Volte duas casas

Ben Arfa não joga há quase um ano | Foto: AFP

Poucas analogias se encaixam tão bem com a carreira de Hatem Ben Arfa do que o tabuleiro de um jogo infanto-juvenil. Uma hora os dados caem com números altos, seu pino vai longe, mas um mero deslize e lá se vai uma rodada sem jogar. Acima de tudo, ter uma mão quente para jogar os dados é um diferencial.

Nesse jogo de tabuleiro que virou a carreira de Ben Arfa, ele foi o jogador que saiu todo felizardo quando viu os dados apontando 12 casas para andar, mas que foi ao fundo do poço ao ver que seu pino parou na prisão e ele teve de ficar duas rodadas – ou duas temporadas – sem jogar.

Primeira contratação da era Unai Emery no Paris Saint-Germain, ainda na temporada 2016/17, o virtuoso atacante, marcado por dribles atrevidos e um jogo agressivo que encantava, vinha de temporada brilhante pelo Nice, que marcou a remontada na carreira após alguns anos no ostracismo na Inglaterra.

O que ele talvez não pudesse prever era que Emery seria o carcereiro da prisão nesse jogo de tabuleiro. Desde que chegou a Paris, somou 1.136 minutos em campo, não dá média nem de 13 minutos por jogo – 32 partidas ao todo. Boa parte dessa minutagem é oriunda de partidas em que saiu do banco de reservas, e em apenas cinco atuou o tempo inteiro.

O pesadelo piorou nesta temporada. Contrariando vontade do clube, que não queria vê-lo por perto nem com a sonhada orelhuda da Liga dos Campeões debaixo do braço, Ben Arfa decidiu ficar em Paris, sabe-se lá se foi por birra ou por acreditar que poderia, sim, ter minutos e vingar.

Não deu outra. Sem prestígio no clube e agora de bico esticado, foi relegado ao time B e não foi relacionado para nenhuma partida do PSG. A última vez que foi visto com a camisa azul de Paris foi a quase um ano, em 5 de abril de 2017, na goleada sobre o Avranches, pela Copa da França – na ocasião, fez dois gols e deu uma assistência.

Neste meio tempo, Ben Arfa denunciou o clube a LFP (Liga de Futebolistas Profissionais, entidade que gerencia o Campeonato Francês) pela falta de condições de trabalho e os constantes destratos. Os advogados do atacante citam como exemplo a ausência na viagem para os EUA na pré-temporada, que o clube comunicou na véspera do embarque.

Emery, o carcereiro, ainda contribuiu na estadia turbulenta do atacante com críticas públicas ao atleta, evidenciada na emblemática declaração “você não é Messi”, quando criticou o individualismo do atacante e sua incapacidade de decidir jogos. Somado a isso vem a pequena contribuição defensiva e a participação pouco comprometida nos treinamentos.

Na queda de braço, o PSG levou a melhor. Ben Arfa comunicou nesta quinta-feira (29) que estará deixando o clube ao término da temporada – período em que acaba o contrato.

Se há pouco tempo atrás questionávamos a possibilidade de Ben Arfa ser convocado para a Eurocopa de 2016, hoje ele nem é lembrado numa lista de 50 jogadores que poderiam ser uma alternativa para a Copa do Mundo.

Aos 31 anos, está difícil pensar que pode chegar na última casa e levar o jogo. É hora de voltar duas casas, esfregar as mãos e ver o que os dados lhes reservam nesse insano tabuleiro da carreira de Ben Arfa.

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Le Podcast du Foot #71 | 2º turno vem aí!

Após algumas semanas de pausa, o Campeonato Francês retorna com carga total a partir da próxima sexta-feira (12), com a abertura do 2º turno.

A expectativa fica para os mortais, podemos dizer assim. O poderosíssimo Paris Saint-Germain, de Neymar, Kyllian Mbappé e Edinson Cavani, é líder, com 50 pontos, e com 16 vitórias em 19 rodadas, dificilmente perderá o título.

Restam as brigas entre Monaco, Lyon e Marseille pelas vagas nas copas europeias, com a zebra Nantes, de Claudio Ranieri, correndo por fora. Além disso, fica a expectativa por Saint-Étienne, Bordeaux e Lille, equipes com nível de investimento alto para os padrões franceses, mas que estão na parte baixa da tabela.

As projeções do 2º turno estiveram em debate no Le Podcast du Foot #71. Eduardo Madeira, Filipe Papini e Renato Gomes participaram do programa, que analisou o campeonato até agora e imaginou as próximas rodadas da competição.

Ouça abaixo o programa completo:

Os esquecidos da Ligue 1

Nunca tantos holofotes bateram em cima da Ligue 1. A chegada de Neymar ao Paris Saint-Germain, somada ao acréscimo de Kyllian Mbappé, Daniel Alves e de toda áurea midiática trouxeram para a liga francesa um aspecto talvez nunca antes visto.

Somado ao milionário PSG, ainda surgiram outros tópicos interessantes, como o fracasso de Marcelo El Loco Bielsa no Lille – que foi abordado na edição #69 de Le Podcast du Foot – e o poderoso ataque do Lyon. Dá para dizer que temos uma das temporadas mais agitadas e interessantes dos últimos anos, reunindo uma série de atrativos para acompanharmos rodada após rodada da competição.

Porém, apesar de todas as câmeras e flashes na competição, há quem fique esquecido nesse cenário todo. O próprio milionário PSG tem Lucas Moura e Hatem Ben Arfa, que já estão ultra aquecidos no banco de reservas do clube. Há outros como Wesley Sneijder, Grenier… É tanta gente que me senti obrigado a levantar uma lista com alguns dos esquecidos da atual temporada francesa. Confiram:

Do Chelsea para o banco do Amiens

Esse é um dos raros registros de Nathan no Amiens | Foto: Divulgação/Amiens

O meia Nathan é mais um daqueles clássicos casos de atletas que escolhem o Chelsea para jogar na Europa e passam a rodar pelo Velho Continente, sempre por empréstimo, e vão vendo a carreira ruir. Elogiadíssimo no Atlético-PR e com passagens por seleções de base, tinha um grande futuro. Hoje, aos 21 anos, amarga a reserva no Amiens. O meia acumula apenas 161 minutos na temporada, somente nove no Campeonato Francês – na 6ª rodada, na derrota por 2 a 0 diante do Marseille, em 17 de setembro.

Sem prestígio

Contento deve ser negociado nesta janela | Foto: Divulgação/Bordeaux

A situação de Diego Contento no Bordeaux mudou drasticamente de uma temporada para outra. Se em 2016/17 o ítalo-alemão era titular nos Girondins, agora ele sequer entrou em campo na Ligue 1. Suas únicas aparições foram em jogos da Liga Europa. Sem prestígio com o técnico Jocelyn Gourvennec, o lateral-esquerdo, de passagem vitoriosa pelo Bayern, deverá deixar o clube na janela de inverno.

Persona non grata

Grenier é sombra do que já foi | Foto: Divulgação/OL

Depois de três temporadas mágicas pelo Lyon, onde se notabilizou como um meia clássico e de ótima pegada na bola – o que ocasionou as inevitáveis comparações com Juninho Pernambucano no quesito cobrança de faltasClément Grenier virou persona non grata dentro do clube. Derrubado por gravíssimas lesões (que o tiraram da Copa do Mundo de 2014) e problemas extracampo, o meia, que tem contrato até junho de 2018, atuou por apenas quatro minutos na Ligue 1 e está fora dos planos do técnico Bruno Genesio. A tendência é que deixe o clube no meio da temporada.

Dupla de ferro

Atuações ruins e concorrentes como Rami e Abdennour tiraram o espaço de Dória | Foto: Divulgação/OM

Mesmo sem o poderio financeiro do Paris Saint-Germain, o Olympique de Marseille conseguiu investir bastante nessa temporada, fazendo com que alguns nomes calejados sumissem do mapa. Um deles é o do zagueiro brasileiro Dória. Após as chegadas de Aymen Abdennour e Adil Rami, passou a atuar pouco e, atualmente, acumula apenas 85 minutos jogados na temporada e míseros três jogos na Ligue 1. Ele ficou marcado pela catastrófica atuação na goleada sofrida diante do Monaco, por 6 a 1, onde recebeu nota 1 do jornal L’Equipe. O site 10 Sport informa que o Saint-Étienne poderia ser o destino do atleta pouco aproveitado por Rudi Garcia.

Quem vive situação pior é Rod Fanni. O defensor de 34 anos, com passagens pela seleção francesa e uma história de sucesso dentro do próprio Marseille, simplesmente não entrou em campo na atual temporada. O atleta se diz bem fisicamente e tenta encerrar seu contrato com o OM para seguir com a carreira em outro clube.

Na reserva do lanterna

Zagueiro alemão sequer jogou na Ligue 1 | Foto: Divulgação/FC Metz

A terrível campanha do Metz, com míseros 11 pontos em 19 rodadas, só não é mais estranha que a situação do zagueiro alemão Philipp Wollscheid. Com passagens até pela seleção nacional, ele fez apenas uma partida pelo clube grená, e foi pela Copa da Liga. Matéria do Le Républicain Lorrain aponta que o defensor vive péssima fase física, chegando a jogar no time amador do Metz, onde também encontrou dificuldades para mostrar bom nível. Como diz a mesma reportagem, é um mistério a situação de Wollscheid no clube.

Flop rubro-negro?

Sneijder voltou a sofrer com as lesões | Foto: Divulgação/Nice

Uma das principais apostas do Nice na temporada, o holandês Wesley Sneijder foi recepcionado com muita festa do torcedor. Dentro de campo, porém, a resposta não foi em nível igual. Ausente desde a 13ª rodada da Ligue 1, o meia de 33 anos vem sofrendo com a forma física e está fora de combate há um mês devido a um problema muscular. Somando todas as competições, fez oito jogos e deu apenas uma assistência.

Trinca milionária

Lucas e Trapp são reservas de luxo do PSG | Foto: Reprodução

No recheado e milionário elenco do Paris Saint-Germain, um reflexo claro é na sobra para o banco de reservas. Três casos claros são os de Kevin Trapp, Lucas Moura e Hatem Ben Arfa.

O goleiro alemão, que se revezou na titularidade com Alphonse Areola na temporada passada, não tem mais o mesmo espaço com o técnico Unai Emery e atuou por apenas três jogos – dois no campeonato e outro na Copa da Liga. Às vésperas da Copa do Mundo, a tendência é que busque novos ares para ser um dos escolhidos do técnico Jöachim Löw.

Já Lucas, que outrora almejava vaga na seleção brasileira, entrou em campo apenas seis vezes na temporada. Ao todo, acumula 79 minutos e é um dos alvos mais cobiçados do clube parisiense.

Só que mais esquecido que os dois está Hatem Ben Arfa. Num momento de devaneio, ele imaginou que poderia ter espaço entre os titulares, mesmo com o rendimento baixo e as públicas declarações de que não jogaria, e ficou no clube. Sequer entrou em campo e dificilmente seguirá em Paris na segunda metade da temporada.

Sobre as peças descartáveis do PSG, falei mais disso em agosto aqui no Europa Football.

E aí? Entre os esquecidos na Ligue 1, esqueci de mais alguém (com o perdão da redundância)? Deixe sua lembrança na caixa de comentários.

Le Podcast du Foot #66 | Neymar em Paris

Depois de uma arrastada novela, enfim Neymar estreou pelo Paris Saint-Germain. E o debute foi em grande estilo, com um gol e uma assistência na vitória por 3 a 0 sobre o Guingamp.

Pequena amostra ou o adversário facilitou? Foi dessa estreia e da projeção de Neymar em Paris que Eduardo Madeira, Renato Gomes e Vinícius Ramos se reuniram para a gravação de mais um Le Podcast du Foot.

Na edição #66 do programa, você confere a avaliação da estreia do brasileiro e os reflexos de sua chegada na Ligue 1. Ouça o podcast no player abaixo:

De Genghini a Hoarau: as finais de Monaco x PSG

Sábado será um dia especial para o futebol francês. Monaco e Paris Saint-Germain, os dois principais times do país, se encontrarão no Parc OL para a decisão da Copa da Liga Francesa. Frente a frente, o poderoso ataque monegasco de Falcao García (que é dúvida para o jogo), Bernardo Silva, Mbappé e Lemar contra o milionário time de Cavani e Dí Maria.

Por mais que a Copa da Liga seja um torneio de menor relevância comparado a outros, o jogo pode gerar reflexos no Campeonato Francês, onde ambos disputam o título rodada a rodada. Quem vencer a copa, certamente sairá fortalecido e com a impressão de que poderá abocanhar o torneio nacional nos jogos que restam.

Na história, será o confronto de número 90 entre as duas equipes e o Monaco leva ampla vantagem, com 42 vitórias contra 22 do Paris e outros 25 empates. Em contrapartida, o equilíbrio vem prevalecendo nos anos recentes e, nos últimos dez jogos, foram dois triunfos para os dois times e seis empates.

Apesar desta larga história, será apenas a terceira vez que as duas equipes baterão de frente em uma decisão. Nas outras duas vezes, uma vitória para cada lado.

No ‘esquenta’ para o jogo de sábado, recordo os dois jogos decisivos, que ajudaram a construir a história do confronto:

Genghini dá o título ao Monaco

Monaco levou o caneco em 85 na casa do PSG | Foto: Divulgação/AS Monaco

A primeira vez em que parisienses e monegascos se encontraram em uma final foi na temporada 1984/85, na decisão da Copa da França. Aquele 8 de junho de 1985 tinha sabor diferente para as duas equipes. O PSG vinha de temporada fraca no Campeonato Francês, onde terminou apenas em 13º, e via no torneio eliminatório a chance de salvar o ano (na época pobre, isso foi recorrente). Já o Monaco buscava lavar a alma após perder a decisão para o Metz na prorrogação no ano anterior.

Na época, tirando a decisão, todos os jogos da Copa da França eram de ida e volta e até nisso os dois times se diferenciavam. Enquanto a equipe do Principado chegou à final sem grandes sustos, a agremiação da capital passou por disputa por pênaltis contra o Montpellier na primeira fase e ainda passou apuros com Le Havre (na época, na segunda divisão) e arrancou a classificação para a final nos penais diante do Toulouse.

No jogo decisivo, porém, o time de campanha mais tranquila levou a melhor e aos 14 minutos, Bernard Genghini fez o gol que valeu o título ao Monaco. O meia-atacante, que fez história na seleção francesa, aproveitou rebote de uma falta e, com o goleiro Moutier fora do lance, anotou o tento.

O PSG, que havia jogado a semifinal diante do Toulouse quatro dias antes (precisou reverter um 2×0 contra, passar por prorrogação e pênaltis), sentiu o cansaço e não conseguiu virar o marcador.

Foi a consagração da equipe que tinha ainda como destaques o goleiro Ettori, o lateral Amoros, o meio-campista Puel (que não pode jogar a final) e o atacante Bruno Bellone. Aquela foi a quarta conquista de Copa da França dos monegascos, que viriam a ganhar somente mais uma dali em diante.

Ficha técnica:

Estádio: Parque dos Príncipes

Público: 45.711

Gol: Genghini (14’/1º)

PSG: Moutier – Lemoult, Morin, Jeannol e Bacconnier – Fernandez, Charbonnier, Susic e Lanthier – Toko e Rocheteau | Treinador: Georges Peyroche.

Monaco: Ettori – Liégeon, Stojkovic, Simon e Amoros – Bijotat, Bravo e Genghini – Tibeuf, Anziani e Bellone | Treinador: Lucien Muller.

Hoarau salva uma temporada trágica

Hoarau cravou nome na história do PSG | Foto: Paris SG

Os dois times voltariam a se encontrar em nova decisão mais de 20 anos depois. No dia 1º de maio de 2010, Monaco e PSG enxergavam a final da Copa da França como uma chance de salvar a temporada. Os monegascos viviam tempo de vacas magras, sem títulos desde 2003, enquanto os parisienses, meros coadjuvantes no Campeonato Francês, se sustentavam nas copas, onde haviam chegado a cinco finais no século (aquela seria a sexta).

Olhando para trás, aliás, posso afirmar: que times alternativos!

O Monaco ainda tinha o ótimo Ruffier no gol e apostava suas fichas no brasileiro Nenê, que tempos depois brilharia no próprio PSG. Ainda no time monegasco de Guy Lacombe estavam Djimi Traoré, ex-Liverpool, e Eduardo Costa. Já o Paris tinha no gol o folclórico Apoula Edel (que teve ótima atuação na final), Claude Makélélé e Ludovic Giuly comandando o elenco e um Christophe Jallet com cabelo na lateral.

Por fim, quem levou a melhor foi o PSG na prorrogação, com um gol de Guillaume Hoarau, que ganhou um espaço especial no coração dos torcedores parisienses com esse tento. Hoarau virou uma espécie de ídolo da época mais humilde do clube, se é que podemos dizer assim.

Aquele título foi um divisor de águas para as duas equipes. O Paris só voltaria a erguer um caneco depois de receber a singela injeção monetária da Qatar Sports Investiments, enquanto o ASM seria rebaixado no ano seguinte, iniciando um processo de reconstrução que vem atingindo um ponto próximo do ápice nessa temporada.

Stade de France – Saint-Denis

Público: 77.000

Gols: Hoarau (15’/1ºP)

Monaco: Ruffier – Modesto, Mongongu, Puygrenier e Traoré – Eduardo Costa (Sagbo 111’), Mangani (Haruna 55’), Pino (Maazou 86’), Alonso e Nenê – Park | Técnico: Guy Lacombe

PSG: Edel – Jallet (Traoré 116’), Camara, Sakho e Armand – Makelele, Clément, Giuly (Luyindula 77’) e Sessegnon – Hoarau e Erding (Ceará 65’) | Técnico: Antoine Kombouaré

Só restou a rivalidade entre as torcidas

OM e PSG fazem o maior clássico da França | Foto: Yannick Parienti/OM

Olympique de Marseille e Paris Saint-Germain possuem vários atrativos para formar uma rivalidade destrutiva na Europa. Os dois clubes são de cidades antagônicas, com diferenças culturais e sociológicas, além de possuírem torcidas fanáticas que não se bicam, fazendo com que tenham um forte potencial comercial, que foi devidamente explorado durante as décadas de 1990 e 2000. Assim surgiu Le Classique, tido como o maior clássico da França.

Dentro das quatro linhas também há grande rivalidade. Enquanto o PSG se orgulhava do Parque dos Príncipes e do rápido crescimento, o Marseille batia no peito e, com muito orgulho, gritava que era o único francês a vencer uma Liga dos Campeões.

Todos esses fatores, porém, estão indo por água abaixo pela disparidade técnica entre as duas equipes nos últimos anos. Ambos se mostram incapazes de competir em níveis iguais. O cenário atual mostra um Paris milionário desde a chegada da Qatar Sports Investiments defronte um OM, que passou por dificuldades financeiras e somente agora, com o norte-americano Frank McCourt no comando, tenta se reerguer. O reflexo disso é uma doutrinação parisiense que perdura seis anos.

A última vez que os torcedores do Marseille voltaram para casa com uma vitória foi no dia 27 de novembro de 2011, quando derrotaram o já milionário PSG por 3×0. Era a primeira temporada do time da capital francesa com investimento do Qatar e a equipe ainda passou alguns maus bocados no primeiro semestre com o técnico Antoine Kombouaré, que viria a ser demitido na virada do ano. Um dos pontos altos desse preocupante rendimento foi exatamente esta derrota no Vélodrome.

Desde aquele dia, foram 14 jogos, com impressionantes 12 vitórias do PSG e dois empates. Neste período, o Paris fez 32 gols (média de 2.28 por jogo) e sofreu somente 11. Graças a esse novo cenário, o time da capital francesa passou a ser o dominador do clássico. Em 91 jogos ao longo da história, acumulou 38 vitórias contra 32 do OM e 21 empates.

No último jogo, aliás, o PSG sequer tomou conhecimento do maior rival e meteu 5×1, em pleno Vélodrome. Foi a maior goleada do clássico, igualando o mesmo placar aplicado pelo próprio PSG em janeiro de 1978.

Em fevereiro deste ano, o PSG meteu cinco na casa do rival | Foto: C. Gavelle/PSG

Se dividirmos Le Classique em antes e depois do PSG milionário, notaremos bem o desequilíbrio em que ficou este grande jogo. Antes da versão qatarina do Paris, foram 76 jogos, com 26 vitórias parisienses, 19 empates e 31 triunfos do OM, que também tinha o melhor ataque, com 105 gols contra 92. Na nova versão parisiense são 15 jogos, com 12 vitórias do time da capital, dois empates e somente uma vitória marselhesa.

É essa discrepância que me preocupa. O Marseille tinha a vantagem antes, mas era equilibrado. O OM nunca teve esses 14 jogos de invencibilidade – o máximo que atingiu foram nove jogos entre 1990 e 1994, com seis vitórias e três empates – tampouco acumulou dez vitórias seguidas como fez o PSG entre 2012 e 2016. É fora do comum e preocupante para o futuro do clássico. Hoje, somente a rivalidade entre as cidades de Marseille e Paris e das duas torcidas mantém o confronto vivo.

Unai Emery e um fracasso que vai além de resultados

Emery viu o PSG fazer 5×3 no agregado e ser eliminado pelo Barcelona | Foto: EPA

Unai Emery tem tudo em mãos em Paris. Jogadores milionários, estrutura de primeiro mundo, um dos zagueiros mais regulares da década, uma joia italiana desejada por vários clubes da Europa e uma dupla sul-americana na frente capaz de colocar medo em qualquer um. Fora isso, tem por trás a Qatar Sports Investiments (QSI), empresa que administra o Paris Saint-Germain e lhe dá capacidade de investimento quase infinita. Nem com todas essas ferramentas foi capaz em transformar o PSG em um time temido.

O vexame em Barcelona foi apenas a cereja de um bolo que queimou no forno. O time desorganizado defensivamente, afobado com a bola nos pés, displicente no ataque e posicionado atrás contra uma equipe de forte ataque tem mais do que o dedo do treinador, tem todas as mãos de Emery, que chegou gabaritado por um tricampeonato da Europa League com o Sevilla.

Para a história, ficará a virada do Barcelona como o grande feito, mas o fato é que o Paris teve o maior vexame da história. Foi muito mais uma derrota do que uma vitória. Basta ver os primeiros gols, que saíram de falhas grotescas (Marquinhos esteve muito mal nos dois primeiros lances) de uma defesa com jogadores de ótimo nível. Basta ver, também, que o PSG fez um gol quando perdia por 3×0, obrigando o adversário a dobrar o número de gols. Dí Maria e Cavani também tiveram chances claríssimas e pararam no próprio preciosismo. Foi um vexame enorme, uma hecatombe para derrubar Paris.

Não sei sequer dizer o que faltou para o PSG se classificar. Por mais que seja possível fazer uma análise técnica (a postura passiva é o principal ponto de crítica), fica difícil fugir de críticas mais passionais, como a própria falta de vergonha na cara, de perceber que se tratava de um jogo dificílimo e que valeria uma temporada.

Fosse eu que estivesse na posição do xeique Nasser Al Khelaifi, certamente iria no vestiário e soltaria aquele nada gosto “suco de urina” em todo mundo. Ia resolver algo? Provavelmente não, mas, honestamente, é impossível ficar parado vendo isso. Tomar seis gols, seja qual for a ocasião, já é de envergonhar qualquer um, porém, sofrer seis deste jeito, tendo a vantagem em mãos, com chances claras e adversário abalado após inesperado gol, é doloroso.

Dí Maria teve a chance de fazer o segundo gol parisiense no Camp Nou | Foto: Reuters

Pode parecer exagero falar tudo isso de um time que está em 2º lugar no Campeonato Francês, é finalista da Copa da Liga e segue firme e forte na Copa da França, mas, convenhamos, com o que o PSG tem à disposição, é sintomático que isso aconteça em terreno local. Os resultados vêm naturalmente dentro do território gaulês. O que mais preocupa é a incapacidade de Emery em fazer o Paris apresentar um futebol minimamente convincente com o material que tem.

Emery mantém o 4-3-3, que se tornou habitual desde os tempos de Laurent Blanc, mas priorizando a posse de bola. Entretanto, o que tem sido visto em campo é uma equipe com muita dificuldade de construir jogadas e que se esforça muito para fazer o básico.

Lembro que o time que meteu quatro no Barcelona é o mesmo que venceu o Nancy por 1×0 com um gol de pênalti, somente aos 35 minutos do segundo tempo. É o mesmo que fez 3×1 no Dijon, com dois gols nos últimos dez minutos. É o mesmo também que precisou de um gol irregular nos acréscimos para derrotar o Lille.

O PSG não consegue convencer sequer em nível doméstico. Vem sendo inconstante e está somando seus pontos em fatores que estão alheios a organização do time (como o brilhantismo de Cavani e a fragilidade de alguns adversários). Para efeitos de comparação, o time de Laurent Blanc na temporada anterior, liderava o campeonato nacional com 28 rodadas, tinha 73 pontos contra os 62 atuais, quatro vitórias a mais e um ataque de 68 gols contra 56 de hoje.

Bastou para Blanc ficar? Não. A cobrança também era por um jogo mais qualificado e um rendimento que, aparentemente, poderia ser maior. O PSG não quer mais só “resultados”. Isso o clube vem obtendo ano pós ano. O clube quer rendimento de alto nível, capaz de colocá-lo entre as principais equipes do mundo, o que ainda não foi possível.

Não descarto novo título francês, tampouco as conquistas nas copas nacionais, mas Emery não está pronto para tocar o ambicioso projeto parisiense. Dentro do que tentou propor, fracassou e nenhum resultado mudará isso.

PS: Sobre a arbitragem do jogo, só queria dizer que um time que consegue ser eliminado depois de fazer 4×0 e 5×3 no placar agregado não tem moral alguma para reclamar de arbitragem (por mais que não daria nenhum dos dois pênaltis, especialmente o segundo).