Lembranças de uma noite de setembro

O dia 13 de setembro de 2005 entrou para a história do Lyon | Foto: AFP/Jean-Phillipe Ksiazek

Se hoje é o Paris Saint-Germain quem chama a atenção dos jovens e fãs de futebol quando o assunto é clube francês, na década passada, quem cumpria esse papel com maestria era o Lyon. Com uma ascensão meteórica, o time presidido pelo lendário Jean-Michel Aulas, acostumado a ocupar posições intermediárias em solo doméstico, conquistou o primeiro título francês em 2002 e só parou de erguer taças em 2008. Tudo isso com o brilhantismo de um ídolo nato: Juninho Pernambucano. Poucas vezes se viu uma química tão grande entre clube, atleta e torcida.

Uma das grandes noites daquele time, que ainda tinha personagens marcantes como Gregory Coupet, Cris, Cláudio Caçapa, Florent Malouda e outros, foi exatamente no dia 13 de setembro de 2005. Pela frente do campeão francês, o estrelado Real Madrid, ainda na era Galáctica sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, pela primeira rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões da Europa.

Aqueles próximos 90 minutos sob o Estádio Gerland lotado entrariam para a história do clube.

Faltava protagonismo

Maribor provocou o primeiro grande pesadelo europeu do Lyon | Foto: Divulgação

Se hoje nos acostumamos a ver o Lyon disputando copas europeias, o hábito era diferente até metade da década de 90. Salvo discretas participações em torneios de segundo escalão, o OL disputou a primeira Liga dos Campeões apenas na temporada 1999/00 – depois de alguns anos com disputas pouco efetivos na antiga Copa da Uefa.

A primeira participação em Liga dos Campeões, porém, foi traumática. Jogando contra o modesto Maribor, da Eslovênia, o Lyon perdeu a vaga ainda na primeira eliminatória, ao ser derrotado nos dois jogos por 1 a 0 na França e 2 a 0 em solo esloveno.

Naquele mesmo ano, o OL conseguiu um feito ainda maior na Copa da Uefa: venceu o alemão Werder Bremen por 3 a 0 no Gerland e conseguiu perder por 4 a 0 na volta e dar adeus precocemente, na terceira fase.

Nos anos seguintes, o Lyon se recompôs e conseguiu resultados mais expressivos. Em 2000/01, por exemplo, só caiu na segunda fase de grupos da Liga dos Campeões, quando tinha os poderosos Bayern e Arsenal pela frente, e em 2003/04 e 2004/05, foi eliminado nas quartas-de-final para o futuro campeão Porto e nos pênaltis pelo PSV, respectivamente.

O time amadurecia temporada após temporada, dominava o solo doméstico e dava amostras claras de que estava pronto para dar o salto adiante na Europa.

Noite mágica no Gerland

Aulas foi atrás do veterano Houllier em 2005 | Foto: Divulgação

Para dar o passo além na temporada 2005/06, um novo treinador. Paul Le Guen pediu as contas e um velho conhecido do futebol francês foi chamado: Gérard Houllier, ex-técnico de PSG, Liverpool e seleção francesa.

Apesar de conseguir um treinador tarimbado e buscar reforços importantes, como os meio-campistas Benoît Pedretti e Tiago, o atacante norueguês John Carew e a então jovem revelação brasileira Fred, Aulas não teve forças para segurar o ótimo volante Mickael Essien. Mesmo renovando contrato com o ganês, o Chelsea investiu 28 milhões de euros no atleta e o tirou do Gerland.

O início de temporada foi promissor e o Lyon emendou cinco vitórias e um empate nas primeiras seis rodadas de Campeonato Francês. Mas isso era pouco para as ambições do clube e o grande teste veio três dias depois de desbancar o Monaco por 2 a 1, na 6ª rodada do torneio nacional.

Pela frente naquele dia 13 de setembro, o galáctico Real Madrid. De um lado, o esquadrão brasileiro de Cris, Caçapa e Juninho e, do outro, o estrelado time de Robinho, Beckham e Raúl, sob a regência de Vanderlei Luxemburgo – que estava desfalcado de Zidane, Figo e Ronaldo, é bem verdade.

Sem dúvidas que se tratava de um jogo especial.

O Lyon sabia disso e entrou com a seriedade necessária para uma partida desta envergadura. Cris e Caçapa, como era padrão, mantinham a virilidade de seu jogo, não abandonando nenhuma dividida, sempre com o amparo de um meio-campo forte, mas ao mesmo tempo técnico, composto por Diarra, Tiago e Juninho, que constantemente trocavam de posição.

Se nas divididas isso acabava sendo positivo, em alguns momentos extrapolava e, em menos de dez minutos, o Lyon deu ao Real Madrid duas faltas na entrada da área. Beckham e Roberto Carlos não aproveitaram as chances, mas deram um aviso claro ao Lyon: poderiam errar uma cobrança, mas duas seria difícil.

Só que o recado valia para o outro lado também. O 8 do OL era simplesmente Juninho, dono de um pé direito potente e calibrado, no auge da carreira. Míchel Salgado, porém, parecia não saber disso.

Aos 19 minutos, cometeu uma falta boba em Malouda. Era uma bola quase perdida no lado esquerdo. Afoito, puxou o atacante pelo ombro, levando-o ao chão. Não era uma falta para cobrança direta, mas boa para jogar na área e provocar dores de cabeça ao goleiro Iker Casillas.

Insatisfeito por provocar tal perigo a própria meta, Salgado completou o serviço. Juninho cobrou a falta em direção da área e o lateral, além de dar ao menos três passos adiante, esticou os braços para bloquear o chute. A falta ficou mais perto ainda.

Lembram do recado “errou uma, mas duas seria difícil”? Juninho, desta vez, cobrou forte, na direção do gol. Carew, que vinha sendo o desafogo do time com seus pivôs, deu uma casquinha na bola quase imperceptível. O leve desvio foi suficiente para impedir a defesa de Casillas, que até tocou na bola, mas a viu morrer dentro das redes.

E era aberta a contagem.

De pé calibrado, Juninho participou do primeiro gol | Foto: AFP/Jean-Philippe Ksiazek

O Real, de Luxa, era uma contradição só. Se sobrava técnica com Beckham, Robinho, Raúl e Roberto Carlos, exalava jogo físico e bruto com Thomas Gravesen, Pablo García e Míchel Salgado. Em campo, um 4-4-2 bem brasileiro, com dois volantes, dois meias, um atacante mais móvel e outro para empurrar a bola para as redes.

E dessa contradição, a truculência parecia falar mais alto. Num intervalo rápido, de pouco mais de dois minutos, três faltas, duas em Juninho e uma em Diarra. Pobre do time que não aprende com os próprios erros.

A falta de Raúl em Diarra foi típica de quem não sabe marcar. Foi um prato cheio para Juninho. A distância não foi problema, ainda mais quando Casillas colocou apenas três jogadores na barreira. Chute forte, de pé direito, rasante. O único quique no chão foi antes de fugir do alcance do goleiro espanhol e beijar as redes.

Como um boxeador prestes a ir a lona, o Real Madrid balançava no gramado do Gerland. Não sabia para onde ia, tampouco qual o rumo das jogadas do Lyon. Quando o relógio marcava 31 minutos, veio o golpe que praticamente nocauteou os galácticos.

De Wiltord para Réveillère.

De Revéillère para Wiltord.

De Wiltord para o gol.

O jogo no Gerland nem bem tinha completado 30 minutos e o Lyon já colocava um imponente 3 a 0 em cima do Real Madrid. Três gols dos 21 aos 31 minutos. Dez minutos de loucura, de brilhantismo, que mostraram para o que o OL vinha naquela temporada.

O estrago só não foi maior porque Juninho desperdiçou um pênalti aos 40 minutos.

A segunda parte do jogo foi protocolar. Numa nova analogia ao boxe, Juninho e companhia esperavam apenas o fim da luta para vencer por pontos. O Real Madrid se esforçou e martelou, mas esbarrou em Cris e Caçapa. Imponentes e eficientes, os brasileiros tiveram atuação para ser lembrada.

Se a primeira impressão é a que fica, a imagem que o Lyon deixou naquela estreia pautou toda a campanha ao longo da Liga dos Campeões. O time de Houllier ficou a apenas dois minutos da semifinal da competição. Na fase de grupos, além do Real, ficaram pelo caminho Olympiakos e Rosenborg.

Nas oitavas-de-final, uma revanche para cima do PSV Eindhoven, que na temporada anterior tirou o OL nos pênaltis em jogo polêmico até hoje devido a um pênalti – escandaloso – não marcado em cima de Nilmar na prorrogação. Desta vez, atropelo: 5 a 0 no agregado.

Os franceses caíram apenas nas quartas-de-final para o Milan em dois jogos duros. Na ida, no Gerland, 0 a 0. No San Siro lotado, com mais de 80 mil pessoas, Inzaghi colocou o Milan em vantagem, mas Diarra empatou ainda na primeira etapa. O placar se manteve assim até os 43 minutos da etapa complementar, quando Pippo apareceu novamente, aproveitando sobra de bola que bateu nas duas traves, fez 2 a 1 e abriu caminho para a classificação, que seria completada com mais um gol.

Momentaneamente, ficou a tristeza de não vir uma classificação para a semifinal que esteve a ponto de se concretizar. Na história, porém, ficou o legado daquele time. O Lyon, dominante em solo local, mostrou, enfim, que poderia ir além. Bateu poderosos, jogou de igual para igual com times pesados, mostrou do que era capaz. Aquele 13 de setembro durou longos anos para uma torcida inebriada por uma equipe que deixa saudades até hoje.

Ficha técnica:

Lyon 3×0 Real Madrid

Liga dos Campeões – Grupo F

Estádio Gerland | 40.309 pessoas

Arbitragem: Massimo De Santis (Itália)

Lyon (4-3-3): Coupet; Réveillère, Cris, Caçapa e Berthod; Diarra, Tiago (Pedretti, aos 43’/2º) e Juninho; Wiltord (Govou, aos 36’/2º), Carew (Fred, aos 27’/2º) e Malouda – Técnico: Gérard Houllier

Real Madrid (4-4-2): Casillas; Salgado, Helguera, Ramos e Roberto Carlos; Gravesen (Guti, aos 16’/2º), Garcia, Beckham e Júlio Baptista; Robinho e Raúl – Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Gols: 1×0 Carew, aos 21’/1º; 2×0 Juninho, aos 26’/1º; e 3×0 Wiltord, aos 31’/1º;

Cartões amarelos: Salgado, aos 20’/1º; Berthod, aos 23’/1º; Garcia, aos 39’/1º; Diarra, aos 7’/2º; e Beckham, aos 45’/2º;