Os “caras” de 2014 no futebol francês

Em troca de ano é normal que, em vários setores da sociedade, todas as ações realizadas durante os últimos 12 meses sejam revistas e avaliadas. No blog, como não tive a mesma disponibilidade de tempo como em outras épocas, não daria pra fazer um apanhado com os melhores posts, mas ainda assim dá para fazer um balanço de 2014.

Como o Europa Football tem um foco maior no futebol francês, até mesmo pelo Le Podcast du Foot, decidi levantar os nomes que foram destaque na terra dos vinhos no último ano. Seria uma lista de cinco nomes, mas enquanto vasculhava mais e conversava com alguns colegas, fui encontrando outros personagens e fechei o ranking com os dez “caras” do futebol francês em 2014.

Sem mais enrolações, vamos a eles:

 10 – Didier Deschamps

Foto: AFP

Foto: AFP

A participação mais digna da França em uma Copa do Mundo neste século foi em 2014, mesmo tendo sido eliminada nas quartas-de-final. Em 2002, caiu na primeira fase, especialmente abalada pela lesão de Zinedine Zidane as vésperas da estreia; em 2006 até ficou com o vice-campeonato, mas as eternas polêmicas do técnico Raymond Domenech chamavam a atenção (lembrando que Ludovic Giuly, em alta no Barcelona, não foi convocado. Segundo o atleta, não foi chamado porque teve um caso com a esposa de Domenech), além da expulsão de Zizou na final por dar uma cabeçada em Marco Materazzi, da Itália; em 2010, o maior vexame de todos na África do Sul, com boicote do elenco e tudo mais. No Mundial do Brasil isso foi diferente e tudo passou pela disciplina do técnico Didier Deschamps.

Com uma equipe bem armada e com atletas mais comprometidos, a França de DD terminou 2014 com apenas uma derrota (o 1×0 diante da Alemanha, que tirou os Bleus do Mundial). Foram 15 partidas, dez vitórias, quatro empates e uma derrota – 75,5% de aproveitamento.

Deschamps teve um ano pra lá de proveitoso após passar maus bocados no Marseille nos últimos anos. Ter feito à França sair da Copa do Mundo com dignidade após muito tempo já foi uma grande credencial para entrar em nossa lista.

9 – Lucas

Foto: C. Gavelle - PSG Officiel

Foto: C. Gavelle – PSG Officiel

O atacante Lucas, do Paris Saint-Germain, talvez não guarde 2014 como um de seus grandes anos, especialmente porque ficou fora do grupo que defendeu a seleção brasileira na Copa do Mundo, mas na França ele não tem do que reclamar. Após 2013 penoso, onde teve imensas dificuldades em se adaptar ao 4-4-2 britânico de Carlo Ancelotti, o menino dos 40 milhões de euros se acertou em 2014 e é um dos principais nomes do milionário PSG de Laurent Blanc.

Lucas encerrou o ano tendo participado de 54 jogos, sendo 36 como titular, anotando oito gols e nove assistências. Nesta temporada, o camisa 7 parisiense participou de 26 jogos e esteve no 11 inicial em 21 oportunidades.

Este ano ainda, o brasileiro terminou em terceiro no ranking de assistências da última temporada da Ligue 1 com dez passes para gol. O bom desempenho em Paris o levou de volta para a seleção brasileira com o técnico Dunga e o deixou como o nono lugar em nosso ranking.

8 – Alexandre Lacazette

Foto: S. Guiochon - Le Progrès

Foto: S. Guiochon – Le Progrès

Clément Grenier? Yohan Gourcuff? Não, quem responde como principal nome do Olympique Lyonnais em 2014 é Alexandre Lacazette. Apenas no primeiro turno da Ligue 1 na atual temporada, o atacante de 23 anos foi responsável por 55% dos gols do time – 17 gols e cinco assistências.

Lacazette encerrou o ano com 23 gols em 38 jogos. Foram 3108 minutos em campo, o que lhe deu uma média de um gol a cada 135 minutos, ou seja, um tento a cada um jogo e meio. O atacante do Lyon terminou a primeira metade da temporada como artilheiro da Ligue 1 e terceiro colocado no ranking de assistências.

Na edição anterior do Francesão, ele já havia sido o goleador do OL com 15 gols, sendo o sétimo na tábua geral. Os espantosos números o colocam, justamente, em nosso ranking.

7 – Franck Ribéry

Foto: Splash News/AKM-GSI

Foto: Splash News/AKM-GSI

Franck Ribéry é o único jogador que entra nessa lista mais no aspecto negativo do que positivo. Indispensável para a seleção francesa que viria ao Brasil para a disputa da Copa do Mundo, o meia-atacante do Bayern de Munique teve um problema nas costas no fim da última temporada e não participou dos amistosos de preparação, sendo cortado posteriormente.

Até aí tudo bem, não é mesmo? Problemas assim acontecem em todas as Copas do Mundo. Mas aí vieram as controversas férias de Ribéry em Ibiza, na Espanha. Enquanto a França disputava o Mundial, o atleta do Bayern dava saltos ornamentais na praia espanhola. Aparentemente, as dores nas costas foram milagrosamente curadas pelos efeitos da Marijuana. Ressalte-se também que, segundo Le Figaro, o atleta foi convidado pela Federação Francesa de Futebol para dar apoio à delegação no Brasil antes do jogo contra a Alemanha, mas teria recusado o convite.

Já era sabido, também, que aquela seria a sua última Copa do Mundo, mas o que poucos esperavam era o anúncio de sua aposentadoria da seleção aos 31 anos, tendo uma Eurocopa na própria França em 2016.

Enfim, a passagem de Ribéry pela seleção francesa acabou de forma controversa. Foram duas Eurocopas, dois mundiais, 81 jogos e 16 gols, o mais importante deles talvez tenha sido o que reproduzo abaixo, contra a Espanha, nas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 2006.

6 – Zlatan Ibrahimović

Foto: C. Gavelle - PSG Officiel

Foto: C. Gavelle – PSG Officiel

Aos 33 anos, o sueco Zlatan Ibrahimović se sente cada vez mais em casa em Paris e até pensa em encerrar a carreira por lá. Antes disso, o atacante tentará quebrar mais alguns recordes, além dos vários que já quebrou – alguns quebrados este ano.

Com dez gols, Ibra se tornou o maior artilheiro do PSG em uma única edição da Liga dos Campeões. O recorde pode ser ainda maior se fizer dois gols no mata-mata do próximo ano. Isso significaria que ultrapassaria George Weah e se transformaria no maior goleador parisiense em torneios europeus.

O sueco também se tornou o segundo maior goleador da história do Paris em uma única temporada: 30 gols, perdendo apenas para Carlos Bianchi, que fez 37 gols na temporada 1977/1978. Além disso, Ibra foi o principal artilheiro do Campeonato Francês pela segunda temporada seguida, feito que não acontecia desde a 2005/2006 e 2006/2007 com Pedro Miguel Pauleta, também no PSG.

Além disso, Ibrahimović vai subindo cada vez mais no ranking de maiores goleadores do clube. Já são 88 gols, o quinto na tabela geral. Neste último ano, deixou para trás atletas como Safet Susić, Raí e Carlos Bianchi. Enfim, esses recordes que citei foram apenas alguns dos fatores credenciais para o sueco entrar nessa seleta lista.

5 – Lionel Mathis

Foto: Jean-François Monier - AFP

Foto: Jean-François Monier – AFP

O meio-campista Lionel Mathis pode não ser muito conhecido pelo grande público, mas em 2014 conseguiu um grande feito na carreira: foi tetracampeão da Copa da França e sempre jogando por equipes intermediárias ou pequenas. Em 2003 e 2005, foi campeão com o Auxerre e em 2009 ergueu o caneco com o Guingamp, clube o qual voltou a ser vencedor do torneio em 2014.

Feito absolutamente espetacular que o coloca a um título dos maiores vencedores. Os que mais venceram foram Marceau Somerlinck com o Lille (é o atleta que detém o recorde de partidas pelo clube), Dominque Barthenay com Saint-Étienne (três vezes) e PSG (duas) e Alain Roche com o PSG (três) e com o Bordeaux (duas).

Notou que os recordistas foram campeões com clubes grandes? Pois então, Mathis não segue essa linhagem. E ainda obteve um feito maior, sendo campeão em 2009, com o Guingamp, que estava na metade da tabela da segunda divisão, e agora em 2014, com o time na elite. Um símbolo dessa fase de ascensão do time bretão, único representante francês no mata-mata da UEFA Europa League.

4 – Dmitry Rybolovlev

Foto: HNGN

Foto: HNGN

Principal acionista do AS Monaco, o bilionário russo Dmitry Rybolovlev viu – e segue vendo – o sonho de transformar o clube monegasco em uma potência europeia ruir. Os altos investimentos foram deixados de lado e Falcao García e James Rodríguez, principais nomes do projeto, deixaram o clube.

A principal responsável por isso foi a ex-esposa do bilionário, Elena Rybolovlev. Em maio, depois de mais de seis anos de batalhas nos tribunais, o mandatário do Monaco foi condenado a pagar 4,5 bilhões de dólares de divórcio à Elena, um dos divórcios mais caros da história.

Com tamanho prejuízo, Rybolovlev deixou os investimentos no clube em stand by e vê o time distante dos líderes da tabela do Campeonato Francês.

3 – Corinne Diacre

Foto: O. Stéphan - Stade Brestois

Foto: O. Stéphan – Stade Brestois

Aos 40 anos, a ex-jogadora Corinne Diacre topou um desafio e tanto: treinar um time de futebol masculino e decidiu comandar o Clermont na primeira metade de temporada da segunda divisão francesa. Corinne, que defendeu a seleção francesa de futebol feminino por mais de uma década, se tornou a primeira mulher a obter a licença para trabalhar como técnica nas duas primeiras divisões do país.

Um dos principais objetivos de Corinne é manter o clube na Ligue 2, missão que vem cumprindo até o momento. O Clermont encerrou 2014 na 14ª colocação com 20 pontos, três acima da zona de rebaixamento.

Quanto às copas nacionais, entretanto, o time vermelho e azul já deu adeus às duas. Na Copa da Liga, a equipe até eliminou Istres e Chateauroux, mas parou no Caen, da primeira divisão, nas oitavas-de-final. Na Copa da França, eliminação na oitava fase para o Epinal.

Mas pelo simples fato de ter aceitado o desafio de encarar o futebol masculino e ainda estar cumprindo o objetivo de manter o Clermont na segunda divisão, Corinne merece estar em nossa lista.

>> Confira mais da história de Corinne Diacre na matéria especial da Vavel Brasil;

2 – Marcelo Bielsa

Foto: Pascal Pochard Casablanca - AFP

Foto: Pascal Pochard Casablanca – AFP

O Olympique de Marseille gastou bastante na temporada 2013/2014. Ao todo, o OM investiu 42 milhões de euros. Entretanto, o investimento não trouxe resultado e a equipe não conseguiu classificação para nenhum torneio europeu e ainda deixou a Liga dos Campeões na fase de grupos sem nem fazer cócegas nos adversários.

Para mudar o cenário sem precisar mexer muito no bolso, o presidente Vincent Labrune trouxe o técnico Marcelo Bielsa. O argentino pegou o mesmo elenco, mas com o desfalque primordial de Mathieu Valbuena, vendido ao Dínamo de Moscou, e fez uma ótima primeira metade de temporada, terminando 2014 na liderança do Campeonato Francês com 41 pontos, tendo vencido 13 jogos de 19.

Com um futebol ofensivo e vistoso e com personalidade forte (já bateu de frente com o presidente Labrune por não cumprir exigências prometidas e por trazer Dória, jogador que não havia pedido), Bielsa já se tornou ídolo da cidade de Marseille e faz por merecer um lugar no ranking, mesmo estando há apenas seis meses na França.

1 – Karim Benzema

Foto: FFF

Foto: FFF

O atacante Karim Benzema chegou a ficar mais de um ano sem marcar pela seleção francesa entre 2012 e 2013. Foram 16 partidas sem balançar as redes pelos Bleus. Entretanto, 2014 foi o ano de afirmação do atleta do Real Madrid.

Em 13 partidas pela seleção este ano, Benzema fez sete gols, chegando a 25 em sua carreira internacional e ingressando no top-10 artilheiros da história da seleção, ocupando a 9ª posição no ranking. Aliás, aos 27 anos, a tendência é que suba mais na lista e até mesmo ultrapasse Zinedine Zidane, quarto no ranking, que têm 31 gols. Entre os jogadores em atividade, o jogador do Real Madrid é o que tem mais gols.

Benzema também obteve destaque na Copa do Mundo. Com o corte de Franck Ribéry, foi preciso que o camisa 10 francês assumisse a responsabilidade, e o fez com maestria, sendo responsável por três gols e duas assistências. O atacante foi o único jogador de linha da seleção a participar dos 90 minutos dos cinco jogos que fez no Mundial. O outro atleta foi o goleiro Hugo Lloris.

Além desses ótimos números pela seleção, Benzema também acumula bom retrospecto pelo Real Madrid. O francês participou de 51 partidas em 2014 e fez 27 gols, se afirmando como um dos principais nomes da equipe e também ganhando o status – atribuído humildemente pelo blogueiro que vos fala – de jogador francês do ano.

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O que achou? Faltou alguém? Algum nome poderia estar melhor ou pior ranqueado? Ou teve gente que nem merecia ter entrado na lista? Comente abaixo! Vamos debater!

 

Deschamps: Coerente e incoerente na mesma lista

Foto: Sportsfile - Destaque nas seleções de base, Griezmann terá primeira oportunidade nos Bleus

Foto: Sportsfile – Destaque nas seleções de base, Griezmann terá primeira oportunidade nos Bleus

A Copa do Mundo vai se aproximando e Didier Deschamps, assim como muitos técnicos, ainda não sabe que plantel trará ao Brasil para defender a França na disputa da competição. O francês, aliás, vive um dilema curioso. Faltam-lhe defensores mais seguros, assim como centroavantes mais regulares, mas lhe sobram meio-campistas e meias-atacantes habilidosos e modernos.

A prova desta “gordura” na faixa central foi comprovada nesta quinta-feira, 27, na convocação para o amistoso contra a Holanda, que acontece no próximo dia 5. O jovem Antoine Griezmann, de apenas 22 anos, da Real Sociedad, foi convocado pela primeira vez para a seleção, justamente nos preparativos derradeiros para a Copa do Mundo.

Não existem dúvidas quanto ao merecimento desta convocação. Em 23 jogos no Campeonato Espanhol, Griezmann fez 15 gols e deu quatro assistências. O francês já participou de 38 partidas na temporada, 34 como titular, sendo que, dos quatro como reserva, três foram na Copa do Rei, jogos em que, teoricamente, jogadores de poucos minutos ganham chance de jogar.

Os números desta temporada já são superiores aos da temporada passada, quando ajudou a Sociedad a chegar à Liga dos Campeões da Europa. Foram 35 jogos, 11 gols e cinco assistências.

O menino vem crescendo ano pós ano e podemos considerar nome certo para a disputa da Eurocopa de 2016, principalmente porque Franck Ribéry e Mathieu Valbuena, dois dos meias-atacantes mais habilidosos da França, já serão ‘trintões’. Uma apresentação acima da média diante da Holanda poderá representar o carimbo do passaporte para o Brasil. E a chance de isto acontecer não está nem perto de ser pequena.

Incoerência I

Mas se Deschamps foi coerente ao chamar Griezmann, o mesmo não pode ser dito quanto à convocação de Lucas Digne. O lateral é um dos jovens mais promissores da França, mas a reserva no Paris Saint-Germain não deveria lhe credenciar a uma vaga na Copa do Mundo.

Maxwell sobra na posição na capital parisiense. Seguro na defesa e importantíssimo no apoio ao ataque, principalmente como elemento-surpresa, o brasileiro não oferece grandes chances a Digne. O francês revelado pelo Lille, em contrapartida, ainda não disse a que veio. Foram apenas 13 jogos na temporada (1185 minutos).

Como se não fosse o bastante, o garoto de 20 anos não consegue ser eficaz na sua especialidade, que é a subida ao ataque. Pior ainda: tem mostrado fragilidade imensa na defesa. O lance mais marcante foi na última partida do primeiro turno do Campeonato Francês, curiosamente diante do ex-clube, o Lille. Digne, de forma afoita, derrubou Franck Béria na área e cometeu o pênalti que resultou no segundo gol do time do norte francês (partida que acabou empatada em 2-2).

Para tomar como parâmetro e constatarmos a fragilidade defensiva de Digne, basta notar que, segundo o “WhoScored” nos nove jogos que participou no Campeonato Francês, fez apenas seis faltas. Porém, Maxwell, com o dobro de jogos, fez a mesma quantidade.

Digne é o lateral do futuro da França e do próprio PSG. Maxwell não é mais garoto e é difícil imaginar que vá jogar mais do que tem jogado nas últimas duas temporadas. Deschamps deixou a coerência de lado ao convocar o defensor reserva do Paris neste momento. O velho ditado diz que “a paciência é uma virtude”, e se DD espera ficar mais tempo no cargo atual, precisava aguardar um pouco mais para chamar Digne.

Foto: ASM.fr - Kurzawa não foi lembrado por Deschamps

Foto: ASM.fr – Kurzawa não foi lembrado por Deschamps

Além do mais, se a intenção era trazer um jovem para a lateral-esquerda, Deschamps tinha a solução: bastava apostar em Layvin Kurzawa. Um ano mais velho que Digne, o defensor do Monaco é uma das gratas surpresas da temporada francesa. Já foram 26 partidas na temporada (25 como titular), com cinco gols e duas assistências.

Apresentando características semelhantes a do atleta do PSG (força ofensiva), mas com robustez na marcação e força no jogo aéreo, Kurzawa tem a segunda melhor média do elenco monegasco no Campeonato Francês, apontado pelo site “WhoScored”, atrás apenas de Jérémy Toulalan. No ranking da liga feito pelo mesmo portal, o lateral surge entre os cinco jogadores (de todas as posições) de melhor média.

Muitos o colocam, com justiça, como melhor lateral-esquerdo do Campeonato Francês.

A justificativa de que a não convocação teria se dado pela presença de Kurzawa na seleção Sub-21 não cola, principalmente porque o monegasco é mais velho que Digne. É óbvio que participar das seleções de base é importante na formação do atleta, principalmente àqueles que já estão nos profissionais e tem a síndrome do “estrelismo”, mas chega a ser um crime convocar um lateral reserva enquanto outro voa.

Incoerência II

Foto: Reuters - Gignac não foi convocado para enfrentar a Holanda

Foto: Reuters – Gignac não foi convocado para enfrentar a Holanda

Mas o crime maior de Deschamps foi deixar André-Pierre Gignac, do Olympique de Marseille, de fora desta convocação. Não existem dúvidas que ele é o segundo melhor centroavante francês da atualidade, atrás apenas de Karim Benzema. São 18 gols em 33 partidas para ‘Dedé’, números superiores aos de Olivier Giroud (36 jogos e 16 gols) e Loïc Remy (23 jogos e 12 gols), centroavantes convocados junto de Benzema (35 jogos e 20 gols).

Se fosse apostar meu dinheiro, diria que Gignac não tem mais chances de ir à Copa. A próxima convocação já será a definitiva e o atacante do Marseille nem ao menos teve chances de jogar por muito tempo com DD. ‘Dedé’ atuou somente meia-hora no medonho empate sem gols diante da Geórgia, ainda pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Muito pouco para um atacante que já acumula 36 gols nas últimas duas temporadas.

O que leva Deschamps a não convoca-lo? Honestamente, não sei. Seria a rixa que os dois tiveram nos tempos de Marseille? O temperamento do atacante? Ou DD, pura e simplesmente, acredita que os atacantes que convoca são melhores que Gignac?

No começo do ano já destrinchei o assunto e clamava por uma convocação do atacante do Marseille. Hoje me dou conta que Deschamps tem suas convicções, e não consigo concordar com elas. DD não consegue agradar a todos, principalmente quando consegue ser coerente e incoerente na mesma medida.

Pílulas da convocação

– Tá certo que o principal motivo da ausência de Mickäel Landreau é a lesão que sofreu na partida diante do Olympique de Marseille, mas não dava para ignorar as ótimas temporadas de Stéphane Ruffier. Porém, não creio que tenha vindo pra ficar;

– Apostar de novo em Elaquim Mangala foi uma bola dentro de Didier Deschamps. Com Adil Rami tentando se reafirmar na carreira e Eric Abidal sem convencer na seleção, a virtude do zagueiro do Porto pode ser uma cartada interessante para o elenco da Copa;

– Porém, o mesmo Mangala preocupa na questão dos cartões. Em 31 jogos na temporada, o defensor viu o cartão amarelo dez vezes;

– Vejo com bons olhos a insistência em Rio Mavuba. Deschamps tem investido muito em volantes técnicos e de boa saída de jogo. Ter alguém de estilo diferente no banco tem lá sua utilidade;

– Além disso, Mavuba, que fará 30 anos no próximo dia 8, tem espírito de liderança e é jogador “bom de grupo”. Não é craque, muito menos midiático, mas pode ser muito importante no ambiente francês;

– Deschamps precisa explicar a presença de Dimitri Payet entre os convocados. Sete gols e seis assistências em 33 jogos é muito pouco para um jogador que veio bem gabaritado para o Marseille e começou o Campeonato Francês com três gols em dois jogos;

– Para ver que a corneta não é infundada, Alexandre Lacazette, do Lyon, com 18 gols e seis assistências em 38 partidas, merecia muito mais que o jogador do Marseille;

Benzema é uma sombra

Benzema está enfrentando uma seca de gols na França (Getty Images)

Se levantarmos dez nomes dos melhores atacantes do planeta, com certeza colocaremos Karim Benzema nesta lista. Obviamente, ele acaba sendo um dos principais jogadores da França, senão o mais destacado. O atacante do Real Madrid tem carregado esse peso ao lado do meia do Bayern, Franck Ribéry. Mas, aparentemente, essa carga tem atrapalhado o jogador merengue.

O último gol de Benzema com a camisa azul da França foi em junho deste ano, contra a Estônia. De lá pra cá, foram oito jogos, entre amistosos, Eurocopa e Eliminatórias para a Copa do Mundo, e nenhum tento anotado. Esses números acabam se tornando mais assustadores se levarmos em conta que o último gol do atacante em partidas oficiais pela França foi em setembro de 2011, contra a Albânia em disputa válida pelas Eliminatórias para a Eurocopa.

Se durante o torneio europeu a desculpa acabou sendo o esquema do então técnico Laurent Blanc, que acabava o deixando isolado no ataque, agora, com Didier Deschamps, essa justificativa não pode ser usada. O novo técnico Bleu já lhe deu alguns companheiros para o setor, como o também centro avante Olivier Giroud e segundo atacante Jérémy Ménez.

A França precisa de Benzema se pelo menos almeja retornar ao caminho vitorioso trilhado no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, até porque Deschamps não conta com outro atleta do nível do madridista para a posição. Giroud é uma pequena incógnita e só o tempo que levará a se adaptar ao Arsenal dirá do que será capaz. Gomis não é e nunca será a solução para uma questão de tal representatividade.

Enquanto isso, fora do time, André-Pierre Gignac começa a repetir no Marseille as atuações que fizeram Raymond Domenech levá-lo para a Copa do Mundo de 2010, quando ainda defendia o Toulouse. Gignac tem sido o principal jogador do OM nesse princípio de temporada, com cinco gols em oito jogos no Campeonato Francês.

Há quem diga que sua ausência na seleção se deve ao desentendimento que teve com Deschamps, ainda no Marseille, após uma partida da UEFA Champions League, no final de 2011, mas esse problema é coisa do passado, já que voltou a figurar entre os titulares do time na citada temporada, após a confusão.

A boa fase de Gignac não pode ser considerada uma ameaça a Benzema, que só ficará de fora da seleção se Deschamps tiver algum tipo de ataque cerebral que afete sua capacidade de analisar futebol com o mínimo de propriedade, mas não é exagero imaginar que o atacante do Real Madrid amargue um banco de reservas.

O que estamos vendo nas recentes atuações de Benzema pela seleção francesa é apenas uma sombra do que é realmente capaz. Ele faz quase tudo certo, os domínios, os passes, os posicionamentos, mas vem pecando no ponto fundamental de sua função: a finalização. É só outro atacante começar a marcar gols que o madridista perde seu espaço.

Presença nas convocações desde 2006, Benzema já tem 53 atuações pela seleção principal da França, mas fez apenas 15 gols, ou seja, um gol a cada 318 minutos – três partidas e um tempo. Visando os torneios de seleções, que são de tiro curto, esse tempo sem balançar as redes prejudica demais, como vimos na última Eurocopa. Esses números ficam mais preocupantes principalmente se traçarmos um paralelo com a grande referência da posição nos últimos anos: Thierry Henry. O jogador do New York Red Bulls fez 51 gols em 123 partidas, um gol a cada duas partidas e quase um tempo.

Aos 24 anos, idade de Benzema, Henry já tinha 11 gols em 32 jogos pela seleção francesa, com um espaçamento de tempo entre os gols parecido, um tento a cada quase três jogos completos. A diferença fundamental era que Henry já havia ganhado uma Copa do Mundo – para defender Benzema, ele ficou de fora, injustamente, da edição de 2010 – e uma Eurocopa, acumulando cinco gols nas duas competições.

E que não venham com papo de “pressão exacerbada”. Mesmo aos 24 anos, Benzema se acostumou a enfrentar momentos que poucos teriam a coragem de encarar. O atacante ajudou o Lyon a se manter no topo do futebol francês por sete anos e hoje é titular de um dos grandes times da Europa. Ser o líder da seleção de seu país é mera consequência do que tem apresentado em Madrid.

Nesta semana, a França irá reencontrar a Espanha, algoz na Eurocopa disputada na Ucrânia e na Polônia. Mais do que nunca, uma atuação decente de Benzema será necessária, ainda mais com o panorama que espero do jogo. A posse de bola, a pressão, as chances de gols… Tudo será espanhol. Os franceses vão se preocupar em defender demais e atacar uma vez ou outra. E é aí que se inicia o papel do protagonista deste post. Provavelmente, ele receberá poucas bolas e terá de aproveitar as que vierem mandando para dentro.

E esse recado vale para as demais partidas da seleção francesa. Benzema precisa acordar e começar a marcar gols, caso contrário, a seca de títulos continuará afetando o país. A carga não pode ser depositada somente em Ribéry, ela tem de ser dividida e enquanto algumas brigas de egos insistem em atrapalhar o ambiente do time, o tranquilo Benzema deverá assumir a bronca, coisa que não anda acontecendo.