O resultado do entrosamento

Os treinadores que aceitam o desafio de comandar uma seleção nacional estão sendo exigidos cada vez mais, mas tendo pouco a evoluir. Embora alguns contem com um número maior de atletas atuando em alto nível e, por consequência, contando com opções mais numerosas, eles tem de se virar para arrumar o time tendo pouco tempo para executar tal ação.

O calendário do futebol atual é muito apertado, prejudicando demais as seleções. Os treinadores acabam recebendo seus atletas convocados em um dia, treinando no outro e os mandando a campo no dia seguinte. Isso atrapalha demais os trabalhos dos treinadores, que com tempo escasso, elaboram poucas coisas, nada novo e os times se tornam previsíveis.

Para poder se sobressair entre os selecionados adversários, o entrosamento que os jogadores obtêm dos clubes se torna arma dos treinadores. Porém, nem todos conseguem ter este privilégio, não só pela birra que alguns técnicos tem com certos atletas, mas também do fato de muitos clubes grandes possuírem legiões estrangeiras em seus elencos.

Nessa situação, Vicente Del Bosque pode se considerar um ilustre privilegiado. A base de sua seleção campeã mundial e novamente campeã europeia está nos dois principais times da Espanha: Real Madrid e Barcelona. Dos 23 atletas que viajaram para Ucrânia e Polônia para disputar a UEFA Euro, cinco atuam pelo clube da capital espanhola, enquanto sete vestem a camisa catalã, sem contar David Villa e Carles Puyol, peças de confiança de Del Bosque, mas que contundidos, ficaram de fora do torneio.

O resultado dessa soberania está sendo notada pelo mundo inteiro nos últimos campeonatos entre seleções, onde a Espanha conseguiu se tornar a primeira seleção a conquistar duas Euros consecutivas, com uma Copa do Mundo entre esses títulos. Além disso, a Fúria igualou a Alemanha em números de conquistas europeias, três de cada, e ambas dividem o posto de maiores campeãs da história do torneio. Sem falar de uma série incontável de recordes que a Espanha vem batendo com as últimas conquistas.

É claro que possuir uma geração dotada de muito talento e predestinada a vencer tudo que disputar – caso contrário da geração de Raul, por exemplo – é um dos grandes méritos, se não o maior, dessa trinca de títulos, mas ter em mãos um grupo de atletas que joga junto há tempos e adquire grande entrosamento em seus clubes é um grande privilégio de Vicente Del Bosque e isso só ajuda a solidificar seu trabalho.

O treinador também tem o mérito de conseguir distribuir bem os jogadores, mesclando precisamente os valores de Real e Barça, sem desequilibrar o time. Além disso, Del Bosque conseguiu, nesta Euro, dar pequenas “pinceladas”, como o ingresso de David Silva e Jordi Alba, dois “estrangeiros”, ao time titular – embora Alba já seja novo contratado do Barcelona.

A prova final de que o talento de uma grande geração, somada ao entrosamento de longa data realmente fez efeito foi vista pelo mundo inteiro na Eurocopa. A Espanha jogou quase toda a competição abaixo do que pode render, apresentando um futebol, classificado por muitos como, “chato e burocrático” e ainda assim, foi campeã invicta, sofrendo apenas um gol, sendo esse anotado na partida de estreia.

Espanha bi-campeã europeia

Na grande decisão diante da Itália, única seleção que havia balançado as redes espanholas na competição, a Espanha apresentou a Azzurra todas as suas armas. Um toque de bola mais objetivo e envolvente, a intensa movimentação dos homens de frente, fazendo valer o fato de não possuir um centro-avante fixo e a imposição de seu já conhecido estilo de jogo.

A goleada por 4×0 serviu para consagrar Xavi e Iniesta, que tiveram atuações de gala. Ambos foram mal marcados, diga-se de passagem – principalmente Xavi -, mas a dupla mostrou o porque de tanto sucesso e aclamação as suas técnicas. A inspiração da dupla só ajudou a engolir o meio-campo italiano, que pouco produziu durante a partida.

Foi a consagração do estilo espanhol de se jogar futebol. Os constantes toques de bola e a valorização da posse da gorduchinha foram as grandes marcas deste time. Com Barcelona e Real Madrid mantendo os atuais jogadores e aumentando suas forças humanas e financeiras, o domínio nacional e talvez continental deve se tornar uma estigma, com tendência a reflexão na seleção local. Teoricamente, se isso se manter, o trabalho dos treinadores da Fúria, seja quem for, será diminuído, já que ele receberá uma base pronta para ser levemente lapidada.

Enquanto não surgir um estilo de jogo eficaz ao ponto de parar ao jeito espanhol de jogar bola, o cheiro de dinastia no mundo das seleções ficará cada vez mais forte.

Final em boas mãos

Buffon e Casillas são dois símbolos de suas seleções

Você já ouviu a expressão “um bom time começa com um bom goleiro”? Claro que já. Talvez esse seja um dos grandes diferenciais da final da UEFA Euro 2012: os arqueiros Iker Casillas e Gianluigi Buffon estão no hall de melhores goleiros das últimas décadas, quiçá de todos os tempos. Eles são espetaculares!

Tanto o italiano, quanto o espanhol, talvez sejam as únicas peças incontestáveis do grande público das duas equipes. Uns dizem que a Espanha tem um jogo chato, devagar e sonolento, outros já preferem apelar ao velho clichê e afirmar que a Itália atua só na retranca. Porém, se você perguntar o que os mesmos pensam sobre Buffon e Casillas, a opinião será unânime: ótimos goleiros.

No Real Madrid desde 1990, Iker Casillas, de 31 anos, poderá levantar seu terceiro troféu consecutivo pela Espanha. O goleiro foi capitão dos elencos campeões da Eurocopa de 2008 e da Copa do Mundo de 2010 e agora pode se tornar o primeiro a emendar a trinca de títulos, nunca antes conquistada por uma seleção. Caso vença a Euro neste domingo, Casillas chegará ao seu 16º título desde o seu início no time C do Real Madrid, em 1998.

Porém, o goleiro espanhol reencontrará na final a única seleção capaz de atingir com precisão sua meta em toda competição. Nos cinco jogos da Espanha nesta UEFA Euro, Iker Casillas foi vencido apenas por Antonio Di Natale, no jogo de estréia da Fúria, diante da Itália. Na ocasião, o espanhol havia contado com a sorte – e a incompetência – de Balotelli não ter convertido uma chance claríssima que teve na etapa final. O Super Mario deu lugar ao atacante da Udinese, que ao receber belo passe de Andrea Pirlo, fez a Espanha sofrer seu único gol na competição.

Iker Casillas, que defende sua seleção em Euros desde 2000, é sinônimo de segurança a defesa espanhola. Embora seu time pouco ceda a bola aos adversários, quando é necessário, o goleiro madridista está lá fazendo sua parte. Mesmo sendo baixo para um goleiro – 1,82 m -, Casillas demonstra, debaixo dos três paus, enorme agilidade, envergadura e inteligência nas saídas da meta. É um dos grandes pilares de Del Bosque.

A Itália não fica para trás e também conta com sua muralha na meta: Gianluigi Buffon. Após muito tempo, Gigi conseguiu ter, pela Juventus, uma série consistente de jogos na última temporada. De 2009 até 2011, o goleiro italiano não chegou nem a marca de trinta partidas no Campeonato Italiano – em duas dessas temporadas, nem a 25 atuações – e sofria com incontáveis lesões. Atualmente, Buffon ainda sente um problema físico ou outro, mas conseguiu emendar na última temporada 35 partidas pela Série A.

Mesmo mais velho, Buffon, caso conquiste a Euro 2012, será campeão pela 11ª vez na carreira. Obviamente, esse número menor de títulos comparado a Casillas se deve ao equilíbrio maior que existe na Itália em relação com a Espanha e também ao polêmico Calciopoli, que retirou dois títulos nacionais da Juventus. Porém, o escândalo citado anteriormente marcou a carreira de Buffon. Ao ver a Vecchia Senhora ser rebaixada a segunda divisão e o constante assédio de outras equipes do Velho Continente, ele preferiu ficar na Juventus e demonstrou enorme carinho com o clube e o torcida que o adotou em 2001.

Na Seleção Italiana, Buffon também possui um enorme currículo, que perdura desde 1996, quando ao lado de atletas como Pagliuca, Panucci, Nesta e Cannavaro, disputou as Olimpíadas de Atlanta. Desde então, o goleiro participou de quatro copas e três euros – contando com a atual.

A grande conquista de Buffon pela Azzurra na sua carreira foi em 2006, quando ergueu a Copa do Mundo. Naquela ocasião, o futebol italiano passava por maus agouros, como atualmente, com um enorme escândalo de apostas atormentando a vida de clubes e jogadores. Teremos um desfecho semelhante?

Se depender só de Buffon, sim! O goleiro foi muito importante no torneio, inclusive na semifinal diante da Alemanha, onde segurou o ímpeto adversário com o placar zerado e ainda evitou uma reação na etapa final, já com a vantagem no marcador, fazendo defesa magistral em cobrança de falta de Marco Reus.

Ainda assim, Gigi saiu irritado de campo. Alguns brincaram e traçando um paralelo com as polêmicas apostas da Itália, falando que, contra a Alemanha, ele apostara em 2×0 e não 2×1, porém, olhando mais friamente, Buffon não gostou nada do sufoco passado por sua seleção nos momentos finais, quando poderia ter matado o jogo caso caprichassem mais nas finalizações.

Engana-se quem pensa que por terem arqueiros de alto nível, Espanha e Itália não possuem atletas bons de bola. Ainda teremos o prazer de ver o confronto de Pirlo contra Xavi, além de Iniesta e Balotelli. Todos estes também estarão cercados de bons coadjuvantes, como David Silva, Xabi Alonso e Fàbregas no lado espanhol, Montolivo, Cassano e Chielini na Itália. Ou seja, não será um jogo meramente baseado nos espetaculares arqueiros.

De goleiros, as duas seleções estão muito bem servidas e sem preocupações. Buffon e Casillas são dois dos melhores de nossa geração e é um prazer imenso vê-los atuar por seus países com um brilhantismo tão grande quanto o de seus clubes. Só um sairá como campeão, mas nenhum sairá derrotado.

O que falta a Espanha?

Pela segunda vez seguida na final da UEFA Euro e atual campeã continental e mundial, a Espanha, ainda assim, não consegue empolgar a nação futebolística. Uns dizem que é um time chato e sonolento, outros já são mais diretos e dizem que a Fúria é uma cópia mal-feita do Barcelona. Alguns são mais radicais e já dizem que a Espanha “não é nada disso”.

Qual seria o motivo de tamanha dúvida quanto a um time que pode conquistar o terceiro título seguido? Listei abaixo algumas suspeitas. Leia e tire suas conclusões.

  • Posicionamento

Na seleção, Iniesta atua pelos flancos

O Barcelona atua num 4-3-3, com Busquets, Xavi e Iniesta formando o meio-campo. Já a Espanha, de Del Bosque, atua num esquema parecido, um 4-3-3 que varia para um 4-2-3-1, mas que mexe no posicionamento do trio citado acima. Busquets e Xavi atuam juntos, mas tendo a companhia de Xabi Alonso, do rival Real Madrid. Já Iniesta é “forçado” a atuar pelas beiradas do campo e mais avançado. Acostumado a trabalhar a bola para os homens de frente blaugranas, o camisa 6 espanhol tem missão diferente pelas laterais. Na maioria das vezes, ele pega a bola dentro da área, onde o espaço para trabalhar uma jogada é menor e a finalização se torna, muitas vezes, obrigatória.

A saída de Xabi Alonso para a entrada de um ponteiro, como Navas ou Pedro, seria uma boa saída. Mas vale à pena abrir mão do volante madridista? Penso que não. Alonso me agrada bastante e, para mim, é um jogador quase completo para a função que desempenha. Claro que é um preço alto a se pagar, mas Del Bosque tem de encontrar a melhor forma de encaixar tudo que tem de melhor no time.

  • Centro-Avante

A ausência do contundido David Villa deixou Vicente Del Bosque em uma sinuca de bico. O atacante do Barcelona era o ponto de objetividade da equipe, com ele não tinha vez, era o “matador” do time. Sem Villa, o comandante campeão do mundo precisou buscar uma nova opção para o ataque, mas ainda não encontrou a ideal.

Fernando Torres consagrou-se como um dos maiores atacantes do planeta há quatro anos, ao marcar o gol do título europeu, mas hoje, se vê como uma das grandes piadas da história do futebol. Contratado a peso de ouro pelo Chelsea, El Niño não repete as atuações dos tempos de Liverpool e não passa confiança para Del Bosque. Fernando Llorente, que seria a normal segunda opção após Torres, estranhamente não é utilizado pelo selecionador espanhol e ainda vê Álvaro Negredo receber mais oportunidades.

Em meio esse acúmulo de dúvidas e incertezas, Del Bosque aposta em Fàbregas na função. Acostumado a jogar na faixa central, Cesc demonstra enormes dificuldades para ser o centro-avante do time. Porém, sem alternativa melhor, foi o titular em quase toda competição.

Fàbregas tem sido a solução de Del Bosque para a “camisa 9”

  • Objetividade

É estranho, mas a Espanha, segunda seleção que mais finalizou na Eurocopa – 49 vezes -, é criticada por muitos pela falta de objetividade. É uma crítica plausível até a página dois.

Sim, muitas vezes, falta um “cabeçudo” pra pegar a bola na entrada da área e finalizar em gol. Sim, os espanhóis parecem seguir a regra do golaço e que só vale chutar da pequena área. Sim, a Espanha dá a impressão de não ter a objetividade do Barcelona. E sim, o toque de bola da Fúria é maçante, enjoado e cadenciado além da conta.

Porém, é esse mesmo time que com a posse de bola, ao mesmo tempo em que busca o ataque, evita que o adversário o agrida. É desse time também que saem algumas jogadas geniais, muitas vezes dos pés de jogadores como Iniesta e Xavi. E como foi dito antes, a Espanha foi a segunda seleção que mais finalizou na Eurocopa, perdendo apenas para a Itália. A Fúria também tem o segundo melhor ataque do torneio, com oito gols. Ou seja, é uma crítica plausível, mas que não me parece definidora de tudo.

  • Inveja

Para muitos, o futebol apresentado pela Espanha é “bonito”. Eu entendo como uma prática vistosa, leve, mas que não me enche os olhos. Mas para muitos, as críticas levantadas nos últimos tópicos – principalmente no último ponto – são multiplicadas e transformadas em duras e injustas palavras, denegrindo todo o trabalho feito pela Espanha.

Isso não tem outro nome: inveja. Como não estou aqui para falar de sentimentos de uns e outros, por algo completamente indireto ao jogo, nem me esticarei nesse ponto.

O fato é que este time, mesmo com esses “defeitos” citados anteriormente, pode se tornar a primeira seleção na história a conquistar duas Eurocopas com uma Copa do Mundo no meio. Essa é a Espanha, que com o passar dos anos vai ganhando cancha para se fixar na história do futebol.

*Crédito das imagens: Getty Images