Verdades e mentiras sobre Guardiola no Bayern

Guardiola treinará o Bayern até 2016(Foto: Getty Images)

Guardiola treinará o Bayern até 2016
(Foto: Getty Images)

Não era para chocar, mas muita gente ficou perplexa com o Bayern de Munique anunciando a contratação de Josep Guardiola para a próxima temporada, como se o clube bávaro ficasse fora do grande centro futebolístico, com instalações fétidas e que não tivesse dinheiro nem para comprar aquele chiclete que é usado como troco no bar da esquina. Além disso, a imprensa italiana – não me questione, não entendi também – já bancava a informação dias atrás.

Feito o anúncio oficial, vi, li e ouvi diversas coisas sobre o tema. Algumas coisas tinham sentido, outras nem tanto, porém, com algum valor, mas encontrei outras tantas análises de pessoas que tem seu corpo presente no século XXI, mas a mente parece estar na idade da pedra.

Por essas outras, tentarei colocar os pingos nos “is” e esclarecer ou confirmar alguns tópicos erguidos durante o dia.

→ Sempre acreditei na informação: MENTIRA!

Nunca botei fé nessa negociação, admito na cara dura. A “SKY Italia” bancou essa história desde o início, mas eu segui relutante. Mas convenhamos uma TV italiana confirmando a negociação de um técnico espanhol com um clube alemão é bem suspeito. Qual era a chance daquilo tudo ser real? Se era pequena ou grande não sabemos, o fato é que ela se concretizou.

Aproveito este tópico para desculpar-me com quem se sentiu ofendido comigo quando disse que estavam crendo em uma “lorota”. Não era minha intenção, caso tenha mesmo ofendido, mas, em nenhum momento, acreditei nessa história.

→ Sacanagem com Jupp Heynckes: MENTIRA!

O Bayern foi completamente ético com o atual treinador do time, Jupp Heynckes. Todos os dirigentes foram muito claros quando houve o acerto com Guardiola: Heynckes pôde decidir seu futuro, se queria renovar seu contrato ou não, dependia apenas dele. Segundo a imprensa alemã, o veterano comandante tomou sua decisão antes do natal e já considerava real a aposentadoria.

Jupp Heynckes terá um final digno e o Bayern tratou a situação com maior dignidade possível.

→ Guardiola e Bayern têm estilos diferentes: MENTIRA!

O Bayern tem um dos maiores índices de posse de bola da Europa, batendo de frente com o Barcelona, ou seja, valorizam demais a pelota quando a tem em seu domínio. A grande diferença entre um e outro está no ponto dos bávaros serem mais incisivos e enfeitarem – não encontrei termo melhor – menos que os catalães. Caberá a Guardiola escolher se manterá esse ímpeto alemão ou vai impor seu estilo, mas o jogo de ambos se assemelha.

O catalão também valoriza os atletas oriundos das categorias de base, atitude que os clubes alemães, inclusive o Bayern, têm adotado nos últimos anos. Phillip Lahm, Holger Badstuber, David Alaba, Bastian Schweinsteiger, Toni Kroos e Thomas Müller, todos estes tem muitos minutos na temporada e são oriundos da base bávara. Além destes, o lateral Emre Can e o meia Mitchell Weiser – esse é cria do Colônia e está emprestado ao Kaiserslautern – devem ganhar mais espaço, assim como outras crias do Bayern.

→ O Bayern não tem mobilidade: MENTIRA!

Se me falassem isso há um ano, eu assentiria essa frase, mas os tempos são outros. Müller, Kroos, Ribéry e Mandžukić – que é meia de origem formam um quarteto de intensa movimentação e trocas de lugares dentro de campo. Com Mário Gomez no lugar do croata, essa movimentação é quebrada, mas a trinca de armação seguirá agindo e confundindo os adversários.

Porém, se Guardiola optar por um “falso nove de ofício”, Mandžukić, Gomez e a terceira opção, Pizarro, devem rodar. Müller, que já foi atacante quando esteve na base bávara, pode ocupar essa lacuna, assim como Ribéry, que já foi testado por Jupp Heynckes na função.

→ Os resultados não serão imediatos: VERDADE!

Bom, isso é puro palpite. Não acredito que Guardiola já chegue mexendo em tudo, até porque, como foi dito anteriormente, o Bayern tem um estilo de jogo que lhe agrada, mas alguns retoques ele deverá fazer, talvez a diminuição do ritmo, também citada anteriormente, aconteça. Mas as semelhanças devem colaborar no futuro.

→ Mais visibilidade a Bundesliga: VERDADE!

O Campeonato Alemão já deixou o italiano e o espanhol para trás, não há dúvida, mas há quem considere o torneio da terra do chucrute superior a Premier League. Ainda assim, há quem desvalorize o campeonato no Brasil, até por isso a surpresa com o anúncio do Bayern. Sem falar dos que assistem dois jogos por ano e “sabem” tudo dos times.

Guardiola chamará a atenção para um campeonato que cresce cada vez mais, tanto tecnicamente, quanto na forma organizacional e econômica. Quem sabe o auge da Bundesliga não seja na próxima temporada?

→ Choque de gigantes nos bancos: VERDADE!

O confronto mais esperado será Borussia Dortmund x Bayern, não apenas pela qualidade de ambos os times, mas pelo duelo Jürgen Klopp versus Pep Guardiola, os dois maiores técnicos dos últimos cinco anos na Europa. Frente a frente, dois estrategistas e que prezam pelo jogo ofensivo.

Além disso, Christian Streich, Thomas Tuchel, Dieter Hecking, Mirko Slomka e outros bons técnicos da Bundesliga, poderão testar suas forças com Guardiola, feito improvável com Pep na Espanha.

→ Novo técnico, novo esquema: MEIA VERDADE!

Pode ser que Guardiola chegue, desfaça o 4-2-3-1 – 4-4-2 sem a bola – de Heynckes e passe a adotar o 4-3-3 tão famoso em terras catalãs, mas será que ele fará isso mesmo? Pep só trabalhou no Barcelona, onde rola toda aquela história de “ter o mesmo esquema, mesma filosofia, mesmo estilo de jogo (…)” da base até o time profissional, ou seja, é meio arriscado dizer que esse é mesmo o esquema favorito de Guardiola – se é que ele tem um. Por isso, esse tópico está na linha tênue entre a verdade e a mentira, só o espanhol chegando ao Bayern para termos certeza disso.

→ Bayer de Munique trouxe Guardiola: MENTIRA!!!!

Longe de querer despejar arrogância ou cuspir regra na cara de alguém, mas custa saber a diferença de Bayer e Bayern? O primeiro é de Leverkusen e do remédio, o segundo é da Baviera, simples e sem ligação alguma. Por que a confusão? Mal comparando, é como chamar o time Coritiba com o nome da cidade Curitiba e vice-versa – embora aí haja uma relação. Além do mais, o Google está aí, faça bom uso dele caso não tenha certeza de algo.

O Novo Bayern Móvel

Com Mário Gomez no ataque, o Bayern tinha garantia de gols, mas não de movimentação. O centro-avante bávaro é o famoso “tanque”: lento, forte, bom no jogo aéreo e ótimo pra transformar as bolas quadradas em gol. Porém, havia um lado contrário. Por não ter tanta mobilidade, Gomez tornava algumas jogadas previsíveis. Os meias sempre iam atrás dele, mas não invertiam os flancos em busca de novas alternativas.

Nesta nova temporada da Bundesliga, Gomez iniciou contundido e Mario Mandžukić, recém contratado, se tornou o substituto. O croata não tem as mesmas características e quando surgiu no Dínamo Zagreb, jogava na linha de meio de campo. É um centro-avante de maior mobilidade e tornou o estilo de jogo do Bayern mais dinâmico e com mais alternativas.

Na importante vitória diante do Schalke 04, Mandžukić não teve grande atuação com a bola nos pés, mas em termos de movimentação, ajudou bastante a fazer o jogo bávaro fluir. Sem Ribéry, o croata teve ao seu lado Müller na esquerda e Robben na direita, além de Kroos jogando mais atrás. Confira abaixo como estava desenhado o ataque do Bayern:

Essa foi a configuração inicial do ataque do Bayern

Mas note também que durante a partida, os ponteiros inverteram:

Acostumado a jogar pela direita, o canhoto Robben foi para a esquerda

Sem a bola, o Bayern passou a adotar uma estratégia que o Borussia Dortmund se acostumou a fazer: o meia central avança, os ponteiros se juntam aos volantes e o time se fecha em duas linhas de quatro. Percebam na imagem abaixo que Kroos fica ao lado de Mandžukić na marcação e que Müller e Robben fecham ao lado de Gustavo e Schweinsteiger:

Note que o Bayern fechava em um 4-4-2

Thomas Müller, que também joga como centro-avante, inverteu sua função com Mandžukić. Isso valeu defensivamente…

Nesse lance, Müller e Mandzukic trocaram de posição

… Quanto ofensivamente, na hora do gol:

Perceba que no lance do gol, Müller é quem irá tabela com Kroos

Nota-se que a aquisição de Mario Mandžukić foi um negócio e tanto do Bayern. O croata dá novas opções ao técnico Jupp Heynckes. E isso não é só no ataque. Em todos os setores do time, os bávaros estão bem representados, com um elenco bem mais “gorducho” do que o anterior. As imagens acima são só representações do que esse time pode render.

O brilho de um bávaro

Quando algum jogador originário da Baviera se destaca no futebol, logo nos lembramos do Bayern de Munich. O clube tem enorme tradição, vários títulos e jogadores de renome internacional. É automático, ninguém tem culpa de ter esses reflexos.

Nessa UEFA Euro 2012, um atleta do clube bávaro que tem chamado a atenção na seleção alemã é Mário Gomez. O atacante nem nasceu na Baviera, mas por jogar no Bayern ganha tal destaque. Ele foi autor de três dos cinco gols da Alemanha no torneio. Porém, o quinto gol do selecionado germânico foi de um bávaro que não tem nenhuma relação com o poderoso Bayern

Nascido e criado em Rosenheim, pequeno distrito da Baviera, Lars Bender seguiu roteiro diferente de muitos garotos da região e junto com seu irmão, Sven, não foi para o Bayern. Dos dez aos treze anos, treinaram no Unterhaching, também da Baviera. De 2002 em diante, os gêmeos partiram para o Munich 1860 e começaram a construir suas vidas no futebol.

Todo aquele momento parecia não passar de um sonho para os garotos, que tinham como grandes ídolos dois jogadores que atuaram no Munich 1860: o ganês Abedi Pelé e o polonês Piotr Nowak. A dupla defendeu o time bávaro de 1995 até 1998 – Abedi chegou em 96 -, época em que os irmãos Bender viviam a infância e imaginavam trilhar os gramados alemães como jogadores profissionais, assim como seus ídolos.

No final de 2006, a dupla de volantes iniciou a caminhada como profissional no Munich 1860. Lars e Sven vestiram a camisa dos Leões em mais de 50 oportunidades e ficaram marcados na memória do torcedor bávaro, mesmo sem conseguir tirar o tradicional time da segunda divisão, que amarga desde 2004.

Os irmãos deixaram o clube bávaro em 2009, mas se separaram. Lars foi para o Bayer Leverkusen, enquanto Sven foi para o Borussia Dortmund.

Sven Bender parecia ter mais sorte. Peça de confiança de Jürgen Klopp, foi campeão alemão em 2011 e logo chegou à seleção. Enquanto isso, Lars demorou a se adaptar ao Leverkusen e viveu altos e baixos nas primeiras temporadas.

No último ano futebolístico na Europa, a maré virou: Sven seguia titular, mas uma grave lesão fez com que perdesse a titularidade para Gündogan. Lars foi um dos poucos destaques do decepcionante Leverkusen e ainda mostrou versatilidade, ao atuar também como meia armador e lateral direito.

Os irmãos estiveram na lista de 27 jogadores feita por Joachim Löw para a Eurocopa e, na hora, o ritmo de jogo pesou: Sven Bender foi cortado, Lars ficou.

Neste domingo, contra a Dinamarca, Lars Bender fez seu nono jogo com a pesada camisa alemã e primeiro como titular, mas improvisado na lateral-direita. A partida estava empatada em 1×1 e nos minutos finais, após rápido contra-ataque, o jovem bávaro completou passe de Özil e fez o gol que sacramentou a classificação alemã. Pela primeira vez na história, um jogador revelado pelo Munich 1860 marcou um gol pela Alemanha em uma fase final de Eurocopa.

A tendência é que o suspenso Jérôme Boateng retome a titularidade e Lars Bender volte para o banco de reservas. Mas ele fez sua parte e deixou bem claro a Jögi Löw que não quer ser mero coadjuvante da promissora seleção alemã.

Bender vibrou demais com seu primeiro gol na seleção alemã (Getty Images)