Deschamps quer neutralizar o jogo pelos lados

Deschamps fará duas mexidas na França | Foto: AFP

Depois de uma estreia vitoriosa, mas com atuação decepcionante, a França já encara jogo decisivo contra o Peru, nesta quinta-feira (21), às 12h, pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo. Decisivo por poder garantir a classificação antecipada e também por colocar o time a prova contra um adversário que precisará da vitória caso queira manter vivo o sonho de disputar o mata-mata.

Para este jogo, mexidas importantes. Olivier Giroud ingressa no lugar de Ousmane Dembélé e o time volta a ter um centroavante de mais porte físico. Já na faixa central, Corentin Tolisso dá espaço para Blaise Matuidi.

A entrada do jogador da Juventus aponta para o detalhe mais importante da estratégia francesa de Didier Deschamps. A imprensa francesa, incluindo veículos importantes como L’Equipe, RMC e Le Parisien, informa que ele deverá atuar aberto pela esquerda, num 4-2-3-1 que pode variar para um 4-4-2. Com isso, Kyllian Mbappé é deslocado para a direita.

A ideia de Deschamps é nítida: neutralizar o lado direito peruano, forte pelas associações entre Luís Advíncula e André Carrillo, da mesma forma, explorar as fragilidades defensivas de Miguel Trauco no lado oposto com Mbappé – que fatalmente teria dificuldades para conter as subidas do lateral-direito se fosse mantido na posição anterior.

Essa preocupação com o lado direito peruano se faz necessária, especialmente pelo que foi visto na estreia dos sul-americanos contra a Dinamarca. Muitas das jogadas ofensivas do Peru saíram por aquele lado, geralmente com Advíncula aprofundando e Carrillo fechando na área.

O próprio lance do pênalti em cima de Cueva, assinalado pelo VAR, é um exemplo disso, como mostra a imagem abaixo: 

Carrilo se desloca para o centro e abre espaço para um livre para Advíncula acionar Cueva, que seria derrubado por Yurary Poulsen | Foto: SportvA entrada de Matuidi busca brecar essas jogadas. Tendo em vista que Mbappé não tem a recomposição como ponto forte, seria um tanto arriscado deixar Lucas Hernandez exposto a esse tipo de ataque. Matuidi é veloz e tem imposição física, podendo brecar essas ações.

Além disso, a França poderá executar melhor o pressing, tão criticado por Deschamps na estreia. Matuidi fornece mais recursos a pressão e roubada de bola se comparado com Dembélé.

A tendência é que neutralizando essa arma peruana, o adversário francês aposte ainda mais suas fichas em Paolo Guerrero, que deve ser titular. Como bem explicou Joza Novalis, em Le Podcast du Foot, além da qualidade técnica, o atacante serve como um desafogo para o meio de campo, recebendo bolas em profundidade e prendendo os zagueiros para a chegada de outros companheiros de time. Isso já foi explorado na derrota por 1 a 0 contra a Dinamarca, tendo Jefferson Farfán na frente. Com Guerrero, isso deve ser ainda mais utilizado.

Aí é esperar que Raphaël Varane e Samuel Umtiti estejam em dias iluminados para segurarem um Guerrero sedento para mostrar que a luta para disputar o mundial não foi em vão.

Será um jogo estratégico. Frente a frente, uma França precisando mostrar serviço contra um Peru que precisa vencer. Só que diferentemente do que sugere o senso comum, são os franceses que vão entrar para neutralizar os peruanos. E essa é uma bola dentro de Deschamps.

Prováveis formações

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Le Podcast du Foot #78 | Prévia da França na Copa

A Copa do Mundo começa no sábado (16) para a França. A partir das 7h (horário de Brasília), os Bleus encaram a Austrália, na estreia do grupo C do torneio.

Le Podcast du Foot não fica fora dessa cobertura. Na edição #78, Eduardo Madeira comanda três materiais especiais projetando tudo que a França pode apresentar no Mundial. Na primeira parte, ao lado de Filipe Papini, do C’Est Le Foot e Brasil Lyonnais, e Renato Gomes, do Footure, analisam os perfis dos convocados por Didier Deschamps.

Já na segunda parte, convidados especiais analisam os adversários do grupo C. Gabriel Pazini, do Goal.com, fala da Austrália, adversária da estreia; Joza Novalis, especialista em futebol sul-americano, comenta sobre o Peru; enquanto Rafael Oliveira, comentarista dos Canais ESPN e realizador do Copa Tática no Lance, trouxe as análises da Dinamarca.

Na terceira – e última – parte, Vinícius Ramos, do blog Ici c’est Paris, e Flávio Botelho, jornalista, projetam os confrontos e o que a França pode apresentar na Copa.

Então, não perca tempo! Dê play abaixo e escute os três programas na edição especial da edição #78 de Le Podcast du Foot:

Por que Giroud é o 9 incontestável da França?

Giroud é homem de confiança de Didier Deschamps | Foto: Aurélien Durand/FFF

O trabalho de convocar uma seleção para uma Copa do Mundo envolve muito mais do que escolher os melhores dentro de uma ideia de jogo, pensar em como podem atuar e trazer a taça para a casa. O quesito confiança técnico-jogador também precisa entrar no pacote.

Embora esse critério seja desprezado por muitos, o treinador precisa colocar isso na balança. Além da questão técnica, de conhecer o jogador e saber como aproveita-lo, tem o vestiário, afinal de contas, na Copa do Mundo, os atletas ficam mais de um mês concentrados em um mesmo ambiente. Imagine você ficar 30 ou 40 dias vivendo junto de um colega “tóxico”? – pegando uma expressão da moda para exemplificar.

Por isso, goste-se ou não, muitos técnicos de seleção têm seus “soldadinhos”, jogadores não tão aclamados, mas que são eficientes e, principalmente, de confiança do responsável pela seleção nos mais variados aspectos.

Na França, quem se enquadra nesse aspecto é Olivier Giroud. O centroavante do Chelsea está longe de ser um dos atletas mais talentosos ou badalados da poderosa geração gaulesa, mas é eficiente quando coloca o manto azul e corresponde sempre que é preciso.

Basta ver que ele é o maior artilheiro em atividade na seleção francesa e quarto na história, com 31 gols em 72 jogos. No momento, ele está empatado com Zinedine Zidane e já deixou para trás goleadores históricos como Just Fontaine e Jean-Pierre Papin. Thierry Henry, líder do ranking, está 20 gols a frente.

Desde que debutou pelos Bleus em 2011, ainda embalado pelo frenesi ocasionado na temporada mágica no Montpellier, Giroud fez 13 gols de abertura de placar. Além disso, em todas as vezes que marcou, a França venceu 20 partidas e perdeu somente duas. Querendo ou não, seus gols normalmente possuem peso relevante para a seleção no que tange o resultado ao fim dos 90 minutos.

Giroud pode não ser dos atacantes mais talentosos, mas é eficiente dentro do que a França propõe. Enquanto os companheiros criam, ele complementa as jogadas. Basta ver que dos 31 gols que fez pela seleção francesa, todos saíram de dentro da área, sendo que em 83,8% deles o atacante deu apenas um toque na bola. Detalhe: nenhum de pênalti.

Além dos números, a questão confiança ganha força também quando olhamos os concorrentes do atleta de 31 anos. Karim Benzema foi totalmente descartado por Deschamps – e desde que foi integrado a seleção teve muitas turbulências – enquanto Alexandre Lacazette nunca repetiu as atuações que teve especialmente pelo Lyon. Como desbanca-lo dessa maneira?

Razões como as apontadas acima tornam fácil explicar porque Giroud é titular absoluto. Confiança de Deschamps e bom desempenho pela seleção o colocam com a 9 do time, mesmo tendo como concorrentes alguns atacantes mais talentosos e badalados.

Imaturidade custará caro a Rabiot

Inesperadamente, Rabiot rejeitou ser suplente da França | Foto: Divulgação/FFF

Quem é Adrien Rabiot na fila do pão?

Indiscutivelmente talentoso e com um futuro imenso pela frente, mas ainda é uma formiguinha no mundo da bola, um jogador extremamente irrelevante para a história do futebol francês.

Só no staff técnico da seleção francesa, por exemplo, temos Guy Stephan, auxiliar de larga experiência e presente no título europeu de 2000, além de um Didier Deschamps, jogador campeão mundial e treinador respeitado por trabalhos consistentes em Monaco, Marseille e agora nos Bleus.

Então, por que Rabiot, no auge de sua mediocridade perante a essas duas figuras icônicas, acha que é normal comunicar sua “renúncia” a suplência da Copa do Mundo através de um e-mail ao treinador?

Nada contra ele não querer ser reserva, é direito dele, mas alguma pessoa, por acaso, comunica uma decisão tão importante a alguém de posto superior por e-mail ou pelo menos sem conversar previamente, seja pessoalmente ou por telefone? Deschamps disse que até tentou conversar com ele – sem sucesso.

O pior é que, segundo o Le Parisien, Rabiot em momento algum explicou no e-mail porque, de fato, não quer servir a seleção. “Trata-se de um texto muito informativo, sem afeto aparente e sem explicação sobre sua decisão. Adrien Rabiot primeiro aponta seu status como um substituto. Em seguida, sem maiores explicações, declara que ‘nessas condições’, ele não fica à disposição da equipe nacional, mesmo no caso lesão de um dos meio-campistas”, informa o jornal.

Rabiot fez apenas seis jogos pela seleção principal | Foto: Divulgação/FFF

A questão aqui não é nem querer pautar comportamentos ou achar que ele deva ser “bom moço”, mas, convenhamos, que abdicar de uma suplência sem mais, nem menos, ainda mais para uma Copa do Mundo, é um atestado de imaturidade e de falta de desconfiômetro ao perceber qual seu lugar no contexto em que está inserido.

Além disso, ao simplesmente ligar o “modo dane-se” e desprezar a seleção só por não estar entre os 23, ele demonstra falta de profissionalismo e respeito com os atletas que vestirão a camisa azul no Mundial.

Deschamps convocou uma infinidade de jogadores nesse ciclo. Muitos tiveram chances, outros poderiam ter ganhado mais minutos, só que apenas 23 foram chamados. Por que Rabiot, então, se sente no direito de bater o pé e renunciar dessa maneira?

Ou será que ele acha que Alexandre Lacazette não ficou p*** por não ter sido chamado? Logo ele que trocou de time visando aumentar o rendimento para disputar a Copa. E Lucas Digne? Vinha sendo titular com a lesão de Benjamin Mendy e, por fim, não será nem reserva do atleta do Manchester City. Será que ele gostou?

Evidente que nenhum dos dois ficou feliz, ambos se frustraram com suas respectivas razões. Aliás, essa é a maior justificativa da decisão de Rabiot. O Le Parisien detalha que o atleta colocou a seleção e a Copa como maiores objetivos para a carreira em curto prazo. Óbvio que ficar entre os suplentes causa essa frustração. Em seu lugar, eu teria a mesma reação.

Só que estamos falando de futebol de alto nível, dos melhores jogadores de um país com uma safra de atletas poderosíssima, capaz de fazer frente a qualquer seleção. Muita gente boa ficou fora para outros atletas tão bons quanto entrarem na lista final. Bater o pé e esticar o bico porque não foi lembrado é de uma imaturidade tremenda e que apresenta um recado bem claro aos demais atletas: “eu sou melhor e mais importante do que vocês”.

E vamos lembrar: Deschamps assumiu a seleção em 2012 com o objetivo claro de arrumar a casa depois de três torneios seguidos com problemas disciplinares. Foi desse ideal que nomes como Samir Nasri, Hatem Ben Arfa e Karim Benzema se distanciaram da seleção.

Rabiot, com 23 anos, praticamente sentenciou seu afastamento da seleção por uma bobeira irresponsável. Bastava só ficar quieto que o tempo ajeitaria as coisas para 2022, 2026… O preço vem, e vai ser muito caro.

Histórico controverso

A mãe e agente Veronique “ajudou” a propagar a fama de “mimado” de Rabiot | Foto: Reprodução

Rabiot, apesar do talento inegável e da notória progressão nas últimas temporadas, tem já um pequeno histórico controverso. O Le Parisien chega a citar que a decisão de renunciar a seleção é um “misto de surpresa com dèja vu” para quem o conhece desde cedo.

O jornal cita três episódios em especial para exemplificar isso:

Sem o pai, falecido há dez anos, o meio-campista foi criado pela mãe Veronique, que também cuida da carreira do filho. Resultado? Algumas confusões provocadas por ela. Em 2012, ele se recusou a participar da intertemporada em Doha, no Qatar, porque sua mãe não foi convidada pelo clube a viajar, enquanto as companheiras dos demais atletas foram. A solução encontrada em Paris na época foi empresta-lo ao Toulouse.

Dois anos depois, com 18 de idade, ele pediu ao então técnico Laurent Blanc para jogar uma partida da Copa Gambardella (tradicional torneio francês sub-19), demanda essa que foi negada pois o treinador o queria numa partida da Ligue 1. Rabiot entrou e jogou um mísero minuto.

A partir deste episódio, começou uma arrastada novela para renovar o contrato. Foram meses até a confirmação no mês de outubro – que quase não aconteceu por causa do interesse forte da Roma.

O terceiro e último caso foi em 2015, na véspera da final da Copa da França. O ônibus do PSG estava no Parque dos Príncipes, pronto para partir ao Stade de France para o treino de reconhecimento. Rabiot, em um carro dirigido pela mãe, estava atrasado e foi avisado que o ônibus lhe esperava.

Destemperado, ele avisou: “ou me esperem ou vou para casa”. Blaise Matuidi, um dos líderes do elenco, conversou com Rabiot tentando retirar a ideia – tentativa frustrada.

Rabiot chegou ao Parque quando o ônibus já tinha partido. Não deu outra: voltou para a casa, mesmo com a mãe tentando retirar a ideia, e foi excluído da convocação para o jogo.

Na França, já se fala que a recusa só reforça os episódios recentes e sua fama de “filho mimado do futebol”. Afinal de contas, não bastassem esses episódios, a mãe Veronique é personagem ativa no ambiente do clube, cobrou drasticamente Laurent Blanc quando era técnico do PSG e, vira e mexe, concede entrevistas defendendo o filho com unhas e dentes e informando a vontade de negocia-lo com outros times.

Vai reclamar da fama de que maneira? Rabiot, hora de mais bola e menos bico.

Sentimos sua dor

Payet se contundiu na final da Liga Europa | Foto: A.Mounic/L’Equipe

Uma dor, a lesão e as lágrimas que escorriam pela face nada mais eram do que os símbolos de um título que não viria mais. O copioso choro de Dimitri Payet, com 32 minutos de jogo, não era apenas de alguém que se contundia numa final de campeonato e, sem qualquer intenção, deixava o time na mão. Ele externava a dor de alguém que representava boa parte das esperanças do Marseille na decisão da Liga Europa em Lyon.

Payet tem sido a personificação do torcedor do OM em campo. A disposição e a entrega contínua muitas vezes se somavam a um lançamento longo ou a um chute precioso que deixava todos de queixo caído, apenas admirando o que os olhos observavam.

Além da personalidade, Payet e Marseille se confundiam em seus perfis recentes. Ambos vivem a controversa situação de entenderem quais seus reais papeis no contexto francês.

O OM é o maior e mais tradicional clube do país, mas vem sendo maltratado nos últimos anos por gestões estranhas e por um rival trilhardário que compra qualquer jogador badalado que vê pela frente. Precisou vir um norte-americano comprar o clube para tentar colocar tudo em ordem, com ambição e sonhos altos.

Já Payet é um dos mais talentosos jogadores de sua geração. É dono de um chute poderoso e de uma técnica refinada. Mas nada disso o tornou campeão. Já são 31 anos de idade e ele simplesmente não tem um título relevante na carreira.

A conquista da Liga Europa era o ponto em comum entre os dois. O Marseille poderia pegar aquela taça, enfiar entre os braços e correr para Paris gritando: “é assim que se faz!”. Payet seria o fio condutor disso tudo, o grande personagem daquela conquista.

Querendo ou não, mais do que a personificação do torcedor em campo, ele era a liderança técnica do time. O cara das assistências. Dos gols. Das viradas de bola. Era o cara ideal para erguer o troféu, para redimir todos os fracassos do passado e celebrar o início de um futuro brilhante.

Quando Payet saiu de campo, o placar já estava 1 a 0 para o Atlético de Madrid. Sua contusão, porém, foi como se os outros dois gols tivessem saído em seguida, um atrás do outro.

Os lábios apertados e o olhar marejado eram indícios de um choro copioso, que marcaria a decisão no estádio Groupama. Arrepiei com a cena. Senti a dor que Payet sentiu. Mais do que o atleta, estava ali o homem que sabia que representava um grupo importante, que sabia que era peça fundamental para um time.

Dane-se a Copa, a chance de jogar o torneio que todo jogador sonha em jogar, deveria estar pensando. O momento era aquele, pouco importava o que viria depois. A final da Liga Europa era no dia 16 de maio de 2018. Não voltaria mais. Não tinha jogo em Madrid. Aquela taça ficaria com algum time naquela noite.

As lágrimas que escorreram do rosto de Payet se esvaíram no gramado junto com as chances de título do Marseille. A esperança acabou ali, o sonho deixou de existir. A dor do camisa 10 é compartilhada. Eu senti, a torcida sentiu e o time também. O Marseille se contundiu com a contusão de Payet e, assim, viu o sonhado troféu da Liga Europa cair nos braços do Atleti.

Le Podcast du Foot #77 | OM em busca da taça

O dia 16 de maio de 2018 é um dos mais importantes da história recente do Olympique de Marseille. Diante do Atlético de Madrid, o OM tenta erguer a taça de campeão da Liga Europa pela primeira vez na história.

Mais do que o título em si, a conquista traz outros contornos, como a possibilidade de festejar na casa de um dos rivais – o Groupama Stadium, casa do Lyon, é palco da final – e a chance de tripudiar outro, o PSG, que gastou tufos de grana para morrer nas oitavas-de-final da Liga dos Campeões.

E o que esperar desse jogo? Na edição #77 de Le Podcast du Foot, Eduardo Madeira, do Europa Football, Renato Gomes, do Footure, e o convidado especial Gabriel da Cruz, do perfil OM Brasil, no Twitter, se reuniram e projetaram o confronto.

A grande novidade é que a partir desta edição, Le Podcast du Foot será hospedado no Soundcloud e compartilhado também no iTunes. Portanto, siga nosso programa, assine o feed nas plataformas e fique por dentro das próximas edições:

Os empurradores de bola pra rede

O conceito das funções do centroavante foi mudando ao longo dos anos. Na época em que os times atuavam mais espaçados no gramado, os técnicos se davam ao luxo de deixa-los isolados na frente, aguardando uma mísera bola para empurrar para as redes e correr para o abraço.

Hoje, não ter um centroavante com capacidade de abrir espaços e participar mais ativamente da partida significa, na maior parte das vezes, jogar com um a menos.

“Na maior parte das vezes”. Como tudo no futebol, isso não é regra.

Na França temos dois exemplos de times que não seguem bem essa tendência, possuem centroavantes, digamos, à moda antiga, mas que, dentro de seus contextos, fazem temporadas dignas e apresentam ao país nomes de centroavantes que podem ajudar em ocasiões específicas.

Santini encontrou em Rodelin o parceiro ideal | Foto: SM Caen/Site oficial

Um desses caras é Ivan Santini, do Caen. Nascido na antiga Iugoslávia, o croata de 28 anos está desde 2016 na França e, pela segunda temporada consecutiva, está entregando um número razoável de gols.

No primeiro ano foram 15 em 34 jogos (2.888 minutos, ou seja, um gol a cada dois jogos e 12 minutos). Na atual temporada, os números estão um pouco abaixo: 11 gols em 30 partidas (2.598 minutos, ou um gol a cada dois jogos em 56 minutos).

Santini marcou todos os 11 gols de dentro da grande área, sendo que cinco foram de pênalti, três com apenas um toque (todos de cabeça), dois precisaram de dois (um foi quase embaixo do gol) e apenas um foi mais trabalhado.

Parte desse rendimento vem, é claro, do modelo de jogo do time e das características dos atletas que rodeiam Santini. Um deles é Ronny Rodelin. Jogador que prometia muito quando surgiu no Nantes, mas que pouco rendeu no Lille, ele está na terceira temporada no Caen e conseguiu dobrar o número de assistências: de três para seis. Quatro desses passes para gol foram para o goleador croata.

Santini está longe de ser o atacante mais virtuoso entre os times pequenos da Ligue 1 e dificilmente será a solução para um clube maior, mas graças a ele o Caen chega nas rodadas finais três pontos longe da zona de playoff do rebaixamento. Não tem como não creditar a ele esses méritos, afinal de contas, quase metade dos gols do time no campeonato (46,1%) tiveram participação dele (contabilizando a única assistência que deu na temporada).

O argentino dos Canários

Outro “empurrador de bolas pras redes” de sucesso nesta temporada é o argentino Emiliano Sala. Tratado com muito afeto no Bordeaux, clube onde chegou em 2010, foi agora no Nantes que, enfim, explodiu na primeira divisão. Já são 12 gols (mesma quantidade da temporada anterior) e quatro assistências. Num time com míseros 33 gols marcados – o terceiro pior ataque da Ligue 1 – Sala é responsável por 48,3% dos tentos, seja com passes ou assistências.

O mais interessante dos gols do argentino é o nível de decisão. Sala balançou as redes em cinco vitórias por 1 a 0, em um triunfo por 2 a 1, em dois empates por 1 a 1 e duas vezes num empate por 2 a 2. Dos 46 pontos dos Canários, 21 podem ser colocados na conta do argentino.

Assim como o já citado Santini, Sala também vive de marcar com toques únicos. Quatro dos 12 gols foram de pênalti, seis precisaram de um contato com a bola, um precisou de dois e ainda houve um sem querer, onde a zaga chutou a bola em cima dele e entrou.

Quase metade dos gols do Nantes tiveram participação de Sala | Foto: FC Nantes/Site oficial

Os números de Sala talvez só não sejam melhores porque a queda do Nantes em 2018 é algo extremamente preocupante. O time comandando por Claudio Ranieri não vence desde a 29ª rodada (dia do último gol do argentino) e ficou com diminutas chances de disputar a próxima Liga Europa.

Ainda assim, inegavelmente é a melhor fase da carreira de Sala, que dificilmente continuará no Nantes. Na janela de inverno foi cortejado por Wolverhampton, Brighton e pelo chinês Beijing Renhe. Apesar da seca de gols desde março, deverá buscar voos maiores.

Sala, assim como Santini, provam que podem ser opções interessantes para times de médio porte, especialmente aqueles que não prezam tanto por um jogo de maior posse de bola e que não se preocupam em ter um homem de frente apenas para empurrar a bola para as redes.

É a Ligue 1 provando, pela enésima vez, que há material humano de qualidades e características diferentes em todos os times. Sala e Santini são dois entre tantos exemplos. Basta garimpar.