Guardiola amansou o Bayern

Apesar dos bons resultados, o Bayern não está jogando bem (Foto: AFP)

Apesar dos bons resultados, o Bayern não está jogando bem
(Foto: AFP)

Quando o Bayern de Munique anunciou que Josep Guardiola seria seu técnico nesta temporada, logo surgiu um ponto de interrogação em minha cabeça: Pep será capaz de domar esse time de estilo totalmente diferente do Barcelona de seus tempos? Na época, não me atrevi a responder e, hoje, não só digo que domou o Bayern como destaco que ele amansou o time bávaro.

Sim, sei que é apenas começo de temporada e que os resultados de Guardiola não estão nem perto de serem ruins, mas o futebol apresentado deixa a torcida com uma pulga atrás da orelha.

O Bayern de Jupp Heynckes e também de Louis van Gaal (que tem méritos na montagem do time campeão de tudo na temporada passada e ninguém lembra) não só tinha a tradicional posse de bola esmagadora, como trucidava seus adversários. Os bávaros não tinham pudor algum em enfiar seis, sete ou oito gols em seus rivais, era um time pra lá de envolvente.

O trabalho de van Gaal foi assim e Heynckes apenas aprimorou, dando um jeito na defesa, que era o grande ponto fraco da época do holandês, dando mais troca de posições ao ataque e mostrando que era possível vencer dosando um pouco do ritmo, apesar das várias goleadas em seu período como técnico.

Em contrapartida, o trabalho de Guardiola vem tendo uma única semelhança com o de seu antecessor: as vitórias. O futebol apresentado, que era o mais aguardado por todos, não tem feito o exigente torcedor bávaro abrir um enorme sorriso de orelha a orelha.

O toque de bola vertical e objetivo, que sufocava os adversários, foi substituído por passes maçantes e preguiçosos, a maioria de lado, e as constantes trocas de posições dos homens de frente estão sendo modificadas por invenções (‘pardalices’?) de Guardiola na escalação.

A começar pelo posicionamento de Thomas Müller. A joia bávara sempre foi homem de chegada ao ataque, seja pelo lado do campo ou atuando atrás do centroavante. Pep já o escalou como um dos jogadores que formava um tripé no meio-campo, absurdamente distante da área. Por Müller não ter um físico que lhe proporcione força para combater e armar com mesma eficiência, Guardiola mostra-se equivocado com esta alteração.

Lahm virou volante com Guardiola (Foto: Bundesliga)

Lahm virou volante com Guardiola
(Foto: Bundesliga)

Mas, sem dúvida alguma, a decisão mais questionável, é a escalação de Phillip Lahm como volante. Posso estar falando uma besteira do tamanho do planeta, mas Lahm nunca será um cabeça-de-área e não digo isso pelas apresentações iniciais do capitão bávaro, mas sim de suas características. Ele é um dos poucos (senão único) laterais-direito completos, atacando e defendendo com maestria, mas nunca foi um exímio passador. Enquanto lateral, suas participações com passes eram quando vinha de trás, com espaço e sendo elemento surpresa. No meio-campo raras vezes terá esse espaço e ainda precisa ser ágil na hora de receber e soltar a bola.

Ao deslocar Lahm pro meio e ainda escalar o mediano Rafinha na lateral-direita, Guardiola simplesmente abre mão de ter um lateral completo para ter um jogador que mostra enormes dificuldades em trabalhar fora de posição.

E isso não é cisma minha. Os números mostram como o Bayern já começa a entrar em outro ritmo.

A vitória por 3-1 sobre o Borussia Mönchengladbach, na estreia, foi a melhor atuação bávara nas estatísticas, com 26 finalizações e 92% de acerto nos passes, apesar da posse de bola de apenas 60%. Contra o Nürnberg, na terceira rodada, bons dados também: 26 chutes, 90% de acerto nos passes e 81% de posse de bola.

Desde então, os números destoam. Contra Eintracht Frankfurt (2ª rodada), Freiburg (4ª) e Hannover (5ª), os bávaros não chegaram à marca de 20 finalizações, além de terem posse de bola inferior a 75%.

Pode parecer heresia questionar números assim, mas vale ressaltar que, na temporada passada, o Bayern tinha 15 pontos de 15 disputados, além de 17 gols marcados e dois sofridos em cinco rodadas. Hoje são 13 pontos e os mesmos dois tentos sofridos, mas apenas nove marcados, o que registra um pouco da sonolência bávara.

Em defesa de Guardiola, deve-se comentar que ele não chegou à Baviera para dar sequência ao trabalho de Heynckes, mas sim para criar uma nova cena no clube, com novas ideias e um novo estilo de jogo. Mas é importante ressaltar que revolucionar é diferente de inventar e o que o técnico espanhol tem feito em alguns jogos desta temporada não é nada revolucionário.

É início de trabalho, é verdade, mas não existe nenhuma lei que nos proíba de criticá-lo. É apontando os erros no princípio que a história se conserta mais para frente e se antes eu não sabia se Pep poderia domar o Bayern, hoje me pergunto se aquele time brilhante de meses atrás pode reaparecer.

Boateng, Oliver Kahn tem nojo de você

ATENÇÃO: Este post contém altas doses de parcialidade, rancor e revolta, além de não possuir nada, realmente nada de vergonha na cara e nenhum fim jornalístico. Se você não entendeu a motivação, favor ler o post anterior; se você entendeu e se indignou, só lamento, eu tentei avisar.

Em 2001, Oliver Kahn mostrou que até o mais feroz dos titãs pode ter seu lado sensível…

Kahn ganhou o prêmio Fair Play pelo consolo ao derrotado Cañizares

Kahn ganhou o prêmio Fair Play da Uefa pelo consolo ao derrotado Cañizares

… em 2013, Jérôme Boateng mostrou que a inteligência é limitada e a imbecilidade não tem fim.

Boateng repetiu a provocação de Subotic do ano anterior

Boateng repetiu a provocação de Subotic do ano anterior

Esse parágrafo pode beirar a hipocrisia, mas a provocação do Subotić foi diferente a qual sofreu. Quando o sérvio praticamente invocou todos os espíritos malignos de Mun-Ha para cima de Robben, após o holandês perder um pênalti, ainda havia jogo, ou seja, o Bayern poderia empatar. Além disso, o campeonato teria sequência, alguém poderia fazer lavagem cerebral em todo elenco do Dortmund e eles perderem todos os jogos e o caneco parar na Baviera.

Já Boateng parou de fazer festa só para tirar onda com Subotić, tudo estava acabado, a festa era deles e poderia ter passado sem essa.

Não creio que Oliver Kahn tenha gostado disso.

Final tática

Os alemães invadirão o Wembley (Franck Fife - AFP/Getty Images)

Os alemães invadirão o Wembley
(Franck Fife – AFP/Getty Images)

O Bayern de Munique marcou 29 gols em 12 jogos na Uefa Champions League, média de 2,41 por partida; o Borussia Dortmund fez 23, com a mesma quantidade de atuações, média de 1,91. Como se não fosse o bastante, os bávaros finalizaram 188 vezes e os aurinegros 162. Esses times são nada mais, nada menos que o 1º e o 3º melhores ataques e finalizadores do torneio, respectivamente.

Para quem não conhece os dois times, a final deste sábado indica um jogo aberto, com chances para os dois lados e muitos gols. Sinto em dizer que não será bem isso que acontecerá.

Borussia Dortmund e Bayern se conhecessem muito bem e seus jogos recentes estão sendo qualquer coisa, menos abertos. Tirando a decisão da DFB Pokal de 2012 em que o BvB enfiou 5×2 nos bávaros, os confrontos recentes estão sendo de alto nível tático, técnico, mas de poucos gols.

A briga tática tem sido tão ferrenha que jogos recentes estão provocando confusões dentro e fora de campo. São times equilibrados, apesar da diferença da folha salarial e da quantidade de jogadores dentro dos elencos de cada time.

ARMAS DO DORTMUND

720436_Borussia_DortmundSem Mário Götze (lesionado?), o técnico Jürgen Klopp não deve inventar e entrará com Kevin Grosskreutz. Essa alteração provocaria o deslocamento de Marco Reus para a faixa central com o polivalente camisa 19 ocupando o lado esquerdo. O Borussia Dortmund perde em qualidade técnica, mas ganha em fôlego no meio campo e em um ponto extremamente citado para essa final: força tática.

Grosskreutz pode não ser um primor técnico, mas pode se tornar uma das peças chave nesse duelo. Nas temporadas do bicampeonato alemão sua dobradinha com Marcel Schmelzer dava muito certo. O lateral-esquerdo aparecia bem no ataque para cruzar e finalizar, sabendo que Grosskreutz seguraria as pontas na defesa, além deste ser um grande auxiliador na recomposição e ainda chegar com eficiência no ataque.

O lado esquerdo de defesa do Dortmund deverá estar atento em boa parte do jogo, pois é justamente nesse local que o Bayern concentra sua movimentação. Thomas Müller, que foi deslocado para o centro com a lesão de Toni Kroos, cai por esse lado junto com o centroavante Mario Mandžukić, que sempre deixa a área desocupada para os meio-campistas caírem por ali.

Além disso, o Bayern conta com a presença de Arjen Robben que começou a temporada em baixa e só retomou espaço nessa reta final de temporada. Sua jogada manjada, porém, complicada de marcar de abrir pra canhota e bater colocado é o que exigirá mais da dupla Grosskreutz e Schmelzer.

No lado oposto também há uma dupla de enorme respeito: Piszczek e Kuba. O primeiro é, para mim, o melhor lateral-direito do planeta, acima até do rival Philipp Lahm e tem como grande arma a subida veloz ao ataque e o bom cruzamento. Isso influencia quando se tem no lado oposto um lateral muito ofensivo como Alaba. Kuba me agrada muito por saber ditar o ritmo do time. Quando é preciso correr, corre, quando é preciso cadenciar, cadencia. Ele é um dos pontos de equilíbrio do time e isso deve ser destacado.

Mesmo com esses pontos positivos, o peso deve cair sobre a dupla Lewandowski e Reus. Indiscutivelmente os dois estão entrosados e tem estilos de jogo que se encaixam. O polonês tem presença de área, mas sai dela também para tabelas rápidas. Nessas saídas, Reus pode ser um dos que ocupará o espaço vazio para finalizar.

O banco de reservas é o ponto de desequilíbrio entre os dois times. A única opção que pode mudar o jogo favorecendo ao Dortmund é Nuri Şahin. Sua entrada geralmente é no lugar de um dos três meias e formar um tripé na faixa cerebral do time com Bender na proteção e o turco ao lado de Gündoğan na armação. Esse sistema foi pouco utilizado, mas é uma das escassas, senão única alternativa que Klopp poderá utilizar durante o jogo caso o resultado não lhe agrade.

BAYERN E A POSSE SUFOCANTE

720437_FC_Bayern_MunchenApesar do equilíbrio, o Bayern leva ligeiro favoritismo nesta decisão. Jupp Heynckes, além de contar com um elenco mais rodado, armou a equipe de uma forma tão boa que as ausências de Kroos e Badstuber não estão sendo sentidas. O belga van Buyten e o alemão Boateng se revezam na função deixada por Badstuber e não estão comprometendo, enquanto Kroos deu lugar ao holandês Robben que voltou a boa fase.

A posse de bola bávara talvez seja o grande ponto favorável do time. Diferente do Barcelona, o controle do Bayern é mais forte, pressiona muito e sufoca o adversário, fazendo com que a posse de bola não se torne algo soberbo, mas imponente, obrigando o oponente a se defender.

Parte dessa posse sufocante é mérito do meio-campo extremamente técnico. Bastian Schweinsteiger, Javi Martínez, Arjen Robben, Thomas Müller e Franck Ribéry compõem a faixa de defesa e criação, demonstrando características de toque de bola, cadência, mas avanço diagonal e pressão do adversário.

Outro fator que traz vantagem ao Bayern é a supracitada movimentação dos homens de frente. Como já comentei em outras oportunidades, o deslocamento de Mandžukić da grande área nunca é em vão. Ele abre espaços para companheiros do meio-campo e nunca deixa a área desguarnecida. É complicado neutralizar esse tipo de jogada, pois proporciona uma intensa movimentação de jogadores de características diferentes.

Essa troca é diferente do que ocorre no Borussia Dortmund. Nos aurinegros, Lewandowski deixa a área para fazer tabelas curtas e rápidas, enquanto Mandžukić participa da armação de jogadas no Bayern.

Como se não fosse o bastante, Jupp Heynckes ainda conta com um poderoso banco de reservas. Shaqiri, Gomez, Pizarro e Luiz Gustavo são apenas algumas das opções que o veterano técnico terá à disposição entre os suplentes.

Para resumir toda ladainha escrita nos últimos parágrafos, basta dizer que todas as características citadas estão nas pranchetas de Heynckes e Klopp, assim como já estão mentalizadas nas cabeças dos jogadores envolvidos na decisão. Eles se conhecem muito e parte da rivalidade recente vem dessa ciência.

Temos tudo para acompanhar um grande jogo, mas muito, muito mesmo, marcado pelo estudo, pelo conhecimento e pela tática.

O dilema de Oliver

FC Bayern Muenchen v Chelsea FC - UEFA Champions League FinalSeis horas da manhã. Era esse o horário que o despertador tocava, marcando o momento em que se iniciava um novo dia para Oliver. Bom, talvez não tão “novo” assim. Ele tinha uma rotina: levantava, tomava um banho, preparava um reforçado café, vestia sua camisa social e sua calça jeans e pegava o metrô para ir ao trabalho, de onde retornava apenas no fim da tarde.

Não era e nunca seria a rotina de seus sonhos, mas não gostava de reclamar. Seu emprego era em uma escola do outro lado da cidade. Oliver era uma espécie de assessor de imprensa ou secretário, nem ele sabia descrever exatamente seu cargo, mas recebia um bom salário, suficiente para um homem solteiro sobreviver.

Nessa rotina um tanto quanto monótona encontrava-se uma de suas maiores paixões: o Bayern. Oliver não perdia nenhum jogo de seu time de coração. Se não havia jeito de ir ao estádio, sentava no sofá e assistia pela TV. Se nem isso era possível, procurava um bar, um vizinho, um amigo, um parente ou até mesmo aquelas lojas de vendas que deixam os televisores a mostra na vitrine para saber quanto estava o jogo do Bayern.

Apesar da paixão pelo time bávaro, Oliver nunca foi um fanático. Ele condena as ações hostis contra adversários, até mesmo xingamentos, prefere criticar o jogador expulso e não o árbitro que o botou pra rua, é contra as contratações milionárias e os salários astronômicos, mas apoia a modernização dos estádios e acha que a Uefa está certa em colocar cadeiras nos locais reservados aos torcedores que preferem ficar em pé.

Oliver viu o Bayern ser campeão alemão diversas vezes, sempre comemorou os títulos e nunca pestanejou em comemorar os triunfos com seus amigos em festas banhadas de cerveja. Mas nunca ter visto seu time ganhar a Liga dos Campeões não era uma mera decepção, e sim uma enorme ferida ainda não cicatrizada.

Apesar dos 23 anos de idade, Oliver não comemorou o título europeu de 2001. Ele tinha 11 anos na época e aguardava ansiosamente pela partida. Uma das lembranças mais fortes é de seu pai falando insistentemente após a semifinal contra o Real Madrid que não trabalharia no dia da final, mesmo correndo o risco de ser demitido.

Por ironia do destino, seu pai, que deveria estar ocupado na hora da partida, conseguiu uma folga para acompanhar Bayern x Valencia, enquanto Oliver, que deveria ser a pessoa livre da ocasião, não pôde assistir ao jogo.

No mesmo dia da decisão havia uma viagem da escola para o “interior do interior do interior” da Alemanha, um local tão isolado que ninguém sabia como estava no mapa do país. Se estivesse na forma geométrica dividida para as nações asiáticas ou americanas no Mapa Mundi, Oliver entenderia tal distância, mas era Alemanha e custava a acreditar.

O fato era que a cidade estava tão distante do que alguns consideram como “civilização” que não havia nenhum telefone na cidade, muito menos internet ou televisão. Poderiam encontrar alguns rádios durante o caminho, mas a sintonia não era das melhores e as estações se preocupavam mais em tocar músicas tradicionais ou anunciar o preço do arroz.

Os moradores, então, nem se interessavam por esportes. Para eles era perda de tempo, coisa inútil. Mais valia uma plantação bem feita, animais bem tratados e o aconchego familiar do que um jogo bobo.

Como a viagem duraria três dias, Oliver só saberia do resultado no sábado.

– Maldito dia que vim ao mundo – pensava o garoto.

Não havia o que fazer.

O Bayern ganhou, o pai de Oliver festejou, Munique estava em êxtase e ele só soube do motivo quando a população estava de ressaca. O garoto lembra-se de poucas coisas daquela época, era muito jovem, mas guarda com angústia aqueles momentos de distância do time. A partida foi reprisada diversas vezes naquela semana, mas ele optou pelo afastamento da televisão. Não queria ver aquilo, só lhe traria lembranças ruins, recordações do dia que não festejou a glória máxima de seu time.

Em 2010 veio o momento da libertação. Mais maduro, formado no ensino médio, trabalhando e independente, Oliver ia sozinho aos jogos do Bayern e não titubeava em ir aos bares próximos beber após as massacrantes vitórias. Já era um homem, já era um torcedor bávaro.

Cogitou a possibilidade de viajar a Madrid para assistir a decisão contra a Internazionale, mas algo lhe dizia que não seria uma boa ideia. Durante alguns dias, Oliver passou por uma espécie de “inferno astral”, quase sofrendo acidentes, se machucando, recebendo broncas que não recebia normalmente. Em sua ingênua cabeça, aquilo estava acontecendo porque pensou em ir para Espanha assistir ao jogo, logo desistiu da ideia.

No dia da final, reuniu os amigos em sua casa, preparou a cerveja e armou todo ambiente para que se sentissem dentro da decisão. Mas o inferno astral não havia ido embora. O Bayern perdeu, a cerveja esfriou e o clima ficou quente. Houve bate-boca entre os amigos e alguns deles não se falam até hoje.

Sua paciência com o Bayern e a sina de não vencer a Liga dos Campeões da Europa estava acabando. 2012 era o ano limite. A final seria em Munique, os bávaros foram às compras e trouxeram Manuel Neuer para ser o tão aguardado substituto de Kahn, ídolo de Oliver na infância.

Neuer era um dos poucos que não lhe inspiravam confiança, mas não era pelo motivo que trazia os mesmos suspiros em outros torcedores – ser cria do Schalke 04 – mas sim por ele ser o primeiro grande goleiro do Bayern desde Oliver Kahn. Oliver era fã de seu xará e não aceitava qualquer um na meta de seu time. Se fosse para vestir a camisa 1, que fosse para honrá-la e mostrar ao mundo toda raça bávara e Neuer seria cobrado até demonstrar tais características.

Essa birra de Oliver só caiu na semifinal, novamente contra o Real Madrid. Ele havia assistido todos os jogos em casa, mas se engajou em viajar para Espanha acompanhar aquela partida e não se arrependeu… Ou melhor, se arrependeu. Naquele mesmo dia, pediu perdão por todas as críticas, cornetadas, xingamentos e tudo mais que havia feito a Neuer nos últimos meses.

Ver aquele alemão embaixo dos três postes agindo como um leão perante um adversário espanhol em uma disputa de pênaltis lhe trouxe a imagem nunca vista de Kahn contra o Valencia em 2001. No instante que Neuer agia, Oliver voltou a se sentir como um garoto de 11 anos, imaginando que via em campo Élber, Effenberg, Scholl e, principalmente, Kahn. Foi com aquele time que teve sua iniciação em campos de futebol e guarda lembranças sentimentais destes jogadores até hoje.

Nada o faria perder a decisão da Allianz Arena, nem mesmo um novo “inferno astral”. Os ingressos já estavam comprados, os compromissos desmarcados e o teste cardíaco… Bom, o teste seria durante o jogo, dentro do estádio.

Oliver fazia parte daquele mar vermelho, ele sentia que aquilo poderia pesar contra o Chelsea. O adversário, aliás, era um time que não lhe inspirava nenhuma simpatia. Lembra-se daquele assunto que nosso personagem “não gosta de transferências milionárias”? Pois é, esse é o motivo que fazia com que Oliver alimentasse certo ódio pelo time azul.

A bola havia rolado e o coração batia de forma nunca antes notada. Era um momento único e nosso protagonista não aceitava sair do estádio sem o título.

O placar zerado ao fim dos tensos 45 minutos iniciais deixavam Oliver cada vez mais nervoso. Seu tradicional lanche de intervalo ficou de lado. Preferiu ir ao banheiro e jogar uma água no rosto, ele suava como nunca.

Seu nervosismo era tanto que, na volta para seu lugar no estádio, passou por amigos e colegas de trabalho e não os viu. Dias depois foi cobrado por não dizer nada, cumprimentar ou fazer um simples sinal, mas não havia o que falar. Enquanto seguia o percurso, a única coisa que enxergava era sua cadeira. Não era concentração, era tensão.

Durante o segundo tempo, Oliver não tinha certeza se passaria no teste cardíaco. Perdeu a conta de quantas vezes ficou sentado em lances de perigo e em pé em bolas controladas da defesa. Perdeu a noção de tudo, não conseguiu distinguir o que era certo ou errado e xingava até passe certo de seu time.

Quando começou a se conformar com mais trinta minutos de sufoco, veio o gol de Thomas Müller. Oliver não se conteve. A característica “frieza alemã” deu espaço a euforia, a loucura e aos gritos e pulos de alívio.

Oliver não sabia e tudo aquilo era verdade ou se o coração já estava parado e o que acontecia era obra da fantasia criada em sua mente. Ele sabia que a mente poderia pregar peças, mas o trapaceiro da vez não foi seu cérebro e sim Didier Drogba.

O marfinense foi durante toda semana a maior preocupação bávara. As esperanças de título do Chelsea passavam por ele e o Bayern sabia disso. Oliver nunca foi daqueles que levantavam a ideia de “quebrem o craque adversário”, mas na partida, sua mente estava tão agitada que gritava “quebra, quebra” nos poucos toques na bola de Drogba.

Ninguém do time o ouviu. Talvez se ouvissem, quebrassem o jogador ou nem dessem bola. Se dessem, sairiam no lucro. O golpe de cabeça do marfinense no gol de empate londrino foi de mesma intensidade que um tiro no peito. Direto, reto, veloz e fatal.

Oliver desabou, não sabia o que fazer. Ele tinha consciência de que teria a prorrogação pela frente, mas não acreditava que aquele gol havia acontecido.

O tempo extra tinha um sentimento diferente para nosso personagem. Ele não estava nervoso como antes, parecia mais um ser em estado vegetativo, se é que podemos descrever assim. Seu corpo estava lá, sua visão acompanhava cada lance, mas a alma estava perdida. Nem mesmo quando Robben perdeu o pênalti ele esboçou uma reação mais clamorosa. Lamentou, como todos no estádio fizeram, mas, feito um robô, voltou seus olhos ao jogo.

Era chegada a hora da disputa por pênaltis. Havia um misto de emoções na Allianz Arena. Uns choravam, outros gritavam, uma parte do estádio mostrava confiança, outra parte sentia medo. Alguns poucos ficavam de costas para o gramado só para não ver o que se passaria.

Oliver mantinha seu status robótico. Ele estava de pé, com os braços cruzados e com os olhos fixos em Manuel Neuer. Em algum lugar de seu peito queria que o antigo arqueiro do Schalke voltasse a invocar Kahn e deixasse a ‘orelhuda’ em Munique. A fixação era tão grande e assustadora que Oliver nem notou as cobranças desperdiçadas por Ivica Olić e Bastian Schweinsteiger. Só se deu conta de que voltaria a viver uma decepção quando viu Drogba convertendo a cobrança que rendeu o título ao Chelsea.

Esse dia ficou marcado como um divisor de águas para Oliver. Enquanto 90% dos torcedores bávaros deixavam a Allianz Arena de forma cabisbaixa, o rapaz permanecia em sua cadeira e tentando entender o que havia se passado. Aquele momento foi o pior de sua vida, nunca havia presenciado algo tão chocante, isso que trabalhava em uma escola lotada de crianças que adoram correr de forma aloprada e que invariavelmente surgiam com cortes profundos em suas frágeis pernas.

Daquele dia em diante, Oliver queria fazer sua própria felicidade e decidiu não se envolver tanto com o futebol. Ele percebeu que não era muito saudável andar cabisbaixo por causa de uma derrota em um jogo e que era burrice demais entregar o estilo de seu comportamento a 11 jogadores que vestem uma camisa vermelha.

Coincidência ou não, sem Oliver torcendo ferrenhamente, o Bayern vive uma de suas mais gloriosas temporadas da história. Em nenhum momento pensou em ir a Allianz Arena acompanhar seu time. Além disso, passou a se contentar em saber apenas o resultado da última partida, às vezes, nem isso era preciso para que seu dia transcorresse normalmente.

O único jogo que ousou bisbilhotar pela televisão foi contra o Arsenal. Viu o começo e desligou após o gol londrino, percebeu que não era uma boa ideia continuar em frente à telinha. Efeito do “choque Chelsea”.

O tempo foi passando e o terremoto bávaro seguia em Munique. Oliver tentava se manter distante do Bayern, mas o Bayern queria ficar próximo de Oliver. Não havia escapatória, apesar da relutante fuga.

Hoje faltam dois jogos para o término da temporada, duas decisões, diga-se de passagem. Oliver acreditava que poderia permanecer alheio a tudo, mas ele não esperava que um episódio acontecesse.

Faltando uma semana para o embate com o Borussia Dortmund pela Liga dos Campeões, o chefe de Oliver o chamou em sua sala para receber um convite. Nosso protagonista já imaginava se tratar de uma promoção ou um aumento de salário, mas não era nada disso.

O filho do chefe trabalha em uma das empresas que patrocinava a Liga dos Campeões. Empresa essa que distribuiu algumas dezenas de ingressos para funcionários e o chefe de Oliver também recebeu alguns. Inesperadamente, vários empregados da escola receberam ingressos e passagens pagas para a decisão como forma de agradecimento do chefe pelos vários anos de dedicação.

Oliver foi um dos contemplados e nem sabia o que dizer. Não queria fazer a desfeita de rejeitar um presente daqueles, assim como não queria quebrar sua sina de deixar o Bayern de lado naquele ano. Aceitou o convite, mas não decidiu se vai ou não para Londres. Esse é o dilema.

E vocês? O que fariam na situação de Oliver?

Bayern x Dortmund – Perfil dos elencos

A grande semana da temporada 2012/13 na Europa chegou. No próximo sábado (25), Bayern de Munique e Borussia Dortmund irão se enfrentar no estádio Wembley, em Londres, valendo o título máximo de clubes do continente.

Como não poderia deixar de ser, o Futebol Europeu Online preparou uma série de posts especiais para a grande decisão do sábado. Para dar o pontapé inicial, você confere o perfil dos prováveis 22 jogadores titulares da partida com a análise deste blogueiro que vos escreve.

Confira:

Bayern x BVB - Goleiros

“Todo bom time começa com um bom goleiro”, essa frase antiga deve ser usada para descrever Bayern e Dortmund – e para a maioria dos times alemães. No lado bávaro, Manuel Neuer veste a camisa 1 e também é o titular da seleção alemã, no lado borussiano, quem ocupa o mesmo status é Roman Weidenfeller, dois goleiros de alto nível.

Neuer é o tão esperado substituto de Oliver Kahn. Os bávaros apostavam suas fichas em Rensing, que hoje é reserva do Bayer Leverkusen, depois em Thomas Kraft, titular do Hertha Berlin, mas nenhum dos dois vingou. A alternativa foi Neuer, goleiro do Schalke, que finalmente trouxe segurança a meta bávara quebrando vários recordes e justificando o alto investimento.

Já Weidenfeller foi ensinado na tradicional escola de goleiros do Kaiserslautern e já está há mais de dez anos no Borussia Dortmund. Ele já disputou mais de 250 partidas pelo clube e é sinônimo de segurança na meta. Com um time muito ofensivo, muitas vezes a bomba explode na defesa e sua participação tem sido muito importante.

Não ouso dizer quem é melhor, não escondo meu gosto pela técnica e segurança de Weidenfeller, apesar de não ser goleiro de seleção como Neuer. Os dois times estão bem servidos na função, isso é fato.

Bayern x BVB - LD

Em minha visão, a final da Uefa Champions League colocará frente-a-frente os dois melhores laterais-direito do mundo. Philipp Lahm é mais completo, marca e ataca com extrema eficiência, apesar de ter vivido momento de instabilidade na temporada passada, já o polonês Piszczek não é tão firme defensivamente, mas é uma flecha no ataque, se tornando uma ótima opção ofensiva ao lado do compatriota Kuba.

Geralmente as laterais dos dois times servem como “válvulas de escape”, mas essa final será muito estudada e de poucos espaços. Lahm deverá estar ocupado com Reus e Götze que deverão agir em seu lado, assim como Piszczek terá enormes preocupações com a dupla Ribéry e Alaba. Creio que suas participações mais efetivas serão defensivas.

Bayern x BVB - Z1

Nessa disputa, não há dúvidas que Subotić leva vantagem. O sérvio é mais técnico, mas não teme em dar chutões quando necessário. É um ponto de equilíbrio na defesa do Borussia Dortmund e se completa com Hummels.

Daniel van Buyten não é o zagueiro dos sonhos, mas não o considero tão ruim como muitos pregam. Apesar da altura, o belga tem alguma desenvoltura com a bola no pé e amadureceu com o tempo, comprometendo menos. Além disso, seus quase dois metros de altura lhe dão muita vantagem na bola aérea. O que pode pesar é o trauma da final de 2010, onde ficou marcado por ser entortado pelo argentino Diego Milito na final do Santiago Bernabéu. Até por isso, não seria nenhuma surpresa a entrada de Jérôme Boateng em seu lugar.

Bayern x BVB - Z2

Dante e Hummels são os principais jogadores da defesa de seus times. O brasileiro mostrou enorme personalidade ao vestir a camisa do Bayern após vários anos em clubes que até possuíam tradição, mas que não almejavam do status bávaro. Ele é titular absoluto e conseguiu seu espaço na seleção brasileira.

Já Hummels é cria do próprio Bayern, mas não foi aproveitado. O Dortmund sentiu a oportunidade e, hoje, conta com o principal zagueiro do país. Apesar disso, sua temporada não foi das melhores. Além de algumas lesões que o tiraram de diversos jogos, o jovem defensor cometeu algumas falhas grotescas durante a temporada, o que só reforça a minha teoria de que Hummels não comete erros isolados, se ele falhar, pode ter certeza que ele irá repetir o erro durante a partida.

Por esse fator, creio que Dante leva ligeira vantagem. É óbvio que Hummels é um zagueiro de maior qualidade, mas o brasileiro parece ter mais sangue frio e isso pesa.

Bayern x BVB - LE

Outra disputa boa, mas de jogadores com características diferentes. David Alaba, apesar de ter surgido mesmo como lateral, já foi aproveitado no meio campo e sempre mostrou ótimas qualidades ofensivas. O austríaco possui mais técnica e consegue “casar” bem seu estilo com o francês Franck Ribéry que atua em seu lado.

Marcel Schmelzer é um lateral à moda antiga. Seus avanços ao ataque são mais eficazes e menos cadenciados. O alemão tem bom chute de esquerda e faz valer também em seus cruzamentos. Nesta temporada, cresceu de rendimento defensivamente porque Grosskreutz perdeu espaço para Reus, diminuindo o auxílio que vinha do camisa 19.

Nesta final, nenhum dos dois leva vantagem em minha visão. Alaba terá que parar a forte dupla Kuba e Piszczek, enquanto Schmelzer terá de segurar Robben – querendo tirar a fama de pipoqueiro – e o eficiente Lahm. Missão dura para ambos.

Bayern x BVB - V1

Tudo que você já ouviu de “volante moderno” pode ser integrado nas duas duplas de volantes. Começando pelos responsáveis pelo trabalho sujo no meio-campo. No Bayern, esse cara é Javí Martínez, contratação cara e que desbancou Luiz Gustavo na cabeça de área. Apesar de jogar mais avançado que Schweinsteiger, o espanhol acaba pegando mais firme na marcação, não à toa tem quatro cartões amarelos na Liga dos Campeões. Isso não o impede de chegar forte no ataque, demonstrar eficiência na bola aérea e nos chutes de média distância.

Sven Bender assumiu a titularidade no Dortmund apenas na reta final de temporada. O experiente Sebastian Kehl era o titular na função e o camisa 6 só conseguiu tomar a posição nos jogos decisivos da Liga dos Campeões. Bender é dinâmico e tem excelente passe, não desempenha a liderança de Kehl, mas tem mais vigor.

Bayern x BVB - V2

Chegamos agora em Schweinsteiger e Gündoğan, dois volantes de características semelhantes: dois meias que aos poucos adequaram seus estilos às funções defensivas. Schweini chegou a atuar como ponteiro no início da carreira, hoje é o volante mais recuado do Bayern, armando o jogo da cabeça de área. Já Gündoğan sempre atuou pela faixa mais central, ora como meia, ora como volante. O jogador de origens turcas sempre se incorpora a linha de três meias do Dortmund e demonstra várias qualidades na distribuição de jogo e na condução de bola.

Schweinsteiger talvez seja o principal jogador da Liga dos Campeões e nisso leva vantagem, mas sendo um dos jogadores que passou pelos dramas dos vices recentes do clube, pode sentir a partida, coisa que tem sido rotineira em jogadores de sua geração.

Bayern x BVB - MD

A faixa direita do gramado dos dois times possui jogadores de qualidades e características diferentes. Robben é mais habilidoso, técnico e tem um preciso chute de perna esquerda, enquanto Kuba é muito voluntarioso, tem bom controle de bola, finaliza bem e pode desempenhar mais de uma função.

Nesse caso, apesar da vantagem técnica do holandês, atribuo a vantagem no confronto ao polonês. Para começo de conversa, Robben só ganhou a posição de titular com a lesão de Toni Kroos, além disso, ficou marcado por erros em momentos decisivos por Bayern e seleção holandesa. Não creio que sejam casos isolados, Robben tem um lado pipoqueiro e muitas vezes ele fala mais alto.

Bayern x BVB - ME

Disputa altamente equilibrada entre Ribéry e Reus. O francês está há um bom tempo no Bayern e sempre foi um jogador decisivo, porém, baterá de frente com a dupla Kuba e Piszczek que tem lhe causado inúmeros problemas nos embates recentes.

Marco Reus chegou nesta temporada ao Dortmund, mas parece estar há anos no clube. Apesar da idade, o meia nunca tremeu nas horas decisivas e marcou em partidas importantes da Liga dos Campeões como contra o Manchester City e o Málaga.

Difícil apontar quem leva vantagem neste duelo, a única coisa certa é que os laterais adversários terão dificuldades na marcação, principalmente quando tiveram que subir ao ataque.

Bayern x BVB - MA

Junto com Reus, citado anteriormente, Müller e Götze formam o trio de ouro do futebol alemão. Além de atuarem juntos na seleção alemã, os dois estarão juntos em 2013/14 no Bayern, já que o borussiano reforçará o time bávaro. A situação de enfrentar um futuro clube pode não pesar – isso é normal na Alemanha – mas a pressão em cima de um rapaz que tem apenas 20 anos pode complicar. É nesse ponto que Jürgen Klopp deve se concentrar no trabalho psicológico com Götze.

É por isso que considero Müller como uma peça mais decisiva na partida. Ele pode não ter a habilidade e nem a técnica do adversário, mas possui uma estrela enorme. Além dos gols contra o Barcelona na semifinal, o meia-atacante fez o gol bávaro na última final europeia.

Bayern x BVB - CA

Mandžukić e Lewandowski possuem características semelhantes, mas elas são exploradas de formas diferentes em seus times. Ambos podem atuar fora da área como armadores, mas são empurrados para o ataque. Essa função é explorada no croata com a troca de posição com Müller, movimentação essa que provoca confusão nas defesas adversárias. Já Lewandowski não sai tanto da área, mas quando a deixa é para fazer tabelas rápidas que deixam os três meias próximos do gol.

Difícil apontar uma vantagem nessa situação. Lewandowski é mais atacante, seus dez gols contra dois do croata mostram isso, mas suas funções táticas são de extrema importância para a participação dos meias no ataque. Dou um voto de confiança para o polonês pela sua capacidade técnica.

Bayern x BVB - DT

Duelo antagônico entre os técnicos. Josef “Jupp” Heynckes já está em sua terceira passagem pelo Bayern, nono clube de seu currículo, e busca também o nono título de sua carreira, segundo de Liga dos Campeões da Europa. Klopp é 22 anos mais novo, mas já é um dos técnicos mais reconhecidos na Europa.

O título passa pelos dois. Bayern e Dortmund se conhecem muito bem, assim como os treinadores sabem das possíveis cartas nas mangas que o oponente pode ter. Nisso Heynckes leva vantagem. Além de ter um elenco maior, ele já demonstrou saber alterar melhor durante os jogos. Klopp até consegue explorar ao máximo seu plantel, mas nunca fui um grande “alterador”.

Os onze gols que a Alemanha precisava

A final da Liga dos Campeões será alemã (Franck Fife - AFP/Getty Images)

A final da Liga dos Campeões será alemã
(Franck Fife – AFP/Getty Images)

Bayern de Munique x Borussia Dortmund é a final de Liga dos Campeões da Europa que o futebol alemão tanto aguardava. De um jeito ou de outro o campeão será germânico e isso por si só será um alívio para todos que trabalham com o futebol no país. Desde o título europeu e mundial do Bayern em 2001, os clubes alemães e também a seleção têm acumulado decepções em momentos decisivos.

Desde 2001, Borussia Dortmund e Werder Bremen foram vice-campeões da Copa da Uefa, o Bayern ficou com o segundo lugar da Liga dos Campeões em duas oportunidades e a seleção alemã teve de se contentar com um vice-campeonato e o terceiro lugar da Copa do Mundo em duas oportunidades, além de um vice-campeonato europeu e uma inesperada eliminação na semifinal da edição de 2012.

Vale salientar que, tirando o vice-campeonato do Borussia Dortmund na Copa da Uefa e da Alemanha na Copa do Mundo, ambos em 2002, todos os outros tropeços foram depois de 2006, quando novas gerações de jogadores passaram a vestir as camisas dos grandes clubes do país, além, é claro, da seleção.

Bastian Schweinsteiger, Manuel Neuer e Phillip Lahm são apenas alguns dos que já vem desde a geração de 2006 – apesar do goleiro não ter disputado a Copa daquele ano – outros como Mário Götze, Marco Reus, Mesut Özil e Toni Kroos surgiram mais recentemente, mas todos eles sofrem até hoje com o estigma de serem ótimos jogadores, formarem times condizentes com suas qualidades individuais, mas que pecam na hora da decisão.

Os onze gols que Bayern e Dortmund marcaram contra a poderosa dupla Barcelona e Real Madrid se tornou o momento chave da afirmação da força do futebol no país. Futebol envolvente, toques rápidos e nenhum medo do rival. Essas foram as características que colocaram a Alemanha, pelo menos nesta temporada, no topo do futebol europeu.

No fundo, a decisão que será realizada no Wembley será um grande teste para o futuro da seleção alemã. No dia 25 de maio, Joachim Löw poderá observar nos dois times quem são os “caras”, quem não treme e pode ser decisivo para tirar a Alemanha da fila que será de 18 anos sem título em 2014.

Thomas Müller marcou nos dois jogos diante do Barcelona (Quique Garcia - AFP/Getty Images)

Thomas Müller marcou nos dois jogos diante do Barcelona
(Quique Garcia – AFP/Getty Images)

No momento, o grande nome é Thomas Müller. Apesar de Reus e Götze pintarem como futuras estrelas da seleção, o meia-atacante bávaro voltou a jogar bem após acumular atuações fracas depois da Copa do Mundo de 2010. Müller é peça fundamental do time de Jupp Heynckes e o período em que colocou Arjen Robben no banco foi primordial para seu amadurecimento.

O momento ruim do holandês proporcionou a Müller a vaga no time titular em sua melhor função: a ponta direita e por ali voltou a mostrar o bom futebol que lhe rendeu vários elogios durante a última Copa.

O amadurecimento se mostrou nítido após a lesão de Toni Kroos, ainda nas quartas-de-final da Liga dos Campeões. Robben entrou no time, o que forçou um deslocamento de Müller para a faixa central na linha de três meias do Bayern e ele, diferente de temporadas anteriores, apresentou um bom futebol e marcou três dos sete gols de seu time na massacrante série sobre o Barcelona nas semifinais.

Falta esse amadurecimento pegar em outros atletas do time. Thomas Müller é ótimo jogador, mas não chega a ser um grande craque. Como citado anteriormente, Mário Götze e Marco Reus se aproximam mais dessa alcunha e essa final de 2013 marca o ponto de ebulição para, no mínimo, o início do amadurecimento desses atletas. Enquanto isso, para Schweinsteiger, Lahm, Weidenfeller e outros será a caminhada final rumo à consagração máxima que suas carreiras necessitam.

Mas, acima de todo amadurecimento e quebra do jejum de títulos, a final da Liga dos Campeões de 2013 será o momento em que a supremacia alemã será sentida. Desde 2010 fala-se nisso. Desde 2010 fala-se da nova geração. Desde 2010 fala-se do novo estilo de jogo do país. E, principalmente, desde 2001 fala-se do tão almejado título internacional.

O gigante tcheco

Quarentão, Koller já salvou o Dortmund evitando gols(Foto: Getty Images)

Quarentão, Koller já salvou o Dortmund evitando gols
(Foto: Getty Images)

No dia 30 de março de 1973, nascia em Smetanova Lhota, na antiga Tchecoslováquia, um dos personagens mais marcantes do futebol europeu nas últimas décadas: Jan Koller. Com seus dois metros e dois de altura e sua reluzente careca, era impossível assistir um jogo de seu time e não nota-lo em campo.

Em sua extensa carreira, foram mais de 550 jogos como profissional e 279 gols, sendo 55 deles pela seleção tcheca, que defendeu entre 1999 e 2009. Esses números colocam Koller como artilheiro máximo de seu país, empatado em quantidade de partidas com Pavel Nedvěd.

Porém, uma das histórias mais marcantes de sua carreira não envolveu nenhum gol marcado e sim alguns evitados.

Essa história aconteceu em novembro de 2002. Na época, Koller, já campeão alemão pelo Borussia Dortmund na temporada anterior, carregava parte da simpatia do torcedor por seus 11 importantes gols no ano do título. Essa afeição dos fãs com o tcheco aumentou na ocasião que citarei nos parágrafos seguintes.

O Borussia Dortmund foi ao estádio Olímpico de Munique encarar o Bayern em jogo válido pela 12ª rodada da Bundesliga. Os dois times estavam próximos na tabela de classificação e qualquer deslize já poderia traçar o destino de ambos no torneio, apesar do princípio de campeonato. Até por isso, a partida foi tensa, principalmente no lado borussiano. Seis cartões amarelos foram distribuídos pelo árbitro Michael Weiner, cinco deles para o Dortmund.

Tal postura emocional estava justificada pela maneira com o qual o jogo se desenrolou. Koller abriu o placar na etapa inicial, aproveitando passe do brasileiro Amoroso, porém, o BvB foi para o intervalo sem Frings, expulso por ter recebido dois cartões amarelos. O Bayern se aproveitou e com vinte minutos no segundo tempo já havia virado a partida.

No gol da virada, a revolta dos jogadores do Dortmund com um possível impedimento de Claudio Pizarro foi tão grande que Jens Lehmann se exaltou, conseguindo ser expulso e deixando seu time em situação delicada, pois Mathias Sammer havia efetuado sua terceira alteração dois minutos antes.

Sobrou para o gigantão Jan Koller. Quando surgiu na República Tcheca, ele era goleiro, mas ao chegar às categorias de base do Sparta Praga, virou atacante. Nada poderia ser mais estarrecedor para o torcedor do Borussia Dortmund: seu time perdia por 2×1, via seu goleiro ser expulso e passaria pelo drama de ter um centroavante de mais de dois metros defendendo sua meta por vinte minutos.

O que deveria ser o apocalipse para o Dortmund, acabou sendo um dos episódios mais insólitos da história do clube. Koller não só assumiu a bronca como foi bem de goleiro. Além de não sofrer gols, o tcheco mostrou qualidade na saída da meta – não era pra menos, com mais de dois metros – e ainda agarrou um potente tiro de Michel Ballack no último lance do jogo. Koller até tentou marcar um gol de cabeça no fim da partida, mas não foi capaz de evitar a derrota. Ao menos evitou o alargamento do marcador…

A conceituada revista Kicker valorizou tanto a atuação do tcheco que o colocou como “homem do jogo”.

Após deixar o Dortmund em 2006, depois de 73 gols em mais de 160 partidas, o tcheco se aventurou em outros países, como França e Rússia e até mesmo na Baviera, jogando pelo Nürnberg, mas não pôde vencer as lesões. Em 2011, jogando pelo Cannes na 3ª divisão francesa, o atacante encerrou seus 17 anos de carreira.

Fica registrada nossa homenagem ao novo quarentão, Jan Koller, o gigante tcheco!