Os Números Dizem Muito: Negócio do Lille

Enquanto o PSG compra, o Lille investe(Foto: Getty Images)

Enquanto o PSG compra, o Lille investe
(Foto: Getty Images)

No futebol cada vez mais envolvido com os números relacionados às quantias astronômicas nas vendas de atletas, tem se tornado natural vermos times “vendedores”. O maior exemplo da Europa é o Porto, que lotou seu cofre com as negociações de atletas como Falcao García e Hulk.

Na França, o principal exemplo tem sido o Lille. Da temporada 2007/08 até a atual, o clube do norte da França obteve pelo menos 140 milhões de euros em vendas de jogadores. Digo “pelo menos” porque levantei no site Transfermarkt apenas as contratações mais caras, deixando algumas pechinchas de lado. Porém, o Lille acabou lucrando demais com essas negociações, pois no mesmo período, a contratação mais cara que fez foi a de Marvin Martin nesta temporada, por 10 milhões de euros.

Olhando com uma visão ainda mais otimista, vemos que o Grand Stade Lille Metrópole, moderno estádio do time, construído recentemente, custou algo em torno de 280 milhões de euros, sendo que esse valor foi dividido entre a empresa responsável e o poder público. Ou seja, com esses 140 milhões, menos alguns investimentos, deu para pagar a construção de seu estádio.

Confira abaixo os números das vendas do Lille:

2012/13 – 46 milhões de euros
40 milhões = Hazard para o Chelsea
6 milhões = Debuchy para o Newcastle

2011/12 – 33 milhões de euros
12 milhões = Gervinho para o Arsenal
10 milhões = Sow para o Fenerbahçe
6 milhões = Rami para o Valencia
5 milhões = Cabaye para o Newcastle

2010/11 – Nenhuma grande venda

2009/10 – 18 milhões de euros
18 milhões = Michel Bastos para o Lyon

2008/09 – 14 milhões de euros
14 milhões = Jean II Makoun para o Lyon

2007/08 – 29 milhões de euros
16 milhões e 6 milhões = Kader Keitä e Bodmer para o Lyon
7 milhões = Odemwingie para o Lokomotiv Moscou

O Trauma de Lille

A derrota diante do BATE deixou o Lille com aproveitamento ruim em jogos em casa na Liga (Getty Images)

Sem Gervinho, mas ainda com Moussa Sow e Eden Hazard, o Lille saiu na fase de grupos da UEFA Champions League 2011/2012. A decepção foi muito grande, pois o clube, que carregava a fama de atual campeão francês, saiu da competição sem vencer nenhum jogo em sua casa.

Das três partidas feitas como mandante, o LOSC tinha uma que já era sabida que não venceria, que era contra a Internazionale. E assim foi, revés pelo placar mínimo. Depois disso, CSKA Moscou e Trabzonspor eram adversários vencíveis.

Porém, a sensação deixada após esses jogos foi de vexame. Contra os russos, o Lille chegou a abrir 2×0 e teve chances de golear, mas acabou cedendo o empate nas únicas finalizações do CSKA. Já no duelo diante do time turco, o 0x0 custou à classificação – a vitória lhe deixaria com os mesmos 8 pontos do CSKA, mas como o time francês venceu na Rússia, se classificaria.

A precipitada queda só aumentou o histórico ruim do Lille quando joga em seus domínios. Em toda a sua história na Liga dos Campeões, o time francês obteve apenas 45% de aproveitamento nos jogos em casa, com cinco vitórias em 17 jogos. São números que contrastam completamente com o que é feito pelo mesmo time, se juntarmos os números da Copa UEFA/Liga Europa com a UCL. O aproveitamento subiria para 69%.

Quase dez meses se passaram daquela eliminação, o estádio Lille Métropole foi “aposentado” e o moderníssimo Grand Stade Lille Métropole – estádio da Euro 2016 – “ganhou vida”. A sofrida classificação para a fase de grupos – vitória na prorrogação sobre o Copenhague – pareceu mostrar que o trauma de jogar em Lille era coisa do passado.

Tudo conspirava a favor do Lille, já que logo na estréia, receberia o, aparentemente frágil, BATE Borisov. Para completar, Bayern e Valencia, teoricamente, os times mais fortes do grupo, se enfrentariam. Era a chance de o time francês vencer e já ter três pontos de vantagem para um dos concorrentes a vaga.

O BATE Borisov riu e ainda “tirou onda” de quem dava como certa a projeção criada anteriormente e abriu 3×0 em menos de 45 minutos de jogo no Grand Stade Lille Métropole. O pobre time francês teve forças apenas para marcar um gol de honra.

Mas o que se passa com o Lille quando enfrenta jogos internacionais em casa? Pressão? Medo? Inexperiência? O fato é que não é normal ter menos de 50% de aproveitamento nos jogos em casa em toda sua história no torneio.

O acachapante tropeço diante do time bielorrusso se explica, em partes, pelo oscilante início de temporada do LOSC. Marvin Martin, principal contratado, não tem as características desse time do Lille. Rudi Garcia viciou a equipe a jogar no 4-3-3, sem um armador central. Martin é justamente esse atleta que não se encaixa no esquema, até por isso existe a dúvida: a formação que deve se ajustar ao jogador ou ele que tem de se adaptar ao esquema? Esse período de incertezas atrapalha o time e o jogador, que não vem repetindo as boas atuações dos tempos de Sochaux.

Mas é óbvio que este desencaixe não foi o grande causador desta trágica e inesperada derrota. Parece existir uma mística e um fator psicológico que envolve a questão. Não sei nem se Hazard – que faz uma falta absurda – mudaria este panorama. Falta equilíbrio ao Lille, talvez até mental. Ora o centro-avante decide, ora peca em lances imperdoáveis. Ora o zagueiro faz cortes precisos, ora entrega o ouro ao bandido. Essas oscilações individuais passam pra todo time e é esse tipo de situação que complica a equipe em determinados momentos. Falta um algo mais!

Se o Lille sonha em chegar, pela segunda vez em sua história, a fase de mata-mata da Champions League, precisa quebrar essa sina. Como vai conseguir, honestamente, eu não sei, mas vencer pelo menos uma partida em seu estádio já ajudaria bastante.

O preço alto da soberba

É, Pastore... Não deu! (Reprodução: PSG.fr)

Durante toda a história, somente dois clubes franceses conquistaram torneios continentais: o Olympique de Marseille, que já foi campeão da Liga dos Campeões e o Paris Saint-Germain, que já ergueu a Taça das Taças.

Não são números pra lá de expressivos, muito pelo contrário. Mas levando em conta a quantidade absurda de jogadores que os times franceses cedem para grandes clubes de outras ligas, dava para imaginar resultados melhores. Se os clubes do país tivessem um maior poder aquisitivo, não só manteriam muitos jogadores como formariam equipes capazes de bater de frente com as grandes forças européias.

Mesmo assim, estando colocada em um posto de destaque mediano no cenário continental, os times da França se sentem no direito de “esnobar” um torneio como a Europa League.

Na temporada passada, o Lille, por exemplo, futuro campeão francês e contando com o entrosado trio Hazard-Sow-Gervinho, jogou boa parte da Liga Europa com time misto. A gota d’água foi no mata-mata contra o PSV Eindhoven. Após empatar em casa por 2×2, o técnico Rudi Garcia mandou pro jogo de volta, na Holanda, um time quase reserva. Moussa Sow e Hazard entraram em campo quando a vaca já estava se dirigindo pro brejo mais próximo.

Na atual temporada, Lyon e Marseille até que fizeram bonito na Uefa Champions League – ambos conseguiram no sufoco suas qualificações pro mata-mata – mas o Lille deu vexame ao cair fora da competição sem nem pegar Liga Europa.

Na própria Europa League, o vexame foi maior. O Rennes não se classificar é normal. O time rubro-negro não tem como costume disputar competições continentais e a falta de experiência era totalmente aceitável. Mas o Paris Saint-Germain???? Vexame!

A Qatar Sports Investiments botou muita grana no clube, trouxe nomes de peso como Ménez, Gameiro e Pastore, e o PSG tem muito mais time que muita gente que se classificou. Porém, o descaso do time com o torneio foi grande.

Em casa, o time parisiense fez sua parte. Venceu os três jogos, marcou oito gols e sofreu apenas três. Mas fora de casa, o PSG somou somente um mísero ponto em cima do fraquíssimo Slovan Bratislava. O grande detalhe desses três jogos como visitante, é que o time parisiense estava com time misto.

Agora olha o estrago que essas eliminações tolas poderão causar ao futebol francês:

Esse ranking acima é da UEFA e que indica a posição de cada liga européia. Ele determina quantas vagas para torneios continentais cada país poderá fornecer.

As três primeiras colocadas podem ceder quatro times para a Champions League e mais três para a Europa League. As três seguintes colocações fornecem três vagas para as duas competições. Depois do sétimo ao décimo quarto lugar, são cedidas duas vagas para a UCL e por aí vai…

Neste momento, a França ocupa a quinta colocação no ranking da Uefa, com 53.344 de coeficiente. A Ligue 1 ainda está muito distante da Série A, mas em contrapartida, vê as ligas portuguesa e russa se aproximarem. Se os dois países ultrapassarem a França neste ranking, a Ligue 1 perderá uma vaga na Champions League.

Mais do que nunca, os franceses terão de torcer para Lyon e Marseille chegarem longe na Champions League, pois são os únicos que podem manter as 3 vagas do país para a Champions League. Tanto Rússia, quanto Portugal, tem quatro times disputando as competições UEFA.

Pior vai ser ver depois uma eventual choradeira de “certos times” que possivelmente ficarão de fora da Champions League por ficarem em 4º lugar…

Durma-se com um barulho desses!