Sob as bênçãos de Karim

Aos 19 anos, Aouar é uma das peças de desequilíbrio do Lyon | Foto: S. Guiochon/Le Progres

É difícil citar quem seria o principal jogador formado nas consagradas academias do Lyon, mas o certo é que entre tantos nomes citados, o de Karim Benzema estaria nas cabeças, seja pela qualidade e pelo que entregou dentro de campo, seja pela bem-sucedida carreira já fora do clube. E é exatamente sob as bênçãos do franco-argelino que surge a nova joia bruta do clube: Houssem Aouar.

Assim como Karim, o meio-campista de 19 anos tem raízes na Argélia, mas, por ter nascido em Lyon (curiosamente, nasceu em meio a Copa do Mundo no país, em 1998), adotou a França como casa. Igualmente ao madridista, Aouar também foi lapidado no OL assim que chegou ao clube aos 11 anos de idade.

Desde então, queimou etapas, explodiu no sub-17 ainda abaixo da idade limite (aos 16 anos, fez 27 gols e deu 15 assistências em uma única temporada na categoria) e defendeu a equipe sub-19 sem nem ter 17 anos. O caminho natural era crescer cedo entre os profissionais, e é isso que estamos vendo de Aouar desde 2016/17.

“Eu gosto dele. Ele é técnico, tem boa visão e se bem trabalhado, pode ir longe”, disse Benzema no mês de março a RMC. E sob a bênção de Karim, começou a trajetória do meia.

Assim como em outros tantos casos da história recente do Lyon, Aouar ganhou espaço mediante a lacuna deixada por outros atletas mais tarimbados que não corresponderam. No caso dele, foi do holandês Memphis Depay, contratado por pomposos 25 milhões de euros, mas que viveu períodos de inconstância nos primeiros seis meses de França. Como Maxwell Cornet e Rachid Ghezzal não ofereciam a competitividade desejada, Aouar passou a garimpar espaço.

Já havia sido assim com Alexandre Lacazette tomando lugar de Jimmy Briand, com Maxime Gonalons ocupando brechas de Jean II Makoun e, mais recentemente, com Mouctar Diakhaby desbancando Nicolas N’Koulou. Depay, que chegou ao OL com status de estrela, se viu obrigado a jogar mais após ver a presença de um atrevido garoto de 19 anos.

Versatilidade como ponto forte

Aouar e seu fino trato com a bola | Foto: Instagram Oficial/Aouar

Aouar é o que muitos chamam de “falso lento”: parece caminhar em campo, estar desligado da partida, quando, na verdade, está atento 100% do tempo, possuindo uma agilidade e rapidez de pensamento impressionantes. A capacidade de leitura de jogo e movimentos também chamam a atenção no garoto de precoces 19 anos.

Observando esses predicados, o técnico Bruno Genesio já encontrou algumas fórmulas para encaixar Aouar no time titular, mesmo tendo um poderoso setor ofensivo com o já citado Depay, Mariano Diaz e Bertrand Traoré. Mediante a versatilidade do garoto, que tem o drible para abrir espaços pelo lado, mas possui o passe que quebra linhas, já o aproveitou na primeira faixa do meio-campo, ao lado de Tousart, em um 4-2-3-1.

Apesar de atuar também pelos lados (assim que começou a incomodar Depay), foi na função encontrada por Genesio que conseguiu ser mais influente para o time. Pode não ser um meio-campista rompedor, como era Corentin Tolisso, transferido do Lyon para o Bayern nesta temporada, mas é combativo, enxerga e preenche bem os espaços e possui passe de extrema qualidade, capaz de romper linhas adversárias. Curiosamente, sempre teve como referências o próprio Tolisso e Juninho Pernambucano, que jogavam exatamente naquela função.

Fora essas virtudes no passe, Aouar é um driblador nato. Somando esta qualidade ao raciocínio rápido e leitura de movimentos de adversários, ele se mostra capaz de fazer os mais ríspidos marcadores parecerem baratas tontas quando baterem de frente com ele.

Hoje, Aouar está no time ideal do Campeonato Francês do site WhoScored, especializado em estatísticas, com média de 7.6. Já o Squawka aponta que ele tem média de 85% passes certos, sendo que 57,5% são passes para frente. Fatalmente, será eleito a revelação da temporada na França e, com alguma sorte, poderá pintar na lista dos favoritos de Didier Deschamps para a Copa da Rússia – por que não?

Sorte a nossa de ver mais um talento puro que o Lyon apresenta para o mundo. Sob as bênçãos de Karim, será mais um que nos fará admirar ainda mais o bom futebol que une em um único jogador as maiores virtudes argelinas e francesas.

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Sem projeto consolidado, Lyon tenta não ficar para trás

Mesmo sob críticas, Genésio é o técnico nesta temporada | Foto: S. Guiochon

Entre os times postulantes ao título ou a vagas em torneios europeus, o Lyon é o que tem o ponto de interrogação maior para a temporada que recém iniciou na França. O OL não conta com o aporte financeiro do Paris Saint-Germain, tampouco tem projetos promissores e ousados como Lille e Olympique de Marseille.

Em contrapartida, o clube gerido por Jean-Michel Aulas tem dinheiro no bolso após as vendas pomposas de Corentin Tolisso e Alexandre Lacazette (juntos, suas vendas somaram € 94 milhões).

Apesar das negociações, a atuação no mercado de transferências não foi das mais agressivas. Das seis contratações efetuadas, quatro jogadores estão abaixo dos 25 anos e são legítimas apostas. Entre Bertrand Traoré, Mariano Díaz, Ferland Mendy, Kenny Teté e os brasileiros Marcelo e Fernando Marçal, não há nenhum que encha os olhos e seja garantia de retorno de imediato.

Até mesmo a dupla de brasileiros, que é a mais experiente (Marcelo tem 30 anos e Marçal 28), não possui muita rodagem na Europa, quase sempre atuando em ligas ou times de menor escalão. Os demais contratados mostraram valor por onde passaram (especialmente Traoré), mas ainda são jogadores em construção e a tendência é errar mais do que acertar.

Dentro deste cenário, abre-se um vazio para a formação de líderes. Os próprios Tolisso e Lacazette, vendidos nesta janela de transferências, eram figuras de respeito dentro do elenco. Christophe Jallet, lateral com Copa do Mundo no currículo, cabe na lista. Entre todos eles, porém, a figura máxima era a de Maxime Gonalons, vendido a Roma por € 5 milhões.

Gonalons trocou o Lyon pela Roma | Foto: S. Guiochon

Aos 28 anos de idade, o volante foi formado no Lyon e estava no clube desde 2000. Era capitão e líder nato no meio de campo, além de ser considerado ídolo da torcida. A saída, porém, foi tumultuada.

Além de já ter saída cogitada há algumas temporadas, publicamente ele disse “faltar ambição” ao time após tomar quatro do Ajax, na partida de ida das semifinais da Liga Europa. A frase foi o estopim de uma crise entre o staff do jogador e Aulas, que trocaram farpas via imprensa.

Esse vácuo acaba sendo amplificado na figura do próprio Mathieu Valbuena, que não era exatamente um líder do elenco, mas a vivência futebolística lhe daria um status diferente nesta temporada. O baixinho meia quase foi expulso do clube, vide a pouca vontade demonstrada pela direção em mantê-lo devido ao alto salário. Assim como Maxime, saiu se manifestando contra diretoria e comissão técnica.

A figura da liderança dentro do plantel, até mesmo como exemplo de adaptação para os novos contratados, recairá sobre Nabil Fekir, que tenta retomar o ótimo nível técnico após uma série de lesões, do goleiro Anthony Lopes e do próprio Memphis Depay, contratado a peso de ouro na metade da última temporada e que tem papel de referência cada vez mais evidenciado com as saídas de Lacazette e Tolisso.

E é dentro deste cenário que Genésio terá que se impor. Os rachas internos, que faziam com que os jogadores mais experientes perdessem parte do respeito pelo técnico, somadas as críticas da torcida, que não confiam em seu desempenho na casamata, fazem com que transforme esse desafio ainda maior.

Diferente dos outros clubes que citei ainda no primeiro parágrafo, o Lyon não conta com uma coesão de ideias entre comissão técnica e diretoria e isso pode pesar no fim da temporada.

Início animador

Apesar de todas essas variantes, o Lyon começou a temporada com o pé direito, goleando o recém-promovido Strasbourg, por 4 a 0. Mariano Díaz, vindo do Real Madrid, já marcou dois.

O domínio do OL ficou escancarado muito além do placar, aja vista que os comandados de Genésio finalizaram 12 vezes, sendo que sete desses arremates foram contra a meta de Kamara. Além disso, teve amplo controle da posse de bola, com 61,6% de domínio, tendo concluído mais de 457 passes.

Entretanto, preocupa o estilo “boxeador” que Genésio impõe. Apesar das 12 finalizações, o Strasbourg, que deve se limitar a lutar contra o rebaixamento, arrematou em sete oportunidades. Três desses chutes saíram quando a partida ainda estava 1 a 0, o que se tornou um risco sério de estrago do placar.

Nas próximas duas rodadas, o OL terá testes de fogo que poderão mostrar a que pé anda a própria evolução. Na sexta (11), o adversário será o remodelado Rennes, na Bretanha, e oito dias depois, recebe o Bordeaux, tentando se reerguer após um conturbado início de temporada – marcado por eliminação na Liga Europa e empate na rodada inicial da Ligue 1. Diferentemente do que ocorreu com o Strasbourg, a “trocação” característica da equipe pode pesar ao lado contrário nos próximos duelos.