O intruso

Olivier Dall’Oglio está entre os principais técnicos da Ligue 1 | Foto: Vincent Poyer / Dijon FCO

Olivier Dall’Oglio está longe de ser o melhor técnico da França, tampouco de ser um dos mais promissores da Europa. Mas o simples fato de tentar fazer diferente em um país com treinadores de cabeças tão fechadas já o coloca na lista de melhores da temporada no Campeonato Francês.

A UNFP (União Nacional dos Futebolistas Profissionais, em tradução literal) o colocou ao lado de Unai Emery, campeão pelo PSG, Rudi Garcia, do Marseille, e Leonardo Jardim, do Monaco, concorrendo ao posto de treinador do ano na França.

À primeira vista, para quem pouco acompanha a Ligue 1, a cara é de espanto. Afinal de contas, Dall’Oglio treina o modesto Dijon, que ocupa a 12ª colocação, com 42 pontos. Em momento algum lutou por vagas nas copas europeias e chegou a sofrer a humilhante goleada de 8 a 0 para o PSG. Apesar disso tudo, teve desempenho sólido que em nenhum momento lhe colocou em situação de sufoco contra o rebaixamento.

Dall’Oglio ficou dentro de uma lista que deixou de fora o competente Lucien Favre, do Nice, o veterano Claudio Ranieri, de boa campanha no Nantes, e o ainda contestado Bruno Genésio, que aos trancos e barrancos está levando o Lyon para a Liga dos Campeões.

Diante disso, vale perguntar: afinal de contas, quem é Olivier Dall’Oglio?

Dall’Oglio encerrou a carreira no Rennes | Foto: Reprodução

Aos 53 anos – completa 54 no próximo dia 16 de maio – ele foi um zagueiro de carreira discreta, com passagens mais expressivas pelo modesto Olympique d’Alès, entre 1982 e 1989, e pelo Rennes, clube onde encerrou a carreira aos 33 anos de idade após problemas físicos, em 1996.

Um ano depois já se aventurou como técnico dos times de base do Alès, do Nimes e do Troyes. Neste período, contou ao Ouest France, chegou a cumprir estágio no Brasil, quando passou algumas semanas no Vasco da Gama.

O primeiro clube profissional foi exatamente o Olympique d’Alès, entre 2007 e 2008. Passou pouco tempo por lá, já que ainda em 2008, decidiu se juntar a Dominique Bathenay e integrar a comissão técnica da seleção dos Emirados Árabes Unidos.

Após a curta passagem no famigerado “Mundo Árabe”, só voltou a ser treinador em 2012, após o rebaixamento do Dijon. Patrice Cameron deixou o clube após a queda e ele, que era auxiliar, assumiu o time. Na Ligue 2, a segunda divisão do país, passou três temporadas batendo na trave com o acesso – terminou em 7º, 6º e 4º – até subir em 2015/16.

A primeira temporada na elite foi um choque para Dall’Oglio e seus comandados. Ao término da 6ª rodada, já era o penúltimo colocado, com apenas uma vitória. A parte inicial do campeonato encerrada em dezembro de 2016 não foi tão pior porque algumas vitórias providenciais – como sobre o Toulouse, no último jogo ano – puxaram o time para a 15ª colocação.

A briga contra o rebaixamento transcorreu até as rodadas finais. Faltando dois jogos, o Dijon era o 18º colocado. Porém, a decisiva vitória sobre o Nancy, em confronto direito na penúltima rodada deu o alívio necessário para permanecer na elite com um simples empate na partida derradeira.

Mas ainda não respondi à pergunta fundamental: o que Dall’Oglio fez de tão excepcional para ser lembrado como um dos melhores técnicos da temporada, mesmo com o time dele estando no meio da tabela? Simples, ele pensa diferente.

Sem exagero algum, mais de 95% dos times franceses que sobem de divisão adotam uma mesma estratégia para tentar permanecer na elite: montam times fortes fisicamente para serem capazes de defenderem bem e contra-atacarem em velocidade. O Angers, por exemplo, foi uma equipe que utilizou desse expediente nas duas temporadas em que está na primeira divisão.

Dall’Oglio pensa diferente. “A ideia foi sempre propor um espetáculo de futebol”, afirmou ao Ouest France. Foi com essa mentalidade do treinador que o Dijon sustenta o quinto melhor ataque da competição, com 49 gols marcados.

O mais interessante é que dos 49, 33 surgiram de jogadas construídas (via Who Scored), enquanto o restante ficou distribuído entre lances de contra-ataque, pênaltis, bolas paradas ou gols contra.

Vale citar ainda a quantidade de gols que surgiram de chutes de fora da área, como mostra a imagem abaixo. O reflexo é claro: o Dijon é um time destemido até para finalizar de longe.

Arte: Squawka

Longe de ser um dos times mais virtuosos, o Dijon tenta ousar dentro de suas possibilidades. As estatísticas mostram que está distante de ser um dos times que mais acerta passes (12º no ranking) e dos que finaliza (14º), mas consegue propor um jogo direto, agressivo, explorando as bolas longas e, principalmente, a qualidade de seus principais jogadores, como o habilidoso tunisiano Naïm Sliti, líder em assistências no time, e o competente Júlio Tavares, autor de 11 gols na temporada e maior artilheiro da história do jovem clube de apenas 20 anos.

Dall’Oglio não nega que procura o jogo perfeito, por isso confessa o incômodo em ter a pior defesa da Ligue 1, com 69 gols sofridos. Parte disso deve-se ao viés ofensivo da equipe, que deixa o setor de marcação desprotegido. Basta ver que o Dijon ficou apenas cinco jogos a temporada inteira sem ser vazado.

Para corrigir isso, os treinamentos são explorados de forma intensa. Segundo o próprio Dall’Oglio, boa parte das atividades são feitas com bola, mas cobra disciplina dos atletas, pois só assim suas ideias serão assimiladas.

Além disso, ele busca utilizar o status de treinador para se assumir como líder e não como autoritário. Na mesma entrevista ao Ouest France, o comandante do Dijon disse que faz, sim, suas cobranças quando enxerga algo não saindo como o imaginado, mas que procura fazer isso internamente, evitando qualquer constrangimento ou humilhação nos atletas.

Dall’Oglio está cada vez mais maduro. A cada ano evolui como técnico e mostra aos demais clubes franceses que é, sim, possível fazer futebol com poucos recursos. Estar na premiação da UNFP é uma simples amostra do barulho que tem feito em um modesto clube.

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