O fim da geração 87

O time que prometeu e não vingou | Foto: Reprodução/L’Equipe

Antes mesmo de uma mescla de gerações, composta por Kyllian Mbappé, Thomas Lemar, Benjamin Mendy, Paul Pogba e outros tantos atletas talentosos, encherem os olhos dos franceses e criarem imensas expectativas para um novo título mundial, outro grupo de jogadores de imenso potencial cativou o Velho Continente.

A famosa Geração 1987 apresentou à Europa nomes de peso, como Franck Songo’o, Jérémy Ménez, Samir Nasri, Hatem Ben Arfa e Karim Benzema. Juntos, conquistaram o Campeonato Europeu Sub-17 em 2004, na própria França, com 100% de aproveitamento – cinco jogos, cinco vitórias, 11 gols marcados e apenas três sofridos.

Na grande decisão diante da Espanha, de Gerard Piqué, Cesc Fabregas e Javi García, um cartão de visitas logo no início, com um gol relâmpago de Kévin Constant, após assistência de Ménez, em cruzamento da direita. Os espanhóis buscaram o empate na etapa final, com Piqué, de cabeça – já era uma de suas especialidades na época. Só que aos 34 minutos, Nasri, o responsável por vestir a mística camisa 10, acertou um grandioso chute de fora da área e deu o título aos franceses.

Nasri (D) foi decisivo com o gol do título | Foto: Uefa

Nasri, na época com 16 anos, era um dos mais badalados atletas daquela geração. Habilidoso, inteligente, jogava de cabeça erguida e tinha no pé direito um precioso poder de finalização, capaz de furar as mais pesadas barreiras.

Poucos meses depois de conquistar a Europa ao lado de Benzema, Ménez e Ben Arfa, Nasri estreou como profissional pelo Olympique de Marseille. Na época, a joia do OM era cortejada por clubes da Premier League, como Arsenal, Chelsea e Liverpool.

O destino inglês, como era previsível, aconteceu, só que mais de dez anos depois e já com status de “trintão”, Nasri nunca foi nem metade do que prometeu. Passou por Arsenal e Manchester City, chegou a acumular bons números e desempenho aceitável, mas nada que lhe desse a importância e o peso que aparentemente teria quando surgiu.

Na seleção francesa, acumulou polêmicas extracampo e se aposentou precocemente após ser descartado para a Copa do Mundo de 2014.

Com a chegada de Pep Guardiola ao City na temporada 2016/17, foi escanteado em Manchester, passou uma temporada emprestado no Sevilla (onde ficou marcado por uma imbecil expulsão contra o Leicester, no jogo que marcou a eliminação na Liga dos Campeões) e agora se juntou a Samuel Eto’o e Maicon Bolt no Antalyaspor, disputando o Campeonato Turco.

Aliás, o Antalyaspor foi atrás de outro astro da Geração 87: Jérémy Ménez. Badalado pelas jogadas de velocidade e dos abusados dribles, ele chegou a Turquia em baixa, após ter temporada abaixo da crítica no Bordeaux. Formado no Sochaux, passou ainda por Monaco, Roma, PSG e Milan, em nenhum conseguiu se fixar como um jogador internacional e capaz de desequilibrar jogos.

O único daquele time que atingiu esse status foi Karim Benzema, que deixou o Lyon idolatrado pela torcida e acumula vencedora passagem pelo Real Madrid, onde já tem mais de 200 gols em quase 430 jogos. Sua carreira na seleção só não foi mais concreta por birra de Raymond Domenech e pela polêmica judicial com Mathieu Valbuena. Caso contrário, esse status seria ainda maior.

O grande caso a parte daquela geração é Hatem Ben Arfa. Indiscutivelmente talentoso e com uma capacidade incrível para driblar e criar espaços, mas com um gênio indomável, não houve um lugar onde não tenha arrumado polêmica extracampo. Hoje está encostado no PSG, sem saber para onde irá.

Anos depois, os quatro notáveis da Geração 87 se encontraram na seleção principal | Foto: Reprodução

Mas por que daquele time, apenas esses quatro atletas conseguiram se notabilizar e construir uma carreira, sejam elas sólidas ou não? Philippe Bergeroo, treinador daquela talentosíssima geração, detectou logo o problema por não terem explodido. “Depois do título, os respectivos clubes fizeram com que assinassem um contrato profissional para não os ver ir em outro time. Mas eles não estavam maduros o suficiente para ganhar dinheiro tão cedo e pensaram que tinham chegado lá”.

É uma geração que definitivamente morreu. Benzema é o único ponto fora da curva e que estabeleceu uma carreira mais consolidada. Talvez seja mera coincidência, talvez seja sinal de um grupo de atletas deslumbrados. O fato é que o hiato de novos valores que a França viveu entre a metade da última década e começo dessa tem muito a ver com o fracasso da Geração 1987.

Por onde andam?

Goleiros

Benoit Costil: Titular daquele time, Costil se notabilizou como um dos principais goleiros do futebol francês, especialmente após a carreira construída no Rennes. Porém, apesar dos cortejos de times de outros países, ficou na França e, hoje, aos 30 anos, está na primeira temporada no Bordeaux.

Remy Riou: Formado no Lyon, nunca jogou pelo OL, especialmente por ter surgido na época do excelente Grégory Coupet. Em função disso, rodou por equipes de menor porte e fez carreira no Nantes, onde jogou cinco temporadas. Em 2017/18, migrou para a Turquia e joga no Alanyaspor. Em 2004, foi reserva de Costil e não entrou em campo.

Defensores

Thomas Mangani: Titular em toda campanha, Mangani atuou por algumas temporadas no Monaco, clube que o formou, mas esteve entre os titulares quando a equipe foi rebaixada a Ligue 2 em 2011. Desde então, vem rodando por alguns clubes e, atualmente, está no Angers desde 2015.

Maxime Josse: Lateral-direito titular, Josse, hoje com 30 anos, foi um dos que teve carreira mais alternativa. No mesmo ano em que conquistou a Europa pela França, debutou entre os profissionais do Sochaux, onde jogou até 2011 (com rápidos empréstimos a Brest e Angers), só que desde que deixou os Lionceaux jogou na Bulgária, Israel, Grécia e Finlândia. Hoje defende o CA Bastia, clube da quarta divisão francesa.

Karim El Mourabet: Ele era zagueiro titular em 2004 e atuou por cinco anos no Nantes, clube que o formou, e teve um rápido empréstimo no Laval. Neste meio tempo, optou por defender a seleção marroquina e jogou um amistoso por Marrocos, e foi exatamente lá onde deu sequência à carreira jogando por Rabat e Safi (clube onde está até hoje). Antes disso, jogou dois anos no time B do Lille, que joga torneios amadores na França.

Steven Thicot: Assim como El Mourabet, Ticot, que foi capitão do time em 2004, é formado no Nantes. Nos Canários, porém, sequer atuou profissionalmente e debutou apenas no Sedan, em um curto período de empréstimo. Depois disso, virou uma espécie de nômade da bola. Jogou na Escócia, pelo Hibernian, na Romênia, pelo Dínamo Bucareste, e em Portugal por Naval, Belenenses e Tondela. Nesta temporada, acertou com o AEL Larissa, da Grécia.

Irélé Apo: A conquista de 2004 foi a única grande glória da carreira de Apo, mesmo sem ter entrado em campo, isso porque sequer jogou pelo Auxerre, clube que o formou, e ainda passou discretamente por Evian, Nantes e Carquefou. O registro mais recente que encontrei dava conta de que ele defendia o FC Chauray, da quinta divisão francesa, mas o site do clube já não indica a presença dele no elenco.

Serge Akakpo: O zagueiro, que fez apenas um jogo em 2004, é outro que foi parar na Turquia, mas teve carreira bem alternativa. No Auxerre, clube formador, jogou poucas partidas e depois trilhou por clubes da Romênia, Eslovênia, Eslováquia, Ucrânia e está desde 2015 no país turco – começou pelo 1461 Trabzon, passou pelo Trabzonspor e hoje veste a camisa do Gaziantep. Apesar de ter defendido as seleções sub-17 e sub-19 da França, optou pela segunda nacionalidade e desde 2008 veste a camisa de Togo, onde jogou duas Copas Africanas.

Kevin Constant: Lateral-esquerdo e autor do primeiro gol da grande decisão, Constant jogou poucas partidas pelo Toulouse, clube que o formou, e depois jogou no Chateauroux, passando a rodar no futebol italiano, onde defendeu o Milan, inclusive. Nesta temporada, é jogador do Sion, da Suíça. Bom frisar que Constant é mais um caso de atleta que optou por defender outra seleção: desde 2007, defende Guiné.

Meio-campistas:

Franck Songo’o: O filho do goleiro camaronês Jacques Songo’o, badalado por ter passado por La Masia ao lado de Lionel Messi, Gerard Piqué e Cesc Fabregas, jogou todas as cinco partidas, mas acabou sendo um andarilho da bola. Debutou como profissional em 2005, no Portsmouth (já havia passado por Metz, La Coruña e Barcelona na base) e depois foi emprestado a Bournemouth, Preston, Crystal Palace e Sheffield Wednesday. O melhor momento da carreira foi entre 2008 e 2010, onde jogou constantemente pelo Zaragoza e chegou a ser convocado para a seleção camaronesa. Desde 2010, porém, passou por Real Sociedad, Albacete, foi para os EUA defender o Portland Timbers e ainda jogou na Grécia por Glyfada e PAS Giannina – este foi, em 2014, o último clube o qual encontrei registros dele.

Pierre Ducasse: Formado no Bordeaux, foi volante titular na campanha e é mais um que não viu a carreira decolar. Nos Girondins, atuou regularmente, mas sem tanto prestígio, entre 2005 e 2011. Neste meio tempo, passou um ano emprestado ao Lorient. Já entre 2011 e 2014, defendeu o Lens e esteve no Boulogne entre 2015 e 2017. Nesta temporada, veste a camisa do Stade Bordelais, da quarta divisão nacional.

Stéphane Marseille: Esse atleta, que jogou três partidas na campanha, talvez tenha tido a história mais trágica. Marseille foi formado no Stade de Reims na época em que o clube tentava se remontar depois de se tornar amador nos anos 90, mas teve escassas oportunidades. Decidiu, então, migrar para o Nancy, onde não jogou e retornou ao Reims, onde novamente não entrou em campo. O meio-campista partiu para o futebol amador até 2012, quando decidiu se dedicar a família. Em 2015, retornou ao futebol amador, mas uma grave lesão no tendão de Aquiles fez com que abandonasse a carreira efetivamente.

Ahmed Yahiaou: O franco argelino não teve metade do status de Nasri ou Ben Arfa, mas o desempenho fora das quatro linhas foi similar. No Marseille, clube onde foi formado, foi dispensado após se atrasar a um treinamento. Em seguida, defendeu o Istres, na Ligue 2, e partiu para o Sion, onde foi demitido após viajar para a França para realizar exames médicos e nunca mais voltar. A partir daí virou um cigano da bola, migrando entre times amadores da França e profissionais da Argélia. O último registro encontrado dele foi no FC Martigues, clube amador francês, em 2015.

Jean-Christophe Cesto: Com apenas uma partida no torneio europeu, Cesto foi outro a ter carreira, de certa forma, trágica. Formado no Nantes, viu suas chances se esvaírem no clube após ter detectado um problema cardíaco em 2005. Após se recuperar, recomeçou do zero nas ligas amadoras e conseguiu um espaço no Bastia, então na segunda divisão, onde teve passagem discreta. Com a decepção no profissional, construiu carreira no futebol amador.

*Os atacantes eram os já citados Karim Benzema, Jérémy Ménez e Hatem Ben Arfa;