Na França, gramados sintéticos não caíram no gosto e tem data para acabar

Primeiramente, amigos, gostaria de me desculpar pela semana ausente no blog. Simplesmente tive problemas sérios em meu notebook, que somados a carga de trabalho me impediram de voltar a escrever na última semana. Mas agora voltamos ao ritmo normal de posts.

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No Moustoir, o Lorient seguiu forte com grama sintética | Foto: Divulgação/Eurosport

No Moustoir, o Lorient seguiu forte com grama sintética | Foto: Divulgação/Eurosport

Com a CBF proibindo gramados artificiais no Campeonato Brasileiro a partir de 2018, atingimos o ápice das discussões sobre o assunto em nosso país. O Atlético Paranaense é o principal clube afetado, já que verá o alto investimento no terreno da Arena da Baixada ir água abaixo menos de dois anos depois da conclusão.

Na França, essa discussão transcorreu durante toda esta década e, aparentemente, com fim negativo a quem defende os gramados artificiais. O Lorient foi o pioneiro ao adotar este terreno no estádio Moustoir, em 2010.

Olhando friamente os números, os Merlus não apresentaram grandes mudanças no rendimento em casa. Nas quatro temporadas sem o gramado sintético, teve aproveitamento de 53,9%, inclusive conquistando um número bem satisfatório de vitórias, como no último ano com grama natural, onde venceu dez jogos em casa e teve 64,9% de aproveitamento. Com a grama sintética, o aproveitamento médio é parecido: 52,5%.

Com gramado sintético Sem gramado sintético
Temp. J V E D % Temp. J V E D %
2010/11 19 8 8 3 56,1 2009/10 19 10 7 2 64,9
2011/12 19 8 6 5 52,6 2008/09 19 5 7 7 38,5
2012/13 19 10 6 3 63,1 2007/08 19 9 7 3 59,6
2013/14 19 8 7 4 54,3 2006/07 19 8 6 5 52,6
2014/15 19 6 5 8 40,3            
2015/16 19 7 7 5 49,1            

Num modo geral, o Lorient não se tornou mais forte ou mais fraco por trocar de gramado. Apenas seguiu impondo as mesmas dificuldades que impôs quando jogou em casa – numa escala relativizada para cada país, é algo semelhante ao que acontece com o Atlético-PR por aqui, que sempre foi bastante forte no Paraná.

Em maio de 2016, entretanto, o clube optou por trocar o gramado artificial pela tecnologia AirFibr, que já é vista em estádios como Vélodrome, do Marseille, Geoffrey Guichard, do Saint-Étienne, e o Matmut-Atlantique, do Bordeaux. No caso, será um gramado que une grama natural e microfibra sintética.

Bom citar que a própria Ligue 1 possui um ranking que estabelece quais são os melhores gramados da temporada seguindo alguns critérios (trajetória da bola no chão, flexibilidade e qualidade do gramado, por exemplo) e o piso do Moustoir está em segundo, atrás apenas do Parque dos Príncipes, do PSG.

Nos resultados, porém, a mudança não poderia ter sido pior. Com 22 pontos em 26 rodadas, os Merlus ocupam a lanterna, tendo o quarto pior desempenho entre os 20 mandantes. A equipe, que está em sua 11ª temporada consecutiva na primeira divisão (feito inédito na história do clube de 90 anos), já está vendo a segunda divisão mais de perto do que nunca antes nos anos recentes.

Já no Marcel Picot, o Nancy não conseguiu crescer | Foto: Divulgação/So Foot

Já no Marcel Picot, o Nancy não conseguiu crescer | Foto: Divulgação/So Foot

O próximo clube a trilhar o mesmo caminho é o Nancy. Clube que, assim como o Lorient, nunca teve resultados expressivos na França, os Vermelhos e Brancos também adotaram o gramado sintético no estádio Marcel Picot na temporada 2010/11. O desempenho, a exemplo dos bretões, seguiu o mesmo. A grande diferença é que o Lorient, ao menos, tinha bom rendimento em casa…

Em três temporadas na primeira divisão, o Nancy sequer atingiu 50% de aproveitamento em casa. Em números gerais, teve média de 37% jogando no gramado sintético do Marcel Picot. Avaliando friamente, o número contrasta com os enganosos 57,9% vistos nas três temporadas pré grama artificial, isso porque em 2007/08 obteve um assombroso 77,1% de aproveitamento em casa, que desequilibrara bastante os dados.

Com gramado sintético Sem gramado sintético
Temp. J V E D % Temp. J V E D %
2010/11 19 8 3 8 47,3 2009/10 19 6 4 9 38,5
2011/12 19 6 9 4 47,3 2008/09 19 5 8 6 40,3
2012/13 19 5 5 9 35% 2007/08 19 13 5 1 77,1

Nesta temporada, a última com gramado sintético e a primeira após voltar à primeira divisão, o Nancy está com a segunda pior campanha como mandante. Em 19 partidas, foram cinco vitórias, um empate e seis derrotas.

A partir da próxima temporada, saberemos mais qual será o efeito disso, tendo em vista que o Nancy adotará também o gramado híbrido.

Críticas além dos resultados

O gramado híbrido está se tornando tendência na Europa | Foto: Divulgação/Natural Grass

O gramado híbrido está se tornando tendência na Europa | Foto: Divulgação/Natural Grass

O ápice das discussões sobre os gramados sintéticos na França foi atingido na temporada 2015/2016, quando o meia Sofiane Boufal, na época no Lille, sofreu grave lesão no menisco em partida contra o Lorient, na Bretanha. O então técnico dos Dogues, Frédéric Antonetti não poupou o gramado e o discurso foi endossado pela UNFP (União Nacional dos Futebolistas Profissionais, na tradução para português), que afirmou que o terreno artificial pode causar traumas musculares, torções, estresses sobre as articulações e queimaduras.

Em contrapartida, tanto Nancy, quanto Lorient, acabam saindo como beneficiados na época de inverno. Tão normal é observamos invernos rigorosos na França, que adiavam jogos na Ligue 1, pois a neve tomava conta dos gramados, o que tornava as partidas impraticáveis. No Moustoir e no Marcel Picot, isso não acontecia.

Ao longo das temporadas, sempre foi assim. Jogadores e técnicos reclamam, enquanto outros enxergam como uma mudança válida. A LFP, órgão que cuida do Campeonato Francês, entretanto, tomou uma decisão e decidiu proibir gramados sintéticos a partir de 2018.

Em um primeiro momento, a discussão não parece ter ido adiante e a preocupação com a condição física dos atletas venceu os anseios dos clubes na questão de manutenção do gramado. Talvez no próximo inverno europeu, já sem gramados artificiais, tenhamos uma noção mais ampla do impacto que a ausência deles trará.

*Colaboraram com essa postagem: Filipe Papini e Renato Gomes;