Os empurradores de bola pra rede

O conceito das funções do centroavante foi mudando ao longo dos anos. Na época em que os times atuavam mais espaçados no gramado, os técnicos se davam ao luxo de deixa-los isolados na frente, aguardando uma mísera bola para empurrar para as redes e correr para o abraço.

Hoje, não ter um centroavante com capacidade de abrir espaços e participar mais ativamente da partida significa, na maior parte das vezes, jogar com um a menos.

“Na maior parte das vezes”. Como tudo no futebol, isso não é regra.

Na França temos dois exemplos de times que não seguem bem essa tendência, possuem centroavantes, digamos, à moda antiga, mas que, dentro de seus contextos, fazem temporadas dignas e apresentam ao país nomes de centroavantes que podem ajudar em ocasiões específicas.

Santini encontrou em Rodelin o parceiro ideal | Foto: SM Caen/Site oficial

Um desses caras é Ivan Santini, do Caen. Nascido na antiga Iugoslávia, o croata de 28 anos está desde 2016 na França e, pela segunda temporada consecutiva, está entregando um número razoável de gols.

No primeiro ano foram 15 em 34 jogos (2.888 minutos, ou seja, um gol a cada dois jogos e 12 minutos). Na atual temporada, os números estão um pouco abaixo: 11 gols em 30 partidas (2.598 minutos, ou um gol a cada dois jogos em 56 minutos).

Santini marcou todos os 11 gols de dentro da grande área, sendo que cinco foram de pênalti, três com apenas um toque (todos de cabeça), dois precisaram de dois (um foi quase embaixo do gol) e apenas um foi mais trabalhado.

Parte desse rendimento vem, é claro, do modelo de jogo do time e das características dos atletas que rodeiam Santini. Um deles é Ronny Rodelin. Jogador que prometia muito quando surgiu no Nantes, mas que pouco rendeu no Lille, ele está na terceira temporada no Caen e conseguiu dobrar o número de assistências: de três para seis. Quatro desses passes para gol foram para o goleador croata.

Santini está longe de ser o atacante mais virtuoso entre os times pequenos da Ligue 1 e dificilmente será a solução para um clube maior, mas graças a ele o Caen chega nas rodadas finais três pontos longe da zona de playoff do rebaixamento. Não tem como não creditar a ele esses méritos, afinal de contas, quase metade dos gols do time no campeonato (46,1%) tiveram participação dele (contabilizando a única assistência que deu na temporada).

O argentino dos Canários

Outro “empurrador de bolas pras redes” de sucesso nesta temporada é o argentino Emiliano Sala. Tratado com muito afeto no Bordeaux, clube onde chegou em 2010, foi agora no Nantes que, enfim, explodiu na primeira divisão. Já são 12 gols (mesma quantidade da temporada anterior) e quatro assistências. Num time com míseros 33 gols marcados – o terceiro pior ataque da Ligue 1 – Sala é responsável por 48,3% dos tentos, seja com passes ou assistências.

O mais interessante dos gols do argentino é o nível de decisão. Sala balançou as redes em cinco vitórias por 1 a 0, em um triunfo por 2 a 1, em dois empates por 1 a 1 e duas vezes num empate por 2 a 2. Dos 46 pontos dos Canários, 21 podem ser colocados na conta do argentino.

Assim como o já citado Santini, Sala também vive de marcar com toques únicos. Quatro dos 12 gols foram de pênalti, seis precisaram de um contato com a bola, um precisou de dois e ainda houve um sem querer, onde a zaga chutou a bola em cima dele e entrou.

Quase metade dos gols do Nantes tiveram participação de Sala | Foto: FC Nantes/Site oficial

Os números de Sala talvez só não sejam melhores porque a queda do Nantes em 2018 é algo extremamente preocupante. O time comandando por Claudio Ranieri não vence desde a 29ª rodada (dia do último gol do argentino) e ficou com diminutas chances de disputar a próxima Liga Europa.

Ainda assim, inegavelmente é a melhor fase da carreira de Sala, que dificilmente continuará no Nantes. Na janela de inverno foi cortejado por Wolverhampton, Brighton e pelo chinês Beijing Renhe. Apesar da seca de gols desde março, deverá buscar voos maiores.

Sala, assim como Santini, provam que podem ser opções interessantes para times de médio porte, especialmente aqueles que não prezam tanto por um jogo de maior posse de bola e que não se preocupam em ter um homem de frente apenas para empurrar a bola para as redes.

É a Ligue 1 provando, pela enésima vez, que há material humano de qualidades e características diferentes em todos os times. Sala e Santini são dois entre tantos exemplos. Basta garimpar.

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O intruso

Olivier Dall’Oglio está entre os principais técnicos da Ligue 1 | Foto: Vincent Poyer / Dijon FCO

Olivier Dall’Oglio está longe de ser o melhor técnico da França, tampouco de ser um dos mais promissores da Europa. Mas o simples fato de tentar fazer diferente em um país com treinadores de cabeças tão fechadas já o coloca na lista de melhores da temporada no Campeonato Francês.

A UNFP (União Nacional dos Futebolistas Profissionais, em tradução literal) o colocou ao lado de Unai Emery, campeão pelo PSG, Rudi Garcia, do Marseille, e Leonardo Jardim, do Monaco, concorrendo ao posto de treinador do ano na França.

À primeira vista, para quem pouco acompanha a Ligue 1, a cara é de espanto. Afinal de contas, Dall’Oglio treina o modesto Dijon, que ocupa a 12ª colocação, com 42 pontos. Em momento algum lutou por vagas nas copas europeias e chegou a sofrer a humilhante goleada de 8 a 0 para o PSG. Apesar disso tudo, teve desempenho sólido que em nenhum momento lhe colocou em situação de sufoco contra o rebaixamento.

Dall’Oglio ficou dentro de uma lista que deixou de fora o competente Lucien Favre, do Nice, o veterano Claudio Ranieri, de boa campanha no Nantes, e o ainda contestado Bruno Genésio, que aos trancos e barrancos está levando o Lyon para a Liga dos Campeões.

Diante disso, vale perguntar: afinal de contas, quem é Olivier Dall’Oglio?

Dall’Oglio encerrou a carreira no Rennes | Foto: Reprodução

Aos 53 anos – completa 54 no próximo dia 16 de maio – ele foi um zagueiro de carreira discreta, com passagens mais expressivas pelo modesto Olympique d’Alès, entre 1982 e 1989, e pelo Rennes, clube onde encerrou a carreira aos 33 anos de idade após problemas físicos, em 1996.

Um ano depois já se aventurou como técnico dos times de base do Alès, do Nimes e do Troyes. Neste período, contou ao Ouest France, chegou a cumprir estágio no Brasil, quando passou algumas semanas no Vasco da Gama.

O primeiro clube profissional foi exatamente o Olympique d’Alès, entre 2007 e 2008. Passou pouco tempo por lá, já que ainda em 2008, decidiu se juntar a Dominique Bathenay e integrar a comissão técnica da seleção dos Emirados Árabes Unidos.

Após a curta passagem no famigerado “Mundo Árabe”, só voltou a ser treinador em 2012, após o rebaixamento do Dijon. Patrice Cameron deixou o clube após a queda e ele, que era auxiliar, assumiu o time. Na Ligue 2, a segunda divisão do país, passou três temporadas batendo na trave com o acesso – terminou em 7º, 6º e 4º – até subir em 2015/16.

A primeira temporada na elite foi um choque para Dall’Oglio e seus comandados. Ao término da 6ª rodada, já era o penúltimo colocado, com apenas uma vitória. A parte inicial do campeonato encerrada em dezembro de 2016 não foi tão pior porque algumas vitórias providenciais – como sobre o Toulouse, no último jogo ano – puxaram o time para a 15ª colocação.

A briga contra o rebaixamento transcorreu até as rodadas finais. Faltando dois jogos, o Dijon era o 18º colocado. Porém, a decisiva vitória sobre o Nancy, em confronto direito na penúltima rodada deu o alívio necessário para permanecer na elite com um simples empate na partida derradeira.

Mas ainda não respondi à pergunta fundamental: o que Dall’Oglio fez de tão excepcional para ser lembrado como um dos melhores técnicos da temporada, mesmo com o time dele estando no meio da tabela? Simples, ele pensa diferente.

Sem exagero algum, mais de 95% dos times franceses que sobem de divisão adotam uma mesma estratégia para tentar permanecer na elite: montam times fortes fisicamente para serem capazes de defenderem bem e contra-atacarem em velocidade. O Angers, por exemplo, foi uma equipe que utilizou desse expediente nas duas temporadas em que está na primeira divisão.

Dall’Oglio pensa diferente. “A ideia foi sempre propor um espetáculo de futebol”, afirmou ao Ouest France. Foi com essa mentalidade do treinador que o Dijon sustenta o quinto melhor ataque da competição, com 49 gols marcados.

O mais interessante é que dos 49, 33 surgiram de jogadas construídas (via Who Scored), enquanto o restante ficou distribuído entre lances de contra-ataque, pênaltis, bolas paradas ou gols contra.

Vale citar ainda a quantidade de gols que surgiram de chutes de fora da área, como mostra a imagem abaixo. O reflexo é claro: o Dijon é um time destemido até para finalizar de longe.

Arte: Squawka

Longe de ser um dos times mais virtuosos, o Dijon tenta ousar dentro de suas possibilidades. As estatísticas mostram que está distante de ser um dos times que mais acerta passes (12º no ranking) e dos que finaliza (14º), mas consegue propor um jogo direto, agressivo, explorando as bolas longas e, principalmente, a qualidade de seus principais jogadores, como o habilidoso tunisiano Naïm Sliti, líder em assistências no time, e o competente Júlio Tavares, autor de 11 gols na temporada e maior artilheiro da história do jovem clube de apenas 20 anos.

Dall’Oglio não nega que procura o jogo perfeito, por isso confessa o incômodo em ter a pior defesa da Ligue 1, com 69 gols sofridos. Parte disso deve-se ao viés ofensivo da equipe, que deixa o setor de marcação desprotegido. Basta ver que o Dijon ficou apenas cinco jogos a temporada inteira sem ser vazado.

Para corrigir isso, os treinamentos são explorados de forma intensa. Segundo o próprio Dall’Oglio, boa parte das atividades são feitas com bola, mas cobra disciplina dos atletas, pois só assim suas ideias serão assimiladas.

Além disso, ele busca utilizar o status de treinador para se assumir como líder e não como autoritário. Na mesma entrevista ao Ouest France, o comandante do Dijon disse que faz, sim, suas cobranças quando enxerga algo não saindo como o imaginado, mas que procura fazer isso internamente, evitando qualquer constrangimento ou humilhação nos atletas.

Dall’Oglio está cada vez mais maduro. A cada ano evolui como técnico e mostra aos demais clubes franceses que é, sim, possível fazer futebol com poucos recursos. Estar na premiação da UNFP é uma simples amostra do barulho que tem feito em um modesto clube.

Volte duas casas

Ben Arfa não joga há quase um ano | Foto: AFP

Poucas analogias se encaixam tão bem com a carreira de Hatem Ben Arfa do que o tabuleiro de um jogo infanto-juvenil. Uma hora os dados caem com números altos, seu pino vai longe, mas um mero deslize e lá se vai uma rodada sem jogar. Acima de tudo, ter uma mão quente para jogar os dados é um diferencial.

Nesse jogo de tabuleiro que virou a carreira de Ben Arfa, ele foi o jogador que saiu todo felizardo quando viu os dados apontando 12 casas para andar, mas que foi ao fundo do poço ao ver que seu pino parou na prisão e ele teve de ficar duas rodadas – ou duas temporadas – sem jogar.

Primeira contratação da era Unai Emery no Paris Saint-Germain, ainda na temporada 2016/17, o virtuoso atacante, marcado por dribles atrevidos e um jogo agressivo que encantava, vinha de temporada brilhante pelo Nice, que marcou a remontada na carreira após alguns anos no ostracismo na Inglaterra.

O que ele talvez não pudesse prever era que Emery seria o carcereiro da prisão nesse jogo de tabuleiro. Desde que chegou a Paris, somou 1.136 minutos em campo, não dá média nem de 13 minutos por jogo – 32 partidas ao todo. Boa parte dessa minutagem é oriunda de partidas em que saiu do banco de reservas, e em apenas cinco atuou o tempo inteiro.

O pesadelo piorou nesta temporada. Contrariando vontade do clube, que não queria vê-lo por perto nem com a sonhada orelhuda da Liga dos Campeões debaixo do braço, Ben Arfa decidiu ficar em Paris, sabe-se lá se foi por birra ou por acreditar que poderia, sim, ter minutos e vingar.

Não deu outra. Sem prestígio no clube e agora de bico esticado, foi relegado ao time B e não foi relacionado para nenhuma partida do PSG. A última vez que foi visto com a camisa azul de Paris foi a quase um ano, em 5 de abril de 2017, na goleada sobre o Avranches, pela Copa da França – na ocasião, fez dois gols e deu uma assistência.

Neste meio tempo, Ben Arfa denunciou o clube a LFP (Liga de Futebolistas Profissionais, entidade que gerencia o Campeonato Francês) pela falta de condições de trabalho e os constantes destratos. Os advogados do atacante citam como exemplo a ausência na viagem para os EUA na pré-temporada, que o clube comunicou na véspera do embarque.

Emery, o carcereiro, ainda contribuiu na estadia turbulenta do atacante com críticas públicas ao atleta, evidenciada na emblemática declaração “você não é Messi”, quando criticou o individualismo do atacante e sua incapacidade de decidir jogos. Somado a isso vem a pequena contribuição defensiva e a participação pouco comprometida nos treinamentos.

Na queda de braço, o PSG levou a melhor. Ben Arfa comunicou nesta quinta-feira (29) que estará deixando o clube ao término da temporada – período em que acaba o contrato.

Se há pouco tempo atrás questionávamos a possibilidade de Ben Arfa ser convocado para a Eurocopa de 2016, hoje ele nem é lembrado numa lista de 50 jogadores que poderiam ser uma alternativa para a Copa do Mundo.

Aos 31 anos, está difícil pensar que pode chegar na última casa e levar o jogo. É hora de voltar duas casas, esfregar as mãos e ver o que os dados lhes reservam nesse insano tabuleiro da carreira de Ben Arfa.

Le Podcast du Foot #75 | Conturbado Lyon

O Lyon vive temporada atípica. Enfim estabilizado financeiramente após a construção do Estádio Groupama e com a venda de nomes como Alexandre Lacazette e Corentin Tolisso, o clube agiu bem no mercado de transferências, trouxe bons nomes para se juntarem as crias do clube, mas não consegue ser competitivo ao ponto de lutar pelo título francês e até mesmo pela vaga direta na fase de grupos da Liga dos Campeões.

Somado a isso, a temporada tem sido repleta de decepções, com eliminações precoces nas copas nacionais e na Liga Europa. Isso tudo coloca o trabalho do técnico Bruno Génésio em xeque e já é cogitada sua saída ao término da competição.

Le Podcast du Foot #75 debateu todas essas conjunturas da conturbada temporada do Lyon. Eduardo Madeira conduziu o programa ao lado de Filipe Papini, do Brasil Lyonnais. Ouça o programa abaixo:

Bomba prestes a explodir

A crise sem precedentes que afeta o Lille ganhou como capítulo chave a invasão de campo, somada a agressões a jogadores no último sábado (10), no empate por 1 a 1 com o Montpellier. Os Dogues, que começaram a temporada francesa sonhando alto, ocupam a penúltima colocação, com 28 pontos, e hoje seriam rebaixados para a segunda divisão. Um choque e tanto para os torcedores que subiram no topo do país há menos de dez anos.

A invasão de campo, além de um ato lamentável e que pode custar caro ao clube, é o ato maior de uma torcida que começou o ano pensando em bater de frente com o PSG e hoje batalha para ultrapassar o Troyes nas últimas colocações.

Óbvio que muito da responsabilidade pelo trágico momento recai sobre Gerard López, o milionário proprietário que completou um ano no clube em janeiro deste ano e só viu problemas desde então – passando pelos resultados em campo, as escolhas dentro das quatro linhas e até mesmo aos problemas financeiros.

Mas vale questionarmos: qual o papel de Marcelo Bielsa dentro disso tudo? O argentino, que veio para a segunda passagem em solo francês com a promessa de ser a grande cabeça pensante do novo projeto do clube, promoveu uma verdadeira revolução nos Dogues, que atenderam a maioria de seus caprichos, desde estrutura, diretores e, principalmente no elenco.

Nomes como Rio Mavuba, Marko Basa e Vincent Enyeama, há anos no clube e absolutamente identificados com a torcida, foram deixados de lado e, em seus lugares, uma lista incontável de jovens promessas que abaixaram a média de idade do time para 22,3 anos.

O rejuvenescimento do elenco, que parecia ser positivo, tendo em vista que alguns dos veteranos estavam em reta final de carreira e muitos dos garotos contratados são, sim, muito bons, se tornou um total desastre. Os jovens, sem referências dentro e fora de campo, não conseguiram render e Bielsa não foi capaz de aplicar seus métodos como pensava.

Foi embora em litígio com o clube, tem disputas judiciais até hoje e deixou um prejuízo imensurável. Quem traz El Loco sabe que há o “pacote Bielsa”. Erro de Lopez em aceitar isso ou do argentino em promover essas mudanças e largar o barco à deriva?

Bielsa foi um dos fieis da balança para a crise do Lille | Foto: Getty/The Independent

Michel Seydoux, histórico ex-presidente do Lille, não pestanejou ao dizer que é Bielsa o culpado por tudo. Citou as trocas no elenco e ainda disse admirar o técnico Christophe Galtier, que tem feito o possível para evitar o rebaixamento do clube. “Bielsa destruiu o clube, de certa maneira”, afirmou à RTL.

Em meio a isso, tem o impasse do clube com a Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG), que aperta a diretoria quanto as garantias financeiras para disputar a Ligue 1. Começou com a proibição de contratar na janela de inverno (que era uma esperança de recuperação para a temporada) e complementou com uma espécie de “rebaixamento preventivo”, caso não apresente as garantias financeiras necessárias.

Independente de quem seja o culpado, o Lille precisa reagir urgentemente. Além da penúltima colocação, os Dogues possuem a terceira pior campanha em casa, a quarta defesa mais vazada e venceram apenas dois de dez jogos em 2018.

Até o fim da temporada, Galtier e seus comandados terão encrencas pela frente das mais variadas partes da tabela. Terá Monaco e Marseille longe de casa, além dos confrontos diretos contra Amiens, Toulouse e Metz.

E ainda precisamos esperar para ver os reflexos da selvageria do último sábado. Casos recentes apontam para punições severas, em que pese o fato de o clube ter aberto investigações para encontrar os culpados. Analisando episódios antigos, a imprensa local cogita desde a interdição do estádio a até jogos com portões fechados ou com campo neutro.

Enquanto isso, a nove rodadas do fim, o Lille vai escutando o “tique-taque” da bomba acelerar cada vez mais.

Neymar versus Cavani: a disputa que nunca existiu

Falta química entre Neymar e Cavani? Números derrubam argumento | Foto: AFP/Getty Images

A derrota por 3 a 1 para o Real Madrid, na primeira mão das oitavas-de-final da Liga dos Campeões da Europa, trouxe uma série de repercussões negativas para o Paris Saint-Germainalgumas delas foram discutidas na edição #73 de Le Podcast du Foot.

Muitos falaram das tomadas de decisão de Neymar, das escolhas de Unai Emery, da forma como o time joga, enfim, poucas vezes uma derrota arrasou a milionária terra parisiense como essa.

Diversos desses argumentos, de fato, rendem discussão e bons debates. Alguns passam do limite, seja por críticas descabidas e até desconectadas com o jogo, seja por simplesmente serem mentirosas.

A que mais me intrigou foi a da tal “falta de química” entre a dupla Neymar e Edinson Cavani. Como argumento, utilizaram um dado que indicava que um não tocou a bola para o outro na partida. O fato, em si, não condiz com a verdade, como mostrou o analista de desempenho e jornalista Eduardo Cecconi em seu Twitter:

A informação provocou uma série de reações, inclusive, comentários desconectados da realidade. Cito aqui o do jornalista André Rizek, do Sportv (e deixo claro que a intenção não é desmerece-lo, porém, entendo que se fosse algo que eu tivesse dito, gostaria que fosse citado para corrigir ou, ao menos, rebater).

Em seu perfil no Twitter, logo após o jogo, disse que Neymar e Cavani “não são uma dupla, são uma disputa”. Assisti a um trecho do Redação Sportv do dia seguinte, Rizek reforçou o argumento e citou a referida informação de que Cavani e Neymar não trocaram passes entre si.

Pois bem, fui atrás de números, dados concretos e irrefutáveis que rebatessem essa afirmação. Encontrei estatísticas simples, pouco profundas, mas que jogam por terra o argumento da “disputa” entre os dois. Neymar deu 12 assistências na temporada do Campeonato Francês. Seis delas foram para Cavani. Já o uruguaio, que nunca foi afeito a passes para gol, deu quatro, duas para o brasileiro.

Se isso é falta de química, me desculpem, mas não sei o que é entendimento entre dois jogadores de ataque.

Para complementar, tomei o cuidado de olhar assistência por assistência, analisar com cuidado para ver se não foram lances fortuitos, casos de sorte mesmo. Portanto, segue abaixo um relato de cada passe para gol de Neymar e, em seguida, de Cavani – no título estão os links que redirecionam para os vídeos dos lances:

1 – Guingamp 0-3 PSG | 2ª rodada 

Neymar recebe a bola na faixa central e observa o deslocamento de Cavani entre os zagueiros. O uruguaio é lançado e marca após dois toques na bola.

2 – Metz 1-5 PSG | 5ª rodada 

Lance semelhante ao primeiro: Neymar recebe no centro, enxerga o deslocamento de Cavani e Kyllian Mbappé. O Pistolero chega antes depois do lançamento e marca o gol.

3 – PSG 6-2 Bordeaux | 8ª rodada 

A jogada deste gol envolveu o trio Mbappé, Neymar e Cavani. Os dois primeiros tabelaram e o brasileiro encontrou o uruguaio em condições de marcar na saída de Benoît Costil.

4 – PSG 2-0 Troyes | 15ª rodada 

Jogada mais simples: Neymar recebeu na esquerda, tinha marcação por perto, diferente de Cavani, que estava livre na marca do pênalti. O camisa 9 foi acionado e guardou.

5 – Rennes 1-4 PSG | 18ª rodada 

Este foi, certamente, um dos gols mais bonitos. Neymar, com liberdade pela área central, lançou Cavani por elevação. Antes da chegada do goleiro, tocou por cobertura e marcou.

6 – PSG 6-2 Strabourg | 26ª rodada 

E, finalmente, o lance mais recente, mas que teve muita semelhança com outras jogadas: Neymar livre na área central, observa a movimentação de Cavani e o lança. O uruguaio, oportunista, guardou mais um.

Já nos passes de Cavani…

1 – Guingamp 0-3 PSG | 2ª rodada 

O gol saiu muito facilmente, mas ficou marcado por Cavani evitando a saída da bola pela linha de fundo e rolando para trás, onde estava Neymar, que fez o primeiro gol com a camisa parisiense.

2 – PSG 4-0 Montpellier | 23ª rodada 

Este talvez seja o único que dê para discutir se foi uma assistência intencional ou não, embora tenha me parecido proposital. Em rápido contra-ataque, Cavani recebeu na saída do goleiro e, sem o ângulo ideal, tocou por elevação. Antes de a bola entrar, Neymar marcou o gol.

Cavani e Neymar é a dupla fatal do PSG | Foto: Reprodução

Bom, lendo as descrições e assistindo aos lances, me parece claro que a tal “disputa” não existe. E ainda não entram na conta lances que não viraram gols, como aquele que Cecconi mostrou em Real x PSG. Esse dado poderia ser ainda maior.

O que se detectou foi, principalmente, um Neymar mais cerebral, jogando em uma faixa de campo mais recuada, mas sendo igualmente fatal, principalmente por ter um goleador nato em sua frente.

Aliás, quantos talvez tenham percebido isso ao longo da temporada? Como jornalista, sou muito crítico a minha profissão e me parece muito claro que, cada vez mais, se assiste menos futebol, mesmo existindo infinitas maneiras de acompanhar os jogos. Quantas partidas do PSG foram assistidas por nossa crônica especializada?

Ouso dizer que poucas.

E o reflexo é visto aí. Propaga-se uma opinião equivocada de que não há sintonia entre dois atletas que são responsáveis por mais da metade dos gols do PSG na liga nacional (42 de 81). Mais gritante ainda é ver que muitos desses tentos saíram de jogadas construídas pelos dois.

Se há uma rixa interna entre a dupla pouco importa. Isso é bom para vender jornais e caçar cliques de quem pouco está interessado em entender o jogo. Dentro das quatro linhas há entendimento e podemos ser categóricos: Neymar e Cavani não são uma disputa, como foi sugerido, mas, sim, uma dupla e tanto.

Le Podcast du Foot #72 | Janela fechada

A janela de transferências de inverno enfim foi fechada na França, e alguns clubes trataram de se mexer para tentar resultados melhores na temporada. Saint-Étienne e Bordeaux são dois exemplos, já que trataram de buscar reforços para crescer no Campeonato Francês depois de inícios ruins.

Em Le Podcast du Foot #72, Eduardo Madeira e Filipe Papini analisam as principais movimentações da janela francesa e projetam os encaixas dos times com os planteis definidos.

É só dar play abaixo e acompanhar o programa: