Fora Benzema (?)

Até onde vai a paciência com Benzema?(Getty Images)

Até onde vai a paciência com Benzema?
(Getty Images)

O nome de Karim Benzema finalmente começou a ser questionado na seleção francesa, infelizmente, pelos motivos errados. O movimento francês Front National (FN), por meio de sua presidente, Marine Le Pen, criticou o atacante do Real Madrid por não cantar o hino nacional antes dos jogos da seleção e cobra a exclusão do jogador nas próximas convocações.

Antes de entrar no mérito das críticas levantadas, vale lembrar que o FN é qualificado como um grupo político de extrema-direita, apesar de Le Pen e outros membros afirmarem que “não são nem de direita, nem de esquerda”. Além disso, o FN tem características neofascistas e de repressão a imigrantes.

Creio que a maioria dos leitores passou a desconsiderar as críticas do FN apenas lendo o segundo parágrafo e com alguma razão, afinal de contas, Karim Benzema é neto de argelinos, apesar de ter nascido e vivido em Lyon boa parte de sua vida.

E convenhamos, os franceses poderiam enumerar diversos motivos que classificam como vergonhosos e antipatrióticos em sua seleção, menos o que foi levantado pelo FN. A baderna na África do Sul, as escolhas “astrais” de Raymond Domenech, a falta de respeito com outros profissionais como Carlos Alberto Parreira do próprio Domenech e por aí vão os inúmeros motivos que você pode escolher.

Cantar o hino é o menor dos problemas. Como o próprio Benzema chegou a dizer, “se marcar três gols, ninguém vai reclamar do fato de não cantar o hino”. Esse nacionalismo nas seleções nacionais não existe mais, essa é a realidade, sem falar da série de regras empíricas que o mundo tenta impor em todos os âmbitos da sociedade. “Não canta o hino, não gosta do país”, “não faz tal coisa, é isso”, “faz tal coisa, é aquilo”, essa tentativa de padronização que há no mundo incomoda e o futebol, que muitas vezes parece ser um mundo novo e diferente, se assemelha ao que vemos diariamente em nossa vida.

Mas olhando para dentro de campo, vale questionar a presença de Benzema na seleção francesa? A convocação, creio que não, mas seu status de intocável no time titular, sim. Como destaquei em outubro de 2012, o atacante tem números ruins pela seleção, principalmente se compararmos com Thierry Henry, principal referência da posição na França na última década.

Aos 25 anos, Henry tinha marcado 16 gols em 45 partidas internacionais, sendo três gols na Copa do Mundo de 1998 e outros três na Eurocopa de 2000. Benzema, que completou 25 anos em dezembro de 2012, fez 55 partidas, mas apenas 15 gols. Seu último tento foi anotado no dia 05 de junho de 2012 contra a Estônia, desde então, o atacante participou de dez jogos – sendo quatro pela Eurocopa – e saiu de campo sem marcar gols em todos eles. Enquanto isso, a maior seca de Henry foi em sua fase descendente e perdura até hoje. Desde o gol marcado contra a Áustria em outubro de 2009, o atacante disputou oito partidas, incluindo duas pela trágica Copa do Mundo de 2010, mas não balançou as redes. Nunca mais foi convocado após a citada competição.

Para piorar o cenário envolvendo Benzema, sua situação no Real Madrid não é das melhores. Após 37 jogos na temporada, o francês balançou as redes em 15 oportunidades, número mais baixo desde seu ano inicial com a camisa madridista, onde fez nove gols em 33 partidas. Aliás, Benzema tem aparecido mais fora de campo – chegou a ser multado por andar em alta velocidade – do que dentro dele, não à toa, Gonzalo Higuaín tem tomado seu espaço no time de José Mourinho.

Benzema se defende das diversas críticas envolvendo essa seca de gols, tanto no clube, quanto na seleção, afirmando que tem criado muitas chances para seus companheiros marcarem, mas quando você é o principal atacante de sua seleção, esse argumento se torna vazio. Seus companheiros é que deveriam criar chances para você e não o inverso.

O técnico Didier Deschamps tem que rever essa situação, afinal, Olivier Giroud e Bafétimbi Gomis pedem passagem. Apesar de não viverem seus melhores momentos – principalmente o atacante do Lyon –, ambos marcaram em amistosos recentes e aparecem como melhores opções para o lugar de Benzema. Deschamps sempre foi um técnico enérgico e nunca pestanejou diante de estrelas, o problema será controlar o nada frio ambiente da seleção francesa caso a exclusão do madridista do time titular cause grandes transtornos.

Mas é uma pena que essa válida discussão sobre a omissão de Benzema em comparação com estrelas do passado venha aparecer por causa de uma crítica política descabida. Se o atacante merece perder espaço na seleção francesa, é pelo futebol apresentado e não por deixar de cantar o hino nacional.

Benzema é uma sombra

Benzema está enfrentando uma seca de gols na França (Getty Images)

Se levantarmos dez nomes dos melhores atacantes do planeta, com certeza colocaremos Karim Benzema nesta lista. Obviamente, ele acaba sendo um dos principais jogadores da França, senão o mais destacado. O atacante do Real Madrid tem carregado esse peso ao lado do meia do Bayern, Franck Ribéry. Mas, aparentemente, essa carga tem atrapalhado o jogador merengue.

O último gol de Benzema com a camisa azul da França foi em junho deste ano, contra a Estônia. De lá pra cá, foram oito jogos, entre amistosos, Eurocopa e Eliminatórias para a Copa do Mundo, e nenhum tento anotado. Esses números acabam se tornando mais assustadores se levarmos em conta que o último gol do atacante em partidas oficiais pela França foi em setembro de 2011, contra a Albânia em disputa válida pelas Eliminatórias para a Eurocopa.

Se durante o torneio europeu a desculpa acabou sendo o esquema do então técnico Laurent Blanc, que acabava o deixando isolado no ataque, agora, com Didier Deschamps, essa justificativa não pode ser usada. O novo técnico Bleu já lhe deu alguns companheiros para o setor, como o também centro avante Olivier Giroud e segundo atacante Jérémy Ménez.

A França precisa de Benzema se pelo menos almeja retornar ao caminho vitorioso trilhado no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, até porque Deschamps não conta com outro atleta do nível do madridista para a posição. Giroud é uma pequena incógnita e só o tempo que levará a se adaptar ao Arsenal dirá do que será capaz. Gomis não é e nunca será a solução para uma questão de tal representatividade.

Enquanto isso, fora do time, André-Pierre Gignac começa a repetir no Marseille as atuações que fizeram Raymond Domenech levá-lo para a Copa do Mundo de 2010, quando ainda defendia o Toulouse. Gignac tem sido o principal jogador do OM nesse princípio de temporada, com cinco gols em oito jogos no Campeonato Francês.

Há quem diga que sua ausência na seleção se deve ao desentendimento que teve com Deschamps, ainda no Marseille, após uma partida da UEFA Champions League, no final de 2011, mas esse problema é coisa do passado, já que voltou a figurar entre os titulares do time na citada temporada, após a confusão.

A boa fase de Gignac não pode ser considerada uma ameaça a Benzema, que só ficará de fora da seleção se Deschamps tiver algum tipo de ataque cerebral que afete sua capacidade de analisar futebol com o mínimo de propriedade, mas não é exagero imaginar que o atacante do Real Madrid amargue um banco de reservas.

O que estamos vendo nas recentes atuações de Benzema pela seleção francesa é apenas uma sombra do que é realmente capaz. Ele faz quase tudo certo, os domínios, os passes, os posicionamentos, mas vem pecando no ponto fundamental de sua função: a finalização. É só outro atacante começar a marcar gols que o madridista perde seu espaço.

Presença nas convocações desde 2006, Benzema já tem 53 atuações pela seleção principal da França, mas fez apenas 15 gols, ou seja, um gol a cada 318 minutos – três partidas e um tempo. Visando os torneios de seleções, que são de tiro curto, esse tempo sem balançar as redes prejudica demais, como vimos na última Eurocopa. Esses números ficam mais preocupantes principalmente se traçarmos um paralelo com a grande referência da posição nos últimos anos: Thierry Henry. O jogador do New York Red Bulls fez 51 gols em 123 partidas, um gol a cada duas partidas e quase um tempo.

Aos 24 anos, idade de Benzema, Henry já tinha 11 gols em 32 jogos pela seleção francesa, com um espaçamento de tempo entre os gols parecido, um tento a cada quase três jogos completos. A diferença fundamental era que Henry já havia ganhado uma Copa do Mundo – para defender Benzema, ele ficou de fora, injustamente, da edição de 2010 – e uma Eurocopa, acumulando cinco gols nas duas competições.

E que não venham com papo de “pressão exacerbada”. Mesmo aos 24 anos, Benzema se acostumou a enfrentar momentos que poucos teriam a coragem de encarar. O atacante ajudou o Lyon a se manter no topo do futebol francês por sete anos e hoje é titular de um dos grandes times da Europa. Ser o líder da seleção de seu país é mera consequência do que tem apresentado em Madrid.

Nesta semana, a França irá reencontrar a Espanha, algoz na Eurocopa disputada na Ucrânia e na Polônia. Mais do que nunca, uma atuação decente de Benzema será necessária, ainda mais com o panorama que espero do jogo. A posse de bola, a pressão, as chances de gols… Tudo será espanhol. Os franceses vão se preocupar em defender demais e atacar uma vez ou outra. E é aí que se inicia o papel do protagonista deste post. Provavelmente, ele receberá poucas bolas e terá de aproveitar as que vierem mandando para dentro.

E esse recado vale para as demais partidas da seleção francesa. Benzema precisa acordar e começar a marcar gols, caso contrário, a seca de títulos continuará afetando o país. A carga não pode ser depositada somente em Ribéry, ela tem de ser dividida e enquanto algumas brigas de egos insistem em atrapalhar o ambiente do time, o tranquilo Benzema deverá assumir a bronca, coisa que não anda acontecendo.

Treze anos para o prato de vingança esfriar

29 de maio de 1999. Este era um dia que ficaria marcado na história do futebol francês. Era a decisão de mais um campeonato nacional. Na última rodada, o Bordeaux, com 69 pontos e o Olympique de Marseille, com 68 eram os candidatos ao título daquela temporada. Mas havia um “pequeno” problema.

Para se sagrar campeão, o OM dependia de um tropeço dos Girondins diante do seu grande rival Paris Saint-Germain, que estava no meio da tabela e não brigava por nada na rodada derradeira da competição. Obviamente, em um confronto que envolvesse o líder e o nono colocado de um campeonato, era normal que o time mais bem qualificado vencesse, mas como diriam aqueles: “o futebol é uma caixinha de surpresas” e não seria nada de outro mundo se o time da capital vencesse. Mas a rivalidade veio à tona.

O Marseille fez sua parte no Stade de La Beaujoire-Louis Fonteneau e venceu o Nantes pelo placar mínimo, gol de Robert Pirès, na época com 26 anos. Bastava uma forcinha do rival de Paris para o clube que anos antes havia sido rebaixado por causa do escândalo VA-OM se reerguesse e novamente conquistasse a Ligue 1.

Nesse tapinha de canhota, Feindouno fez o gol do título do Bordeaux em 99

Todo esse sonho foi pro espaço quando no Parc des Princes, aos 44 minutos do segundo tempo, Pascal Feindouno, de apenas 18 anos – hoje, com 31, se aventura no Sion da Suíça – recebeu um belo passe de Laslandes e mandou pras redes, na saída de Lama. Foi seu terceiro jogo naquela edição da Ligue 1 e seu primeiro gol.

Para os Girondins, vitória e título épicos; pros parisienses, um motivo de riso da cara dos rivais; pros marseillais, ira com o possível descaso do time da capital. Ninguém nunca vai saber da verdadeira história. Uns acusam, outros defendem, mas fica tudo no disse me disse, nas provas simbólicas e nas atitudes suspeitas.

Anos mais tarde, o defensor do PSG naquele jogo, Francis Llacer chegou a declarar “que não deu tudo de si naquele jogo e que outros jogadores também não estavam 100% focados na partida”. Se há um fundo de verdade nessa declaração eu não sei. Llacer pode ter dito a verdade, como pode ter sido uma provocação aos torcedores do Marseille, já que a entrevista foi a uma rádio de uma região próxima.

Mas o fato é que se ficarmos revirando o passado, não iremos a lugar algum. O Bordeaux ergueu a taça, o Olympique seguiu na fila e o PSG segue nela até hoje, mas como diriam os mais antigos, “a vingança é um prato que se come frio”. O OM esperou treze anos para este prato esfriar!

O Marseille não tem grandes aspirações no Campeonato Francês. O time de Didier Deschamps acabou de perder o clássico contra o Paris e estacionou na 9ª colocação – olha o nono colocado podendo decidir a Ligue 1 de novo – com 40 pontos, longe de Lille – 56 pontos – e Lyon – 53 -, times que ocupam as últimas vagas para Champions League e Europa League, respectivamente. Para piorar a situação, o Marseille, que recentemente foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Bayern e da Copa da França pelo Quevilly da terceira divisão, não vence na Ligue 1 desde janeiro e está em uma crise interminável.

Em contrapartida, o PSG joga mal, não convence, rasga dinheiro em jogadores de nível técnico duvidoso, mas ainda assim é um time “cascudo” e ganha seus jogos no sufoco, se mantendo vivo na briga pelo título com o Montpellier.

O problema parisiense é que o MHSC – que está empatado em pontos na liderança – tem um jogo a menos e essa peleja é justamente contra o desanimado, amargurado e em crise, Olympique de Marseille. Este jogo é na quarta-feira e só Deus sabe o que pode acontecer no Vélodrome.

Em grande forma, o Montpellier bateu o Sochaux no fim de semana (mhscfoot.com)

Para mim, normalmente, o Montpellier venceria. O time de René Girard vive grande momento, com Younes Belhanda, John Utaka e Olivier Giroud em ótima forma, enquanto o Marseille está em uma temporada para ser esquecida – a vaga nas quartas-de-final da Champions League não representa nada para um clube que se acostumou a chegar entre os quatro melhores no início dos anos 90 – e agora vive seu pior momento.

O natural é o MHSC vencer. Principalmente se tirarmos o “fator PSG” de campo. O Marseille precisa partir para cima e conquistar a vitória que alivia um pouco a pressão que há sobre jogadores e Deschamps, com isso, daria campo pro veloz time do Montpellier encaixar seu jogo. É tudo que Girard quer vide as recentes dificuldades com times que jogam fechados.

Mas como citei nos parágrafos anteriores, é “normal” e “natural” que Giroud, Belhanda e companhia vençam a peleja, só que para os torcedores do PSG e do OM não será nada normal. Os marseillais querem mais é que seu time entregue a partida, enquanto os parisienses torcem a contragosto pelo rival, tendo a certeza de que eles não farão força para vencer a partida.

É uma chance e tanto pro Marseille reescrever uma história antiga do futebol francês, manchando seu nome como o PSG supostamente fez em 1999.

Mas é um caso complicado de escrever e palpitar. Estamos falando de ações internas de um time de futebol. Se eu não sou capaz de saber o que uma pessoa que está a dois metros de mim está pensando, imagina saber de um grupo de jogadores, que está em outro continente pensa? É complicado! Você e eu poderemos ver a mesma coisa e interpretar de forma diferente. O Olympique de Marseille pode entregar a partida ou ajudar o Paris Saint-Germain, mas o fato é que ninguém vai entender o que se passará na cabeça dos atletas e nem o porquê daquelas ações. Será mais uma história com final em branco no extenso livro futebolístico!