Os flops da temporada francesa

Há duas semanas, trouxe os destaques da temporada 2016/2017 do Campeonato Francês. Só que o ano não teve somente gente se dando bem, gritando “é campeão”, fazendo gols bonitos e encantando os amantes do bom futebol. Tivemos também aqueles que prometeram muito e cumpriram pouco dentro de campo.

Após um período de certa triagem nos escolhidos e até conversas com os colegas de Le Podcast du Foot, fechei a lista e, hoje, trago cinco desses nomes que, como dizem no popular futebolístico, floparam na temporada – ou que pelo menos frustraram qualquer expectativa positiva. Reconheço que a maior parte da lista vem do Paris Saint-Germain, que viu a sequência de conquistar nacionais sendo quebrada, mas dá uma boa discussão.

Sem mais enrolações, vamos aos nomes:

5 – Jesé e Krychowiak

Vindos do futebol espanhol, Jesé e Krychowiak não renderam em Paris | Foto: Geoffroy van der Hasselt/AFP/Getty Images

Só em Jesé Rodríguez e Grzegorz Krychowiak, o Paris Saint-Germain investiu € 58 milhões. É uma grana federal que comprova a inflação do mercado de jogadores, convenhamos. Ambos estão entre as 15 mais caras contratações da história do clube e até custaram mais que nomes importantes da história recente do clube, como Zlatan Ibrahimovic e Marco Verratti.

Uma temporada depois de fazer esse investimento, a sensação é de desolação. Jesé fez apenas nove jogos e anotou um gol na Ligue 1. Na metade da temporada, foi emprestado ao Las Palmas e saiu sem deixar saudades. Hoje, ele é tratado como um problema a ser resolvido internamente. Como firmou contrato de cinco anos, voltará a Paris, mas a contragosto. Em recente entrevista à Rádio Cadena Ser, na Espanha, ele disse que não gostaria de retornar por causa das poucas chances que recebeu. Já Nasser Al-Khelaifi, presidente do clube, disse em dezembro do último ano que errou ao trazer o espanhol. Pepino a vista sobre a situação do atleta.

Já Krychowiak, contratado com o status de peça de confiança de Unai Emery dos tempos de Sevilla, jogou apenas 11 vezes na competição. No meio da temporada, o polonês chegou a jogar no time B por perceber que não tinha espaço na equipe principal. A paciência com ele acabou na reta final e o último jogo que fez foi no dia 12 de março, pela 29ª rodada, na vitória por 2 a 1 sobre o Nancy. Com contrato até 2021, é outro problema a ser contornado em Paris.

4 – Jérémy Ménez

Apesar da decepção, a diretoria do Bordeaux ainda aposta em Ménez | Foto: AFP

Voltando ao futebol francês após duas temporadas no Milan, Jérémy Ménez custou a singela bagatela de € 9,5 milhões ao Bordeaux, segunda maior contratação da história do clube. Dentro de campo, porém, o retorno não aconteceu nesta edição da Ligue 1. Foram 26 jogos (somente sete por 90 minutos), três gols marcados e duas assistências.

Ménez, que almejava retornar à seleção francesa após quatro anos, vê agora essa meta cada vez mais distante. Já com 30 anos e vindo de uma temporada bastante baixa, ele ainda observa nomes talentosos explodirem, com Ousmane Dembélé e Kyllian Mbappé. Hoje está claro que é preciso ir passo a passo e, primeiro, retomar bom futebol dentro do Bordeaux, que não quer se desfazer do alto investimento feito no começo da temporada.

3 – Torcida do Bastia

O ápice das confusões da torcida do Bastia foi contra o Lyon | Foto: OLWeb

Nenhuma torcida incomodou tanto na França quanto a do Bastia. No hall de confusões dos corsos, uma tentativa de agressão ao brasileiro Lucas, do PSG, durante uma cobrança de escanteio, insultos racistas a Mario Balotelli, do Nice, além das cenas de guerra campal com os jogadores do Lyon, fazendo a partida ser suspensa após 45 minutos de bola rolando. As imagens rodaram o mundo e mancharam ainda mais o status de um time que teve a pior campanha entre os 20 times da Ligue 1.

Para quem quiser entender mais a origem desses acontecimentos, que muito tem a ver com a tumultuada região da Córsega, o assunto esteve em debate na edição #63 de Le Podcast du Foot, quando, inclusive, recebemos o correspondendo do Lucarne Opposée no Brasil, Simon Balacheff.

2 – Ben Arfa

Ben Arfa clamou por uma oportunidade em Paris | Foto: C. Gavelle/PSG

Depois de uma temporada acima da média no Nice (com 17 gols e seis assistências), Hatem Ben Arfa parecia ter afastado o status de “garoto-problema” e investir € 10 milhões nele parecia ser um bom negócio. Mero engano – pior para o PSG, que ficou com a batata quente em mãos.

O retorno em campo foi mínimo, com míseros quatro gols e uma assistência (disso tudo, apenas a assistência foi na Ligue 1). Internamente, Ben Arfa era duramente questionado pela falta de empenho nos treinamentos e teria chegado a ouvir de Emery a frase “você não é Messi”.

Não bastasse isso, o atleta externou a insatisfação com a reserva. Na reta final da temporada, publicou um vídeo onde suplicou por uma chance. Disse que não queria jogar em uma posição específica ou algo semelhante, apenas queria uma oportunidade.

Apesar da iminente chance de saída, ele começou o mês de junho dizendo querer ficar em Paris. No Instagram, o atacante publicou um vídeo treinando em uma praia, com a trilha sonora de “Only God Can Judge Me” (Só Deus pode me julgar), de Tupac, e encerrou com o recado “nos vemos em julho”. Resta vez se Emery vai passar a mão na cabeça dele desta vez.

1 – Unai Emery

Emery veio com a meta de fazer o PSG jogar mais… e até agora, não cumpriu | Foto: C. Gavelle/PSG

Não gosto da expressão “obrigação” para títulos, mas ao chegar em Paris, Unai Emery precisava fazer o PSG render mais e dar o passo adiante que não deu com Laurent Blanc – que apesar dos 11 títulos em três temporadas, era cobrado por participações mais convincentes no cenário europeu. Além disso, Emery teve a chance de trazer alguns jogadores que desejava, como os já citados Krychowiak e Ben Arfa, além de Julian Draxler.

O que se viu dentro de campo, porém, foi um rendimento menor do que nos tempos de Blanc. Sem inspiração, lento em transições e nas combinações ofensivas, o PSG de Emery fez força para ganhar jogos que ganhava facilmente em anos passados. A perda do título francês para o Monaco foi puro reflexo de um time que foi sombra de um adversário com menos recursos financeiros, mas que ampliou as capacidades técnicas.

Somado a isso, veio o fracasso diante do Barcelona na Liga dos Campeões e a péssima gestão de elenco, constatada nas mais variadas notícias de insatisfações e cobranças externas dos atletas.

Apesar disso tudo, Emery vai continuar no PSG para a próxima temporada, mas cada vez mais pressionado a fazer o time jogar para salvar a própria pele – e do presidente Nasser Al-Khelaifi.

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E aí? O que achou da lista? Dê sua opinião e amplie o debate!

Unai Emery e um fracasso que vai além de resultados

Emery viu o PSG fazer 5×3 no agregado e ser eliminado pelo Barcelona | Foto: EPA

Unai Emery tem tudo em mãos em Paris. Jogadores milionários, estrutura de primeiro mundo, um dos zagueiros mais regulares da década, uma joia italiana desejada por vários clubes da Europa e uma dupla sul-americana na frente capaz de colocar medo em qualquer um. Fora isso, tem por trás a Qatar Sports Investiments (QSI), empresa que administra o Paris Saint-Germain e lhe dá capacidade de investimento quase infinita. Nem com todas essas ferramentas foi capaz em transformar o PSG em um time temido.

O vexame em Barcelona foi apenas a cereja de um bolo que queimou no forno. O time desorganizado defensivamente, afobado com a bola nos pés, displicente no ataque e posicionado atrás contra uma equipe de forte ataque tem mais do que o dedo do treinador, tem todas as mãos de Emery, que chegou gabaritado por um tricampeonato da Europa League com o Sevilla.

Para a história, ficará a virada do Barcelona como o grande feito, mas o fato é que o Paris teve o maior vexame da história. Foi muito mais uma derrota do que uma vitória. Basta ver os primeiros gols, que saíram de falhas grotescas (Marquinhos esteve muito mal nos dois primeiros lances) de uma defesa com jogadores de ótimo nível. Basta ver, também, que o PSG fez um gol quando perdia por 3×0, obrigando o adversário a dobrar o número de gols. Dí Maria e Cavani também tiveram chances claríssimas e pararam no próprio preciosismo. Foi um vexame enorme, uma hecatombe para derrubar Paris.

Não sei sequer dizer o que faltou para o PSG se classificar. Por mais que seja possível fazer uma análise técnica (a postura passiva é o principal ponto de crítica), fica difícil fugir de críticas mais passionais, como a própria falta de vergonha na cara, de perceber que se tratava de um jogo dificílimo e que valeria uma temporada.

Fosse eu que estivesse na posição do xeique Nasser Al Khelaifi, certamente iria no vestiário e soltaria aquele nada gosto “suco de urina” em todo mundo. Ia resolver algo? Provavelmente não, mas, honestamente, é impossível ficar parado vendo isso. Tomar seis gols, seja qual for a ocasião, já é de envergonhar qualquer um, porém, sofrer seis deste jeito, tendo a vantagem em mãos, com chances claras e adversário abalado após inesperado gol, é doloroso.

Dí Maria teve a chance de fazer o segundo gol parisiense no Camp Nou | Foto: Reuters

Pode parecer exagero falar tudo isso de um time que está em 2º lugar no Campeonato Francês, é finalista da Copa da Liga e segue firme e forte na Copa da França, mas, convenhamos, com o que o PSG tem à disposição, é sintomático que isso aconteça em terreno local. Os resultados vêm naturalmente dentro do território gaulês. O que mais preocupa é a incapacidade de Emery em fazer o Paris apresentar um futebol minimamente convincente com o material que tem.

Emery mantém o 4-3-3, que se tornou habitual desde os tempos de Laurent Blanc, mas priorizando a posse de bola. Entretanto, o que tem sido visto em campo é uma equipe com muita dificuldade de construir jogadas e que se esforça muito para fazer o básico.

Lembro que o time que meteu quatro no Barcelona é o mesmo que venceu o Nancy por 1×0 com um gol de pênalti, somente aos 35 minutos do segundo tempo. É o mesmo que fez 3×1 no Dijon, com dois gols nos últimos dez minutos. É o mesmo também que precisou de um gol irregular nos acréscimos para derrotar o Lille.

O PSG não consegue convencer sequer em nível doméstico. Vem sendo inconstante e está somando seus pontos em fatores que estão alheios a organização do time (como o brilhantismo de Cavani e a fragilidade de alguns adversários). Para efeitos de comparação, o time de Laurent Blanc na temporada anterior, liderava o campeonato nacional com 28 rodadas, tinha 73 pontos contra os 62 atuais, quatro vitórias a mais e um ataque de 68 gols contra 56 de hoje.

Bastou para Blanc ficar? Não. A cobrança também era por um jogo mais qualificado e um rendimento que, aparentemente, poderia ser maior. O PSG não quer mais só “resultados”. Isso o clube vem obtendo ano pós ano. O clube quer rendimento de alto nível, capaz de colocá-lo entre as principais equipes do mundo, o que ainda não foi possível.

Não descarto novo título francês, tampouco as conquistas nas copas nacionais, mas Emery não está pronto para tocar o ambicioso projeto parisiense. Dentro do que tentou propor, fracassou e nenhum resultado mudará isso.

PS: Sobre a arbitragem do jogo, só queria dizer que um time que consegue ser eliminado depois de fazer 4×0 e 5×3 no placar agregado não tem moral alguma para reclamar de arbitragem (por mais que não daria nenhum dos dois pênaltis, especialmente o segundo).