Guerra sem causa não tem vencedor

Pachecos x Eurocêntricos: uma guerra forçada

As comparações entre o futebol praticado no Brasil e no exterior estão longe de encontrar o limite. Diria até mais: o auge dessas discussões só irá chegar em uma nova era, com outras pessoas, novos modos de pensar e analisar tudo que nos rodeia, ultrapassando, inclusive, o âmbito futebolístico. Com a atual perspectiva, na qual me incluo, qualquer conversação comparativa será vazia e sem nexo. Possivelmente, os parágrafos a seguir se incluam nessa visão e nada acrescente a você, meu caro leitor.

O fato é que está cada vez mais rotineiro ver alguém perder a cabeça por ouvir que “o futebol brasileiro está no nível do europeu” ou que “Messi já superou Pelé”. Todas essas discussões não vão a lugar nenhum por serem questões de opinião e em toda questão opinativa, verdade absoluta não haverá, mas existirão diferentes pontos de pensamentos e visões. Umas mais distorcidas do que outras, mas que não deixam de ser opiniões.

Entre os paralelos dos dois continentes, o que mais têm me chateado são os momentos oportunos que fazem com que alguém rebaixe o “adversário”. Não pode ter uma invasão de campo ou uma falha técnica em um estádio europeu para que os “pachecos” não tomem a fala e já digam, de forma irônica, que “na Europa é lindo, aqui é vergonha”. Assim como os “eurocêntricos” parecem ter alguma espécie de alergia com o futebol nacional e sempre relacionem os campeonatos disputados por aqui a várzea.

Aliás, essas relações esdrúxulas que “surgem” entre os países me incomoda demais. Precisa lembrar que tal coisa acontece ou não acontece no Brasil enquanto assisto a um jogo do Campeonato Inglês e vice-versa? Se estou acompanhando uma partida na Inglaterra, dou a entender que quero saber sobre o campeonato deles e somente informações realmente relevantes de outros campeonatos vão me interessar. Saber que a arbitragem britânica também erra ou que no Brasil se dribla mais é completamente irrelevante pro contexto do momento.

Engraçado também como são poucos que tratam os “adversários” com respeito. O exemplo mais clássico está na lista dos concorrentes à melhor do mundo da FIFA com a France Football. Os “pachecos” clamam por presenças nacionais e rebaixam todo e qualquer jogador estrangeiro que não seja Messi ou Cristiano Ronaldo, como se não tivessem capacidade de chegar a tal status. Os “eurocêntricos” rebatem com ofensas atrás de ofensas, novamente relacionando o futebol jogado aqui com a várzea.

Os “pachecos”, porém, caem por terra em seus argumentos ao encherem de elogios jogadores como Falcao García, Kun Agüero e Edinson Cavani. Logo, dão a entender, corretamente, que os melhores atletas de nosso continente estão na Europa. É por essas e outras que o futebol praticado no Velho Continente é o melhor do planeta. É até uma ligação lógica, pois os atletas europeus de maior qualidade não saem de lá e os clubes tem banca pra trazer os melhores sul-americanos, asiáticos e africanos. As exceções são raríssimas, Neymar é uma delas, talvez a única, ou você acredita que tenha um Samuel Eto’o arrebentando na África e que seu clube consiga segurá-lo? Ou que exista um novo Shinji Kagawa no Japão que está tão acima dos demais atletas asiáticos que se ele permanecer mais dois ou três anos por lá irá estagnar na carreira, como fatalmente acontecerá com Neymar? Não tem! É exceção! Na América do Sul, não há uma alma que se aproxime da qualidade de Neymar, é nítido e até as exigentes FIFA e France Football notaram e colocaram o rapaz na lista de melhores do mundo.

Por Neymar estar tão acima dos demais jogadores, quer dizer que não temos bons jogos por aqui? Não! Muitos pensam que sim, mas essa parte tem o famoso “complexo vira-lata”. Eu, por exemplo, acompanho mais o futebol europeu do que o nacional, nunca neguei que troco jogos do Brasileirão por partidas do “Francesão”, mas também não escondo para ninguém que a partida Atlético Mineiro 3×2 Fluminense foi uma das melhores que vi em muitos anos.

Tento me manter o mais flexível possível, afinal de contas, só é possível fazer uma crítica decente sobre determinado assunto se você o conhece e o compreende por sua própria visão, sem a mensagem muitas vezes distorcida que uns e outros passam. Mantenho a posição de que o futebol europeu é melhor e que Messi tem capacidade de superar Pelé – selecionando dois temas que estão em constante debate -, mas mantenho o respeito pela história vencedora e pelas raízes que o futebol brasileiro criou, que mesmo tendo se enfraquecido com o passar dos anos, ainda consegue render bons frutos aos amantes do esporte bretão.

A principal dificuldade é isso entrar na cabeça da maioria das pessoas. Ainda chegará o dia em que entenderei essa obsessão terminal de querer que algo ou alguém de culturas e vivências distantes seja melhor que outro. Se isso já acontece na música, onde uma banda de rock é comparada a um grupo de pagode, imagina no futebol, onde milhares de paixões estão envolvidas? Às vezes penso se essa civilidade não entra em nossas cabeças por debilitação mental ou por desinteresse mesmo…

E por fim, essa discussão ultrapassa os limites do gramado e das salas da diretoria dos clubes e chega na sociedade, porque essa mania extremamente fútil e mesquinha existe em todos os âmbitos de nossa vida. Mesmo jovem, já convivi com diversos tipos de pessoas, de crianças que querem chegar primeiro na sala de aula a adultos que ameaçam famílias de políticos para que outro candidato saia vencedor em uma eleição.

Nessas horas, gostaria de conhecer mais o mundo, viver novas culturas e tirar a conclusão se esta abusiva mania é só dos brasileiros ou se o problema é mundial. Ao mesmo tempo, bate o medo de conhecer o mundo e perceber que essa mania é exclusivamente nossa. Como que explicarei a um estrangeiro que nós, brasileiros, somos tão mesquinhos a ponto de ter de rebaixar algo bom por acreditar que sempre tem de existir outro melhor e soberano? A imagem de povo acolhedor, feliz e simpático que ele provavelmente tem, irá ralo abaixo.

Mas voltando ao futebol, fica complicado imaginar o porquê de sempre haver alguém para encontrar defeitos. Ora bolas, quando vândalos brigam nos estádios não há o papinho de que “é um esporte, é sadio, não dá pra levar a sério”? Então por que não apreciar tudo? Honestamente, faltar com respeito e ignorar o que é produzido em outros países é tão ridículo quanto brigar com uma pessoa por torcer pro time rival, chega a ser xenofobia e completo complexo de vira-lata. Será que é tão difícil gostar do movimentado futebol alemão e do descaracterizado futebol brasileiro – sim, nosso futebol perdeu as características que tinha no passado – ao mesmo tempo? Afinal, é um esporte, é sadio, não?

E é assim que vamos cavando nosso interminável buraco no mundo para nunca mais sair. Se não podemos simplesmente respeitar, entender e analisar com coesão algo que nos faz bem e nos traz emoção a cada fim de semana, imagina assuntos mais sérios…

“Grandes” brasileiros = “pequenos” europeus

No sábado, lá estava eu, num frio e chuvoso sábado à noite, enrolado em meu cobertor fuçando o twitter. Eis que aparece um tweet do comentarista dos canais ESPN, Leonardo Bertozzi:

Claramente, o tema central da mensagem de Bertozzi é a ofensividade do Real Madrid de José Mourinho, que para muitos jornalistas – que assistem jogos dos times do português só em anos bissextos – é retranqueiro. Mas não é exatamente isso que irei abordar, embora concorde plenamente com a frase digitada.

Recentemente, o Valencia venceu La Liga

Minutos depois, um dos seguidores de Bertozzi respondeu, dizendo que “com o elenco que tem, o Real Madrid deveria fazer 6 em todos os pequenos da Espanha”. Logo, o jornalista, corretamente retrucou: “Valencia? Pequeno?”. Segundo Bertozzi, não se deve confundir o abismo entre a dupla Barça-Madrid para as demais equipes espanholas, com o tamanho dos clubes. E isso é uma verdade. Os dois gigantes tem altos investimentos, fortes categorias de base e jogadores milionários, enquanto o resto se vira com investimentos menores, com garotos da base tendo de ser lançados precocemente ou então vendidos para a dupla Barça-Madrid, além de atuar com renegados de ligas menores e da própria dupla de gigantes. Ou seja, os grandes de antigamente, são “obrigados” a se portar de forma pequena.

Porém, o seguidor seguiu com a tese de que Valencia e times do gênero são pequenos, mas Bertozzi lembrou dos títulos recentes dos Ches, como a Copa da Uefa 03/04 e os títulos espanhóis de 01/02 e 03/04, meramente taxados como “acidentes de percurso” pelo seguidor.

Mas também não é exatamente isso que quero debater. É que essa troca de ideias entre o jornalista e o “cidadão comum” me fez puxar pela memória um assunto que vive me chamando a atenção: como será que o estrangeiro enxerga certos times brasileiros? Será que é como nós enxergamos certos times europeus?

O Atlético Mineiro, por exemplo, até ontem era o “primeiro campeão brasileiro” – “até ontem”, porque após a canetada da CBF, o Bahia se tornou o primeiro campeão brasileiro -, isso lá em 1971. De lá pra cá, o time de BH se limitou a títulos estaduais. Então imagina o que um estrangeiro que acompanha o futebol brasileiro pensaria do Atlético? O time simplesmente não tem ganho nada de uns tempos pra cá, além de ter frequentado da segunda divisão brasileira. Será que o considera time grande, ou somente um clube pequeno, mas que tem uma torcida fanática?

É assim no mundo todo. Há times que tem suas glórias nos anos 50, 60, 70 e nas épocas mais recentes acabam por ficar sem título algum e com essa expansão do futebol para mídias do mundo inteiro, quem conhece uma parte da história, fica sem conhecer a verdadeira história.

O "primo pobre" do Real Madrid é o 3º maior campeão espanhol

Pegando o exemplo da Espanha: aqui no Brasil, o Atlético de Madrid é visto apenas como “primo pobre” do Real Madrid. Mas duro é alguém saber que os Colchoneros estão em 3º no ranking de maiores campeões da liga espanhola, com 8 troféus. Mas quando foi o último título? 1995/1996. Já se vão mais de quinze anos e nesse meio tempo, o Atlético chegou a frequentar a segunda divisão de seu país. Junto com os Colchoneros e o Valencia, pode-se colocar na lista de “injustiçados” o Athletic de Bilbao, grande papa títulos dos anos 30, com 4 títulos de 29/30 até 35/36. Mas de uns anos pra cá, o time basco tem se limitado a sonhar com as competições européias.

E na Inglaterra então…Muita gente coloca o Chelsea como um “gigante”, mas mal sabem que times como Sunderland, Aston Villa e Everton, que de um tempo pra cá são coadjuvantes no futebol britânico, tem mais títulos que eles. Sem falar que na Inglaterra há vários times “simpáticos”, que por títulos passados acabam sendo chamados de grandes. Diga-se de passagem, nada muito diferente daqui, onde vimos clubes que por causa de dois ou três times históricos que teve, viram grandes. Não discuto se é certo ou errado, e sim a semelhança dos países.

Mas a discussão é longa. Aqui no Brasil, há uma porrada de times que possuem poucos troféus em sua sala de títulos, mas são chamados de grandes e na maioria das vezes, não há discussão. Mas o Campeonato Brasileiro tem se exportado no quesito transmissão de TV. Países como Inglaterra e Espanha transmitem nosso campeonato e quem conhece a história pela metade pode julgar que times como Atlético Mineiro, Goiás, Sport, Palmeiras (…) não são exatamente “grandes” e sim, na melhor das hipóteses, tradicionais, times que pararam no tempo. O mais radical, poderia chamá-los até de pequenos, coisa que acontece no Brasil na questão Europa, como vimos na breve história contada acima sobre Leonardo Bertozzi e seu seguidor.

Não é conhecendo a história recente que se julga a história completa de um clube. É preciso conhecer, vivenciar, ler, aprender, enfim, fazer de tudo para saber a verdadeira história do clube. O Valencia não é pequeno, pelo contrário, assim como aqui no Brasil, o Atlético Mineiro não é um time minúsculo. Mas o que faz as pessoas pensarem que o europeu supracitado é um time pequeno? Entendo eu, que seja a história recente. O futebol brasileiro não tem uma abismal diferença de grandes para pequenos, mas no velho continente há. Enquanto times como Real Madrid, Chelsea, Bayern (…) fazem altos investimentos, disputam as grandes competições e lutam pelos títulos, os “grandes que pararam no tempo”, ficam com as sobras.

E eu sigo com a minha curiosidade de perguntar a algum gringo, seja um inglês tradicional ou um jamaicano curtindo seu reggae, mas que acompanhe o futebol brasileiro, o que eles acham das histórias dos clubes X e Y.

Vamos ler sobre as histórias do clubes, gente