Sem projeto consolidado, Lyon tenta não ficar para trás

Mesmo sob críticas, Genésio é o técnico nesta temporada | Foto: S. Guiochon

Entre os times postulantes ao título ou a vagas em torneios europeus, o Lyon é o que tem o ponto de interrogação maior para a temporada que recém iniciou na França. O OL não conta com o aporte financeiro do Paris Saint-Germain, tampouco tem projetos promissores e ousados como Lille e Olympique de Marseille.

Em contrapartida, o clube gerido por Jean-Michel Aulas tem dinheiro no bolso após as vendas pomposas de Corentin Tolisso e Alexandre Lacazette (juntos, suas vendas somaram € 94 milhões).

Apesar das negociações, a atuação no mercado de transferências não foi das mais agressivas. Das seis contratações efetuadas, quatro jogadores estão abaixo dos 25 anos e são legítimas apostas. Entre Bertrand Traoré, Mariano Díaz, Ferland Mendy, Kenny Teté e os brasileiros Marcelo e Fernando Marçal, não há nenhum que encha os olhos e seja garantia de retorno de imediato.

Até mesmo a dupla de brasileiros, que é a mais experiente (Marcelo tem 30 anos e Marçal 28), não possui muita rodagem na Europa, quase sempre atuando em ligas ou times de menor escalão. Os demais contratados mostraram valor por onde passaram (especialmente Traoré), mas ainda são jogadores em construção e a tendência é errar mais do que acertar.

Dentro deste cenário, abre-se um vazio para a formação de líderes. Os próprios Tolisso e Lacazette, vendidos nesta janela de transferências, eram figuras de respeito dentro do elenco. Christophe Jallet, lateral com Copa do Mundo no currículo, cabe na lista. Entre todos eles, porém, a figura máxima era a de Maxime Gonalons, vendido a Roma por € 5 milhões.

Gonalons trocou o Lyon pela Roma | Foto: S. Guiochon

Aos 28 anos de idade, o volante foi formado no Lyon e estava no clube desde 2000. Era capitão e líder nato no meio de campo, além de ser considerado ídolo da torcida. A saída, porém, foi tumultuada.

Além de já ter saída cogitada há algumas temporadas, publicamente ele disse “faltar ambição” ao time após tomar quatro do Ajax, na partida de ida das semifinais da Liga Europa. A frase foi o estopim de uma crise entre o staff do jogador e Aulas, que trocaram farpas via imprensa.

Esse vácuo acaba sendo amplificado na figura do próprio Mathieu Valbuena, que não era exatamente um líder do elenco, mas a vivência futebolística lhe daria um status diferente nesta temporada. O baixinho meia quase foi expulso do clube, vide a pouca vontade demonstrada pela direção em mantê-lo devido ao alto salário. Assim como Maxime, saiu se manifestando contra diretoria e comissão técnica.

A figura da liderança dentro do plantel, até mesmo como exemplo de adaptação para os novos contratados, recairá sobre Nabil Fekir, que tenta retomar o ótimo nível técnico após uma série de lesões, do goleiro Anthony Lopes e do próprio Memphis Depay, contratado a peso de ouro na metade da última temporada e que tem papel de referência cada vez mais evidenciado com as saídas de Lacazette e Tolisso.

E é dentro deste cenário que Genésio terá que se impor. Os rachas internos, que faziam com que os jogadores mais experientes perdessem parte do respeito pelo técnico, somadas as críticas da torcida, que não confiam em seu desempenho na casamata, fazem com que transforme esse desafio ainda maior.

Diferente dos outros clubes que citei ainda no primeiro parágrafo, o Lyon não conta com uma coesão de ideias entre comissão técnica e diretoria e isso pode pesar no fim da temporada.

Início animador

Apesar de todas essas variantes, o Lyon começou a temporada com o pé direito, goleando o recém-promovido Strasbourg, por 4 a 0. Mariano Díaz, vindo do Real Madrid, já marcou dois.

O domínio do OL ficou escancarado muito além do placar, aja vista que os comandados de Genésio finalizaram 12 vezes, sendo que sete desses arremates foram contra a meta de Kamara. Além disso, teve amplo controle da posse de bola, com 61,6% de domínio, tendo concluído mais de 457 passes.

Entretanto, preocupa o estilo “boxeador” que Genésio impõe. Apesar das 12 finalizações, o Strasbourg, que deve se limitar a lutar contra o rebaixamento, arrematou em sete oportunidades. Três desses chutes saíram quando a partida ainda estava 1 a 0, o que se tornou um risco sério de estrago do placar.

Nas próximas duas rodadas, o OL terá testes de fogo que poderão mostrar a que pé anda a própria evolução. Na sexta (11), o adversário será o remodelado Rennes, na Bretanha, e oito dias depois, recebe o Bordeaux, tentando se reerguer após um conturbado início de temporada – marcado por eliminação na Liga Europa e empate na rodada inicial da Ligue 1. Diferentemente do que ocorreu com o Strasbourg, a “trocação” característica da equipe pode pesar ao lado contrário nos próximos duelos.

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Vai que é tua, Griezmann!

Foto: AP

Foto: AP

A Copa do Mundo nem começou e a França já sofreu a primeira derrota. Franck Ribéry foi vencido pelas dores nas costas e teve de ser cortado da competição. Desde que os 30 atletas convocados (23 para a lista final e sete na de espera) chegaram ao centro de Clairefontaine para iniciar a preparação para o mundial, o atleta do Bayern não havia participado de nenhum coletivo e causava imensas dúvidas na comissão técnica até a última sexta-feira (06), quando foi decretada a retirada do camisa 7.

Este corte tem muita relação com a situação de Zinedine Zidane em 2002. Durante amistoso diante da Coreia do Sul, no dia 26 de maio, em Suwon, Zizou sentiu um músculo da coxa e deixou a partida antes dos 40 minutos da etapa inicial. Quatro dias depois, a França iniciou a trágica campanha na Copa na derrota por 1-0 para Senegal. Zidane só pode entrar em campo na rodada final diante da Dinamarca, quando só uma vitória poderia lhes classificar. A derrota por 2-0 para os nórdicos sacramentou a pior campanha francesa em Copas até então (superada em 2010).

Iniciar o Mundial tendo o principal astro baleado não é bom, principalmente para o lado psicológico dos atletas que estão em campo, principalmente pelas pressões externas. Torcida e imprensa começariam a questionar quando o atleta poderia entrar em campo. Alguns jogadores mais paranoicos poderiam pensar que tamanha angústia em ver a estrela do time poderia representar desconfiança aos substitutos.

Se o tempo de recuperação de Ribéry era incerto ou até mesmo poderia lhe colocar à disposição em fases agudas da Copa do Mundo, o melhor mesmo é deixa-lo de fora. Quanto mais cedo o time aprender a viver sem ele, melhor.

Há vida sem ele

Foto: AFP

Foto: AFP

E também não custa ressaltar que o atleta do Bayern não é vital para a seleção francesa. Não quero desmerece-lo, longe disso. Quem me conhece sabe que sou fã dele, admiro demais o estilo de jogo “abusado” de Ribéry. Apenas quero pontuar que há vida sem ele na seleção.

Não canso de dizer que o coração da equipe do técnico Didier Deschamps é o meio-campo. O setor composto por Yohan Cabaye, Paul Pogba e Blaise Matuidi tem enorme qualidade e o trio se completa justamente por terem valores técnicos diferentes. Cabaye tem o excelente passe e, atuando recuado, é efetivo nos desarmes; Matuidi acrescenta com as passadas largas, marcação firme e ocupação de espaços; já Pogba é a joia do time, com uma classe com a bola no pé sem igual. Se o trio for desmanchado, aí sim é motivo para maiores preocupações.

A ausência de Ribéry tira uma boa porcentagem ativa do cérebro do time. Perde-se alguma parte agressiva, de improvisação e ousadia nos dribles. Mas não é isso que fará o coração parar de bater.

Deschamps tem até o dia 15 (data da estreia diante de Honduras, no estádio Beira-Rio) para recuperar a parte cerebral perdida com a ausência de Ribéry. Minha sugestão não poderia ser outra: GRIEZMANN NELES!

O atleta de 23 anos participa da seleção desde fevereiro deste ano. Pouco tempo, reconheço, mas nada disso está valendo agora. O que conta é bola no pé, e Griezmann tem talento de sobra para assumir a bronca.

O jogador da Real Sociedad não é tão agressivo quanto Ribéry, mas é muito técnico, tem excelente condução de bola e é extremamente inteligente dentro de campo. A inteligência e rapidez de raciocínio foram comprovadas no segundo gol que marcou na goleada por 8-0 diante da Jamaica, onde tocou de calcanhar, estando a poucos centímetros do arqueiro adversário.

Os números também jogam a seu favor. Ao longo da temporada na Espanha, foram 20 gols e cinco assistências em 31 jogos. O próprio Ribéry teve números semelhantes na Alemanha (15 gols e 15 assistências), só que em mais jogos. Em dados gerais, Griezmann participou de 25 dos 62 gols da Real Sociedad na temporada (mais de 40%), enquanto Ribéry foi atuante em 30 de 94 tentos bávaros (31%). Não podemos de nos esquecer de fazer a ressalva que um jogou no campeão alemão e o outro no 7º colocado do Campeonato Espanhol. Mas que os números chamam a atenção, chamam.

Segundo o WhoScored, site especializado em dados estatísticos, Griezmann ainda teve a quarta melhor média de chutes do Campeonato Espanhol, acima de Diego Costa, Rakitić, Neymar e do companheiro de seleção Benzema. Ele também foi eleito pelo mesmo site como Homem do Jogo em quatro partidas. Neste quesito na Sociedad, perdeu apenas para o mexicano Carlos Vela, que teve temporada absurda (21 gols e 14 assistências).

A realidade é que ele só precisa se provar na seleção francesa simplesmente porque pouco jogou, participando apenas de amistosos. Talvez se fosse convocado antes, já não teríamos esta dúvida em cima dele.

Insisto que apostaria nele. Habilidoso, agressivo, agudo e nem forçaria Deschamps a mexer no esquema. Griezmann tem qualidades que podem acrescentar a França sem fazer com que a ausência de Ribéry seja sentida. Como disse acima, o coração e a alma francesa estão no meio-campo. O que vem adiante é complemento do bom time de DD.

Pogba e Benzema

Foto: Getty

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Sem Ribéry, é hora de surgirem novas lideranças técnicas no time. Uma delas, sem dúvida alguma, é Karim Benzema. Com os dois gols sobre a Jamaica, ingressou na lista dos dez maiores artilheiros da seleção francesa. Peça de confiança de Deschamps e vindo de ótima temporada no Real Madrid, o mínimo que se espera dele é assumir a bronca no elenco.

Mas também é momento de afirmação para Paul Pogba. É impressionante como a camisa azul da França cai bem nele. É o maestro do meio-campo. É um craque! Aos 21 anos, solto na seleção e consolidado na Juventus, não vejo hora melhor para se fixar de vez como um dos “caras” da equipe de Deschamps.

Vejo Pogba subindo alguns degraus no ranking da responsabilidade com a ausência de Ribéry. O vejo também como capaz de assumir essa carga extra de trabalho e ajudar a carregar o time ao lado de Benzema.

Opções

Na goleada por 8-0 sobre a frágil Jamaica, Deschamps mostrou ter opções para substituir o meia-atacante do Bayern. Começou a partida no mesmo 4-3-3 habitual, mas com Benzema jogando pela esquerda, tendo Olivier Giroud como centroavante. O sistema lembrou os tempos de Benzebut no Lyon, quando o homem de centro no ataque era Fred.

Esta opção se mostrou interessante, vide que Benzema e Valbuena estiveram próximos em boa parte do tempo e se entenderam bem. O atacante do Real Madrid sabe trabalhar fora da área e não se mostrou distante da grande área, o que é bom, pois aumenta o poder de finalização do time.

A contrapartida negativa é a recomposição. Benzema não fez isso e deixou Patrice Evra exposto nas poucas vezes em que os jamaicanos ousaram atacar.

Outra variação que o esquema de Deschamps proporcionou, e que também se mostrou interessante, é a utilização do 4-4-2 em linha. Neste sistema, Moussa Sissoko atuaria aberto pelo flanco direito, com Valbuena deslocado para a esquerda. O acréscimo disto é a movimentação do meia do Marseille, se aproximando mais dos centroavantes e tendo maior ângulo de chute.

Remy é outra opção, mas aí sem mexida de esquema. Seria o mesmo caso de Griezmann. A escolha, portanto, se torna particular de DD (apesar de já ter feito meu jabá em prol de Griezmann).

Este leque de opções só comprovam minha tese: Ribéry não é vital para a seleção francesa. É craque, é importante, blá, blá, blá, mas há vida sem ele. O coração do time é o tripé de meio-campo.

Problema

A França ainda tem um problema que não sei medir o quão grave é devido aos adversários das últimas semanas: a defesa. A dupla de zaga titular jogou pouco durante a temporada. Raphaël Varane atuou só 23 vezes pelo Real Madrid (a contrapartida é que 17 foram em 2014), já Mamadou Sakho participou de apenas 19 jogos pelo Liverpool (seis vezes em 2014).

Mas o problema maior não é o número de jogos, mas sim o que foi visto em campo. O único gol sofrido na preparação para a Copa foi em jogada aérea, na partida diante do Paraguai. Mais do que isso, a defesa francesa mostrou hesitação em levantamentos na grande área diante dos sul-americanos e também diante da Jamaica.

Sempre é bom lembrar que Deschamps tardou a encontrar a dupla de zaga ideal. Laurent Koscielny, que hoje é banco, já foi titular. Eric Abidal, que ficou fora da lista de convocados, também já foi. O próximo da fila é Eliaquim Mangala. Será que DD mantém esta dupla de zaga até o fim da Copa? Veremos.