Treze anos para o prato de vingança esfriar

29 de maio de 1999. Este era um dia que ficaria marcado na história do futebol francês. Era a decisão de mais um campeonato nacional. Na última rodada, o Bordeaux, com 69 pontos e o Olympique de Marseille, com 68 eram os candidatos ao título daquela temporada. Mas havia um “pequeno” problema.

Para se sagrar campeão, o OM dependia de um tropeço dos Girondins diante do seu grande rival Paris Saint-Germain, que estava no meio da tabela e não brigava por nada na rodada derradeira da competição. Obviamente, em um confronto que envolvesse o líder e o nono colocado de um campeonato, era normal que o time mais bem qualificado vencesse, mas como diriam aqueles: “o futebol é uma caixinha de surpresas” e não seria nada de outro mundo se o time da capital vencesse. Mas a rivalidade veio à tona.

O Marseille fez sua parte no Stade de La Beaujoire-Louis Fonteneau e venceu o Nantes pelo placar mínimo, gol de Robert Pirès, na época com 26 anos. Bastava uma forcinha do rival de Paris para o clube que anos antes havia sido rebaixado por causa do escândalo VA-OM se reerguesse e novamente conquistasse a Ligue 1.

Nesse tapinha de canhota, Feindouno fez o gol do título do Bordeaux em 99

Todo esse sonho foi pro espaço quando no Parc des Princes, aos 44 minutos do segundo tempo, Pascal Feindouno, de apenas 18 anos – hoje, com 31, se aventura no Sion da Suíça – recebeu um belo passe de Laslandes e mandou pras redes, na saída de Lama. Foi seu terceiro jogo naquela edição da Ligue 1 e seu primeiro gol.

Para os Girondins, vitória e título épicos; pros parisienses, um motivo de riso da cara dos rivais; pros marseillais, ira com o possível descaso do time da capital. Ninguém nunca vai saber da verdadeira história. Uns acusam, outros defendem, mas fica tudo no disse me disse, nas provas simbólicas e nas atitudes suspeitas.

Anos mais tarde, o defensor do PSG naquele jogo, Francis Llacer chegou a declarar “que não deu tudo de si naquele jogo e que outros jogadores também não estavam 100% focados na partida”. Se há um fundo de verdade nessa declaração eu não sei. Llacer pode ter dito a verdade, como pode ter sido uma provocação aos torcedores do Marseille, já que a entrevista foi a uma rádio de uma região próxima.

Mas o fato é que se ficarmos revirando o passado, não iremos a lugar algum. O Bordeaux ergueu a taça, o Olympique seguiu na fila e o PSG segue nela até hoje, mas como diriam os mais antigos, “a vingança é um prato que se come frio”. O OM esperou treze anos para este prato esfriar!

O Marseille não tem grandes aspirações no Campeonato Francês. O time de Didier Deschamps acabou de perder o clássico contra o Paris e estacionou na 9ª colocação – olha o nono colocado podendo decidir a Ligue 1 de novo – com 40 pontos, longe de Lille – 56 pontos – e Lyon – 53 -, times que ocupam as últimas vagas para Champions League e Europa League, respectivamente. Para piorar a situação, o Marseille, que recentemente foi eliminado da Liga dos Campeões pelo Bayern e da Copa da França pelo Quevilly da terceira divisão, não vence na Ligue 1 desde janeiro e está em uma crise interminável.

Em contrapartida, o PSG joga mal, não convence, rasga dinheiro em jogadores de nível técnico duvidoso, mas ainda assim é um time “cascudo” e ganha seus jogos no sufoco, se mantendo vivo na briga pelo título com o Montpellier.

O problema parisiense é que o MHSC – que está empatado em pontos na liderança – tem um jogo a menos e essa peleja é justamente contra o desanimado, amargurado e em crise, Olympique de Marseille. Este jogo é na quarta-feira e só Deus sabe o que pode acontecer no Vélodrome.

Em grande forma, o Montpellier bateu o Sochaux no fim de semana (mhscfoot.com)

Para mim, normalmente, o Montpellier venceria. O time de René Girard vive grande momento, com Younes Belhanda, John Utaka e Olivier Giroud em ótima forma, enquanto o Marseille está em uma temporada para ser esquecida – a vaga nas quartas-de-final da Champions League não representa nada para um clube que se acostumou a chegar entre os quatro melhores no início dos anos 90 – e agora vive seu pior momento.

O natural é o MHSC vencer. Principalmente se tirarmos o “fator PSG” de campo. O Marseille precisa partir para cima e conquistar a vitória que alivia um pouco a pressão que há sobre jogadores e Deschamps, com isso, daria campo pro veloz time do Montpellier encaixar seu jogo. É tudo que Girard quer vide as recentes dificuldades com times que jogam fechados.

Mas como citei nos parágrafos anteriores, é “normal” e “natural” que Giroud, Belhanda e companhia vençam a peleja, só que para os torcedores do PSG e do OM não será nada normal. Os marseillais querem mais é que seu time entregue a partida, enquanto os parisienses torcem a contragosto pelo rival, tendo a certeza de que eles não farão força para vencer a partida.

É uma chance e tanto pro Marseille reescrever uma história antiga do futebol francês, manchando seu nome como o PSG supostamente fez em 1999.

Mas é um caso complicado de escrever e palpitar. Estamos falando de ações internas de um time de futebol. Se eu não sou capaz de saber o que uma pessoa que está a dois metros de mim está pensando, imagina saber de um grupo de jogadores, que está em outro continente pensa? É complicado! Você e eu poderemos ver a mesma coisa e interpretar de forma diferente. O Olympique de Marseille pode entregar a partida ou ajudar o Paris Saint-Germain, mas o fato é que ninguém vai entender o que se passará na cabeça dos atletas e nem o porquê daquelas ações. Será mais uma história com final em branco no extenso livro futebolístico!

O preço do sucesso

O Montpellier nunca foi um time grande. No máximo, médio. O MHSC tem algumas participações na primeira divisão francesa, já até obteve alguns resultados interessantes – principalmente na época de Valderrama -, mas na maioria das oportunidades na Ligue 1, lutou contra o rebaixamento.

Giroud, Belhanda e Utaka, três destaques do Montpellier, vibram com o gol

Nesta temporada, fugindo de todas as expectativas, o time comandado por René Girard está indo muito bem e lidera a primeira divisão do país. Alguns jogadores como Yanga-Mbiwa, Jamel Saihi, Younes Belhanda e Olivier Giroud despontam como grandes nomes do time, assim como os jovens Remi Cabella e Benjamin Stambouli, que vão recebendo muitas oportunidades na atual temporada. Jogadores mais rodados, como o brasileiro Victorino Hilton, Garry Bocaly, Souleymane Camara e John Utaka estão por lá para dar o toque de experiência necessário nos grandes times.

Porém, além dos ótimos resultados, o sucesso trás algumas conseqüências ruins. Olivier Giroud, artilheiro do Campeonato Francês e líder de assistências do Montpellier, já é alvo de muitos clubes. No final de 2011, o artilheiro da equipe recebeu uma proposta de oito milhões de euros do Newcastle, mas considerando baixa a oferta, o presidente Louis Nicollin decidiu rejeitá-la e ainda afirmou que “Giroud tem contrato até 2014 e vale pelo menos 40 milhões de euros”.

Porém, quando clubes maiores crescem os olhos pra cima do seu principal jogador, Nicollin acaba cedendo um pouco. No grande duelo diante do Paris Saint-Germain – confronto dos dois líderes que acabou empatado em 2×2 -, olheiros do Bayern e do Napoli estavam presentes no Parc des Princes para assistir a partida. Giroud não marcou gols, mas fez o cruzamento para o segundo gol, anotado por Utaka.

Louis Nicollin já criou raízes no Montpellier (Reuters)

Nicollin já admitiu recentemente que será difícil segurar o atacante, já que sua multa rescisória é relativamente baixa – beira os 15 milhões de euros – e seu bom futebol tem aparecido para mais gente. Não por acaso, Giroud substituiu Karim Benzema no duelo da Seleção Francesa contra a Alemanha, em Bremen. O atacante do Montpellier anotou um gol… Justamente no país do Bayern, e a França venceu por 2×1.

Resultado disto tudo: Os rumores de uma possível transferência para o clube bávaro aumentam. A conceituada revista Kicker publicou hoje que o Bayern prepara uma oferta de 16 milhões de euros para trazer Giroud.

É o preço do sucesso! Nicollin pode até achar que seu jogador vale 40, 50, 60 milhões de euros, mas com uma multa baixa, vai ser difícil segurá-lo. Giroud não vale toda a grana que o presidente do Montpellier acha que vale, mas vendê-lo pro Bayern pela tal oferta – lembrando que não é nada oficial – seria ótimo! Principalmente porque o MHSC investiu menos de cinco milhões em sua compra, seria um lucro e tanto.

Claro que muitas vezes não vale à pena vender seu craque, mas o Montpellier tem prazo de validade. Esse time não se manterá no topo do futebol francês por muito tempo. Dois, três, quatro anos talvez, mas o fato é que dificilmente Nicollin irá manter este bom time. Os clubes franceses não são fortes economicamente, vide os vários jogadores do país que se transferem para a Premier League.

Aliás, o presidente Nicollin, que está no comando do MHSC desde 1974, já teve alguns bons times em mãos, mas se desfez de quase todos. Mais recentemente, o time que tinha Tino Costa, Victor Hugo Montaño e Emir Spahic chegou a Europa League, tendo até brigado pelo título francês na temporada em que chegou ao torneio UEFA. Isso foi na temporada 2008/09! Faz pouco tempo, e hoje, esses caras que formavam a espinha dorsal do time, estão vagando por outros clubes.

Giroud começa a ganhar espaço nos Bleus

Além do mais, Giroud não vale toda a grana que Nicollin acha que vale – exageros à parte, o presidente do clube acha que ele vale muito dinheiro. O #17 do Montpellier é muito bom atacante, sabe fazer o pivô, tem boa técnica e o principal, sabe marcar gols. Mas sempre fica aquela pontinha de dúvida: será que é uma temporada atípica ou ele joga isso tudo mesmo?

Esquecendo toda a grana envolvida, todas as negociações, os termos, os contratos, enfim, deixando de lado tudo que envolva cifras e condições, será que vale à pena Giroud ir para o Bayern? É quase certo que chegará como reserva de Mário Gomez. O francês irá mesmo para substituir o reserva Olic, que deve deixar o clube bávaro. Pro time alemão é ótimo! O Bayern tem ótimos jogadores, mas não tem um elenco grande e sólido. Com a vinda de Giroud, o cacife ofensivo fica maior. Mas pro atacante, seria uma experiência nova: de grande nome do Montpellier, para reserva nos bávaros, porém, com uma possibilidade de crescimento na carreira maior do que no clube francês. É uma faca de dois gumes!

Vamos aguardar os próximos capítulos!