O Trauma de Lille

A derrota diante do BATE deixou o Lille com aproveitamento ruim em jogos em casa na Liga (Getty Images)

Sem Gervinho, mas ainda com Moussa Sow e Eden Hazard, o Lille saiu na fase de grupos da UEFA Champions League 2011/2012. A decepção foi muito grande, pois o clube, que carregava a fama de atual campeão francês, saiu da competição sem vencer nenhum jogo em sua casa.

Das três partidas feitas como mandante, o LOSC tinha uma que já era sabida que não venceria, que era contra a Internazionale. E assim foi, revés pelo placar mínimo. Depois disso, CSKA Moscou e Trabzonspor eram adversários vencíveis.

Porém, a sensação deixada após esses jogos foi de vexame. Contra os russos, o Lille chegou a abrir 2×0 e teve chances de golear, mas acabou cedendo o empate nas únicas finalizações do CSKA. Já no duelo diante do time turco, o 0x0 custou à classificação – a vitória lhe deixaria com os mesmos 8 pontos do CSKA, mas como o time francês venceu na Rússia, se classificaria.

A precipitada queda só aumentou o histórico ruim do Lille quando joga em seus domínios. Em toda a sua história na Liga dos Campeões, o time francês obteve apenas 45% de aproveitamento nos jogos em casa, com cinco vitórias em 17 jogos. São números que contrastam completamente com o que é feito pelo mesmo time, se juntarmos os números da Copa UEFA/Liga Europa com a UCL. O aproveitamento subiria para 69%.

Quase dez meses se passaram daquela eliminação, o estádio Lille Métropole foi “aposentado” e o moderníssimo Grand Stade Lille Métropole – estádio da Euro 2016 – “ganhou vida”. A sofrida classificação para a fase de grupos – vitória na prorrogação sobre o Copenhague – pareceu mostrar que o trauma de jogar em Lille era coisa do passado.

Tudo conspirava a favor do Lille, já que logo na estréia, receberia o, aparentemente frágil, BATE Borisov. Para completar, Bayern e Valencia, teoricamente, os times mais fortes do grupo, se enfrentariam. Era a chance de o time francês vencer e já ter três pontos de vantagem para um dos concorrentes a vaga.

O BATE Borisov riu e ainda “tirou onda” de quem dava como certa a projeção criada anteriormente e abriu 3×0 em menos de 45 minutos de jogo no Grand Stade Lille Métropole. O pobre time francês teve forças apenas para marcar um gol de honra.

Mas o que se passa com o Lille quando enfrenta jogos internacionais em casa? Pressão? Medo? Inexperiência? O fato é que não é normal ter menos de 50% de aproveitamento nos jogos em casa em toda sua história no torneio.

O acachapante tropeço diante do time bielorrusso se explica, em partes, pelo oscilante início de temporada do LOSC. Marvin Martin, principal contratado, não tem as características desse time do Lille. Rudi Garcia viciou a equipe a jogar no 4-3-3, sem um armador central. Martin é justamente esse atleta que não se encaixa no esquema, até por isso existe a dúvida: a formação que deve se ajustar ao jogador ou ele que tem de se adaptar ao esquema? Esse período de incertezas atrapalha o time e o jogador, que não vem repetindo as boas atuações dos tempos de Sochaux.

Mas é óbvio que este desencaixe não foi o grande causador desta trágica e inesperada derrota. Parece existir uma mística e um fator psicológico que envolve a questão. Não sei nem se Hazard – que faz uma falta absurda – mudaria este panorama. Falta equilíbrio ao Lille, talvez até mental. Ora o centro-avante decide, ora peca em lances imperdoáveis. Ora o zagueiro faz cortes precisos, ora entrega o ouro ao bandido. Essas oscilações individuais passam pra todo time e é esse tipo de situação que complica a equipe em determinados momentos. Falta um algo mais!

Se o Lille sonha em chegar, pela segunda vez em sua história, a fase de mata-mata da Champions League, precisa quebrar essa sina. Como vai conseguir, honestamente, eu não sei, mas vencer pelo menos uma partida em seu estádio já ajudaria bastante.

Procura-se um técnico

E aí? É você?

Após passar quatro anos nas mãos de Roberto Mancini e mais dois nas mãos de José Mourinho, conseguindo uma vasta galeria de troféus, a Internazionale se vê na obrigação de buscar de forma certeira um novo treinador, após ter fracassado com dois ‘professores’ na mesma temporada.

Rafa Benítez foi o treinador na primeira metade da temporada 2010/11, mas fez a Inter desaprender a jogar. Usando a mesma base campeã da Europa, o espanhol não agradou e não durou a temporada inteira. Na segunda metade de temporada, veio Leonardo, ídolo do rival Milan. O brasileiro mexeu e mexeu nesse time, que acabou transformando uma defesa outrora sólida em uma verdadeira peneira, se dando ao luxo de tomar 5 do Schalke no Giuseppe Meazza. Ao que tudo indica, Leonardo deverá se mudar para Paris e ser diretor do Paris Saint-Germain.

O presidente da Inter, Massimo Moratti, já está de olho em novos nomes. A cada dia, a imprensa italiana surge com um possível treinador. Mas a pergunta é: quem virá?

Nomes não faltam. O que realmente falta é analisar se esses nomes realmente podem ser do agrado da diretoria e da torcida interista.

Ancelotti ganhou a Champions League com o Milan

Um dos melhores nomes certamente é de Carlo Ancelotti. O italiano foi dispensado do Chelsea no final da última temporada e títulos não faltam para comprovarmos sua alta capacitação. Com o Milan, Ancelotti foi bi-campeão europeu e uma vez campeão italiano, da Copa Itália e do Mundial de Clubes. No Chelsea, faturou uma Premier League e uma FA Cup.

Mas duas coisas podem atrapalhar essa negociação. Primeiro e mais simples, é o fato de Ancelotti ter dito que quer “umas férias”. Nada que uma boa negociação não resolva. Muricy Ramalho é um exemplo nacional. Ao sair do Fluminense, disse querer “férias”, hoje pode conquistar a América com o Santos.

O segundo e complicado ponto é a alta identificação de Carlo Ancelotti com o Milan. Foram cinco anos como jogador e oito como treinador do time Rossonero. É alto risco para Carlo e para a Inter. A diretoria interista talvez não queira passar pelo constrangimento de trazer novamente um ídolo da equipe rival para um cargo importante, como foi Leonardo. O brasileiro fracassou, o que representaria outro peso na vinda de Carlo. Tá certo que Ancelotti é muito mais experiente que Léo, mas esse fracasso brasileiro sempre seria lembrado ao italiano pela imprensa e torcida. Para Carlo, complica pois pode passar pelo que o próprio Leonardo passou. Para quem andou passeando em outro planeta e não ficou sabendo, no derby della Madonnina do 2º turno da Série A, a torcida do Milan chamou Leonardo de “Judas Interista”. Será que Ancelotti levaria isso numa boa? Não sei. Talvez fosse melhor ficar em sua zona de conforto.

Ancelotti pode até ser um excelente nome, mas honestamente, não apostaria minhas fichas nele.

Já se sabe que El Loco Bielsa não será técnico da Inter. Bom pro clube. O treinador argentino tem costume de armar times loucamente ofensivos e com uma fragilidade de um cristal fino na defesa. Seria melhor Leonardo do que Bielsa.

Além de Bielsa, nomes como os de Fábio Capello e André Villas-Boas foram descartados – até porque Villas-Boas acertou com o Chelsea. Fala-se também em Sinisa Mihajlovic, Guus Hiddink, Luciano Spalletti, Delio Rossi, Rudi Garcia e Gian Piero Gasperini.

Rudi Garcia é cogitado na Internazionale

Sigo achando que a melhor opção, sem levar em conta o passado e as identificações, é Carlo Ancelotti, mas reconheço que descartar aspectos como os citados anteriormente é praticamente impossível. Mas me surpreendi quando falaram em Rudi Garcia, técnico do Lille. Por que não ele? Garcia fez o LOSC jogar um futebol veloz e vistoso, sem se comprometer na defesa. Na temporada em que o Lille saiu da fila, o time teve o melhor ataque, com 68 gols anotados e a segunda melhor defesa, sofrendo somente 36 tentos.

Mas também há o seguinte: Rudi Garcia está ingressando na lista de técnicos vencedores agora. Talvez seja um salto maior do que a perna para ele, mas valeria o desafio. Bastaria a Inter ter paciência com Garcia, que levou certo tempo para fazer do Lille o belo time que é hoje. Começou com um time somente de futebol vistoso, acabou com um time que joga bem e vence.

Enfim, a Inter conviverá com esses percalços. Um tem identificação com o rival, outro é muito jovem, outro não é lá grande coisa, etc.. Cabe agora a Massimo Moratti – que hoje disse que pode ser que Leonardo fique – e a diretoria analisarem bem os nomes e saberem exatamente qual escolher, para não darem bolas foras como foi na última temporada.

PS: O Cuca está sem clube, hehe.