Deschamps 2020: Os reflexos da renovação de contrato

O que vinha sendo especulado há algumas semanas se concretizou na terça-feira (31): Didier Deschamps renovou contrato com a Federação Francesa de Futebol (FFF) e treinará a seleção nacional até 2020.

Até lá, DD, que assumiu a equipe em 2012, concluirá o ciclo da Copa do Mundo do próximo ano e terá mais uma Eurocopa pela frente. O desafio será conquistar feitos relevantes a frente de uma das mais talentosas gerações do futebol mundial, recolocando a França no hall das grandes seleções do planeta.

Essa renovação traz à tona diversos reflexos, negativos e positivos, e que devem ser contrabalanceados na hora de uma análise mais precisa sobre o benefício da escolha da FFF por manter DD por mais anos.

Negativamente, a conclusão é quase unânime: a pequena margem de progressão em qualidade de jogo. Deschamps tem em suas mãos uma vasta lista de atletas de grande talento, como Kyllian Mbappé, Antoine Griezmann, Paul Pogba, Thomas Lemar e outros tantos que compõem o elenco atual – fora os que sequer são lembrados. É gente suficiente para montar uma equipe capaz de fazer frente a qualquer seleção do mundo, apresentando futebol de ótimo nível.

O que tem sido visto dentro de campo, entretanto, está longe disso. Até mesmo na Eurocopa, onde foi vice-campeã, perdendo a final em casa para Portugal, os franceses estiveram longe de convencer. Tirando a excelente exibição na semifinal, diante da Alemanha, foram poucas aparições convincentes.

Iniciou-se o ciclo mundial, mas mesmo com o acréscimo de outros nomes talentosos, como Mbappé, o progresso foi mínimo. Apesar de ter garantido presença na Copa da Rússia sem grandes sustos – sete vitórias, dois empates e uma derrota – alguns dados chamaram a atenção, como ter o 15º ataque da qualificação europeia com 18 gols.

O site da UEFA aponta ainda que a França finalizou 180 vezes durante toda a competição, o que lhe dá média de um gol a cada dez chutes. Como exemplo de comparação, Bélgica e Alemanha, que tiveram os melhores ataques, precisavam de menos de cinco arremates (43 gols em 214 chutes e 43 em 209, respectivamente).

O contrastante é ver que os Bleus tiveram a sétima média de finalizações entre todas as seleções europeias. Muito chute e pouco aproveitamento.

Além do desempenho dentro de campo, Deschamps possui ainda os seus “soldadinhos”, expressão que o colega Renato Gomes gosta de usar nas edições de Le Podcast du Foot. Moussa Sissoko, Blaise Matuidi, Kingsley Coman são alguns dos exemplos de atletas que, invariavelmente, aparecem no time titular em momentos importantes, onde outros poderiam estar entre os titulares.

Deschamps deverá continuar fora da seleção | Foto: AFP

Nessa mesma linha, surge o caso de Karim Benzema. Seu último jogo pela seleção francesa foi em 8 de outubro de 2015. Desde então, esteve envolvido na polêmica do sex tape de Mathieu Valbuena, foi afastado e, de certa forma, perdoado pela FFF. Não por Deschamps.

Prestes a completar 30 anos, podemos cravar que aquela goleada por 4 a 0 sobre a Albânia, há dois anos, ficará registrada na história como sua última aparição pela seleção francesa.

Um fim trágico de um dos melhores atacantes que surgiu na França desde Thierry Henry. Habilidade, inteligência e faro de gol desperdiçados por polêmicas extracampo. E falo “polêmicas” mesmo, no plural.

Para refrescar a memória, vale lembrar que Benzema sempre foi alvo de críticas, especialmente de pessoas ligadas a extrema-direita francesa, por sua origem argelina, o que lhe tornaria “menos francês”, e também por não cantar a tão exaltada Marselhesa, o hino nacional.

Seus problemas também estiveram relacionados a relação com o técnico Raymond Domenech, que lhe deu a primeira chance nos Bleus em março de 2007. Em 2010, Benzema, na época se adaptando ao Real Madrid, sequer ficou na lista de 30 jogadores pré-convocados para a Copa do Mundo.

Um curto período antes, o atacante esteve envolvido em um escândalo sexual com uma prostituta menor de idade – importante frisar que a prostituição é legalizada na França, mas as prostitutas precisam ser maiores de idade. Além dele, Franck Ribéry também estava nesse imbróglio judicial – que resultou na absolvição da dupla.

Em menos de dez anos de serviços prestados à seleção, Benzema acumulou um histórico de polêmicas maior do que de boas atuações dentro de campo – 27 gols em 81 jogos, Olivier Giroud, por exemplo, já têm 28 tentos em 68 aparições.

Pontos positivos

Próximo desafio de DD será a Copa de 2018 | Foto: Guillaume Bigot

Sim, amigos, há pontos positivos na renovação de Deschamps. O principal deles, a meu ver, é a questão da recuperação do respeito internacional. Vamos lembrar que de 2008 a 2012, a seleção francesa emendou uma série de vexames, todos por causa de problemas extracampo que refletiram no desempenho coletivo, tendo como ápice a greve comandada por Nicolas Anelka, Patrice Evra e cia ltda. na Copa do Mundo de 2010, onde os Bleus foram eliminados na fase de grupos.

Desde que assumiu o comando da equipe, após a saída de Laurent Blanc depois da decepcionante participação na Eurocopa de 2012, DD tratou de afastar problemas alheios as quatro linhas. Não só Benzema não voltou mais depois da polêmica com Valbuena, mas Samir Nasri, outro menino-problema, foi descartado sumariamente pelo treinador. Evra só retornou depois de muito tempo e de uma enquadrada do comandante.

Essa nova linha de trabalho fez com que a França passasse sem sustos ou turbulências pela Copa do Mundo de 2014 e pela Euro de 2016. Claro que controlando os ânimos dos atletas, é hora de cobrar resposta do conjunto armado pelo treinador dentro de campo.

Mas, mais do que a disciplina imposta e o afastamento de crises extracampo, vale a indagação: suponhamos que Deschamps seja demitido agora, quem assumiria? Vamos sempre nos lembrar que o futebol de seleções é um tabu para grandes técnicos, já que o dia-a-dia dos clubes, as repetições, os treinamentos constantes com os mesmos atletas, são substituídos por encontros esporádicos e em épocas que lhe impossibilitam de tratar o time com a intensidade que possa entender necessário.

Quem toparia essa bucha?

Zinedine Zidane? Será mesmo que Zizou deixaria o futebol de clubes, e arriscaria seu status obtido dentro de campo comandando agora a seleção?

Arsène Wenger? Seria um prêmio a sua brilhante carreira na Inglaterra, mas, aos 68 anos, teria interesse em assumir a França?

E um estrangeiro? Duvido muito que a FFF possa fazer essa escolha.

A decisão de renovar com Deschamps, antes mesmo de saber o que acontecerá no Mundial, pode ser controversa, mas a federação não deixa de ter seus argumentos para fazer isso. O problema é o contexto diferente. DD pegou uma seleção em frangalhos, com a moral afundada nas catacumbas do Stade de France e com uma série de perguntas na cabeça. Hoje, com o surgimento de jogadores talentosíssimos e o status de favoritismo para 2018, na Rússia, fica o questionamento de suas capacidades para levar esse time a um lugar maior.

Mutante, França tem prova de fogo para buscar o bicampeonato

Foto: FFF

Foto: FFF

Não há seleção na Copa do Mundo que seja mais mutante que a França. Há um ano, muitos acreditavam que a ausência no Mundial era algo provável de acontecer. Após a histórica vitória sobre a Ucrânia na Repescagem, os franceses começaram a ser colocados no bloco de coadjuvantes.

O triunfo sobre a Holanda (2×0), em março deste ano, trouxe novos horizontes para a equipe comandada por Didier Deschamps. Os então personagens secundários começaram a ser apontados como potenciais surpresas da Copa. Entretanto, o corte de Franck Ribéry, semanas antes do debute na competição, fez muitos darem passos atrás com os Bleus.

Leia mais no Doentes Por Futebol:

Vai que é tua, Griezmann!

Foto: AP

Foto: AP

A Copa do Mundo nem começou e a França já sofreu a primeira derrota. Franck Ribéry foi vencido pelas dores nas costas e teve de ser cortado da competição. Desde que os 30 atletas convocados (23 para a lista final e sete na de espera) chegaram ao centro de Clairefontaine para iniciar a preparação para o mundial, o atleta do Bayern não havia participado de nenhum coletivo e causava imensas dúvidas na comissão técnica até a última sexta-feira (06), quando foi decretada a retirada do camisa 7.

Este corte tem muita relação com a situação de Zinedine Zidane em 2002. Durante amistoso diante da Coreia do Sul, no dia 26 de maio, em Suwon, Zizou sentiu um músculo da coxa e deixou a partida antes dos 40 minutos da etapa inicial. Quatro dias depois, a França iniciou a trágica campanha na Copa na derrota por 1-0 para Senegal. Zidane só pode entrar em campo na rodada final diante da Dinamarca, quando só uma vitória poderia lhes classificar. A derrota por 2-0 para os nórdicos sacramentou a pior campanha francesa em Copas até então (superada em 2010).

Iniciar o Mundial tendo o principal astro baleado não é bom, principalmente para o lado psicológico dos atletas que estão em campo, principalmente pelas pressões externas. Torcida e imprensa começariam a questionar quando o atleta poderia entrar em campo. Alguns jogadores mais paranoicos poderiam pensar que tamanha angústia em ver a estrela do time poderia representar desconfiança aos substitutos.

Se o tempo de recuperação de Ribéry era incerto ou até mesmo poderia lhe colocar à disposição em fases agudas da Copa do Mundo, o melhor mesmo é deixa-lo de fora. Quanto mais cedo o time aprender a viver sem ele, melhor.

Há vida sem ele

Foto: AFP

Foto: AFP

E também não custa ressaltar que o atleta do Bayern não é vital para a seleção francesa. Não quero desmerece-lo, longe disso. Quem me conhece sabe que sou fã dele, admiro demais o estilo de jogo “abusado” de Ribéry. Apenas quero pontuar que há vida sem ele na seleção.

Não canso de dizer que o coração da equipe do técnico Didier Deschamps é o meio-campo. O setor composto por Yohan Cabaye, Paul Pogba e Blaise Matuidi tem enorme qualidade e o trio se completa justamente por terem valores técnicos diferentes. Cabaye tem o excelente passe e, atuando recuado, é efetivo nos desarmes; Matuidi acrescenta com as passadas largas, marcação firme e ocupação de espaços; já Pogba é a joia do time, com uma classe com a bola no pé sem igual. Se o trio for desmanchado, aí sim é motivo para maiores preocupações.

A ausência de Ribéry tira uma boa porcentagem ativa do cérebro do time. Perde-se alguma parte agressiva, de improvisação e ousadia nos dribles. Mas não é isso que fará o coração parar de bater.

Deschamps tem até o dia 15 (data da estreia diante de Honduras, no estádio Beira-Rio) para recuperar a parte cerebral perdida com a ausência de Ribéry. Minha sugestão não poderia ser outra: GRIEZMANN NELES!

O atleta de 23 anos participa da seleção desde fevereiro deste ano. Pouco tempo, reconheço, mas nada disso está valendo agora. O que conta é bola no pé, e Griezmann tem talento de sobra para assumir a bronca.

O jogador da Real Sociedad não é tão agressivo quanto Ribéry, mas é muito técnico, tem excelente condução de bola e é extremamente inteligente dentro de campo. A inteligência e rapidez de raciocínio foram comprovadas no segundo gol que marcou na goleada por 8-0 diante da Jamaica, onde tocou de calcanhar, estando a poucos centímetros do arqueiro adversário.

Os números também jogam a seu favor. Ao longo da temporada na Espanha, foram 20 gols e cinco assistências em 31 jogos. O próprio Ribéry teve números semelhantes na Alemanha (15 gols e 15 assistências), só que em mais jogos. Em dados gerais, Griezmann participou de 25 dos 62 gols da Real Sociedad na temporada (mais de 40%), enquanto Ribéry foi atuante em 30 de 94 tentos bávaros (31%). Não podemos de nos esquecer de fazer a ressalva que um jogou no campeão alemão e o outro no 7º colocado do Campeonato Espanhol. Mas que os números chamam a atenção, chamam.

Segundo o WhoScored, site especializado em dados estatísticos, Griezmann ainda teve a quarta melhor média de chutes do Campeonato Espanhol, acima de Diego Costa, Rakitić, Neymar e do companheiro de seleção Benzema. Ele também foi eleito pelo mesmo site como Homem do Jogo em quatro partidas. Neste quesito na Sociedad, perdeu apenas para o mexicano Carlos Vela, que teve temporada absurda (21 gols e 14 assistências).

A realidade é que ele só precisa se provar na seleção francesa simplesmente porque pouco jogou, participando apenas de amistosos. Talvez se fosse convocado antes, já não teríamos esta dúvida em cima dele.

Insisto que apostaria nele. Habilidoso, agressivo, agudo e nem forçaria Deschamps a mexer no esquema. Griezmann tem qualidades que podem acrescentar a França sem fazer com que a ausência de Ribéry seja sentida. Como disse acima, o coração e a alma francesa estão no meio-campo. O que vem adiante é complemento do bom time de DD.

Pogba e Benzema

Foto: Getty

Foto: Getty

Sem Ribéry, é hora de surgirem novas lideranças técnicas no time. Uma delas, sem dúvida alguma, é Karim Benzema. Com os dois gols sobre a Jamaica, ingressou na lista dos dez maiores artilheiros da seleção francesa. Peça de confiança de Deschamps e vindo de ótima temporada no Real Madrid, o mínimo que se espera dele é assumir a bronca no elenco.

Mas também é momento de afirmação para Paul Pogba. É impressionante como a camisa azul da França cai bem nele. É o maestro do meio-campo. É um craque! Aos 21 anos, solto na seleção e consolidado na Juventus, não vejo hora melhor para se fixar de vez como um dos “caras” da equipe de Deschamps.

Vejo Pogba subindo alguns degraus no ranking da responsabilidade com a ausência de Ribéry. O vejo também como capaz de assumir essa carga extra de trabalho e ajudar a carregar o time ao lado de Benzema.

Opções

Na goleada por 8-0 sobre a frágil Jamaica, Deschamps mostrou ter opções para substituir o meia-atacante do Bayern. Começou a partida no mesmo 4-3-3 habitual, mas com Benzema jogando pela esquerda, tendo Olivier Giroud como centroavante. O sistema lembrou os tempos de Benzebut no Lyon, quando o homem de centro no ataque era Fred.

Esta opção se mostrou interessante, vide que Benzema e Valbuena estiveram próximos em boa parte do tempo e se entenderam bem. O atacante do Real Madrid sabe trabalhar fora da área e não se mostrou distante da grande área, o que é bom, pois aumenta o poder de finalização do time.

A contrapartida negativa é a recomposição. Benzema não fez isso e deixou Patrice Evra exposto nas poucas vezes em que os jamaicanos ousaram atacar.

Outra variação que o esquema de Deschamps proporcionou, e que também se mostrou interessante, é a utilização do 4-4-2 em linha. Neste sistema, Moussa Sissoko atuaria aberto pelo flanco direito, com Valbuena deslocado para a esquerda. O acréscimo disto é a movimentação do meia do Marseille, se aproximando mais dos centroavantes e tendo maior ângulo de chute.

Remy é outra opção, mas aí sem mexida de esquema. Seria o mesmo caso de Griezmann. A escolha, portanto, se torna particular de DD (apesar de já ter feito meu jabá em prol de Griezmann).

Este leque de opções só comprovam minha tese: Ribéry não é vital para a seleção francesa. É craque, é importante, blá, blá, blá, mas há vida sem ele. O coração do time é o tripé de meio-campo.

Problema

A França ainda tem um problema que não sei medir o quão grave é devido aos adversários das últimas semanas: a defesa. A dupla de zaga titular jogou pouco durante a temporada. Raphaël Varane atuou só 23 vezes pelo Real Madrid (a contrapartida é que 17 foram em 2014), já Mamadou Sakho participou de apenas 19 jogos pelo Liverpool (seis vezes em 2014).

Mas o problema maior não é o número de jogos, mas sim o que foi visto em campo. O único gol sofrido na preparação para a Copa foi em jogada aérea, na partida diante do Paraguai. Mais do que isso, a defesa francesa mostrou hesitação em levantamentos na grande área diante dos sul-americanos e também diante da Jamaica.

Sempre é bom lembrar que Deschamps tardou a encontrar a dupla de zaga ideal. Laurent Koscielny, que hoje é banco, já foi titular. Eric Abidal, que ficou fora da lista de convocados, também já foi. O próximo da fila é Eliaquim Mangala. Será que DD mantém esta dupla de zaga até o fim da Copa? Veremos.