C’est fini

Com quase vinte chutes, Benzema deixou a Euro sem marcar gols

Se a Holanda decepcionou pelos resultados, sendo eliminada na primeira fase, a França decepcionou com a bola nos pés e, passivamente, caiu diante dos atuais campeões espanhóis. Com uma marra tão grande – ou maior – quanto à dos holandeses, Les Bleus deixam a Eurocopa com uma impressão bem diferente da criada antes do início do torneio. Havia quem colocasse o time de Laurent Blanc entre os favoritos ao título. Não era mera coincidência. A França chegou ao torneio com uma impressionante série de 21 jogos invictos e a renovação acontecia de modo acelerado.

Mas em nenhum momento da UEFA Euro 2012, os franceses foram capazes de apresentar um futebol condizente com o de favorita ao caneco. Na estreia, um empate com a tradicional, porém, remendada Inglaterra. Na segunda rodada, veio a única vitória no torneio, sobre a fraca Ucrânia. Na última rodada da fase de grupos, tropeço diante da eliminada Suécia. A eliminação para a Espanha, justo no dia do aniversário de Zidane – que jogara demais contra a mesma Espanha em 2006 -, parecia algo já anunciado.

Com míseros três gols marcados em toda competição, a França viu seleções eliminadas na primeira fase, como Rússia, Dinamarca, Croácia e Suécia, anotarem mais tentos. Pouco demais, para quem tinha como opções de ataque um dos artilheiros do Real Madrid e o goleador máximo do Campeonato Francês.

O tropeço diante da seleção de Zlatan Ibrahimovic foi o ponto culminante para a eliminação. Jogadores batendo boca, técnico sem pulso e uma colher de chá enorme para a imprensa francesa pegar no pé do time insistentemente. Ben Arfa e Nasri foram os envolvidos na discussão. O primeiro, acredito eu, dificilmente voltará para a seleção enquanto Blanc for técnico. Sua atitude de atender o celular no vestiário e ainda questionar a autoridade do treinador foi antiprofissional e desrespeitosa, não à toa, nem pisou em campo contra a Espanha. Já Nasri se queimou ainda mais com as polêmicas com a imprensa. Na estreia, ele mandou os jornalistas do L’Equipe se calarem após marcar um gol e depois da eliminação, xingou um repórter da AFP e encerrou o assunto com a grosseira frase: “agora vocês tem motivos para me chamarem de mal-educado”. A consequência disso tudo pode ser uma enorme suspensão que, segundo a imprensa francesa, a FFF pensa em aplicar no atleta.

Além da dupla marrenta, os dois jogadores que mais geravam expectativas na torcida francesa foram completas decepções: Karim Benzema e Franck Ribéry.

O artilheiro do Real Madrid se preocupou demais em jogar fora da área e pouco chegou ao seu setor de finalização. Em determinados jogos, tê-lo fora da área parecia importante para criar jogadas, mas não valia à pena deixar os zagueiros adversários despreocupados, sem ter quem marcar. Valeria mais ter Giroud como companheiro de Benzema. O resultado disto foram os 19 chutes do atacante e a incrível marca de zero gol.

Já Franck Ribéry, teve temporada quase impecável pelo Bayern, mas pareceu ter chegado a Eurocopa cansado e entregue fisicamente. Foi presa fácil das marcações adversárias e não estava na mesma sintonia dos demais jogadores.

Laurent Blanc também teve sua dose de culpa. Antes do início do torneio, ele tinha dúvidas quanto ao time titular. A lateral-esquerda, o meio-campo e o ataque eram as posições de maiores interrogações na mente do técnico. A posição na defesa foi a única dúvida que Blanc conseguiu sanar: Clichy tomou o lugar de Evrá. Mas no meio-campo, a insistência com Malouda foi inexplicável. Banco no Chelsea, o meia rendeu pouco na faixa central e sua titularidade não era justificável. No ataque, Blanc testou Ribéry, Ben Arfa e Ménez, mas nenhum solucionou seus problemas.

Em hipótese alguma, um técnico poderia chegar a um torneio como a Eurocopa cercado de dúvidas e não saber como encerrá-las. O resultado disto foi a mirabolante escalação contra a Espanha, com Réveillèire na lateral-direita, Debuchy na ponta direita e Nasri no banco de reservas. O contrato de Laurent Blanc se encerra no próximo dia 30 e ninguém sabe qual será seu futuro. O treinador queria renovar antes da Euro, enquanto Noël Le Graët, presidente da FFF, condicionava este pedido a uma boa campanha no torneio. Breve, eles se reunirão para decidir o futuro.

Eu manteria Blanc. Ele conseguiu fazer daquela destruição de 2010, uma construção firme e sólida. Decepcionando ou não, a França tinha mais de 20 jogos invictos antes do torneio, nenhuma seleção possuía tal marca. Sempre entendi que faltava um “algo mais” neste time, um diferencial, mas na Eurocopa, pareceu faltar muito mais. Porém, para manter o comandante, eu daria uma condição: decisões mais firmes e certeiras. Repito: não dá pra chegar a um grande torneio com tantas dúvidas, precisa-se ter certeza do que se quer e como chegar a esse objetivo. A França, de Blanc, parecia estar sem pretensões e sem alma em campo.

Além do mais, se o contrato não for renovado, trarão quem? Didier Deschamps? René Girard? Rémi Garde? Alguém de fora da França? Realmente, as opções são poucas e não inspiram grande confiança.

Marrento, Nasri criou muitos desafetos nesta Eurocopa

Essa França precisa dar a volta por cima. A impressão deixada após a Eurocopa não é das melhores. Os torcedores não encararam a eliminação para a Espanha como os jogadores. “Os espanhóis são melhores e por isso eles venceram”. É sempre o melhor que vence no futebol? Não! Os fãs questionam o caráter dos atletas. Evrá, Nasri, Ben Arfa, Benzema, Ribéry, todos eles, não estão com uma boa imagem pública. As brigas internas e públicas com a imprensa ocasionaram estas impressões. Jogar fora todo o trabalho construído desde 2010 será um erro, seja quem for que treine a França, Blanc ou qualquer outro, usará os mesmos jogadores, salvo uma ou outra exceção.

O desempenho foi, sim, muito decepcionante, mas foi apenas a demonstração de que algo está errado. Não é a mudança completa que resolverá isso e sim o novo pensamento, as ideias renovadas. Qual a razão de tantas brigas? Qual a razão da discórdia com a imprensa? Isso não pode ser deixado de lado e tratado como uma pequena rusga, já está virando uma ferida profunda. Blanc e toda comissão técnica tem que resolver isso. Os franceses estão cansados de ver seus times terem sangue para brigar entre si e não terem uma mínima vontade de roubar uma bola.

Os franceses estão cansados e ver todo João virar Novo Zidane e esse ter a marra do tamanho do Planeta. No dia em que Zizou for marrento como uns Ben Arfas, Nasris da vida, talvez esses atletas tenham razão de fazer biquinho e bancarem os revolucionários da luta sem causa.

*Créditos das imagens: Presse-Sports e Reuters

Podcast – UEFA Euro 2012

Na falta de tempo de produzir alguns posts para o blog, deixo registrado o podcast feito pela galera do Leitura Esportiva, proporcionando um balanço da primeira fase e uma prévia da fase de mata-mata.

A apresentação foi de Cleyton Santos, enquanto Vinícius Lorenssete, Yan Corrêa e este humilde blogueiro, Eduardo Junior, “o Madeirinha” comentaram.

Confiram abaixo nossas análises e pitacos

O brilho de um bávaro

Quando algum jogador originário da Baviera se destaca no futebol, logo nos lembramos do Bayern de Munich. O clube tem enorme tradição, vários títulos e jogadores de renome internacional. É automático, ninguém tem culpa de ter esses reflexos.

Nessa UEFA Euro 2012, um atleta do clube bávaro que tem chamado a atenção na seleção alemã é Mário Gomez. O atacante nem nasceu na Baviera, mas por jogar no Bayern ganha tal destaque. Ele foi autor de três dos cinco gols da Alemanha no torneio. Porém, o quinto gol do selecionado germânico foi de um bávaro que não tem nenhuma relação com o poderoso Bayern

Nascido e criado em Rosenheim, pequeno distrito da Baviera, Lars Bender seguiu roteiro diferente de muitos garotos da região e junto com seu irmão, Sven, não foi para o Bayern. Dos dez aos treze anos, treinaram no Unterhaching, também da Baviera. De 2002 em diante, os gêmeos partiram para o Munich 1860 e começaram a construir suas vidas no futebol.

Todo aquele momento parecia não passar de um sonho para os garotos, que tinham como grandes ídolos dois jogadores que atuaram no Munich 1860: o ganês Abedi Pelé e o polonês Piotr Nowak. A dupla defendeu o time bávaro de 1995 até 1998 – Abedi chegou em 96 -, época em que os irmãos Bender viviam a infância e imaginavam trilhar os gramados alemães como jogadores profissionais, assim como seus ídolos.

No final de 2006, a dupla de volantes iniciou a caminhada como profissional no Munich 1860. Lars e Sven vestiram a camisa dos Leões em mais de 50 oportunidades e ficaram marcados na memória do torcedor bávaro, mesmo sem conseguir tirar o tradicional time da segunda divisão, que amarga desde 2004.

Os irmãos deixaram o clube bávaro em 2009, mas se separaram. Lars foi para o Bayer Leverkusen, enquanto Sven foi para o Borussia Dortmund.

Sven Bender parecia ter mais sorte. Peça de confiança de Jürgen Klopp, foi campeão alemão em 2011 e logo chegou à seleção. Enquanto isso, Lars demorou a se adaptar ao Leverkusen e viveu altos e baixos nas primeiras temporadas.

No último ano futebolístico na Europa, a maré virou: Sven seguia titular, mas uma grave lesão fez com que perdesse a titularidade para Gündogan. Lars foi um dos poucos destaques do decepcionante Leverkusen e ainda mostrou versatilidade, ao atuar também como meia armador e lateral direito.

Os irmãos estiveram na lista de 27 jogadores feita por Joachim Löw para a Eurocopa e, na hora, o ritmo de jogo pesou: Sven Bender foi cortado, Lars ficou.

Neste domingo, contra a Dinamarca, Lars Bender fez seu nono jogo com a pesada camisa alemã e primeiro como titular, mas improvisado na lateral-direita. A partida estava empatada em 1×1 e nos minutos finais, após rápido contra-ataque, o jovem bávaro completou passe de Özil e fez o gol que sacramentou a classificação alemã. Pela primeira vez na história, um jogador revelado pelo Munich 1860 marcou um gol pela Alemanha em uma fase final de Eurocopa.

A tendência é que o suspenso Jérôme Boateng retome a titularidade e Lars Bender volte para o banco de reservas. Mas ele fez sua parte e deixou bem claro a Jögi Löw que não quer ser mero coadjuvante da promissora seleção alemã.

Bender vibrou demais com seu primeiro gol na seleção alemã (Getty Images)