EURO 2012: Grupo da morte?

Entra torneio, sai torneio e a necessidade da mídia e torcedores em encontrarem um “grupo da morte” persiste. Até quando a maioria considera não haver algo do tipo, insistem em encontrar um “grupo do assalto” ou de algum que se aproxime da morte. Acredito que seja esse o caso do grupo B da UEFA Euro 2012.

Alemães e holandeses estiveram presentes nas semifinais da última Copa do Mundo e terão como concorrentes duas seleções que passaram despercebidas pelo citado torneio. É verdade que este é o único grupo da competição que reúne quatro times presentes no Mundial de 2010, mas isso não significa que seja um “grupo da morte”. Vejo Alemanha e Holanda acima de Portugal e Dinamarca.

Confira abaixo a análise dos quatro selecionados:

HOLANDA: Agora vai?

Seria Huntelaar o salvador da pátria?

Em todo torneio que chega, a Holanda gera certa expectativa em torno de seu desempenho. Sempre se espera boas campanhas e futebol vistoso, porém, a Laranja Mecânica sempre esbarrou em potências e, até hoje, só conquistou a Eurocopa de 1988. Para esta edição do torneio europeu a expectativa não é diferente!

Geralmente, olhamos para os craques holandeses e não para o conjunto que a seleção apresenta. Para esta Euro, há essa pequena mudança. Os principais jogadores do país não vivem o melhor momento técnico e psicológico e a parte estrutural acaba tornando-se um ponto mais primordial para as vitórias do que propriamente os destaques individuais.

Arjen Robben e Wesley Sneijder vêm de temporadas fracassadas por seus clubes. O primeiro, embora tenha números interessantes – 19 gols em 36 partidas -, pôs tudo a perder ao desperdiçar os pênaltis contra Borussia Dortmund e Chelsea. Por terem sido jogos na reta final da temporada, podemos dizer que Robben chega à Euro atravessando uma curva descendente.

Já Sneijder conviveu com as inúmeras lesões e não participou nem de trinta jogos na temporada. O holandês evoluiu na reta final, porém, o estrago já estava feito e ele pouco pôde fazer para ajudar a Inter. Fica a esperança holandesa que Sneijder possa repetir as brilhantes atuações de 2010, onde chegou a ser considerado por muitos como melhor jogador do mundo.

Robin van Persie ficaria incumbido de ser o grande nome desta Holanda. O atacante do Arsenal foi o artilheiro do Campeonato Inglês, com 30 gols. Porém, a indefinição de seu futuro pode atrapalhar. O clube londrino quer renovar seu contrato, mas outras equipes estão de olho no atleta, que faz um “charminho” para definir seu novo time.

Outro ponto que pesa contra van Persie é o seu “sumiço” em jogos decisivos. Mesmo com 26 gols com a camisa laranja, o atacante foi uma das decepções da Holanda na última Copa, marcando apenas um gol.

Porém, o técnico Bert van Marwijk tem uma excelente opção para eventuais más atuações – ou até para jogar ao lado – de van Persie: Klaas-Jan Huntelaar. O atacante do Schalke 04 teve passagens frustradas pelos poderosos Real Madrid e Milan, mas se encontrou na Alemanha. Artilheiro da Bundesliga com 29 gols, The Hunter já tem em seu currículo mais gols pela Holanda do que van Persie, 31 contra 28. Caso ultrapasse a marca de 40 tentos, o atacante do Schalke se tornará o maior artilheiro da história da Seleção Holandesa, deixando Patrick Kluivert para trás.

O detalhe é que caso marque dois gols, Huntelaar igualará o número de Johan Cruyff com 33 gols.

É um desafio e tanto para o jogador que apareceu muito bem no Ajax, mas que em grandes potências européias não conseguiu mostrar seu valor. Agora, consagrado na Alemanha, Huntelaar tem de assumir a “responsa” e ser o artilheiro que a Holanda tradicionalmente tem.

Se no ataque, gols não devem ser problemas, a defesa é a dor de cabeça de Marwijk. Van der Wiel, Heitinga e Mathijsen são entrosados, mas na lateral-esquerda, Pieters, substituto de Gio van Bronckhorst – que se aposentou após a Copa – está contundido e não disputará a Eurocopa. O volante Schaars deve ser improvisado na função.

A Holanda é certamente uma das grandes favoritas a conquista do torneio, porém, sempre existe aquele “pé atrás” com a seleção laranja. Além das tradicionais “amareladas” em jogos decisivos, a Laranja Mecânica obtêm o mesmo histórico inglês de quase nunca vencer uma disputa por pênaltis. No futebol moderno, onde o medo de perder sobrepõe-se a vontade de ganhar, esse se torna um detalhe importante.

Porém, van Marwijk tem gente capacitada para decidir jogos no tempo normal. Robben, Sneijder, van Persie e Huntelaar formam um quarteto interessante demais e podem atormentar as defesas adversárias.

CONVOCADOS:

Goleiros: Maarten Stekelenburg (Roma-ITA), Michel Vorm (Swansea-ING) e Tim Krul (Newcastle-ING)

Defensores: Khalid Boulahrouz (Stuttgart-ALE), John Heitinga (Everton-ING), Joris Mathijsen (Málaga-ESP), Ron Vlaar (Feyenoord), Wilfred Bouma (PSV), Gregory van der Wiel (Ajax) e Jetro Willems (PSV)

Meio-Campistas: Ibrahim Afellay (Barcelona-ESP), Mark van Bommel (Milan-ITA), Nigel de Jong (Manchester City-ING), Stijn Schaars (Sporting-POR), Wesley Sneijder (Inter de Milão-ITA), Kevin Strootman (PSV) e Rafael van der Vaart (Tottenham-ING)

Atacantes: Klaas-Jan Huntelaar (Schalke 04-ALE), Luuk de Jong (Twente), Dirk Kuyt (Liverpool-ING), Luciano Narsingh (Heerenveen), Robin van Persie (Arsenal-ING) e Arjen Robben (Bayern-ALE)

DINAMARCA: Bom passo para a renovação

Eriksen é o grande jogador dinamarquês do momento

Desde 2000 no comando técnico da seleção dinamarquesa, Morten Olsen traz para Ucrânia e Polônia uma geração renovada e que visa a Eurocopa como um torneio para fortalecer o time para a Copa de 2014. Jogadores como Christian Poulsen, Dennis Rommedahl, Thomas Kahlenberg e Stephan Andersen seguem no elenco que disputou a Euro de 2004, porém, eles se reúnem a outros nove jogadores com 25 anos ou menos.

O grande nome desta nova geração é Christian Eriksen, meia do Ajax. Nesta temporada da Eredivisie, o garoto distribuiu 21 assistências e foi um dos grandes nomes do título do Ajax. É um jogador ainda em fase de amadurecimento. Seu clube não disputa grandes ligas européias em alto nível e na Eurocopa Sub-21 do ano passado, Eriksen decepcionou na fraca campanha dinamarquesa.

Além do meia do Ajax, Andreas Bjelland e Daniel Wass são dois jogadores que participaram do torneio Sub-21 e que estarão na Ucrânia e na Polônia. Outro jovem atleta que estará presente na competição é Jones Okore, de 19 anos, defensor do campeão dinamarquês Nordsjælland.

No setor ofensivo, Olsen tem boas opções. O experiente Dennis Rommedahl deve auxiliar Eriksen na armação, enquanto o técnico Kahlenberg deverá disputar posição com Michael Krohn-Dehli, um dos poucos destaques da fraca campanha do Brondby na Dinamarca.

Na frente, a esperança de gols é Nicklas Bendtner. Inconstante nos clubes em que atua, o atacante de 1,92 de altura costuma jogar bem por sua seleção e não deixa de ser um perigo nas bolas aéreas. Como a Dinamarca deve atuar nos contra-ataques, o jogador do Sunderland tem a obrigação de aproveitar as raras chances que tiver.

Mesmo em processo de renovação, a Dinamarca ficou duas vezes na frente de Portugal, adversária na primeira fase. Nas eliminatórias para a Copa e para a Euro, os portugueses ficaram atrás dos dinamarqueses e se viram obrigados a disputar a repescagem. Esse histórico favorável diante dos lusitanos dá uma motivação ao selecionado nórdico que deve ser uma pedra no sapato de alemães e holandeses, favoritos do grupo. Imaginar um novo título, como em 1992, é um pouco demais, mas pensar que podem fazer barulho, isso os dinamarqueses podem sonhar. Digamos que será a Euro de “adaptação” dos novos jogadores ao futebol de alto nível.

CONVOCADOS:

Goleiros: Kasper Schmeichel (Leicester-ING), Stephan Andersen (Evian Thonon Gaillard-FRA), Anders Lindegaard (Manchester United-ING)

Defensores: Lars Jacobsen (Copenhagen), Daniel Wass (Evian Thonon Gaillard-FRA), Daniel Agger (Liverpool-ING), Simon Kjaer (Roma-ITA), Andreas Bjelland (Nordsjaelland), Simon Poulsen (AZ Alkmaar-HOL), Jores Okore (Nordsjaelland)

Meio-Campistas: Christian Poulsen (Evian Thonon Gaillard-FRA), Jakob Poulsen (Midtjylland), William Kvist (Stuttgart-ALE), Niki Zimling (Club Brugge-BEL), Thomas Kahlenberg (Evian Thonon Gaillard-FRA), Christian Eriksen (Ajax-HOL), Michael Silberbauer (Young Boys-SUI), Lasse Schone (NEC Nijmegen-HOL)

Atacantes: Dennis Rommedahl (Brondby), Nicklas Bendtner (Sunderland-ING), Michael Krohn-Dehli (Brondby), Tobias Mikkelsen (Nordsjaelland), Nicklas Pedersen (Groningen-HOL)

PORTUGAL: Por um brilho de Cristiano Ronaldo

Sem um “matador” na frente, Cristiano Ronaldo terá de se virar para ajudar Portugal

Finalista em 2004 e quadrifinalista em 2008, a seleção de Portugal chega à nova edição da Eurocopa sem grandes aspirações. Mesmo contando com um dos melhores jogadores do mundo, Paulo Bento carece de opções confiáveis nos demais setores do time, além de um rejuvenescimento do elenco. Do time vice-campeão mundial Sub-20 no ano passado, Nélson Oliveira é o único que disputou a competição e jogará a Euro.

Na defesa, o desmiolado Pepe e o supervalorizado Coentrão são as peças mais importantes. Com Ricardo Carvalho afastado da seleção por problemas com o treinador, Rolando surge como a grande opção para formar dupla com o defensor madridista.

Se na defesa o problema está na irregularidade dos principais atletas, no ataque o problema é técnico. Hélder Postiga e Hugo Almeida não são, nem de longe, jogadores em que se possam confiar a dura tarefa de marcar gols. A revelação Nélson Oliveira desponta como possível titular, mas como já foi visto na sua temporada pelo Benfica, ele carece de um amadurecimento.

Talvez a grande peça de apoio a Cristiano Ronaldo seja Luís Nani, mas o meia do Manchester United é outro que precisa provar muito na carreira. Mesmo em um clube de grande porte mundial, Nani não consegue ser um jogador que encha os olhos. Apesar de ser veloz e finalizar bem de longa distância, ele precisa aplicar isso em um ritmo mais expressivo durante os jogos.

A esperança acaba vindo mais de trás, com João Moutinho e Raúl Meireles. Bons passadores, a dupla pode ser um ponto de equilíbrio do time. Ambos têm características de marcação, mas também de avanço ao ataque, podendo se tornar elementos surpresas em jogos complicados.

Com esses problemas, o peso cai todo sobre Cristiano Ronaldo. O astro do Real Madrid vive grande forma, mas diferente do que acontece no seu clube, falta um melhor elenco de apoio. Em Portugal, ele terá de fazer tudo: do desarme, à finalização, o jogo português dependerá de CR7. Em um grupo que ainda conta com as semifinalistas da última Copa, Holanda e Alemanha, além da Dinamarca, seleção que tem deixado os lusitanos na freguesia, isso é muito pouco. Portugal precisa de um conjunto forte, mas falta material humano para Paulo Bento.

Bento, aliás, que em 2002 foi para a Ásia disputar a Copa do Mundo. Aquele time de Portugal tinha nomes consagrados, como Luís Figo, Jorge Andrade, Pauleta e Rui Costa, mas parou na primeira fase da competição. Dez anos depois, o time lusitano tem valores escassos e tudo cairá nas costas de Cristiano Ronaldo. História repetida?

CONVOCADOS

Goleiros: Rui Patrício (Sporting), Eduardo (Benfica) e Beto (Cluj-ROM)

Defensores: João Pereira (Sporting), Miguel Lopes (Braga), Pepe (Real Madrid-ESP), Bruno Alves (Zenit-RUS), Rolando (Porto), Ricardo Costa (Valencia-ESP) e Fábio Coentrão (Real Madrid-ESP)

Meio-campistas: João Moutinho (Porto), Raúl Meireles (Chelsea-ING), Carlos Martins (Granada-ESP), Miguel Veloso (Genoa-ITA), Rúben Micael (Zaragoza-ESP), Custódio (Braga)

Atacantes: Cristiano Ronaldo (Real Madrid-ESP), Nani (Manchester United-ING), Ricardo Quaresma (Besiktas-TUR), Silvestre Varela (Porto), Hugo Almeida (Besiktas-TUR), Hélder Postiga (Zaragoza-ESP) e Nélson Oliveira (Benfica)

ALEMANHA: Favoritos até a página 2

Jogando bem abaixo do normal, Schmelzer não se firma na Nationalelf

Após a Copa do Mundo, a Alemanha foi a seleção que apresentou o futebol mais vistoso do mundo. Bom toque de bola, controle de jogo preciso, velocidade e muita habilidade das jovens revelações do país. Os bons resultados credenciam o time germânico a conquista da Eurocopa, que não vem desde 1996. Porém, os problemas defensivos deixam os torcedores com um pé atrás.

Se no ataque, a dúvida de Joachim Löw é só de quem escalar, sempre sabendo que o nível será o mesmo, na defesa o problema é um mistério. Jerome Boateng, Per Mertesacker, Holger Badstuber, Mats Hummels e Marcel Schmelzer brigam por três vagas – levando em conta que uma é de Philipp Lahm -, mas os cinco não conseguem apresentar na seleção o que jogam em seus clubes. Pior do que simplesmente jogar bem na Alemanha, mas ser espetacular em seus times, é que os jogadores citados falham demais nos jogos internacionais, sendo totalmente o inverso do que são nos clubes.

O grande exemplo disso é Marcel Schmelzer. O lateral-esquerdo do Borussia Dortmund domina a posição na Bundesliga, mas na Alemanha tem erros infantis na defesa e não vai bem no apoio ao ataque. Sobre a questão defensiva, a ausência de Kevin Grosskreutz pode explicar um pouco, já que ele auxilia demais na marcação, porém, a ineficácia ofensiva, que deveria ser um dos pontos fortes de Schmelzer, é um verdadeiro mistério.

Löw parecia inclinado a colocar Hummels, também do Dortmund, como titular, mas ele é outro que não repete na seleção as suas atuações pelo clube amarelo. A tendência é que Mertesacker forme dupla de zaga com Badstuber, embora, com a situação de momento, seja mais seguro apostar na entrosada dupla Boateng e Badstuber, que se entenderam bem no Bayern.

No setor ofensivo, o problema é somente o encaixe. Sami Khedira é o ponto de equilíbrio do time e é titular absoluto. Bastian Schweinsteiger não perde sua posição de jeito nenhum. Podolski e Özil são outros dois a terem a confiança de Löw. Sobraria uma vaga no meio-campo, onde Marco Reus, Thomas Müller e Toni Kroos brigariam por esta posição.

No ataque, uma luta sadia: Mário Gomez e Miroslav Klose. O primeiro foi artilheiro do Bayern por mais uma temporada e tem correspondido na seleção, enquanto o segundo deixou o time bávaro e se desafiou no futebol da Velha Bota e se deu bem na Lazio. A tendência é que o atacante de origem polonesa seja o titular, mas seja quem for o homem preferido de Löw para posição, a Nationalelf estará bem servida.

Mas ainda assim, a Alemanha é uma das grandes favoritas ao torneio, graças a esta geração jovem e talentosa que surgiu no país. Mas devemos dar ressalvas à defesa do time, que ainda não está formada e baterá de frente na primeira fase com os artilheiros máximos das ligas inglesa e alemã – van Persie e Huntelaar, respectivamente.

CONVOCADOS

Goleiros: Manuel Neuer (Bayern), Tim Wiese (Werder Bremen), Ron-Robert Zieler (Hanover 96)

Defensores: Holger Badstuber (Bayern), Jerome Boateng (Bayern), Benedikt Hoewedes (Schalke 04), Mats Hummels (Borussia Dortmund), Philipp Lahm (Bayern), Per Mertesacker (Arsenal-ING), Marcel Schmelzer (Borussia Dortmund)

Meias: Lars Bender (Bayer Leverkusen), Mario Götze (Borussia Dortmund), Ilkay Gündogan (Borussia Dortmund), Sami Khedira (Real Madrid-ESP), Toni Kroos (Bayern de Munique), Thomas Müller (Bayern de Munique), Mesut Özil (Real Madrid-ESP), Lukas Podolski (Colonia), Marco Reus (Borussia Mönchengladbach), Andre Schürrle (Bayer Leverkusen), Bastian Schweinsteiger (Bayern)

Atacantes: Mario Gomez (Bayern de Munique) e Miroslav Klose (Lazio-ITA)

*Crédito das imagens: Reuters

16 histórias para contar

Jogar uma Eurocopa já deve ser algo muito gratificante. Para alguns jogadores, que às vezes estão em seleções periféricas e que raramente chegam a torneios de grande visibilidade, pode-se considerar como o ponto mais alto de sua carreira. Mas o que dizer de um jogador que tem em sua carreira o recorde de atleta que mais atuou em UEFA Euro? Essa é a história de Lilian Thuram.

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Lilian Thuram é o jogador que mais vestiu a camisa da França

Ruddy Lilian Thuram-Ulien nasceu em Guadalupe, território francês que fica no Caribe, mas iniciou sua carreira futebolística na França mesmo. O Mônaco foi o clube que o revelou e que ajudou a projetá-lo para o mundo do futebol. Por lá, Thuram atuou por quase 200 partidas, tendo balançado as redes em 11 oportunidades.

Depois de dois vice-campeonatos nacionais com o time do Principado, o zagueiro/lateral-direito se transferiu para o Parma. Foi lá que sua carreira engrenou de vez! Os títulos mais valiosos pelo clube italiano foram as duas copas da Itália e a Copa da UEFA. Com todo esse sucesso, Thuram se transferiu para a Juventus em 2001, permanecendo lá até o Calciopoli, que culminou no rebaixamento da Vecchia Senhora em 2006. O francês deixou Turim com dois títulos da Série A e um vice da Champions League.

Até 2008, Thuram defendeu o Barcelona de Rijkaard, já decadente naquela época. Quando estava prestes a assinar com o Paris Saint-Germain, foi diagnosticado um problema no coração, que impediu a continuação de sua carreira.

Mas não estou aqui para falar da brilhante carreira de Thuram e sim de sua história nas disputas da Eurocopa. Seu começo nos Bleus foi em 1994 e dois anos depois ele já estava na Inglaterra para jogar sua primeira UEFA Euro.

Lilian Thuram era peça de confiança do técnico Aimé Jacquet e participou de todas as partidas da França edição de 1996 da Eurocopa. A campanha francesa no papel até que foi boa – semifinalista e invicta -, mas no campo, isso não foi representado muito bem. Três empates e duas vitórias, porém, os dois jogos em que saiu como vencedor marcaram um futebol insosso e lento do time francês. Dos três empates, dois culminaram em disputas de pênaltis. Contra a Holanda, veio à vitória, contra a República Tcheca, a sorte não sorriu para os Bleus, que foram eliminados.

Só em 1996, já colocávamos na conta de Thuram cinco jogos na Euro. E ele ainda tem história no torneio!

Thuram conquistou a Euro em 2000

Quatro anos depois, o defensor, na época, já campeão do mundo em 1998 – tendo feito dois gols na semifinal contra a Croácia, os seus únicos dois gols com a camisa da Seleção Francesa -, pôde ver seu nome no hall de grandes campeões franceses.

Podemos destacar duas curiosidades nesta edição da Euro, claro, envolvendo Thuram:

1 – A única derrota da França no torneio foi justo na partida em que o defensor não esteve em campo, no 3×2 para a Holanda;

2 – Em 96, Thuram, com cartão amarelo, não participou dos últimos minutos da semifinal contra a República Tcheca e o resultado já foi destacado acima. Na final de 2000, o jogador se viu na mesma situação, porém, Roger Lemerre, então técnico da Seleção, optou por deixá-lo em campo. O resultado disto tudo foi no histórico disparo de pé esquerdo de Trézeguet, que pegou Toldo no contrapé e deu o título a França no gol de ouro.

Coincidência ou não, o fato é que Thuram participou daquele grande time que ainda tinha Zinédine Zidane, Thierry Henry, Patrick Vieira, Didier Deschamps e Laurent Blanc. Eram mais cinco jogos pra sua lista, contabilizando dez!

Em 2004, a campanha francesa tinha tudo pra decolar. Les Bleus ainda tinham nomes como Zidane, Vieira, Henry, Trézeguet e é claro, Thuram, porém, havia uma pedra grega no caminho francês.

No início, a França mostrou enorme poder de reação, principalmente na estréia, quando virou pra cima da Inglaterra com dois gols de Zizou nos acréscimos da partida. Croácia e Suíça foram duas equipes que conseguiram igualar em gols com a França, porém, nenhuma das duas seleções conseguiu vencê-los – os croatas seguraram o empate, mas os suíços foram derrotados.

Só que nas quartas de final, a França foi bruscamente parada pela Grécia de Angelos Charisteas, autor do gol que eliminou Thuram e seus companheiros da Euro de 2004. O defensor conseguiu acrescentar a sua lista mais quatro jogos, somando catorze.

Capitão em 2008, Thuram participou do fracasso francês

Em 2008, Lilian Thuram participou de sua última Eurocopa, porém, ele não deve ter tido o final que esperava. O confuso time treinado por Raymond Domenech não passou da primeira fase e somou apenas um ponto. A França ainda perdeu para a Itália por 2×0 e foi humilhada pela Holanda, 4×1.

Thuram participou dos jogos contra Romênia e Holanda, e em ambos, foi o capitão da equipe. Aliás, no duelo contra os romenos, o defensor chegou à marca de 15 jogos, chegando ao recorde de maior número de jogos em Eurocopas.

Dias depois, Edwin van Der Sar viria igualar a marca do francês, porém, pra um goleiro, é mais “fácil”. Thuram encerrou sua jornada na Seleção da França com 142 jogos e dois gols, jogador que mais vestiu a camisa de seu país e realmente a honrou. Com muita técnica, força e vigor nas marcações, Thuram ficou marcado na história do futebol de seu país.

A única glória de uma grande geração

Como de praxe, nas sextas-feiras tento trazer mais um “Conto da Euro”. A personagem da semana é a seleção holandesa. Acostumada a chamar a atenção por seu futebol vistoso, a Holanda nunca se firmou como uma seleção de ponta. Mas em 1988, Rinus Michels, van Basten e Gullit encerraram com esta sina. Este é mais um “Conto da Euro”.

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Campeã em 1988, a Holanda tinha tudo pra conquistar mais títulos (Foto: Bongarts)

Durante toda a história do futebol, a Holanda se notabilizou por formar grandes jogadores. A grande maioria destes atletas demonstrava alta técnica e elegância com a bola nos pés. Porém, a Laranja nunca conseguiu se tornar uma seleção vencedora.

Nos anos 70, tendo como base o Ajax e o “futebol total”, a Holanda conseguiu dois resultados pra lá de expressivos em Copas do Mundo. Em 1974, o time de Rinus Michels mostrou todo seu potencial logo em sua estréia, ao bater o Uruguai por 2×0, tendo enorme facilidade para obter o resultado. Mais tarde, na então existente segunda fase de grupos, os holandeses mostraram ao mundo que não estavam de brincadeira e conseguiram a vaga para a final da Copa ao passar por um grupo que tinha Alemanha Oriental, Brasil e Argentina. Na grande final, o time holandês “travou” e após abrir o placar com menos de dois minutos – a Alemanha literalmente não havia tocado na bola -, o time cedeu a pressão alemã e logo tomou a virada.

Quatro anos depois, na Argentina, a Holanda – já sem Cruyff – precisou seguir um caminho parecido ao de 1974. Para chegar à final, o time na época treinado por Ernst Happel passou por uma segunda fase de grupos complicada, desta vez tendo que enfrentar Itália e Alemanha Ocidental. Mesmo sem lembrar seus tempos de “futebol total”, a Holanda conseguiu sua vaga na final. Mas no último jogo daquela copa, a Laranja sucumbira a Mário Kempes e o Monumental de Nuñez lotado e perdera por 3×1 já na prorrogação.

Foi uma geração que ficou marcada tanto positivamente quanto negativamente. A parte positiva foi na de jogar futebol. Parte essa que foi vitoriosa no Ajax, mas que não foi executada com tanta perfeição no selecionado holandês. Outro ponto positivo daquela geração certamente está no enorme cartel de atletas criados, como Johann Cruyff, Rob Rensenbrink, Rud Krool e Johan Neeskens. A parte negativa não é segredo pra ninguém: a ausência de títulos. Este time que foi formado nos anos 70 conseguira dois vice-campeonatos mundiais e uma semifinal de Eurocopa.

Após essa geração se encerrar, ficava a dúvida na cabeça dos torcedores da Laranja: “será possível termos outro time forte e envolvente como o time de Michels?”. A Holanda precisava fugir da fama que a Hungria pegou. Poderosíssima nos anos 50 e 60, os húngaros nunca mais repetiram atuações parecidas com as que metiam medo nos adversários nos anos dourados dessa seleção. Está difícil até para a Hungria formar bons jogadores, já que os húngaros de maior destaque acabam sendo coadjuvantes de times de meio da tabela, como Hajnal no Stuttgart e Gera no West Bromwich.

O início dos anos 80 geraram certo pavor nos holandeses. Então “bi vice-campeã” do mundo, a Holanda ficou de fora das Copas de 82 e 86, enquanto na Eurocopa, a Laranja caiu na primeira fase em 1980 e nem disputou a edição de 1984.

Após muito tentar e fracassar, a Holanda finalmente conseguiu voltar a uma edição de Eurocopa. Isso aconteceu em 1988, na edição realizada na Alemanha Ocidental. Mas desta vez, a intenção não era entrar no torneio simplesmente pra fazer figuração. Rinus Michels, que voltava a treinar a seleção da Holanda após quatro anos, tinha a sua disposição a dupla do Milan, Marco van Basten e Ruud Gullit. Junto dos dois estavam também Frank Rijkaard – que se juntaria a seus compatriotas no Rossonero após a Eurocopa – e Ronald Koeman. Era um time que não devia nada para ninguém e que poderia brigar pelo título mais cobiçado em nível continental pelas seleções européias.

Ainda é necessário destacar que a base do time era formada pelos dois times mais fortes da Holanda naquela época: Ajax e PSV. Dos 20 jogadores convocados por Rinus Michels para a disputa daquela Eurocopa, dez defendiam a dupla citada anteriormente – cinco pra cada lado. Não custa lembrar que menos de 20 dias antes da estréia holandesa na Eurocopa, o PSV Eindhoven batia o Benfica nos pênaltis e se sagrava campeão europeu. Era apenas mais um motivo para não menosprezarmos a Seleção Holandesa.

A seleção de Rinus Michels estava no grupo B da competição, junto de seleções fortes como União Soviética e Inglaterra, além da Irlanda, na época, estreante em Eurocopas.

Logo na estréia, decepção: a Holanda não conseguiu furar a forte marcação da União Soviética, além, é claro, de não passar pela barreira Rinat Dasayev e acabou perdendo o jogo no contra-ataque. Rácz, em um violento tiro cruzado fez o gol da vitória dos soviéticos.

No outro jogo do grupo, a Irlanda fez o jogo de sua vida e bateu a Inglaterra por 1×0. Pros ingleses, aquele jogo era apenas mais um, pois eles não consideravam os irlandeses “no seu nível”, mas o selecionado irlandês não pensava deste modo. Apenas quatro dos vintes convocados atuavam fora da Inglaterra, então eram motivos pessoais que cercavam aquela partida. A vitória por 1×0, gol de Ray Houghton, foi certamente uma das mais marcantes da história da Irlanda. A seleção treinada por Jack Charlton viria a cometer outro “crime” ao arrancar um empate da poderosa União Soviética, 1×1.

Na segunda rodada, o mundo viu do que Marco van Basten era capaz. O camisa 12, na época com 23 anos, anotou os três gols holandeses na vitória por 3×1 sobre a Inglaterra e deixava o seu país a uma vitória da classificação.

Win Kieft salvou a Holanda contra a Irlanda (Getty Images)

Era confronto direto: Irlanda x Holanda. Os irlandeses de Jack Charlton tinham três pontos e jogavam pelo empate. Já os holandeses de Rinus Michels, com dois, necessitavam dos dois pontos – era o que valia a vitória na época – se quisessem se qualificar para as semifinais.

A partida era muito nervosa. A Irlanda buscava de qualquer modo segurar o resultado que lhe garantiria pela primeira vez na semifinal da Eurocopa. Já a Holanda, necessitando de outro marcador, ia com tudo pra cima, mas esbarrava na retrancada seleção adversária. O gol da vitória custou a sair e veio em um lance de sorte. Após levantamento, Paul McGrath, então jogador do Manchester United, cortou a bola para frente de sua área. A gorduchinha caiu no pé direito de Koeman. O chute dele saiu esquisito, pro chão. Na verdade, o jogador que ganhara dias atrás a Copa dos Campeões com o PSV pareceu ter chutado por chutar. Koeman contou com a sorte, pois a bola foi na cabeça de Wim Kieft, outro campeão europeu. O atacante do PSV cabeceou no contrapé do goleiro Packie Bonner, que fez de tudo para tentar defender, mas a bola fez uma curva estranha e foi parar dentro do gol. A Holanda chegava aos quatro pontos, ultrapassando a Irlanda e conquistando a vaga nas semifinais.

Por fim, foi melhor para todos. A Holanda, time mais forte, conquistava a classificação e a seleção da Irlanda ficava marcada por sua honrosa campanha, que só não foi melhor por causa de um gol sofrido aos 37 minutos do segundo tempo.

Na semifinal, Rinus Michels e seus comandados dariam de frente com um velho algoz: a Alemanha Ocidental. Em 1974, a Laranja Mecânica de Cruyff perdeu a final justamente para esta seleção. Quatro anos mais tarde, essas duas seleções se reencontraram na copa da Argentina e ficaram no 2×2. Em 1980 houve outro encontro entre as duas seleções, na Eurocopa da Itália e novamente deu Alemanha, 3×2, com três gols de Allofs.

Era a hora da verdade – perdão pelo uso do clichê -! A Holanda precisava mostrar se era mesmo a melhor seleção do mundo em 1988 ou se era uma simples freguês da Alemanha Ocidental. Era a verdadeira hora de van Basten, Gullit, Koeman e Rijkaard mostrarem que queriam ficar marcados como vitoriosos na história do futebol.

A semifinal de 1988 lembrou muito a final de 1974. Na Copa do Mundo, o primeiro gol surgiu de um pênalti sofrido por Cruyff, que decidiu dar uma arrancada – após uma série incansável de toques na bola – e só foi parado com falta, no caso, pênalti. Já na Eurocopa, Klinsmann decidiu iniciar uma arrancada somada a uma série de dribles. O atacante do Stuttgart só foi parado por Rijkaard, que cometeu pênalti no alemão. Neeskens converteu a penalidade em 74, Matthäus converteu em 88.

van Basten foi o artilheiro da Euro 88 com 5 gols (Getty Images)

Marco van Basten, que andava meio sumido desde o hat-trick diante da Inglaterra, passou a decidir a partida. Primeiro, o atacante do Milan sofrera o pênalti que resultou no gol de empate de Koeman – assim como em 74, a partida chegava ao 1×1 com dois gols de pênalti.

A partida ia se encaminhando para a prorrogação. Já estávamos no minuto 44 da etapa complementar. Muitos já se preparavam para o tempo extra… outros levavam a sério a frase “o jogo só acaba após o último apito”. Um destes era van Basten, que recebera na grande área e de carrinho mandava pras redes.

Foram precisos dois lances para van Basten encerrar a freguesia de sua seleção perante a Alemanha e colocar a Holanda na final da Eurocopa pela primeira vez na história!

Na final, um adversário bem conhecido: a União Soviética, única equipe que conseguiu derrotar a Holanda naquela edição da Euro.

Na grande final disputada no estádio Olímpico de Munich, a Holanda conseguiu tirar a sua sina de perdedora, de time do “futebol total mas que não vence”. Nem toda força defensiva soviética foi capaz de segurar van Basten e companhia.

No primeiro gol, a União Soviética caiu na própria armadilha. Após levantamento na grande área, a zaga conseguiu afastar a bola, mas todos saíram para fazer a linha de impedimento. Mas van Basten veio de trás e conseguiu fazer o toque para Gullit abrir o placar na decisão.

Com 1×0 contra, os soviéticos seriam obrigados a fazer algo que não estavam muito acostumados: atacar. Em suas quatro partidas anteriores, a União Soviética só havia ficado atrás no marcador uma vez.

Na etapa final viria a prova de que seria impossível tirar o título das mãos holandesas. Nos aproximávamos dos dez minutos, quando Arnold Mühren avançou pela esquerda e cruzou para Marco van Basten. O atacante holandês recebeu a bola no lado oposto do campo, próximo a linha de fundo, com ângulo quase inexistente. Mas van Basten tirou um coelho da cartola: acertou um raro chute de pé direito, fazendo com que a bola tomasse várias direções diferentes, matando Dasayev. Uma obra prima, digna de um monstro como van Basten, que mesmo sendo letal com a bola nos pés, tinha uma elegância com a pelota poucas vezes vista neste planeta. E pensar que o atacante Rossonero só participou da Euro por causa de Cruyff, que o convenceu a disputar o torneio, mesmo tendo perdido praticamente toda a temporada devido as lesões.

Ajax e PSV formavam a base deste poderoso selecionado holandês

Depois deste gol, não havia jeito dos soviéticos tirarem o título da Holanda! Foi o primeiro e único título holandês em uma Eurocopa.

Era esperado que após o esperado título, a Laranja Mecânica finalmente engrenasse nos torneios que viriam à seguir. Mas nada feito. Na Copa de 1990, a Holanda novamente parava diante dos alemães e na Eurocopa de 1992, a Dinamarca brecava os holandeses na semifinal. Foi o último torneio de van Basten, Gullit e Rijkaard, além de Rinus Michels com a Seleção Holandesa. Era o fim daquela geração que tinha tudo pra ser vitoriosa, mas que acabou com apenas um título.