciscain se enfrentam neste sábado (3) às 12h15, horário de Brasília.

Pequenino Croix, da 5ª divisão, disputa derby inédito contra gigante do norte

Foto: Reprodução - Separados por 8 km, Croix e Lille se enfrentarão na Copa da França

Foto: Reprodução – Separados por 8 km, Croix e Lille se enfrentarão na Copa da França

Que a Copa da França proporciona histórias fantásticas e que demonstram que o futebol europeu tem, sim, suas raízes humildes, todos sabemos. Percursos de clubes como Quevilly e Epinal em temporadas recentes não me deixam enganar. Na próxima terça-feira, no norte do país, teremos outras dessas histórias.

O Iris Club de Croix, equipe localizada na pequena comunidade, de apenas 20 mil habitantes, chamada de Croix, no município de Lille, chegou a impensável fase de 16avos de final da Copa da França. Neste estágio da competição, o adversário será justamente o Lille OSC, maior clube da região e campeão francês em 2011.

Apenas 8 km separam os dois clubes e o confronto regional será deveras marcante para o nanico Croix. Líder do grupo B da CFA 2 (equivalente a 5ª divisão) e invicto na temporada, eles terão uma oportunidade única de enfrentar um dos principais times do país e que semanas atrás segurou o Paris Saint-Germain na capital.

Mais do que isso, o Croix observa esse jogo como uma fonte de renda. O pequeno Stade Henri-Seigneur, de gramado sintético e com capacidade para apenas duas mil pessoas, será resguardado e o clube ressuscitará um local de marcantes lembranças para os torcedores do adversário em questão, o Lille: a partida da próxima terça-feira será jogada no Stade Lille Metrópole, antiga casa dos Dogues.

Foi neste estádio que o Lille ganhou o Campeonato Francês em 2011, fez boa parte de suas campanhas em copas e recebeu adversários importantes em torneios UEFA, como foi o Liverpool na Liga Europa de 2010 e a Inter de Milão na Liga dos Campeões em 2011.

Como hoje o LOSC usa o moderno Stade Pierre-Mauroy, o antigo estádio, que fora inaugurado em 1976, ficou relegado a competições de atletismo, jogos dos times de base do Lille, além de partidas de rúgbi do Lille Metrópole Rugby.

Foto: Stadium LM - Para este jogo, o Stadium Lille Metrópole será utilizado

Foto: Stadium LM – Para este jogo, o Stadium Lille Metrópole será utilizado

Durante algumas semanas, até sugeriram a realização da partida no Stade Pierre-Mauroy, mas o Croix preferiu exercer seu mando em outro estádio. Sempre é bom lembrar que os mandos de campo na Copa da França funcionam da seguinte maneira: se o confronto envolve times que tem duas divisões de diferença, o time da divisão inferior tem o mando. Algo diferente disso passa para sorteio.

Equilíbrio no orçamento

Patrice Weynants, presidente do Croix, acredita que possa equilibrar o orçamento do clube com essa partida no Lille Metrópole. “Se conseguirmos 60 ou 70 mil euros para equilibrar o orçamento e acertar as contas do fim do mês, nos será bem vindo”, declarou em entrevista ao canal France 3. A única preocupação do presidente está em cima do gramado, já que o estádio tem sido palco de jogos de rúgbi.

Segundo o Google Maps, a distância entre os dois estádios é de pouco mais de 7 km, por isso, não deverá afetar tanto para o torcedor do Croix.

É uma oportunidade única para o clube do norte. Fundado em 1952, o Croix nunca avançou da quinta divisão e não tem grandes feitos em sua história. O grande título foi a divisão regional Nord-Pas-de-Calais Honneur, da 6ª divisão, em 2011 e que lhe colocou na 5ª divisão.

O momento em que mais apareceu na mídia francesa foi quando o seu atleta Geoffrey Cabaye, irmão de Yohan Cabaye (jogador do Newcastle e da Seleção Francesa) foi convocado pra seleção vietnamita.

Apesar disso, o Croix é um clube que podemos chamar de “arrumado”. Possui time reserva disputando divisões inferiores, equipe de veteranos jogando copas distritais e ainda conta com categorias de base com times do sub-9 ao sub-19.

Mas eles sonham alto nesta temporada. Além de liderarem a chave em que estão na 5ª divisão, o Croix é o único time invicto do grupo, com dez vitórias e dois empates. Em outras palavras: o Croix não perdeu na temporada, já que os duelos da Copa da França são em jogos únicos. Aliás, na Copa, eliminaram o Neiges Le Havre, o Lilas e o Saint-Armand, todos os clubes de divisões abaixo da 5ª. O Lille será o primeiro time “de cima” a cruzar o caminho do Croix.

É difícil imaginar que possa ir longe na Copa da França, mas não custa sonhar. Estamos falando da Copa da França, a copa dos feitos impossíveis. A copa em que um time do naipe do Quevilly conseguiu disputar uma decisão frente o poderoso Lyon. Por que não, Croix?

>> Leia também: relato de outro derby do norte, esse entre Croix e Wasquehal (em inglês);