Lesão de Sidibé coloca Debuchy no jogo

Debuchy vive a expectativa de voltar à seleção | Foto: Equipe de France / FEP

No quebra-cabeça para a montagem do time que irá à Rússia, a peça com a face de Mathieu Debuchy entra em cena. Fora da seleção francesa desde 2015, ele retornou à França para defender o Saint-Étienne na metade desta temporada e, com a lesão de Djibril Sidibé, ganha espaço para entrar na lista final de Didier Deschamps, mesmo fora de todo o período de preparação para a Copa do Mundo.

Bom frisar já de início que a ausência de Sidibé ainda não é certa. Mas o fato de a lesão ter sido no joelho – o que já causa uma preocupação normal – e o Monaco ter emitido nota apenas confirmando o problema físico, mas não o tempo de parada, já levantam as especulações quanto a um corte para a Copa do Mundo.

A dor de cabeça para Deschamps se dá pela falta de opções. Christophe Jallet, que durante muito tempo foi o reserva da posição, realizou cirurgia no joelho esquerdo no fim do ano passado e também teve problemas no tendão. Não joga desde fevereiro e perdeu espaço em função disso.

Quem passou a preencher a lacuna foi Benjamin Pavard, do Stuttgart. O problema, porém, é a característica do defensor de 22 anos. Segundo o WhoScored, em 30 jogos na Bundesliga, ele atuou como zagueiro em 22, sendo lateral-direito em apenas três oportunidades.

Valeria a pena mudar o jeito de jogar do time em função disso? Penso que não. Sidibé era peça importante da França, sempre com boas subidas e mostrando qualidades como cruzamentos e jogadas de ultrapassagem. Pavard dificilmente forneceria isso.

O mais próximo de manter esse panorama é mesmo com Debuchy. Apesar de não ter a força física do lateral monegasco, ele tem a característica ofensiva que torna o jogo de ataque francês mais forte. Já são quatro gols em dez jogos na Ligue 1, o suficiente para lhe colocar no gosto do torcedor dos Verts e no radar da Copa.

O defensor do ASSE, que enfim se livrou das lesões que o atrapalharam na Inglaterra, também não sentiria o peso de vestir a camisa da seleção. Foram quatro anos como titular, quase 30 jogos, inclusive com Eurocopa e Copa do Mundo no currículo. Não precisa ser testado, diferente de Pavard, que começou a ganhar minutos em novembro do ano passado.

Debuchy está no jogo e cresceu na hora certa. O retorno para o futebol francês fez bem ao Saint-Étienne e principalmente para ele, que encontrou um lugar onde se sente bem dentro e fora de campo e lhe colocou em condições reais de disputar a segunda Copa da carreira.

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Mais minutos para Thauvin

Thauvin atuou poucos minutos em dois jogos pela seleção | Foto: Le Figaro

Poucos jogadores amadureceram tanto na França quanto Florian Thauvin. Garoto de inegável talento, mas de gênio quase indomável, ele já acumula 16 gols e dez assistências pelo Marseille na Ligue 1. Prestes a completar três temporadas pelo clube, o meia-atacante de 26 anos é o líder em gols e assistências do time.

Tamanho desempenho o colocou no radar de Didier Deschamps na seleção francesa já há um ano – a primeira convocação foi exatamente em março de 2017. A diferença de hoje para março passado é que sua presença na lista de convocados não pode ser tão contestada.

O que lhe falta para um reconhecimento maior, porém, é a experimentação internacional. O Marseille até tem feito boa campanha na Liga Europa, chegando às quartas-de-final depois de uma fase de grupos confusa, mas ainda é muito pouco para sabermos qual o real potencial de Thauvin visando a seleção francesa, ainda mais nas proximidades da Copa do Mundo na Rússia.

Aí entra a participação de Deschamps. É preciso dar minutos a ele para que não seja o que Remy Cabella foi há quatro anos.

Outro jogador de inegável talento, ele foi uma das surpresas da França no Mundial de 2014, sendo chamado para o lugar do lesionado Franck Ribéry. Pouco experimentado em nível superior por estar no Montpellier, não entrou em campo na Copa do Mundo e ficou um ponto de interrogação sobre qual poderia ser sua real utilidade no torneio.

Claro, Thauvin é um caso um pouco diferente. Cabella, hoje no Saint-Étienne, teve pouca vivência também nas seleções de base, situação oposta à do jogador do OM, que passou por quatro categorias diferentes, sendo, inclusive, um dos protagonistas do título mundial sub-20 em 2013, na mesma seleção que tinha Alphonse Areola, Samuel Umtiti, Paul Pogba e Lucas Digne, todos convocados na última chamada de DD.

Porém, até o momento, Thauvin soma míseros 16 minutos pela seleção francesa principal em dois amistosos. É difícil saber o que se passa na cabeça de Deschamps neste momento olhando para a lista final. Ele apostaria em um jogador de notório talento, mas pouco experimentado em nível internacional, ou o deixaria de fora pensando em alguém mais tarimbado? Não é segredo a ninguém que o setor ofensivo é o melhor abastecido, opções não faltariam caso escolhesse a segunda alternativa.

Por isso que cobro mais minutos ao meia-atacante. Eu mesmo tenho essa dúvida de vê-lo com mais rodagem em nível competitivo internacional, imagina o treinador? Nesta época de fechamento de time para a Copa, Deschamps precisa saber o que os 23 escolhidos podem entregar dentro de campo, e ele precisa ser experimentado.

Encaixe na equipe

Thauvin pode atuar pelos dois lados | Foto: L’Equipe

Tendo em vista que Deschamps parece pouco propenso a abrir mão do 4-4-2, Thauvin poderia ser explorado aberto pelo flanco direito da segunda linha. No Marseille, atua em função semelhante no 4-2-3-1 de Rudi Garcia. A principal variante é que no clube tem ao lado um Dimitri Payet extremamente móvel e inteligente, que facilita a troca de posições e o jogo de passes rápidos.

Ainda assim, Thauvin pode contribuir em muitos aspectos. O drible e o chute de longa distância, características marcantes de seu futebol, são cenários que podem ser favoráveis a ele dentro de um time que tende a depender muito mais do individual do que do coletivo.

Óbvio que a concorrência é forte. No primeiro dos dois amistosos franceses (Colômbia, nesta sexta), Deschamps vai utilizar Kyllian Mbappé na função, por exemplo. Não gosto do parisiense nesta posição, prefiro observa-lo em uma colocação mais próxima do gol, mas parece ter sido a fórmula que DD encontrou para encaixa-lo com Thomas Lemar, Antoine Griezmann e a peça de confiança Olivier Giroud.

E por que Thauvin não pode se encontrar nesse cenário? Joga nos dois lados do campo, provou ter muito potencial e joga uma bola redondinha. Por que não? Só saberemos se jogar. Mais minutos pra ele, DD!

Premiado pela regularidade

Ben Yedder enfim foi lembrado por Deschamps | Foto: Reprodução

Em outubro do ano passado, pedia neste mesmo espaço que Wissam Ben Yedder fosse lembrado por Didier Deschamps e ganhasse minutos pela seleção francesa. Na época, justifiquei esse pedido não só pelo rendimento na Espanha, mas também pelo possível encaixe no time e também pela questão disciplinar, que foi um tabu quando mais jovem – sinal de que amadureceu com as pancadas que já sofreu na carreira.

Cinco meses depois do post, precisou o atacante do Sevilla calar o Old Trafford e eliminar o Manchester United da Liga dos Campeões da Europa com dois gols para, enfim, ser lembrado pelo comandante dos Bleus. Na convocação para os amistosos contra Colômbia (dia 23) e Rússia (27), o nome do sevillista foi uma das surpresas apresentadas por DD.

Óbvio que a convocação não se deu apenas pelos tentos decisivos para colocar o time espanhol entre os oito melhores da Europa, mas eles serviram para plantar uma pulguinha atrás da orelha de Deschamps horas antes de comunicar a convocação oficial.

Ben Yedder está longe de ser o mais badalado jogador francês, porém, é um dos mais regulares na década, e é dentro dessa regularidade que é premiado com a convocação. Com os dois gols em Manchester, chegou a 19 em 34 jogos na temporada. Desde 2012/13, ele entrega ao menos 15 tentos por seus clubes.

O mais interessante dessa marca é que sempre foi em escalas diferentes de ambição pelos times que defendeu. Na França, defendeu o Toulouse, clube de aspirações modestas, mas onde conseguiu marcar 71 gols em seis temporadas, tornando-se o maior artilheiro de todos os tempos do TFC.

Agora está no segundo ano na Espanha defendendo o Sevilla, equipe de nível mais elevado, disputa campeonatos internacionais e segue com rendimento alto.

Na troca de Eduardo Berizzo por Vincenzo Montella perdeu um pouco de espaço, é verdade, mas os decisivos gols no Teatro dos Sonhos, que colocaram o Sevilla nas quartas da Liga dos Campeões e lhe tornaram o vice artilheiro da competição com oito gols, deixam a sensação de que voltará a ter mais minutos com o técnico italiano.

Pela seleção, fica a expectativa em ver de que forma será explorado por Deschamps. Olivier Giroud é absoluto na posição e só uma catástrofe o fará perder a posição. Ben Yedder seria um substituto no 4-3-3 ou uma alternativa para formar dupla com o atleta do Chelsea em um eventual 4-4-2? Num mesmo 4-4-2, poderia ser ele a formar dupla com Griezmann, quem sabe?

À primeira vista, parece-me que DD procura mesmo alguém para estar a disposição quando não puder contar com Giroud. O substituto natural Lacazette não explodiu ao ponto de até ameaçar o atual titular. Ben Yedder surge dentro deste contexto. Os dois amistosos serão chances de ouro para cavar uma vaguinha na Rússia.

Laterais e ataque abertos

É natural que faltando tão pouco tempo para a Copa do Mundo, Deschamps tenha sua base de convocados bem delineada e com escassas brechas para eventuais surpresas. Mas há, sim, alguns pontos que ainda causam dúvidas.

A começar pelas laterais. Djibril Sidibé na direita e Lucas Digne na esquerda já estão na Copa, mas as reservas possuem grandes ressalvas. Quem fará sombra ao defensor do Monaco?

Christophe Jallet? O tempo dele parece que passou.

Mathieu Debuchy? Cresceu ao retornar para a França, mas não foi o suficiente para convencer Deschamps.

O testado da vez, portanto, será Pavard, do Stuttgart.

Na esquerda é onde reside a maior questão de DD. Reserva na Catalunha devido a grandíssima fase de Jordi Alba, Digne ainda convive com as dúvidas na seleção, já que virou titular após a vertiginosa queda de Patrice Evra, que passou a se dedicar mais ao perfil no Instagram do que com a vida de atleta.

Somado a isso, Laywin Kurzawa, que despontava como potencial substituto, tem temporada decepcionante em Paris, fora Benjamin Mendy, que se recupera de grave lesão e ainda não se sabe qual será sua condição até a Copa.

Quem surge em meio a esse turbilhão é Lucas Hernandez, a surpresa de Deschamps na lista para enfrentar colombianos e russos. O franco-espanhol tem alternado atuações na lateral e na zaga do Atlético de Madrid e surge como opção para a posição em meio as dúvidas quanto a Digne.

Entre Espanha e França, Hernandez escolheu os Bleus | Foto: FFF

Agora, se na lateral as dúvidas surgem pela falta de opções, no ataque elas aparecem pelo acúmulo de atletas. Na atual convocação, por exemplo, Deschamps deixou fora Dimitri Payet, do Marseille. Contundidos, Nabil Fekir, Kingsley Coman e Alexandre Lacazette também não foram chamados.

Para entrar um dos quatro (ou até os quatro), terá que sair alguém. E aí? Quem perderia espaço? A lista de atacantes vai de jovens talentosos, como Ousmane Dembelé e Florian Thauvin a peças de confiança de DD, como Giroud e Griezmann. Ainda há Martial, Mbappé e o nosso personagem Ben Yedder.

É muita gente boa e com potencial para fazer a diferença dentro das quatro linhas. Deschamps que se vire com essa dor de cabeça.

Dossiê Benzema

Era março de 2007. A França olhava fixamente para a Eurocopa de 2008. Após um vice-campeonato mundial em 2006, com uma seleção já bastante envelhecida, o polêmico Raymond Domenech tentava renovar a seleção. Nomes hoje calejados, como Patrice Evra, Jérémy Toulalan, Rio Mavuba e Lass Diarra começavam a ganhar espaço especialmente em amistosos.

E foi exatamente em um desses jogos teste que começou a história de Karim Benzema na seleção francesa. Para encarar a Áustria, no dia 28 de março, no Stade de France, Domenech fez diversas experiências. Dos 11 da formação inicial, sete não tinham sequer dez jogos pelos Bleus, sendo um estreante: o prodígio, que tornaria-se mais tarde um garoto-problema, Samir Nasri.

Benzema, na época com 19 anos, assim como Nasri, era um prodígio francês. Desde que havia estreado entre os profissionais do Lyon na temporada 2004/05, não tinha números estrondosos. Mesmo assim, já ia para a segunda convocação. A primeira havia sido em novembro de 2006, ainda com 18 anos, quando somava meros quatro gols e 32 aparições no Campeonato Francês. Não debutou em função de uma lesão.

O azar não se repetiu naquela noite parisiense. No intervalo da partida, Domenech fez três alterações. Ao lado do veterano William Gallas e do companheiro de clube Eric Abidal, Benzema ingressara no time na vaga de Djibril Cissé.

O menino franco-argelino não precisou nem de dez minutos para mostrar do que era capaz. Em falta na linha de fundo pelo lado direito, Nasri, inteligente, cobrou rasteiro e para trás. Livre, Benzema acertou um chute ao seu estilo: colocado, de pé direito, nem muito forte, nem tão fraco, mas o suficiente para ser impossível de defender.

Era um amistoso, é verdade, mas já foi um belo cartão de visitas para um expoente de 19 anos: ali residia uma esperança de gols.

A partir dali, Benzema passou a sempre ser lembrado por Domenech e, constantemente, entrava no time. Com Thierry Henry e David Trezeguet em rota descendente da carreira e Nicolas Anelka longe de ser o nome dos sonhos, ter uma via alternativa se fazia necessário para aquele momento. Domenech sabia que Benzema era essa via.

Euro 2008: Primeira decepção

Com a explosão na temporada 2007/08, onde fez 20 gols em 36 jogos no campeonato nacional – 33 gols em 63 ao todo – tornou-se inevitável assumir a titularidade. E assim foi até a estreia na Eurocopa disputada na Suíça.

No debute contra a Romênia, Henry foi desfalque em função de um problema no nervo ciático. Com isso, Benzema formou dupla com Anelka. A partida foi decepcionante, fraca tecnicamente, e o placar não saiu do zero, em jogo que, definitivamente, não está na história da Eurocopa.

Foi o indício de que dias ruins viriam. Sem vencer diante da seleção mais fraca da chave e com Itália e Holanda pela frente, os Bleus precisariam mostrar mais caso quisessem avançar.

Nada feito. Com Benzema no banco e sem sequer entrar na reta final da partida, a França foi atropelada por uma irresistível Holanda de Sneijder, Robben e Van Persie, perdendo por 4 a 1. O atacante acabou sendo lembrado pela imprensa – ou aliviado por ela.

Na época, porém, Benzema já causava os primeiros furdunços internos. A imprensa francesa noticiava na época que o comportamento considerado arrogante e individualista incomodava outros atletas.

Ainda assim, bastava uma vitória diante da Itália para os franceses se classificar e Domenech acionou o garoto para iniciar o confronto. Entretanto, a expulsão de Eric Abidal, com menos de 25 minutos, selou o início da derrocada gaulesa. A Azzurra, assim como em 2006, mandava os franceses para casa decepcionados, desta vez, com o 2 a 0 no marcador.

Benzema atuou durante 90 minutos. Inclusive, no segundo gol italiano, anotado por Daniele De Rossi, a bola desviou nele, que estava na barreira, e saiu do alcance de Coupet. Ofensivamente, a participação mais efetiva foi em um chute rasteiro de fora da área, aos 13 minutos, com o placar ainda zerado, que saiu levemente a esquerda de Buffon. Apesar da frustrante participação, foi uma experiência válida para o atacante que tinha, na época, 20 anos.

Benzema participou de dois jogos da Euro 2008 | Foto: Reprodução

Boa parte do fracasso daquele time já se devia as convicções de Domenech. Foram três escalações diferentes em três jogos e um 4-4-2 muito engessado. No ataque, não havia uma clareza sobre os posicionamentos dos atacantes e Benzema, que nos dois jogos que fez atuou mais afastado da área, muitas vezes se embolou com companheiros exatamente por essa confusão do time.

Benzema, ainda garoto e começando a enfrentar jogos de maior peso, era o menor culpado disso.

Caso Zahia e a Copa da África

Quem sabe em 2010? Primeira Copa em continente africano, França sedenta para afastar a má impressão deixada em 2008, cenário favorável para Benzema explodir. Somado a isso, veio a transferência para o Real Madrid, por 36 milhões de euros. Jogar ao lado de Cristiano Ronaldo, Kaká e outros tenderia a potencializar ainda mais suas qualidades. Entretanto, as polêmicas extracampo começaram a entrar na rotina do atacante.

Tudo começou em 5 de setembro de 2009. Naquela noite, a França enfrentaria a Romênia, em Paris. Os Bleus passavam maus bocados nas Eliminatórias para a Copa, com vitórias magras diante de seleções pouco expressivas e atuações nada convincentes. Para quem adora propagar o discurso de vitórias obrigatórias, essa partida diante dos romenos se encaixava aí.

Benzema, entretanto, começou no banco. Foi chamado para entrar aos 28 minutos da etapa final, no lugar de Yoann Gourcuff. A partida estava empatada por 1 a 1 e assim ficou até o fim. A polêmica pegou porque o atacante teria mostrado certa má vontade para entrar no jogo.

A atitude foi considerável inadmissível para Domenech. Para completar, meses depois, Benzema foi indiciado por, supostamente, ter tido relações sexuais com Dehia Zahar, uma prostituta menor de idade. Ele foi absolvido apenas em 2014, o que foi suficiente para que fosse descartado definitivamente pelo treinador e ficasse fora da Copa do Mundo de 2010. Nem mesmo o surgimento de André-Pierre Gignac no Toulouse poderia explicar aquela decisão.

Sete anos depois, Benzema pode até se dizer aliviado, já que não compôs o elenco que promoveu uma grande rebelião contra o próprio Domenech e protagonizou o maior fiasco da história dos Bleus.

Volta e seca

Passado o vexame no África do Sul, Domenech se foi, Laurent Blanc chegou e Benzema voltou. No primeiro jogo pós-Copa, entrou aos 16 minutos do segundo tempo, na vaga de Guillaume Hoarau. A titularidade, porém, veio apenas na vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia, na qualificação para a Eurocopa.

A confiança de Blanc foi recompensada em grande estilo. Aos 26 minutos da etapa complementar, a partida estava empatada em 0x0, quando Benzema recebeu cruzamento rasteiro da esquerda. De costas para o gol, ele girou bonito, deixou o zagueiro para trás e mandou um lindo arremate de canhota para as redes.

Foi dali para cima. O começo de 2011 foi empolgante e Benzema dava pinta de que seria “o cara” tão procurado desde as aposentadorias de Zidane e Henry (da carreira e da seleção, respectivamente). Em amistosos ‘cascudos’ contra Brasil e Inglaterra, fez gols e ajudou nas duas vitórias, que deram cancha a um time que ainda estava desacreditado.

O que viria em diante, porém, foi decepção para o atacante. Depois da vitória contra os algozes brasileiros, em fevereiro de 2011, Benzema passou cinco jogos sem marcar, voltando a marcar em setembro do mesmo ano, na vitória por 2 a 1 sobre a Albânia. Seis partidas depois, às vésperas da Euro 2012, dois gols diante da Estônia, chegando a marca de 15 gols pela seleção francesa.

A empolgação de recuperar o respeito perdido na Copa de 2010 era grande, mas a Euro disputada na Polônia e na Ucrânia foi apenas mais um capítulo da turbulenta carreira de Benzema pela França.

Eliminado nas quartas-de-final, o atacante madridista deixou a competição de forma discreta, sem ter marcado um gol sequer e muito questionado pela imprensa local. O único jogo em que conseguiu se destacar foi no 2 a 0 diante da Ucrânia, onde deu as assistências para os dois gols.

Benzema deixou a Euro 2012 sem gols | Foto: Reprodução

Não havia dúvidas, Benzema era a grande decepção da França. Não apenas pelo nome que possui, tampouco por jogar no Real Madrid, mas estávamos falando do atacante que teve na temporada 2011/12 o período mais prolífico em gols na carreira. Em 64 jogos, marcou 35 gols, recorde máximo desde que surgiu em 2004/05.

A imprensa francesa valorizou o esforço, pontuou que o jogo dos Bleus fluía mais quando saia da área e ajudava a criar jogadas, mas não foi capaz de perdoar a ausência de gols.

Neste meio tempo, surgiram as críticas mais covardes, as direcionadas a sua origem argelina. Partidos de ultra-direita tentavam diminuí-lo e pediam sua expulsão da seleção. O fato de não cantar o hino nacional incomodava também. Não bastasse a falta de gols, havia a xenofobia em cima.

A seca, aliás, foi tenebrosa. Lembram dos dois gols contra a Estônia, ainda antes da Euro? O gol seguinte seria marcado quase 500 dias depois, 16 jogos seguintes, na goleada por 6 a 0 sobre a Austrália, em outubro de 2013.

Afirmação para 2014

Passada a decepção da Eurocopa de 2012, chegava o ciclo para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. A novidade era a presença de Didier Deschamps como treinador. Campeão do mundo em 1998 como jogador, DD já possuía uma sólida carreira na casamata nos comandos de Monaco, Juventus e Marseille.

A França seria o ápice de seu período como treinador, e logo o disciplinador Deschamps sabia que precisaria ter como ponto chave a recuperação de Benzema. Na época em que o madridista sofria sem gols, Olivier Giroud explodia no Montpellier e seguia para a Premier League, trilhando os campos ingleses com a camisa do Arsenal. Nem por isso abriu mão de Benzema.

Medida acertada. A França seguiu para a Copa e no jogo em que mais era preciso de Benzema, ele apareceu.

Na repescagem, após perder para a Ucrânia na ida por 2 a 0, um turbilhão de emoções cercava o jogo de volta no Stade de France. A França estava entre o medo de ficar fora da Copa do Mundo e o temor de conseguir a vaga como em 2010, diante da Irlanda, com uma mãozinha de Henry.

Antes dos 25 minutos, o zagueiro Mamadou Sakho colocou a França em vantagem. A primeira palhinha de Benzema veio aos 29. Em retomada de bola no setor ofensivo, Ribéry cruzou fechado da esquerda e encontrou o camisa 10, quase embaixo da trave, para marcar. Mesmo em posição legal, a jogada foi invalidada.

Se foi por peso na consciência ou pura incapacidade não sabemos, mas minutos depois, em impedimento flagrante, Benzema fez o gol que explodiu o Stade de France. O 2 a 0 forçava a prorrogação, mas, naquele momento, todos lá dentro sabiam: a classificação viria – e veio na etapa final, novamente com Sakho.

Passados os apuros das eliminatórias e da repescagem, veio uma Copa do Mundo que não foi exitosa, mas que ajudou a recuperar o caráter competitivo perdido em torneios anteriores. Benzema, zerado em gols nas duas Euros que disputou, deixou o Brasil com três tentos – e só não fez mais, assim como não foi mais longe que as quartas-de-final, por causa de uma defesa surreal de Manuel Neuer, da Alemanha.

Sextape e os capítulos finais

Se 2014 foi o torneio para a retomada da autoestima, 2016 seria o momento da afirmação francesa. Anfitriã da Eurocopa daquele ano, os Bleus teriam um Benzema cada vez mais amadurecido ao lado dos ótimos Antoine Griezmann e Paul Pogba, cada vez mais ambientados ao cenário internacional.

Tudo corria muito tranquilamente, sem grandes percalços, apenas no aguardo dos jogos da Eurocopa. Eis que vem a tona o escândalo que pôs capítulos finais a passagem de Benzema pela seleção francesa.

Em junho de 2015, conta Le Figaro, Mathieu Valbuena, na época concentrado com a seleção francesa para amistosos contra Bélgica e Alemanha, recebe um telefonema de alguém que dizia ter um vídeo íntimo do atleta com a namorada. Para não divulgar o vídeo, a pessoa pedia 100 mil euros.

O atleta, na época no Lyon, apresentou queixa à polícia e as negociações com os chantagistas passaram a ser feitas por um agente da polícia que se fazia passar por Valbuena.

No fim de outubro, a história ganhou outros contornos e jogadores começaram a abordar Valbuena sobre o vídeo. Benzema teria, inclusive, incentivado a pagar o resgate. A bomba explodiu quando Djibril Cissé foi detido por ter abordado o atleta. Ele foi liberado no mesmo dia quando disse que conversou com o meia-atacante na condição de amigo.

No fim de outubro, o jornal La Provence revelou que um homem chamado Axel Angot, próximo de vários jogadores franceses, estaria no centro da extorsão. Ele teria confirmado que o vídeo chegou até ele por um outro atleta e que, com a ajuda de outra pessoa, tinha decidido contatá-lo para extorquir 150 mil euros.

Chegava novembro e o caso se desdobrava. Uma pessoa que seria próxima de um dos irmãos de Benzema foi detida. Essa proximidade com os suspeitos, juntamente com a conversa entre os dois atletas em outubro, fez com que a polícia detivesse o madridista sob a suspeita de que tivesse tentado convencer Valbuena a pagar ao chantagista, o que faria dele cúmplice.

Benzema chegou a ser detido em 2015 | Foto: AFP

Desde então, o caso vem se arrastando. Na justiça, Benzema chegou a ver seu primeiro recurso ser rejeitado pela justiça francesa, mas em julho deste ano, o Supremo Tribunal de França concedeu razão ao madridista na sua luta contra a atuação da polícia durante o processo de investigação. Foi determinado que a investigação é ilegítima, mas a defesa do atacante continua com a briga para que o caso seja arquivado.

Se a justiça ainda não decidiu que rumo dar a essa história, dentro das quatro linhas o caminho parece bem traçado. Benzema, que foi suspenso, mas depois liberado a vestir a camisa da seleção francesa, não joga pelos Bleus desde outubro de 2015, na goleada por 4 a 0 sobre a Armênia. Curiosamente, fez dois gols naquela noite, provavelmente, os últimos dois com a camisa azul.

Com a renovação de Deschamps até 2020, difícil crer que volte a ser convocado, encerrando seu ciclo com 81 jogos e 27 gols (nono maior da história). O pior disso tudo é observar que, em tão pouco tempo, um dos atacantes franceses mais bem-sucedidos da história recente tenha conseguido ter uma passagem tão tumultuada pela seleção. A França merecia mais… Benzema merecia também. Nessa queda de braço, todos perdem.

Deschamps 2020: Os reflexos da renovação de contrato

O que vinha sendo especulado há algumas semanas se concretizou na terça-feira (31): Didier Deschamps renovou contrato com a Federação Francesa de Futebol (FFF) e treinará a seleção nacional até 2020.

Até lá, DD, que assumiu a equipe em 2012, concluirá o ciclo da Copa do Mundo do próximo ano e terá mais uma Eurocopa pela frente. O desafio será conquistar feitos relevantes a frente de uma das mais talentosas gerações do futebol mundial, recolocando a França no hall das grandes seleções do planeta.

Essa renovação traz à tona diversos reflexos, negativos e positivos, e que devem ser contrabalanceados na hora de uma análise mais precisa sobre o benefício da escolha da FFF por manter DD por mais anos.

Negativamente, a conclusão é quase unânime: a pequena margem de progressão em qualidade de jogo. Deschamps tem em suas mãos uma vasta lista de atletas de grande talento, como Kyllian Mbappé, Antoine Griezmann, Paul Pogba, Thomas Lemar e outros tantos que compõem o elenco atual – fora os que sequer são lembrados. É gente suficiente para montar uma equipe capaz de fazer frente a qualquer seleção do mundo, apresentando futebol de ótimo nível.

O que tem sido visto dentro de campo, entretanto, está longe disso. Até mesmo na Eurocopa, onde foi vice-campeã, perdendo a final em casa para Portugal, os franceses estiveram longe de convencer. Tirando a excelente exibição na semifinal, diante da Alemanha, foram poucas aparições convincentes.

Iniciou-se o ciclo mundial, mas mesmo com o acréscimo de outros nomes talentosos, como Mbappé, o progresso foi mínimo. Apesar de ter garantido presença na Copa da Rússia sem grandes sustos – sete vitórias, dois empates e uma derrota – alguns dados chamaram a atenção, como ter o 15º ataque da qualificação europeia com 18 gols.

O site da UEFA aponta ainda que a França finalizou 180 vezes durante toda a competição, o que lhe dá média de um gol a cada dez chutes. Como exemplo de comparação, Bélgica e Alemanha, que tiveram os melhores ataques, precisavam de menos de cinco arremates (43 gols em 214 chutes e 43 em 209, respectivamente).

O contrastante é ver que os Bleus tiveram a sétima média de finalizações entre todas as seleções europeias. Muito chute e pouco aproveitamento.

Além do desempenho dentro de campo, Deschamps possui ainda os seus “soldadinhos”, expressão que o colega Renato Gomes gosta de usar nas edições de Le Podcast du Foot. Moussa Sissoko, Blaise Matuidi, Kingsley Coman são alguns dos exemplos de atletas que, invariavelmente, aparecem no time titular em momentos importantes, onde outros poderiam estar entre os titulares.

Deschamps deverá continuar fora da seleção | Foto: AFP

Nessa mesma linha, surge o caso de Karim Benzema. Seu último jogo pela seleção francesa foi em 8 de outubro de 2015. Desde então, esteve envolvido na polêmica do sex tape de Mathieu Valbuena, foi afastado e, de certa forma, perdoado pela FFF. Não por Deschamps.

Prestes a completar 30 anos, podemos cravar que aquela goleada por 4 a 0 sobre a Albânia, há dois anos, ficará registrada na história como sua última aparição pela seleção francesa.

Um fim trágico de um dos melhores atacantes que surgiu na França desde Thierry Henry. Habilidade, inteligência e faro de gol desperdiçados por polêmicas extracampo. E falo “polêmicas” mesmo, no plural.

Para refrescar a memória, vale lembrar que Benzema sempre foi alvo de críticas, especialmente de pessoas ligadas a extrema-direita francesa, por sua origem argelina, o que lhe tornaria “menos francês”, e também por não cantar a tão exaltada Marselhesa, o hino nacional.

Seus problemas também estiveram relacionados a relação com o técnico Raymond Domenech, que lhe deu a primeira chance nos Bleus em março de 2007. Em 2010, Benzema, na época se adaptando ao Real Madrid, sequer ficou na lista de 30 jogadores pré-convocados para a Copa do Mundo.

Um curto período antes, o atacante esteve envolvido em um escândalo sexual com uma prostituta menor de idade – importante frisar que a prostituição é legalizada na França, mas as prostitutas precisam ser maiores de idade. Além dele, Franck Ribéry também estava nesse imbróglio judicial – que resultou na absolvição da dupla.

Em menos de dez anos de serviços prestados à seleção, Benzema acumulou um histórico de polêmicas maior do que de boas atuações dentro de campo – 27 gols em 81 jogos, Olivier Giroud, por exemplo, já têm 28 tentos em 68 aparições.

Pontos positivos

Próximo desafio de DD será a Copa de 2018 | Foto: Guillaume Bigot

Sim, amigos, há pontos positivos na renovação de Deschamps. O principal deles, a meu ver, é a questão da recuperação do respeito internacional. Vamos lembrar que de 2008 a 2012, a seleção francesa emendou uma série de vexames, todos por causa de problemas extracampo que refletiram no desempenho coletivo, tendo como ápice a greve comandada por Nicolas Anelka, Patrice Evra e cia ltda. na Copa do Mundo de 2010, onde os Bleus foram eliminados na fase de grupos.

Desde que assumiu o comando da equipe, após a saída de Laurent Blanc depois da decepcionante participação na Eurocopa de 2012, DD tratou de afastar problemas alheios as quatro linhas. Não só Benzema não voltou mais depois da polêmica com Valbuena, mas Samir Nasri, outro menino-problema, foi descartado sumariamente pelo treinador. Evra só retornou depois de muito tempo e de uma enquadrada do comandante.

Essa nova linha de trabalho fez com que a França passasse sem sustos ou turbulências pela Copa do Mundo de 2014 e pela Euro de 2016. Claro que controlando os ânimos dos atletas, é hora de cobrar resposta do conjunto armado pelo treinador dentro de campo.

Mas, mais do que a disciplina imposta e o afastamento de crises extracampo, vale a indagação: suponhamos que Deschamps seja demitido agora, quem assumiria? Vamos sempre nos lembrar que o futebol de seleções é um tabu para grandes técnicos, já que o dia-a-dia dos clubes, as repetições, os treinamentos constantes com os mesmos atletas, são substituídos por encontros esporádicos e em épocas que lhe impossibilitam de tratar o time com a intensidade que possa entender necessário.

Quem toparia essa bucha?

Zinedine Zidane? Será mesmo que Zizou deixaria o futebol de clubes, e arriscaria seu status obtido dentro de campo comandando agora a seleção?

Arsène Wenger? Seria um prêmio a sua brilhante carreira na Inglaterra, mas, aos 68 anos, teria interesse em assumir a França?

E um estrangeiro? Duvido muito que a FFF possa fazer essa escolha.

A decisão de renovar com Deschamps, antes mesmo de saber o que acontecerá no Mundial, pode ser controversa, mas a federação não deixa de ter seus argumentos para fazer isso. O problema é o contexto diferente. DD pegou uma seleção em frangalhos, com a moral afundada nas catacumbas do Stade de France e com uma série de perguntas na cabeça. Hoje, com o surgimento de jogadores talentosíssimos e o status de favoritismo para 2018, na Rússia, fica o questionamento de suas capacidades para levar esse time a um lugar maior.

Ben Yedder: a carta na manga

Destaque no Sevilla, Ben Yedder pede passagem na seleção | Foto: AFP

Wissam Ben Yedder é mais um dos tantos talentos inegáveis que a Ligue 1 mostrou ao mundo nos últimos anos. Habilidoso, atrevido e goleador, o atacante de 27 anos passou seis temporadas escondido no Toulouse, onde sempre foi a referência ofensiva e conseguiu o status de maior goleador da história do clube, com 71 gols em 174 partidas.

Na segunda temporada pelo Sevilla (mais um dos tantos atletas garimpados por Monchi), já possui média interessante de gols: em 50 aparições, balançou as redes 25 vezes – uma vez a cada duas partidas.

O curioso disso tudo, porém, é o fato de nunca ter sido lembrado uma vez sequer pelos técnicos que passaram pela seleção francesa. Difícil crer que haja uma explicação técnica para que um atleta que tenha entregue ao menos 15 gols em quatro temporadas seguidas em um time de segundo escalão (e mantido o pique na Espanha) não seja convocado.

Seu nome, ao menos, já ecoa nos veículos de imprensa da França. Na convocação para as partidas contra Bulgária e Bielorrússia, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo, o técnico Didier Deschamps foi questionado sobre a ausência de Ben Yedder, já que começou a temporada metendo hat-trick na Liga dos Campeões e parecia ser uma escolha lógica. DD resumiu dizendo que há muita concorrência.

Encaixe no time

Ok, ele não tem a badalação de outros homens de frente, como Antoine Griezmann e Kyllian Mbappé, tampouco é peça de confiança, como Olivier Giroud, mas o atacante do Sevilla possui características associativas que dariam acréscimo interessante aos Bleus.

Pedra bruta do futsal (ficou até os 18 anos na modalidade e chegou até a jogar pela seleção francesa), Ben Yedder soube assimilar e adaptar as características das quadras nos campos. Trouxe consigo a habilidade, o drible em espaços curtos e criar jogadas de associação, capazes de abrir espaços.

O sevillista tem estilo que casa tanto com Griezmann, jogador igualmente móvel e inteligente, quanto com Giroud, que poderia se aproveitar dos desmarques de Ben Yedder para engordar suas estatísticas de gols.

Disciplina

Ben Yedder jogou apenas pela seleção de base | Foto: L’Equipe

Se o excelente desempenho e a capacidade de unir características com os demais homens de frente não é razão para convencer Deschamps, só resta crer que ele carregue algum tipo de desconfiança com Ben Yedder em função de um episódio de indisciplina no passado.

Em 2012, pela seleção de base, foi punido junto de outros atletas (Griezmann era um deles) por fugir da concentração para ir a uma festa. Na época do fato, foi suspenso por um ano pelo Comitê Disciplinar da Federação Francesa de Futebol.

O episódio, porém, parece ter ficado para trás e pouco se ouviu de polêmicas envolvendo o atleta. O caso mais chamativo desde então foi envolvendo o técnico Dominique Arribagé. Apesar de a guerra nunca ter sido declarada, era nítido o mal-estar entre treinador e jogador.

O impasse foi solucionado quando Arribagé foi demitido pelos maus resultados e o “paizão” Pascal Dupraz recuperou o bom futebol de Ben Yedder.

Para acrescentar ao currículo de bom moço do sevillista, sempre que questionado sobre a falta de convocações, nunca polemizou. Já chegou até a dizer que atletas de clubes maiores encontram mais facilidades para chegar à seleção (o que não é nenhuma mentira) mas nunca atacou Deschamps ou a federação.

Tampouco tentou se vitimar por ter origens tunisianas. Apesar de a seleção da Tunísia querê-lo no time de qualquer jeito, Ben Yedder já foi claro ao dizer que vai seguir trabalhando até ser lembrado pelos Bleus.

Visando 2018 e a busca por mais opções, que possam fornecer novos horizontes ao time, Deschamps deveria pensar com carinho no atleta do Sevilla, analisar sua evolução e colocá-lo no radar. Será que ele se lembra de 2014? Griezmann surgiu antes da Copa, foi chamado, correspondeu e está no time até hoje.

Ben Yedder pode ser outro caso igual. Não é um foguete de festa junina, que sobe, faz barulho e logo some. Ele é realidade e qualidade e pode ser a carta na manga para brilhar na Copa da Rússia.

Elas por ela

Corinne Diacre assume a seleção feminina da França | Foto: Divulgação/Clermont

Corinne Diacre é uma legítima desbravadora na França. Zagueira de larga carreira no país, inclusive com mais de dez anos de serviços prestados a seleção nacional, ela decidiu ir além, enfrentou a resistência e os preconceitos machistas, tornou-se assistente, treinadora e assumiu o Clermont, time da segunda divisão, tornando-se a primeira mulher a treinar uma equipe masculina no país.

Curiosamente, Corinne assumiu a equipe da região de Auvergne em 2014, exatamente após o fracasso de uma negociação do clube com outra treinadora. A portuguesa Helena Costa chegou a ser apresentada como comandante do time, mas, subitamente, renunciou ao posto alegando problemas particulares – versão que não bateu com a do presidente Claude Michy e a empresária Sonia Souid, que intermediou a transferência.

A passagem pelo Clermont, que muitos consideravam apenas uma jogada de marketing, foi encerrada surpreendentemente nesta semana. Só que diferentemente do que aconteceu no caso de Helena, Corinne deixou o clube por uma ótima causa: após três anos, com 50 vitórias, 39 empates e 44 derrotas, ela foi contratada pela Federação Francesa de Futebol (FFF) e assumirá a seleção feminina.

Neste meio tempo, Corinne fez história no Clermont, não apenas por ter sido a primeira mulher a dar a cara a tapa na França e no machista mundo do futebol, mas por ter obtido reconhecimento na função. Logo na primeira temporada, em 2014/15, evitou o rebaixamento da equipe – o que era cotado desde o começo da competição – terminando em 12º, com 49 pontos. Na temporada seguinte, chegou a sonhar com o acesso, terminando em 7º lugar, a sete pontos da zona de classificação, isso tendo o menor orçamento entre os 20 times.

O resultado final disso tudo foi o reconhecimento vindo da conceituada revista France Football, que a escolheu como melhor técnico de 2015 na segunda divisão francesa.

Mais até do que os méritos táticos e técnicos, a grande revolução de Corinne foi internamente. Mesmo enfrentando preconceitos e até mesmo estranhezas, baseou sua rotina na confiança do grupo de atletas. Rígida com seus conceitos e formas de trabalho, conquistou o apreço do elenco e o respeito da comunidade futebolística, fazendo com que obtivesse know-how a ponto de assumir a seleção, com contrato de quatro anos.

No Clermont, Corinne conquistou a confiança dos atletas | Foto: Divulgação/Clermont

Desafio nas Bleues

Na seleção francesa, Corinne substituirá Olivier Echouafni, que não durou sequer um ano no comando da equipe. Após substituir Phillipe Bergeroo depois dos Jogos Olímpicos, não conseguiu bons resultados e as duras críticas depois da decepcionante campanha na Eurocopa pesaram para a mudança.

Na história, Corinne será apenas a segunda mulher a treinar as Bleues. Antes dela, Élisabeth Loisel ficou dez anos no posto e revolucionou o futebol feminino do país, classificando a seleção para a Copa do Mundo de 2003, primeira do time.

Já Corinne tem um Mundial em casa pela frente, em 2019. Como herança, desempenhos decepcionantes nos Jogos Olímpicos e na Eurocopa, onde as Bleues caíram em nas quartas-de-final nos dois torneios.

Tudo isso contrasta com o cenário dos clubes, onde a França chegou a ter dois times fazendo a final da Liga dos Campeões, com o Lyon vencendo o PSG nos pênaltis – OL, aliás, ganhou quatro das oito edições da competição. Além disso, das 18 jogadoras escolhidas para o time ideal da temporada 2016/17 do torneio, sete eram francesas.

Ou seja, apesar dos resultados ruins, Corinne Diacre não encontra terra arrasada. Longe disso, até. Com uma base formada por atletas do Lyon e do PSG, tem tudo para desempenhar ótimo papel e fazer com que a seleção tenha desempenho tão exitoso quanto dos clubes.

Estreia

Dois amistosos em setembro marcam a estreia de Corinne Diacre | Foto: Divulgação/Clermont

E a estreia de Corinne já será breve. Estão marcados dois amistosos para setembro: em Caen, enfrenta Chile, e em Calais pega a Espanha, nos dias 15 e 18, respectivamente.

Mais de Corinne Diacre

Para quem quiser conhecer mais do trabalho e da história da nova treinadora da seleção feminina da França, o colega de Le Podcast du Foot, Filipe Papini comentou sobre a trajetória da profissional em dezembro de 2015 no blog C’Est le Foot: