Qual a origem dos nomes dos estádios franceses? (Parte I)

Não sei vocês, mas sou do tipo de pessoa que fica sempre curioso em saber os motivos de os estádios terem os nomes que têm. Fico instigado a entender se aquele cidadão que está com o nome estampado na fachada foi um jogador importante, um dirigente histórico ou apenas um político da região. Considero saber isso como algo fundamental para entendermos mais das origens dos times.

Motivado por essa curiosidade pessoal, decidir fazer um levantamento justificando os nomes dos estádios das 20 equipes que disputam a primeira divisão do Campeonato Francês nesta temporada 2016/2017.

Como em função da Eurocopa 2016 muitos mudaram de casa e até adotaram os famigerados naming rights em seus estádios, decidi também citar os nomes dos campos antecessores e a razão dos respectivos nomes. Aliás, ‘linkado’ as nomenclaturas estará a localização dos estádios no Google Maps, para que você também possa ver mais de cada um.

Confira agora a primeira das duas partes do especial:

Angers

Estádio Jean-Bouin – inaugurado em 1912 – capacidade para 16.500 pessoas

O estádio homenageia Jean Bouin, um famoso corredor francês do início do século XX, que conquistou uma medalha de prata nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo, na Suécia. Ele foi medalhista nos 5.000 metros livres. Na França, são quase dez estádios com esse nome, incluindo um em Marseille, cidade onde nasceu. No caso do Angers, o estádio foi construído em 1912, com o nome de Bessonneau, em homenagem ao empresário local Julien Bessonneau. Na época, nem existia o Angers, mas sim o Club Sportif Bessonneau. Apenas em 1957 foi rebatizado como estádio Jean Bouin, para homenagear o ex-atleta.

Bastia

Estádio Armand Cesari – inaugurado em 1932 – capacidade para 16.078 pessoas

Casa do Bastia, o Armand Cesari homenageia ex-capitão do time | Foto: SC Bastia

Casa do Bastia, o Armand Cesari homenageia ex-capitão do time | Foto: SC Bastia

Inaugurado em 1932, a casa do Bastia teve como primeiro nome estádio Doutor Luciani, homenagem ao presidente do clube na época e idealizador do projeto. Quatro anos depois, o local foi rebatizado com o nome atual: Armand Cesari. Ele foi membro de uma família bastante atuante no clube. O irmão Jean-Marie jogou pelo time principal, enquanto o pai Joseph Cesari foi presidente do clube entre 1922 e 1925. Já Armand foi capitão da equipe durante um bom tempo, se tornando um dos atletas mais famosos do clube. Ele desapareceu em janeiro de 1936, quando tinha 33 anos. O nome do estádio foi uma forma de homenageá-lo.

Bordeaux

Estádio Matmut-Atlantique – inaugurado em 2015 – capacidade para 42.115 pessoas

O Bordeaux jogou muito tempo no estádio Chaban-Delmas até se mudar para o moderníssimo Matmut-Atlantique, construído entre 2012 e 2015, também visando a Eurocopa de 2016. A questão do nome gerou muitas discussões entre os torcedores, já que a empresa do ramo de companhia de seguros Matmut investiu € 2 milhões para estampar o nome do grupo no estádio por dez anos. Uma ala de torcedores, descontente com isso, realizou uma votação para escolher o novo nome e decidiram por homenagear René Gallice, sexto jogador com mais atuações com a camisa do clube. Por fim, ficou o nome Matmut-Atlantique e a empresa que gere o estádio é a Bordeaux Atlantique, sendo que o financiamento é feito entre a cidade de Bordeaux e a própria empresa.

Sobre o Chaban-Delmas, que homenageia o estadista francês Jacques Chaban Delmas, hoje é de domínio do Union Bordeaux Bégles, clube de rugby. O estádio passou a ser chamado assim em 2001, após a morte dele em 2000 – antes era conhecido como Parc Lescure.

Caen

Estádio Michel D’Ornano – inaugurado em 1993 – capacidade para 20.453 pessoas

Inaugurado em 1993, o estádio do Caen homenageia o político francês Michel D’Ornano. Ele morreu em 1991, após ser atropelado por uma van. A ideia de homenageá-lo foi do senador-prefeito de Caen, Jean-Marie Girault, já que ele entendia que D’Ornano era um amigo dos esportes e a construção do estádio estava ligada ao nome do político. Por via de curiosidade, antes desse estádio, os azuis e vermelhos jogavam no estádio Venoix, em razão do bairro onde está localizado. Em 2013, o local foi renomeado como estádio Claude Mercier, em homenagem a um ex-jogador do clube. O time reserva e de base do Caen utilizam o campo, assim como algumas equipes amadoras que por lá treinam.

Dijon

Estádio Gaston Gérard – inaugurado em 1934 – capacidade para 13.778 pessoas

A casa do Dijon é um dos poucos que tem o mesmo nome desde sua inauguração. Gaston Gérard, que dá nome ao estádio, foi um influente político no início do século passado, tendo sido vice-prefeito de Dijon e primeiro-ministro do Turismo francês. Ele nasceu em 1878 e morreu em 1969, vivendo sempre na mesma cidade, o suficiente para ser imortalizado no estádio da cidade.

Guingamp

Estádio Municipal de Roudourou – inaugurado em 1990 – capacidade para 18.465 pessoas

O nome do estádio do Guingamp é bem simples de explicar: ele fica localizado no distrito de Roudourou. O Guingamp, apesar de ser um clube de 114 anos, só atuou profissionalmente desde 1984. Então, antes do Roudourou, jogava no estádio Yves-Jaguin, que homenageava um ex-presidente do clube nos anos 40. Esse estádio, aliás, vive um momento curioso. O time reserva e de base do Guingamp treinavam ali, mas discute-se a possibilidade de venda do local e até mesmo de uma demolição.

Lille

Estádio Pierre Mauroy – inaugurado em 2012 – capacidade para 50.157 pessoas

Na onda de reformas, o estádio do Lille foi o primeiro a ser concluído | Foto: LOSC

Na onda de reformas, o estádio do Lille foi o primeiro a ser concluído | Foto: LOSC

Originalmente conhecido como Grand Stade Lille Metrópole, o estádio recebeu o nome de Pierre Mauroy, em junho de 2013. A medida foi adotada pelo Conselho Metropolitano de Lille, que visava homenagear o ex-prefeito de Lille e ex-primeiro-ministro, que morreu no mesmo mês. Muitos não gostaram, pois o político não era um grande fã de esportes e que a decisão foi tomada sem consultas a outros órgãos e aos torcedores.

Antes da moderna arena, o Lille jogou em quatro estádios: o Jules-Lemaire (dentista famoso por ter descoberto propriedades antissépticas de ácido de carbono), que foi utilizado até a II Guerra Mundial; Henri Jooris (dirigente bastante atuante na região de Lille) aproveitado após a guerra e até os anos 70; Grimonprez-Jooris (uma homenagem ao próprio Henri Jooris e o ex-campeão de hóquei de campo Félix Grimonprez), utilizado entre 1975 e 2004; e mais recentemente o Lille Metropole, aproveitado entre 2004 e 2012.

Lorient

Estádio Yves Allainmat – Le Moustoir – inaugurado em 1959 – capacidade para 18.500 pessoas

O apelido de “Moustoir” acabou ficando para o estádio do Lorient por ser exatamente o bairro onde o clube fica localizado. Em 1993, a casa dos Merlus foi rebatizada com o nome de Yves Allainmat, ex-vice-prefeito da cidade, que morreu no mesmo ano.

Lyon

Parc OL – inaugurado em 2016 – capacidade para 59.186 pessoas

O moderníssimo estádio do Lyon é gerido pelo OL Groupe, que foi fundado em 1999 para supervisionar o clube. Oficialmente, o estádio se chama Parc OL, mas também é lembrado por Grand Stade de Lyon ou Stade des Lumières. O antigo estádio Gerland, inaugurado em 1920 e utilizado pelo OL desde sua fundação, em 1950, até 2015, levava esse nome por estar localizado no bairro com mesmo nome.

Marseille

Estádio Orange Vélodrome – inaugurado em 1937 – capacidade para 67.394

Entre mudanças e reformas, o OM sempre seguiu no Vélodrome | Foto: Yannick Parienti/OM

Entre mudanças e reformas, o OM sempre seguiu no Vélodrome | Foto: Yannick Parienti/OM

Casa do único francês que já conquistou uma Liga dos Campeões, o mítico Vélodrome ganhou naming rights para dez anos, contando a partir de 2016, da empresa Orange. O nome original, por razões óbvias, se deve ao fato de também abrigar corridas de ciclismo.

*Nos próximos dias, possivelmente após o Carnaval, trago a segunda parte, com as origens dos demais dez times;

12 mil alemães escancaram a crise entre Bordeaux e torcida

Mais de mil quilômetros foram atravessados pelos alemães (Foto: RTL)

Mais de mil quilômetros foram atravessados pelos alemães

12 mil alemães se deslocaram de Frankfurt até Bordeaux para acompanhar a partida do Eintracht Frankfurt contra o Girondins de Bordeaux pela Liga Europa na última quinta-feira. Frankfurt fica perto da França, em algumas cidades até dá para chegar em uma viagem de carro de duas horas de duração. Mas Bordeaux é diferente, fica próximo do oceano. Ou seja, mais de mil quilômetros foram atravessados. Tudo por causa de um jogo de futebol. Parece coisa tola, mas não é. É sensacional! Poucas coisas no mundo fazem mais de 10 mil pessoas atravessarem uma quantidade enorme de quilômetros do que o futebol.

Mas a sensação alemã é completamente oposta pro Bordeaux, e não falo da derrota por 0-1 que tirou o time francês da competição. Se levarmos em conta que 20 mil pessoas foram ao estádio Jacques Chaban-Delmas na noite da última quinta-feira, constata-se que apenas 8 mil destes torcedores foram para lá apoiar os girondinos.

Um soco bem dado no estômago!

Mais do que isso, é o registro de como a relegação a um papel secundário na França afetou a relação do Bordeaux com a torcida.

Da temporada 2005/06 até 2009/10, os Girondinos ficaram sempre entre os seis primeiros colocados, somando ao menos 60 pontos e vencendo mais de 15 jogos em cada uma destas temporadas. Em 2009, inclusive, foi o campeão nacional, quebrando com a série de sete títulos consecutivos do Lyon. Somado a isso, notou-se uma grande evolução na média de público no Jacques Chaban-Delmas. De 24.247 pessoas, subiu para 29.267 entre as temporadas citadas no início do parágrafo. Hoje, o estádio do Bordeaux comporta mais de 34 mil pessoas. Se descontarmos alguns quebrados que a segurança exige para oferecer conforto ao torcedor, era quase lotação máxima nos jogos do Bordeaux.

Da glória para a lama: Triaud refez o time campeão em 2009, mas se mostra descontente com elenco atual

Triaud foi muito festejado pela torcida e elenco com o título em 2009

Desde então, protagonismo não tem sido o forte do Bordeaux. Equipes como Marseille, Lille e Lyon, que eram seus grandes adversários em anos anteriores, souberam se renovar, uns com maiores facilidades que outros, mas conseguiram mudar. Os Girondinos estagnaram. Vender se tornou o forte do clube do presidente Jean-Louis Triaud. Yoann Gourcuff, Wendel, Fernando, Marouane Chamakh, Yoan Gouffran, Benoît Trémoulinas, Jaroslav Plašil e outros atletas importantes no título francês em 2009 foram vendidos, alguns até de forma muito passiva, e os substitutos foram atletas medianos como Nicolas Maurice-Belay, Fahid Ben Khalfallah e Cheick Diabaté.

Nem mesmo Triaud consegue motivar a torcida girondina a ir pro estádio. Após a partida contra o Frankfurt, ele declarou ter visto “um time de aposentados” com a camisa do Bordeaux. O reflexo disso é que nas últimas três temporadas, a média de público do time não chega nem a 21 mil, e no último ano a média foi de 19.403 torcedores por partida, número absurdamente ruim.

E para quem acha que a torcida não influencia no resultado dentro de campo, se engana no quesito Bordeaux. Entre 2005 e 2010, os Girondinos sempre somaram ao menos 40 pontos em casa, tendo o ápice em 2008/09, ano do título, quando conquistaram 47 pontos no Chaban-Delmas. Nas últimas três temporadas, a pontuação como mandante não passou dos 35.

Média enganosa

Nesta temporada, o número é enganoso. A média de público é de 20.455 torcedores por partida, mas este dado é sustentado pelos jogos diante de Monaco e Paris Saint-Germain. Contra os monegascos, 32 mil pessoas assistiram a peleja, enquanto contra os parisienses, 29 mil. Só que contra Bastia, Stade de Reims, Sochaux e Montpellier, o Chaban-Delmas não recebeu mais de 15 mil pessoas. Isso mesmo, menos da metade da capacidade do estádio. Tal situação só havia ocorrido uma vez na temporada anterior.

O clima ruim entre torcida e time não é só visto nas arquibancadas vazias, mas também na truculência dos ultras já notada em partidas anteriores. Na véspera do jogo contra o Montpellier, na 11ª rodada, alguns torcedores de organizadas do Bordeaux invadiram o treino do time e foram conversar com os atletas. No dia da peleja, vitória por 2-0. Se foi essa pressão que influenciou no resultado, não posso dizer, mas que é um péssimo sinal, é.

A única motivação que Triaud e companhia encontram para reverter essa história está na construção do novo estádio que deverá ser inaugurado em 2015. A obra, que custou 173 milhões de euros, visa a Eurocopa de 2016 e deverá acomodar 42 mil pessoas.

Mas de que adiantará um estádio bonito e de primeiro mundo se quem jogará por lá semanalmente será um time feio e que lembrará a equipe do fim dos anos 50 e início dos anos 60, quando frequentou a segunda divisão? Um “mísero” estádio não promoverá a reconciliação com aqueles vários torcedores que deixaram o clube em segundo plano.

Imagens: Divulgação