Esquecido na China

A combinação Brasil-Bósnia fez sucesso no Wolfsburg

A combinação Brasil-Bósnia fez sucesso no Wolfsburg

Há pouco mais de quatro anos, o modesto Wolfsburg surpreendia a Europa toda ao desbancar o Bayern de Munique, de Jürgen Klinsmann, e ficar com o inédito título alemão. Mais do que o caneco erguido, a equipe comandada pelo durão Félix Magath mostrava um jogo bom de ver, com uma impiedosa dupla de ataque formada por Grafite e Edin Džeko. Juntos, o brasileiro e o bósnio marcaram 54 dos 80 gols dos Lobos naquela temporada do Campeonato Alemão, ou seja, 67,5% dos tentos do time e mais gols do que 11 equipes do torneio.

Mas havia uma fonte de abastecimento a essa dupla e essa fonte se chamava Zvjezdan Misimović. O conterrâneo de Džeko vestia a camisa 10 e era um meia clássico, de toque refinado, muita categoria e que distribuía diversos passes para gol. Somente naquela temporada, o bósnio deu incríveis 20 assistências, líder no quesito com cinco passes há mais que o segundo colocado do ranking, Mesut Özil, defendendo o Werder Bremen na época.

Daquele trio, era a dupla oriunda da Bósnia que aparentava ter maior futuro. Grafite, que foi o grande nome da conquista, não era nenhum garoto e já provara no Brasil que era, no máximo, um bom centroavante. Džeko tinha apenas 23 anos e Misimović era quatro anos mais velho e tinham o diferencial por serem presenças constantes na seleção nacional.

O brasileiro, como esperado, não ficou por muito tempo no Wolfsburg e partiu pro Oriente Médio com a intenção de fazer uma gordurinha na conta bancária. Džeko seguiu mais um ano e meio nos Lobos, mas depois viu a lógica que muitos apontavam se concretizar e foi para a Inglaterra. Ele está no Manchester City, onde vive relação de amor e ódio com a torcida e não repete as atuações tão elogiadas na Alemanha.

E Misimović? Esse sumiu. Dos três, era ele quem eu mais nutria esperanças de ver explodir num futuro próximo, mas a sempre furada ganância do Wolfsburg o tirou do clube. Em 2010, o clube alemão arrancou Diego da Juventus e o bósnio, sem espaço, foi despachado para a Turquia, onde defendeu o Galatasaray.

Como azar pouco é bobagem, ninguém se deu bem na história. Os Lobos se salvaram do rebaixamento apenas na última rodada; Diego decepcionou e ainda arrumou briga com Félix Magath (que chegou no meio da temporada para evitar o descenso); e o bósnio fez apenas nove partidas com a camisa do clube turco.

Hoje, Misimovic faz sucesso na China

Hoje, Misimovic faz sucesso na China

Aos 31 anos, Misimović já começa a dar sinais de que sua carreira está por terminar. Após um ano no Dynamo Moscou, o bósnio passou a defender o Guizhou Renhe, da China, em 2013. Há quase dez meses na Ásia, ele tem mostrado do que é capaz, balançando as redes quatro vezes e dando nove passes para gol. Seu time é o quarto colocado da Liga Chinesa e briga por uma das três vagas na AFC Champions League.

Não imaginava que fosse ter um futuro assim, esperava muito mais dele, mas o direcionamento de sua carreira não esteve nem perto do ideal. Para o homem das 20 assistências no único título nacional do Wolfsburg, isso é muito pouco. Espero que faça mais sucesso na China e que siga mostrando aos senhores de olhos puxados o futebol clássico e objetivo que conquistou tantos admiradores na Alemanha. Mesmo que isso seja obtido, ainda será pouco, principalmente porque não foi valorizado pelo clube que tanto ajudou há quatro anos.

Anúncios

Guardiola amansou o Bayern

Apesar dos bons resultados, o Bayern não está jogando bem (Foto: AFP)

Apesar dos bons resultados, o Bayern não está jogando bem
(Foto: AFP)

Quando o Bayern de Munique anunciou que Josep Guardiola seria seu técnico nesta temporada, logo surgiu um ponto de interrogação em minha cabeça: Pep será capaz de domar esse time de estilo totalmente diferente do Barcelona de seus tempos? Na época, não me atrevi a responder e, hoje, não só digo que domou o Bayern como destaco que ele amansou o time bávaro.

Sim, sei que é apenas começo de temporada e que os resultados de Guardiola não estão nem perto de serem ruins, mas o futebol apresentado deixa a torcida com uma pulga atrás da orelha.

O Bayern de Jupp Heynckes e também de Louis van Gaal (que tem méritos na montagem do time campeão de tudo na temporada passada e ninguém lembra) não só tinha a tradicional posse de bola esmagadora, como trucidava seus adversários. Os bávaros não tinham pudor algum em enfiar seis, sete ou oito gols em seus rivais, era um time pra lá de envolvente.

O trabalho de van Gaal foi assim e Heynckes apenas aprimorou, dando um jeito na defesa, que era o grande ponto fraco da época do holandês, dando mais troca de posições ao ataque e mostrando que era possível vencer dosando um pouco do ritmo, apesar das várias goleadas em seu período como técnico.

Em contrapartida, o trabalho de Guardiola vem tendo uma única semelhança com o de seu antecessor: as vitórias. O futebol apresentado, que era o mais aguardado por todos, não tem feito o exigente torcedor bávaro abrir um enorme sorriso de orelha a orelha.

O toque de bola vertical e objetivo, que sufocava os adversários, foi substituído por passes maçantes e preguiçosos, a maioria de lado, e as constantes trocas de posições dos homens de frente estão sendo modificadas por invenções (‘pardalices’?) de Guardiola na escalação.

A começar pelo posicionamento de Thomas Müller. A joia bávara sempre foi homem de chegada ao ataque, seja pelo lado do campo ou atuando atrás do centroavante. Pep já o escalou como um dos jogadores que formava um tripé no meio-campo, absurdamente distante da área. Por Müller não ter um físico que lhe proporcione força para combater e armar com mesma eficiência, Guardiola mostra-se equivocado com esta alteração.

Lahm virou volante com Guardiola (Foto: Bundesliga)

Lahm virou volante com Guardiola
(Foto: Bundesliga)

Mas, sem dúvida alguma, a decisão mais questionável, é a escalação de Phillip Lahm como volante. Posso estar falando uma besteira do tamanho do planeta, mas Lahm nunca será um cabeça-de-área e não digo isso pelas apresentações iniciais do capitão bávaro, mas sim de suas características. Ele é um dos poucos (senão único) laterais-direito completos, atacando e defendendo com maestria, mas nunca foi um exímio passador. Enquanto lateral, suas participações com passes eram quando vinha de trás, com espaço e sendo elemento surpresa. No meio-campo raras vezes terá esse espaço e ainda precisa ser ágil na hora de receber e soltar a bola.

Ao deslocar Lahm pro meio e ainda escalar o mediano Rafinha na lateral-direita, Guardiola simplesmente abre mão de ter um lateral completo para ter um jogador que mostra enormes dificuldades em trabalhar fora de posição.

E isso não é cisma minha. Os números mostram como o Bayern já começa a entrar em outro ritmo.

A vitória por 3-1 sobre o Borussia Mönchengladbach, na estreia, foi a melhor atuação bávara nas estatísticas, com 26 finalizações e 92% de acerto nos passes, apesar da posse de bola de apenas 60%. Contra o Nürnberg, na terceira rodada, bons dados também: 26 chutes, 90% de acerto nos passes e 81% de posse de bola.

Desde então, os números destoam. Contra Eintracht Frankfurt (2ª rodada), Freiburg (4ª) e Hannover (5ª), os bávaros não chegaram à marca de 20 finalizações, além de terem posse de bola inferior a 75%.

Pode parecer heresia questionar números assim, mas vale ressaltar que, na temporada passada, o Bayern tinha 15 pontos de 15 disputados, além de 17 gols marcados e dois sofridos em cinco rodadas. Hoje são 13 pontos e os mesmos dois tentos sofridos, mas apenas nove marcados, o que registra um pouco da sonolência bávara.

Em defesa de Guardiola, deve-se comentar que ele não chegou à Baviera para dar sequência ao trabalho de Heynckes, mas sim para criar uma nova cena no clube, com novas ideias e um novo estilo de jogo. Mas é importante ressaltar que revolucionar é diferente de inventar e o que o técnico espanhol tem feito em alguns jogos desta temporada não é nada revolucionário.

É início de trabalho, é verdade, mas não existe nenhuma lei que nos proíba de criticá-lo. É apontando os erros no princípio que a história se conserta mais para frente e se antes eu não sabia se Pep poderia domar o Bayern, hoje me pergunto se aquele time brilhante de meses atrás pode reaparecer.

Hamburg: andando na contramão

Hamburg contrata muito e vê poucos resultados dentro de campo

Hamburg contrata muito e vê poucos resultados dentro de campo

O dia 25 de maio de 1983 entrou para a história do Hamburg SV e também do futebol alemão. O clube do norte derrotou a Juventus pelo marcador mínimo, gol de Félix Magath, e sagrou-se campeão europeu pela primeira vez, tornando-se também o segundo clube do país a obter tal feito. A conquista também era uma forma de recuperar-se após a perda do caneco em 1980 quando o campeão foi o Nottingham Forest.

A equipe treinada pelo lendário Ernst Happel tinha tudo para se tornar uma das grandes potências da Alemanha daquele momento em diante. Nos seis anos do austríaco no comando técnico, além do título europeu, o HSV foi bicampeão alemão em 82 e 83 e ficou outras duas vezes na segunda colocação.

Porém, desde que Happel deixou o clube em 1987, o Hamburg só voltou a aparecer nas três primeiras posições da Bundesliga na temporada 1999/00, quando acabou em terceiro lugar, atrás de Bayern e Leverkusen, mas muito distante da briga pelo título. Aliás, título esse que nunca mais veio, vale ressaltar.

O curioso da situação do Hamburg é que o clube nunca passou por efeitos como os de Köln, Borussia Mönchengladbach, Nürnberg e outros campeões nacionais que em alguns momentos foram clubes “ioiô”. Os dinossauros nunca caíram para a segunda divisão (único time alemão a disputar todas as temporadas da Bundesliga), por consequência, nunca sofreram com graves problemas financeiros ou algo do tipo. É um clube, de certa forma, estável, por isso a estranheza desse atual momento.

Se não bastassem apenas os resultados inexpressivos em âmbito nacional, o Hamburg também não segue a linha da maioria dos clubes do país. Dortmund, Bayern, Leverkusen, Bremen (apesar de este também viver fase horrorosa), Schalke e muitos outros observam o mercado alemão e de países emergentes, gastam pouco e ainda formam jogadores com a intenção de utilizá-los com frequência no time principal e não para vendê-los antes mesmo de chegarem à equipe de cima. O HSV não faz nada disso, aliás, faz o contrário.

Berg foi uma tremenda decepção no Hamburg

Berg foi uma tremenda decepção no Hamburg

Desde a temporada 2008/09, quando caiu para o rival do norte, Werder Bremen, na semifinal da Copa da Uefa, o Hamburg tem contratado de montão, inclusive, trazendo jogadores de renome internacional como Ruud van Nistelrooy e Zé Roberto, além de jovens promessas por altos valores, como o sueco Marcus Berg, artilheiro da Eurocopa Sub-21 de 2009, comprado por 10 milhões de euros.

O auge das contratações foi a temporada 2011/12 quando Frank Arnesen assumiu a direção de esportes do clube. O dinamarquês trabalhou por cinco anos no inglês Chelsea e montou uma filial do time londrino na Alemanha. Em seu primeiro ano, o diretor trouxe cinco jogadores oriundos dos Blues e, de todos eles, apenas o turco Gökhan Töre rendeu, não à toa, foi vendido no ano seguinte para o Rubin Kazan da Rússia.

Para a última temporada, Arnesen acertou a mão ao contratar menos e fazer investimentos cirúrgicos como trazer de volta o ídolo Rafael van der Vaart, resgatar a carreira do goleiro René Adler e surpreender com o volante Milan Badelj e com o centroavante Artjoms Rudnevs. Ainda assim, o desempenho na Bundesliga foi abaixo do esperado e o Hamburg, na 7ª colocação, ficou novamente fora das competições internacionais.

Para a próxima temporada, o clube do norte decidiu mudar. Frank Arnesen deixou a barca e Oliver Kreuzer assumiu a direção de esportes. O alemão de 47 anos jogou no Bayern de Munique por seis temporadas nos anos 90 e já está há mais de uma década trabalhando na parte administrativa do futebol. Sua última experiência foi no Karlsruhe, por onde ficou duas temporadas.

A meta de Kreuzer é diminuir a alta folha salarial do clube. Hoje, ela gira em torno de 50 milhões de euros e a ideia é deixa-la abaixo dos 40 milhões. Para alcançar tal objetivo, o destaque do time, Heung-Min Son, foi vendido por 10 milhões ao Bayer Leverkusen e o flop Marcus Berg (terceira maior contratação da história do clube e autor de míseros cinco gols em menos de 50 jogos) também deixará o clube em direção do Panathinaikos.

Apesar dessa filosofia “pé no chão”, o Hamburg parece continuar com a sina de jogar dinheiro fora. Para tomar de exemplo, o reforço mais recente foi o zagueiro Johan Djourou. O francês já era um fracasso no Arsenal e passou seis meses terríveis jogando no Hannover. Apesar de o investimento ter sido barato (750 mil euros), o retorno dentro de campo não parece que será dos maiores.

Em decadência na carreira, o veterano Roque Santa-Cruz também esteve próximo de acertar com o clube. Kreuzer o contatou, mas a mulher do paraguaio não queria morar em Hamburg e o jogador recusou a transferência.

A janela de negociações foi aberta há pouco tempo, isso significa que ainda poderemos ver outras bizarrices no clube do norte. E é assim que o HSV, andando na contramão do futebol germânico, vai se esforçando para manter o status de único clube que disputou todas as edições da Bundesliga.

Imagens: UEFA

O gigante tcheco

Quarentão, Koller já salvou o Dortmund evitando gols(Foto: Getty Images)

Quarentão, Koller já salvou o Dortmund evitando gols
(Foto: Getty Images)

No dia 30 de março de 1973, nascia em Smetanova Lhota, na antiga Tchecoslováquia, um dos personagens mais marcantes do futebol europeu nas últimas décadas: Jan Koller. Com seus dois metros e dois de altura e sua reluzente careca, era impossível assistir um jogo de seu time e não nota-lo em campo.

Em sua extensa carreira, foram mais de 550 jogos como profissional e 279 gols, sendo 55 deles pela seleção tcheca, que defendeu entre 1999 e 2009. Esses números colocam Koller como artilheiro máximo de seu país, empatado em quantidade de partidas com Pavel Nedvěd.

Porém, uma das histórias mais marcantes de sua carreira não envolveu nenhum gol marcado e sim alguns evitados.

Essa história aconteceu em novembro de 2002. Na época, Koller, já campeão alemão pelo Borussia Dortmund na temporada anterior, carregava parte da simpatia do torcedor por seus 11 importantes gols no ano do título. Essa afeição dos fãs com o tcheco aumentou na ocasião que citarei nos parágrafos seguintes.

O Borussia Dortmund foi ao estádio Olímpico de Munique encarar o Bayern em jogo válido pela 12ª rodada da Bundesliga. Os dois times estavam próximos na tabela de classificação e qualquer deslize já poderia traçar o destino de ambos no torneio, apesar do princípio de campeonato. Até por isso, a partida foi tensa, principalmente no lado borussiano. Seis cartões amarelos foram distribuídos pelo árbitro Michael Weiner, cinco deles para o Dortmund.

Tal postura emocional estava justificada pela maneira com o qual o jogo se desenrolou. Koller abriu o placar na etapa inicial, aproveitando passe do brasileiro Amoroso, porém, o BvB foi para o intervalo sem Frings, expulso por ter recebido dois cartões amarelos. O Bayern se aproveitou e com vinte minutos no segundo tempo já havia virado a partida.

No gol da virada, a revolta dos jogadores do Dortmund com um possível impedimento de Claudio Pizarro foi tão grande que Jens Lehmann se exaltou, conseguindo ser expulso e deixando seu time em situação delicada, pois Mathias Sammer havia efetuado sua terceira alteração dois minutos antes.

Sobrou para o gigantão Jan Koller. Quando surgiu na República Tcheca, ele era goleiro, mas ao chegar às categorias de base do Sparta Praga, virou atacante. Nada poderia ser mais estarrecedor para o torcedor do Borussia Dortmund: seu time perdia por 2×1, via seu goleiro ser expulso e passaria pelo drama de ter um centroavante de mais de dois metros defendendo sua meta por vinte minutos.

O que deveria ser o apocalipse para o Dortmund, acabou sendo um dos episódios mais insólitos da história do clube. Koller não só assumiu a bronca como foi bem de goleiro. Além de não sofrer gols, o tcheco mostrou qualidade na saída da meta – não era pra menos, com mais de dois metros – e ainda agarrou um potente tiro de Michel Ballack no último lance do jogo. Koller até tentou marcar um gol de cabeça no fim da partida, mas não foi capaz de evitar a derrota. Ao menos evitou o alargamento do marcador…

A conceituada revista Kicker valorizou tanto a atuação do tcheco que o colocou como “homem do jogo”.

Após deixar o Dortmund em 2006, depois de 73 gols em mais de 160 partidas, o tcheco se aventurou em outros países, como França e Rússia e até mesmo na Baviera, jogando pelo Nürnberg, mas não pôde vencer as lesões. Em 2011, jogando pelo Cannes na 3ª divisão francesa, o atacante encerrou seus 17 anos de carreira.

Fica registrada nossa homenagem ao novo quarentão, Jan Koller, o gigante tcheco!

Faltou sorte

Reus no banco: erro ou azar de Klopp?(Getty Images)

Reus no banco: erro ou azar de Klopp?
(Getty Images)

Nas duas derrotas para o Schalke 04 na atual temporada do Campeonato Alemão, o técnico do Borussia Dortmund, Jürgen Klopp, tomou decisões controversas. No primeiro turno, o atual bicampeão nacional veio a campo com três zagueiros e perdeu em casa por 2×1. Mais recentemente, no duelo realizado neste sábado (09), Klopp decidiu deixar Marco Reus, principal contratação do time na temporada, no banco de reservas e viu sua equipe ser novamente derrotada pelo mesmo placar do turno inicial.

A diferença entre as duas decisões de Klopp está na intenção do técnico, por isso, considero que ele errou no primeiro turno, mas levou azar no segundo.

No duelo realizado no Signal Iduna Park, a ideia do 3-5-2 foi totalmente descabida. Jürgen Klopp tentou utilizar um esquema que não havia usado antes, a não ser em jogos que partiu para o desespero e que a organização não valia muita coisa. Em um confronto importante e na época em que o campeonato poderia ficar aberto, ousar dessa maneira foi um erro brutal, afinal, utilizar três zagueiros era uma opção sem fundamento.

Já no duelo mais recente, Klopp tinha uma ideia fundamentada para colocar Reus no banco e iniciar a partida com Kevin Grosskreutz entre os titulares: neutralizar o lado direito do Schalke 04. Os Azuis Reais vinham motivados desde o empate com o Galatasaray pela UEFA Champions League, resultado que deu um gás para o time, além disso, jogavam em casa e partiriam para cima. Logicamente, o Schalke usaria seu lado mais forte, que é o direito de Farfán e do ofensivo lateral Uchida. A entrada de Grosskreutz era para brecar essas ações ofensivas e ajudar Schmelzer na marcação. Isso sempre foi normal, o que espantou foi a saída de Reus e não a de Kuba, que era mais rotineiro.

Obviamente, a entrada de Grosskreutz daria um decréscimo ofensivo, técnico e criativo ao Borussia Dortmund, mas acrescentaria na defesa. Convenhamos, para quem tem Gündoğan, Götze, Kuba e Lewandowski no ataque, um reforço na marcação em troca de força ofensiva não seria uma perda tão sentida.

Porém, o que vimos em campo foi uma superioridade do Schalke, jogando por terra a mexida de Klopp. Farfán e Uchida ‘engoliram’ Schmelzer e Grosskreutz, não à toa, a jogada dos dois gols saíram no setor da dupla amarela. Na volta do intervalo, Klopp se viu obrigado a mexer no time e sacou Grosskreutz e Hummels – que fez outra partida ruim, mostrando estar com forma física ruim – colocando Reus e Şahin. O BvB melhorou em campo e foi superior na etapa final, mas não significa nada se levarmos pro campo da especulação de um possível início nesse sistema tático.

A estratégia inicial foi boa? Sim. Era a ideal? Há controvérsias. O fato é que o Schalke jogou melhor e soube explorar as deficiências do Borussia Dortmund, como a exposição dos zagueiros – impressionante como Bender tem jogado mal – e, claro, a já citada atuação ruim de Grosskreutz e Schmelzer.

É possível que Jürgen Klopp chame para si a responsabilidade, tome a culpa pela derrota e coloque a superioridade azul em cima da mexida que fez, mas eu não o crucifico. A entrada de Reus desde o início não significa que o resultado positivo viria, mas a sua ausência era bem fundamentada. O fato é que no primeiro turno, Klopp inventou e errou feio, neste sábado não foi invenção, mas algo premeditado. Levou azar, acontece, não o crucifico como no primeiro turno.

O Mago da Floresta Negra

Christian Streich mudou a visão em cima do Freiburg(Getty Images)

Christian Streich mudou a visão em cima do Freiburg
(Getty Images)

Por mais de quinze anos, o Freiburg conviveu com um técnico que tinha grande identificação com o time e a torcida, Volker Finke. Foram 16 anos com Finke no comando técnico, saindo da terceira divisão, chegando à elite do futebol alemão e dando breves passadas pela Copa da UEFA – sendo que em 2002, deu trabalho ao futuro campeão Feyenoord – em menos de dez anos. Finke nunca se abalou com um resultado ruim, não à toa, caiu três vezes e subiu mais duas pelo Freiburg. É uma lenda no clube.

Em 2007, Volker Finke entregou o bastão para Robin Dutt, que assim como seu antecessor, levou o Freiburg para a primeira divisão e ainda quase chegou a Liga Europa em sua primeira temporada na elite do país. Dutt topou o desafio de assumir o Leverkusen e o sucessor foi Marcus Sorg, que estava no time sub-17 do Freiburg.

Diferentemente de seus antecessores, Sorg não teve vida fácil e durou apenas um turno no clube, largando o Freiburg em situação delicada na tabela da Bundesliga. Após mais de duas décadas sem demitir técnicos, o clube da Floresta Negra “provou” desse gostinho ao mandar Sorg embora.

Christian Streich, que era assistente de Dutt e também de Sorg, chegou para apagar um incêndio maior do que o imaginado. Semanas após assumir o comando do time, Streich teve uma péssima notícia: Papiss Demba Cissé, um dos poucos, senão único jogador que se salvava em todo elenco do Freiburg, foi vendido para o Newcastle e disputaria a Premier League. Na época, cheguei a comentar que esse foi o atestado de óbito do Freiburg. Mero engano! O “mago” Streich surpreendeu a todos.

O Freiburg fez uma impensável reconstrução de seu elenco na metade da temporada. Oito jogadores chegaram e outros oito deixaram o clube antes do início do segundo turno. Entre os contratados da época, veio Fallou Diagne, zagueiro de 23 anos. O senegalês tomou conta da zaga, antes, muito vasada do Freiburg e é, até hoje, uma das peças de confiança de Streich.

As diversas mudanças em si foram apostas de alto risco e com grande chance de dar errado, mas o pequeno percentual que dava vantagem ao clube da Floresta Negra prevaleceu e o clube teve a sétima melhor campanha do segundo turno, encerrando a Bundesliga em 12º e sem grandes sustos.

Para essa temporada, pouca coisa mudou. O Freiburg seguiu investindo pouco e apostando na juventude de seu elenco. Streich, que ficou conhecido por lapidar atletas como Dennis Aogo, Jonathan Pitroipa, Daniel Schwaab e o ótimo Oliver Baumann ainda na base, tem o segundo time mais jovem da Bundesliga – atrás apenas do Werder Bremen – com 24,2 de média de idade. Entre todos os atletas que entraram em campo com a camisa do Freiburg, onze estão abaixo dos 23 anos.

Schmid é um dos grandes nomes do Freiburg na temporada(Getty Images)

Schmid é um dos grandes nomes do Freiburg na temporada
(Getty Images)

Entre a garotada, dois nomes chamam a atenção: o já citado Oliver Baumann, goleiro titular do Freiburg desde a temporada 2010/11, quando tinha apenas 20 anos, e Jonathan Schmid, meia-atacante franco-austríaco que se tornou titular absoluto desde a chegada de Streich ao clube. Os dois, ao lado de Max Kruse – outro jovem destaque, mas criado no Werder Bremen – e Oliver Sorg – esse sim criado no Freiburg – são os jogadores com maior número de atuações pelo clube na Bundesliga.

Aliás, já que citei Baumann, vale dizer que ele é o jogador mais caro do clube, tendo um valor de mercado de cinco milhões de euros*. Para tomar de exemplo, dez jogadores do Bayern valem menos que isso, porém, são atletas que quase nem jogam ou que acabaram de subir para o time profissional. Isso dá uma dimensão de quão grande é o feito de Streich, que com um elenco barato e pouco badalado, está brigando por vaga nas competições internacionais.

Outro mérito de treinador é saber trabalhar a cabeça do jovem elenco. O natural seria que o time se vislumbrasse com o atual momento e começasse a planejar voos mais altos, quem sabe uma vaga na UEFA Champions League ou o título da Copa da Alemanha – o Freiburg é semifinalista –, mas o próprio técnico deu entrevistas recentes dizendo que pouco se importa com uma disputa internacional e que mais uma temporada na elite do futebol do país seria de bom grado.

Pés no chão: essa é uma das grandes mágicas de Streich. Boa parte do elenco trabalha com ele desde os anos finais da última década e são atletas que já criaram até mesmo vínculos emocionais pelo largo tempo de convivência. Em partes, seu trabalho lembra muito o de Jürgen Klopp no Borussia Dortmund, aonde chegou sem rumo, fez uma “limpa”, puxou garotos da base e fez um bom serviço de garimpagem de talentos em outras equipes, formando uma base sólida e, no caso borussiano, vencedora.

Não podemos deixar de mencionar a estabilidade interna que os treinadores que por lá passam, recebem. Durante 37 anos, Achim Stocker foi o presidente do Freiburg, se tornando o profissional mais duradouro no citado cargo em toda história do futebol alemão profissional. Ele foi o responsável pela vinda de Volker Finke e também pela passagem de bastão a Robin Dutt. Já falecido, Stocker não pôde ver seu pupilo Fritz Keller, vice-presidente no princípio dos anos 90, trazer Christian Streich para uma situação emergencial e ditar novos caminhos para o clube.

A confiança do elenco com Streich é mútua e o carisma do treinador é gigantesco. Esses fatores trazidos pelo Mago da Floresta Negra podem fazer com que o Freiburg chegue longe nos próximos anos, sempre responsabilizando Christian Streich, o homem que caiu de paraquedas no clube, mas com a consciência de onde e como pousar, para levantar logo e seguir em frente. Esse é o Mago da Floresta Negra.

*Dados obtidos no site http://transfermarkt.de/

Os centroavantes do Bayern

Quem dera que Mario Gomez fosse reserva no Bayern, pura e simplesmente, pelos gols em profusão de Mario Mandžukić. Se Super Mario receber mais minutos, não duvido que bata o recorde do atual titular. Porém, o croata, como cheguei a dizer meses atrás, tem muito mais mobilidade e tira a previsibilidade que o time tem com Mario Gomez.

Normalmente, Mandžukić invertia seu posicionamento com Thomas Müller, mas notei nos jogos recentes que esse “troca-troca” é constante em todos os setores do ataque. Exceto Ribéry, que fica mais preso na esquerda – embora também apareça algumas vezes pelo centro – todos os homens de frente participam dessa rotação ofensiva. Em um mesmo jogo, os bávaros ficam com, pelo menos, três centroavantes diferentes, além das trocas na armação de jogadas.

Capturei algumas imagens do primeiro tempo de Wolfsburg x Bayern, duelo vencido pelos bávaros por 2×0, para demonstrar essa movimentação:

Com dois minutos, Mandzukic deixa a área para as entradas de Kroos e Müller

Com dois minutos, Mandzukic deixa a área para as entradas de Kroos e Müller

Nesse lance, o desenho em campo já coloca Mandzukic avançado

Nesse lance, o desenho em campo já coloca Mandzukic avançado

Menos de um minuto depois, Müller já está no ataque

Menos de um minuto depois, Müller já está no ataque

Observe esta jogada: note como Kroos, Müller e Mandžukić começam em uma posição e rapidamente conseguem mudar a formatação ofensiva.

A jogada começa com Kroos pelo centro e Müller na direita

A jogada começa com Kroos pelo centro e Müller na direita

Logo, Mandzukic avança e Kroos entende o recado

Logo, Mandzukic recua e Kroos entende o recado

No final da jogada, Kroos já era o centroavante

No final da jogada, Kroos já era o centroavante com Müller centralizado

Note também que, na saída de bola, o Bayern geralmente forma um triângulo, com o homem da bola centralizado e outros dois pelos lados para auxiliar. Normalmente, Bastian Schweinsteiger fica mais recuado para organizar essa saída.

Schweini começou o lance de trás

Schweini começou o lance de trás

É por essas e outras que Mario Gomez e até mesmo Robben não retornam ao time titular. São jogadores mais fixos e previsíveis e que só atrapalham a movimentação armada por Jupp Heynckes.