Neymar versus Cavani: a disputa que nunca existiu

Falta química entre Neymar e Cavani? Números derrubam argumento | Foto: AFP/Getty Images

A derrota por 3 a 1 para o Real Madrid, na primeira mão das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da Europa, trouxe uma série de repercussões negativas para o Paris Saint-Germainalgumas delas foram discutidas na edição #73 de Le Podcast du Foot.

Muitos falaram das tomadas de decisão de Neymar, das escolhas de Unai Emery, da forma como o time joga, enfim, poucas vezes uma derrota arrasou a milionária terra parisiense como essa.

Diversos desses argumentos, de fato, rendem discussão e bons debates. Alguns passam do limite, seja por críticas descabidas e até desconectadas com o jogo, seja por simplesmente serem mentirosas.

A que mais me intrigou foi a da tal “falta de química” entre a dupla Neymar e Edinson Cavani. Como argumento, utilizaram um dado que indicava que um não tocou a bola para o outro na partida. O fato, em si, não condiz com a verdade, como mostrou o analista de desempenho e jornalista Eduardo Cecconi em seu Twitter:

A informação provocou uma série de reações, inclusive, comentários desconectados da realidade. Cito aqui o do jornalista André Rizek, do Sportv (e deixo claro que a intenção não é desmerece-lo, porém, entendo que se fosse algo que eu tivesse dito, gostaria que fosse citado para corrigir ou, ao menos, rebater).

Em seu perfil no Twitter, logo após o jogo, disse que Neymar e Cavani “não são uma dupla, são uma disputa”. Assisti a um trecho do Redação Sportv do dia seguinte, Rizek reforçou o argumento e citou a referida informação de que Cavani e Neymar não trocaram passes entre si.

Pois bem, fui atrás de números, dados concretos e irrefutáveis que rebatessem essa afirmação. Encontrei estatísticas simples, pouco profundas, mas que jogam por terra o argumento da “disputa” entre os dois. Neymar deu 12 assistências na temporada do Campeonato Francês. Seis delas foram para Cavani. Já o uruguaio, que nunca foi afeito a passes para gol, deu quatro, duas para o brasileiro.

Se isso é falta de química, me desculpem, mas não sei o que é entendimento entre dois jogadores de ataque.

Para complementar, tomei o cuidado de olhar assistência por assistência, analisar com cuidado para ver se não foram lances fortuitos, casos de sorte mesmo. Portanto, segue abaixo um relato de cada passe para gol de Neymar e, em seguida, de Cavani – no título estão os links que redirecionam para os vídeos dos lances:

1 – Guingamp 0-3 PSG | 2ª rodada 

Neymar recebe a bola na faixa central e observa o deslocamento de Cavani entre os zagueiros. O uruguaio é lançado e marca após dois toques na bola.

2 – Metz 1-5 PSG | 5ª rodada 

Lance semelhante ao primeiro: Neymar recebe no centro, enxerga o deslocamento de Cavani e Kyllian Mbappé. O Pistolero chega antes depois do lançamento e marca o gol.

3 – PSG 6-2 Bordeaux | 8ª rodada 

A jogada deste gol envolveu o trio Mbappé, Neymar e Cavani. Os dois primeiros tabelaram e o brasileiro encontrou o uruguaio em condições de marcar na saída de Benoît Costil.

4 – PSG 2-0 Troyes | 15ª rodada 

Jogada mais simples: Neymar recebeu na esquerda, tinha marcação por perto, diferente de Cavani, que estava livre na marca do pênalti. O camisa 9 foi acionado e guardou.

5 – Rennes 1-4 PSG | 18ª rodada 

Este foi, certamente, um dos gols mais bonitos. Neymar, com liberdade pela área central, lançou Cavani por elevação. Antes da chegada do goleiro, tocou por cobertura e marcou.

6 – PSG 6-2 Strabourg | 26ª rodada 

E, finalmente, o lance mais recente, mas que teve muita semelhança com outras jogadas: Neymar livre na área central, observa a movimentação de Cavani e o lança. O uruguaio, oportunista, guardou mais um.

Já nos passes de Cavani…

1 – Guingamp 0-3 PSG | 2ª rodada 

O gol saiu muito facilmente, mas ficou marcado por Cavani evitando a saída da bola pela linha de fundo e rolando para trás, onde estava Neymar, que fez o primeiro gol com a camisa parisiense.

2 – PSG 4-0 Montpellier | 23ª rodada 

Este talvez seja o único que dê para discutir se foi uma assistência intencional ou não, embora tenha me parecido proposital. Em rápido contra-ataque, Cavani recebeu na saída do goleiro e, sem o ângulo ideal, tocou por elevação. Antes de a bola entrar, Neymar marcou o gol.

Cavani e Neymar é a dupla fatal do PSG | Foto: Reprodução

Bom, lendo as descrições e assistindo aos lances, me parece claro que a tal “disputa” não existe. E ainda não entram na conta lances que não viraram gols, como aquele que Cecconi mostrou em Real x PSG. Esse dado poderia ser ainda maior.

O que se detectou foi, principalmente, um Neymar mais cerebral, jogando em uma faixa de campo mais recuada, mas sendo igualmente fatal, principalmente por ter um goleador nato em sua frente.

Aliás, quantos talvez tenham percebido isso ao longo da temporada? Como jornalista, sou muito crítico a minha profissão e me parece muito claro que, cada vez mais, se assiste menos futebol, mesmo existindo infinitas maneiras de acompanhar os jogos. Quantas partidas do PSG foram assistidas por nossa crônica especializada?

Ouso dizer que poucas.

E o reflexo é visto aí. Propaga-se uma opinião equivocada de que não há sintonia entre dois atletas que são responsáveis por mais da metade dos gols do PSG na liga nacional (42 de 81). Mais gritante ainda é ver que muitos desses tentos saíram de jogadas construídas pelos dois.

Se há uma rixa interna entre a dupla pouco importa. Isso é bom para vender jornais e caçar cliques de quem pouco está interessado em entender o jogo. Dentro das quatro linhas há entendimento e podemos ser categóricos: Neymar e Cavani não são uma disputa, como foi sugerido, mas, sim, uma dupla e tanto.

PSG x Mônaco – O duelo milionário em números

Sempre que um milionário compra um clube de futebol a primeira expectativa criada por mídia e, principalmente, pela torcida é a de que os resultados sejam imediatos. Na maioria das vezes não é isso que acontece.

O chefão acaba injetando tanto dinheiro e provocando inúmeras mudanças que leva algumas temporadas para o clube se assentar com um elenco e staff técnico, o que faz com que os resultados também demorem a aparecer.

Paris Saint-Germain e AS Mônaco são exemplos recentes de clubes que possuem donos milionários e precisaram de uma curta espera para conseguir concluir o objetivo inicial.

O clube da capital é comandado por Nasser Al-Khelaifi e é sustentado pela QSI (Qatar Sports Investiments). Após perder o título francês de 2012 para o pequeno Montpellier, o xeique reforçou o time com nomes do calibre de Lucas Moura, Thiago Silva e Zlatan Ibrahimović e levou o caneco em 2013.

Já a equipe do Principado amargava a lanterna da segunda divisão francesa quando o magnata russo Dmitry Rybolovlev comprou o clube e pouco mais de um ano depois, retorna a elite com o título da Ligue 2.

Mas nos números, como tem sido o desempenho dos dois clubes? É o que analisaremos abaixo:

Números gerais de PSG e Mônaco

Números gerais de PSG e Mônaco

Nos dados gerais, nota-se um relativo equilíbrio entre os dois times. Claro, deduzo isso pelo fato do Mônaco ter um número inferior de jogos como milionário. São 29 vitórias de diferença entre os times, é verdade, mas 39 jogos de diferença também, ou seja, os números poderiam estar mais iguais.

Também devemos relativizar o fato de um time estar na elite do futebol francês e outro só agora ter obtido o acesso para a primeira divisão.

A quantidade de gols também é algo a se destacar. Tanto PSG quanto Mônaco ultrapassaram a marca centenária e possuem média de gols superior a um por jogo – PSG com 1,88 e Mônaco com 1,59.

Confira análises estatísticas mais direcionadas aos desempenhos dos dois times nas duas temporadas:

Números do PSG nas últimas duas temporadas

Números do PSG nas últimas duas temporadas

Esses dados retratam bem o porquê do PSG ter conquistado o título em 2013: menos derrotas. Foram nove na última temporada e apenas meia dúzia nesta que se aproxima do fim.

Parte desse rendimento deve-se ao fortalecimento do sistema defensivo. Os 55 gols sofridos em 2011/12 caíram para apenas 34 na atual temporada. O número de gols marcados diminuiu, mas ainda resta um jogo na Ligue 1 e o time da capital tem tudo para bater esse recorde.

Observação: se formos levar em conta apenas a Ligue 1, o PSG dificilmente baterá o número de gols da temporada passada: foram 75 no campeonato todo e 66 na atual edição.

Números do Mônaco na última temporada e meia

Números do Mônaco na última temporada e meia

Desde que Rybolovlev se tornou dono do clube monegasco, a campanha do time melhorou e o Mônaco teve o segundo melhor desempenho do segundo turno da Ligue 2. O acesso só não veio por causa do péssimo início de temporada.

Entre as duas temporadas, notam-se as poucas derrotas, 11 no total, porém, o alto número de gols sofridos: 63, quase um gol tomado por jogo. Além disso, o Mônaco empatou 18 vezes, número alto comparado com o PSG que empatou 24 partidas jogando quase 40 partidas há mais.

MANDANTES E VISITANTES

Balanço das campanhas do PSG em casa e fora

Balanço da campanha do PSG em casa e fora

Note também como o PSG tem uma campanha muito sólida em casa. Juntando as duas temporadas, a equipe da capital perdeu cinco jogos no Parque dos Príncipes, enquanto houve o dobro de tropeços como visitante. Além disso, o Paris fez 18 gols há mais em casa e sofreu 15 há menos.

Não custa salientar que o PSG perdeu apenas um jogo em casa em copas desde que foi comprado pela QSI. Foi na Copa da França 2011/12 diante do Lyon. Clubes como Marseille, Porto e até mesmo Barcelona passaram pelo Parque dos Príncipes e não venceram o time parisiense, o que explica o aproveitamento próximo dos 80%.

Desempenho do Mônaco em casa e fora

Desempenho do Mônaco em casa e fora

Já o Mônaco tem uma campanha mais espelhada entre visitante e mandante, alternando supremacia em alguns tópicos que não confirmam onde é mais forte. Por exemplo, foram 19 vitórias fora contra 16 em casa, mas o time monegasco marcou mais gols em seu estádio.

Na próxima temporada poderemos ter uma noção maior do quão representativo está sendo o dinheiro pro Mônaco. A equipe disputará a Ligue 1 e já almeja investimentos do porte de Falcao Garcia, João Moutinho e Antônio Cassano. Os monegascos terão desafios semelhantes aos do PSG e poderemos ver se esses números realmente são traduzidos em campo.

*Rybolovlev comprou o Mônaco no dia 23 de dezembro de 2011, logo, o clube só jogou o segundo turno da Ligue 2 2011/12 com novo presidente. Na ocasião, já estava eliminado da Copa da Liga Francesa;