Quem será o Zizou da vez?

Zizou cresceu na hora certa

Dia 13 de junho de 2004. A Europa estava atenta para a estréia de duas seleções consideradas favoritas a vencer a UEFA Euro daquele ano: a França de Zinedine Zidane contra a Inglaterra de David Beckham. O Estádio da Luz em Lisboa ficaria pequeno para tantos craques e tantas emoções.

Era apenas o segundo dia de jogos e os anteriores apresentaram poucas emoções. Portugal, mandante, tropeçou diante da Grécia – tropeço que se repetiria no jogo final do torneio -, enquanto a Espanha vencera a Rússia pelo placar mínimo. Pelo mesmo grupo de franceses e ingleses, Suíça e Croácia empataram sem gols e a vitória em Lisboa destinaria a ponta do grupo logo na primeira rodada.

Assim como nas guerras, Inglaterra e França tinham um enorme histórico de jogos. No início, os ingleses dominavam completamente o confronto. Entre 1923 e 1931, foram seis jogos e seis vitórias inglesas, todas elas marcando pelo menos três gols. No sétimo jogo, em 1931, Les Bleus descontaram e venceram por 5×2, mas voltaram a ficar em uma série inativa de vitórias. Seu triunfo seguinte seria em 1946, vitória por 2×1.

Os primeiros duelos oficiais entre franceses e ingleses foram apenas nos anos 60. Em 1962 e 1963, a dupla se enfrentou na fase de qualificação para a Eurocopa. Na ida, em Sheffield, 1×1, na volta, em Paris, vitória francesa por 5×2. Em 1966 aconteceu o primeiro jogo em uma Copa do Mundo. As quase 100 mil pessoas que foram ao Estádio Wembley viram o English Team bater a França por 2×0, com dois gols de Roger Hunt.

O último duelo de Copa do Mundo entre as duas seleções foi em 1982. A seleção francesa, que encantara o planeta bola naquele ano, foi totalmente envolvida pela Inglaterra e deixou o San Mamés em Bilbao derrotada por 3×1. Não custa reforçar que o selecionado inglês, de Peter Shilton, derrotou, simplesmente, a França de Platini, Rocheteau, Giresse e Trésor.

Em 1992, aconteceu o primeiro duelo em uma Eurocopa. Porém, nada de gols. E olha que opções para as redes balançarem não faltaram. O English Team tinha Gary Lineker e Alan Shearer no ataque, enquanto os Bleus tinham Eric Cantona e Jean-Pierre Papin.

O confronto válido pelo Torneio da França de 1997 ficou marcado como a última vitória inglesa sobre a França. Depois daquele triunfo no Stade de La Mosson, 1×0 gol de Shearer, foram mais cinco jogos, com quatro vitórias francesas e um empate.

Mas voltando ao confronto de 2004, a Inglaterra parecia que finalmente tiraria a barriga da miséria. Vencia por 1×0, gol de Frank Lampard. O ídolo inglês, Beckham, teve participação decisiva no tento, pois foi ele quem cobrou a falta com precisão, na cabeça do meia do Chelsea.

Na etapa final, o English Team teve o jogo em mãos. Aos 28 minutos, o jovenzinho Wayne Rooney, na época com apenas 19 anos, recebeu em velocidade e só foi parado por Silvestre, que cometeu pênalti. David Beckham teve em seus pés a chance de dar a vitória para a Inglaterra, mas sua cobrança parou nas mãos de Barthez. O goleiro se redimiu de 1997, quando errou no gol de Shearer, no supracitado duelo do Torneio da França.

Falhar não era uma opção aceitável quando se tinha do outro lado Zinedine Zidane. Zizou, em dois toques de mestre, decidiu a peleja. Primeiro, aos 45 minutos, em cobrança de falta magistral, jogando ao lado direito do goleiro David James, que, parado, nada pôde fazer. No lance seguinte, Steven Gerrard recuou para seu arqueiro, mas não viu a presença de Henry, que venceu a disputa em velocidade, mas foi derrubado na grande área. Zidane cobrou o pênalti no mesmo lugar onde havia colocado a bola na cobrança de falta e virou a peleja para a França.

De falta, Zidane decidiu em 2004

As falhas nos acréscimos do árbitro, somado ao pênalti desperdiçado por Beckham, culminaram na derrota inglesa.

Em toda a história, franceses e ingleses se enfrentaram trinta vezes e o English Team leva ampla vantagem: 16 a 9 em vitórias, além de cinco empates. Porém, a França equilibrou esses números com o pequeno tabu supracitado, que dura desde 1997.

E na segunda-feira? Quem será o Zizou? A camisa 10 francesa é de Karim Benzema. Ele será capaz de decidir em dois lances como Zidane em 2004? Aguardemos!

FICHA TÉCNICA:

Estádio da Luz – Lisboa

França: Barthez; Thuram, Gallas, Silvestre (Sagnol) e Lizarazu; Pirès (Wiltord), Vieira, Makélélé (Dacourt) e Zidane; Henry e Trezeguet — Técnico: Jacques Santini

Inglaterra: James: Neville, King, Campbell e Cole; Beckham, Lampard, Gerrard e Scholes (Hargreaves); Rooney (Heskey) e Owen (Vassell) — Técnico: Sven-Göran Eriksson

Arbitragem: Markus Merk, Christian Schräer e Jan-Hendrik Salver (Alemanha)

Gols: Zidane, 90+1′ e 90+3′ (FRA); Lampard, 38′
Cartões amarelos: Silvestre e Pirès (FRA); James, Lampard e Scholes (ING)

16 histórias para contar

Jogar uma Eurocopa já deve ser algo muito gratificante. Para alguns jogadores, que às vezes estão em seleções periféricas e que raramente chegam a torneios de grande visibilidade, pode-se considerar como o ponto mais alto de sua carreira. Mas o que dizer de um jogador que tem em sua carreira o recorde de atleta que mais atuou em UEFA Euro? Essa é a história de Lilian Thuram.

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Lilian Thuram é o jogador que mais vestiu a camisa da França

Ruddy Lilian Thuram-Ulien nasceu em Guadalupe, território francês que fica no Caribe, mas iniciou sua carreira futebolística na França mesmo. O Mônaco foi o clube que o revelou e que ajudou a projetá-lo para o mundo do futebol. Por lá, Thuram atuou por quase 200 partidas, tendo balançado as redes em 11 oportunidades.

Depois de dois vice-campeonatos nacionais com o time do Principado, o zagueiro/lateral-direito se transferiu para o Parma. Foi lá que sua carreira engrenou de vez! Os títulos mais valiosos pelo clube italiano foram as duas copas da Itália e a Copa da UEFA. Com todo esse sucesso, Thuram se transferiu para a Juventus em 2001, permanecendo lá até o Calciopoli, que culminou no rebaixamento da Vecchia Senhora em 2006. O francês deixou Turim com dois títulos da Série A e um vice da Champions League.

Até 2008, Thuram defendeu o Barcelona de Rijkaard, já decadente naquela época. Quando estava prestes a assinar com o Paris Saint-Germain, foi diagnosticado um problema no coração, que impediu a continuação de sua carreira.

Mas não estou aqui para falar da brilhante carreira de Thuram e sim de sua história nas disputas da Eurocopa. Seu começo nos Bleus foi em 1994 e dois anos depois ele já estava na Inglaterra para jogar sua primeira UEFA Euro.

Lilian Thuram era peça de confiança do técnico Aimé Jacquet e participou de todas as partidas da França edição de 1996 da Eurocopa. A campanha francesa no papel até que foi boa – semifinalista e invicta -, mas no campo, isso não foi representado muito bem. Três empates e duas vitórias, porém, os dois jogos em que saiu como vencedor marcaram um futebol insosso e lento do time francês. Dos três empates, dois culminaram em disputas de pênaltis. Contra a Holanda, veio à vitória, contra a República Tcheca, a sorte não sorriu para os Bleus, que foram eliminados.

Só em 1996, já colocávamos na conta de Thuram cinco jogos na Euro. E ele ainda tem história no torneio!

Thuram conquistou a Euro em 2000

Quatro anos depois, o defensor, na época, já campeão do mundo em 1998 – tendo feito dois gols na semifinal contra a Croácia, os seus únicos dois gols com a camisa da Seleção Francesa -, pôde ver seu nome no hall de grandes campeões franceses.

Podemos destacar duas curiosidades nesta edição da Euro, claro, envolvendo Thuram:

1 – A única derrota da França no torneio foi justo na partida em que o defensor não esteve em campo, no 3×2 para a Holanda;

2 – Em 96, Thuram, com cartão amarelo, não participou dos últimos minutos da semifinal contra a República Tcheca e o resultado já foi destacado acima. Na final de 2000, o jogador se viu na mesma situação, porém, Roger Lemerre, então técnico da Seleção, optou por deixá-lo em campo. O resultado disto tudo foi no histórico disparo de pé esquerdo de Trézeguet, que pegou Toldo no contrapé e deu o título a França no gol de ouro.

Coincidência ou não, o fato é que Thuram participou daquele grande time que ainda tinha Zinédine Zidane, Thierry Henry, Patrick Vieira, Didier Deschamps e Laurent Blanc. Eram mais cinco jogos pra sua lista, contabilizando dez!

Em 2004, a campanha francesa tinha tudo pra decolar. Les Bleus ainda tinham nomes como Zidane, Vieira, Henry, Trézeguet e é claro, Thuram, porém, havia uma pedra grega no caminho francês.

No início, a França mostrou enorme poder de reação, principalmente na estréia, quando virou pra cima da Inglaterra com dois gols de Zizou nos acréscimos da partida. Croácia e Suíça foram duas equipes que conseguiram igualar em gols com a França, porém, nenhuma das duas seleções conseguiu vencê-los – os croatas seguraram o empate, mas os suíços foram derrotados.

Só que nas quartas de final, a França foi bruscamente parada pela Grécia de Angelos Charisteas, autor do gol que eliminou Thuram e seus companheiros da Euro de 2004. O defensor conseguiu acrescentar a sua lista mais quatro jogos, somando catorze.

Capitão em 2008, Thuram participou do fracasso francês

Em 2008, Lilian Thuram participou de sua última Eurocopa, porém, ele não deve ter tido o final que esperava. O confuso time treinado por Raymond Domenech não passou da primeira fase e somou apenas um ponto. A França ainda perdeu para a Itália por 2×0 e foi humilhada pela Holanda, 4×1.

Thuram participou dos jogos contra Romênia e Holanda, e em ambos, foi o capitão da equipe. Aliás, no duelo contra os romenos, o defensor chegou à marca de 15 jogos, chegando ao recorde de maior número de jogos em Eurocopas.

Dias depois, Edwin van Der Sar viria igualar a marca do francês, porém, pra um goleiro, é mais “fácil”. Thuram encerrou sua jornada na Seleção da França com 142 jogos e dois gols, jogador que mais vestiu a camisa de seu país e realmente a honrou. Com muita técnica, força e vigor nas marcações, Thuram ficou marcado na história do futebol de seu país.