Le Podcast du Foot #70 | Em busca de um lugar ao sol

Natural de Maceió (AL), Otávio foi aparecer para o mundo do futebol no Sul do Brasil. Foi vestindo a camisa do Atlético Paranaense que o volante cresceu na carreira e chamou a atenção do Bordeaux, que o contratou no início da temporada 2017/18.

Sem saber falar francês, tem se virado como pode, seja no curso de idiomas, seja com os funcionários do clube, com os brasileiros do elenco ou até mesmo com o tcheco Jaroslav Plasil, figura icônica do Bordeaux e que aprendeu falar português ao se casar com uma brasileira.

Na língua da bola, tem se entendido bem. Desde que chegou aos Girondins, vem sendo titular com alguma frequência e tem buscado evoluir o quanto pode. A ideia é seguir a linhagem de brasileiros bem-sucedidos do clube, casos de Fernando Menegazzo, Henrique, Wendel, Jussiê, Mariano e, atualmente, Malcom.

O volante de 23 anos foi personagem central da edição #70 de Le Podcast du Foot. Otávio conversou com Eduardo Madeira e Renato Gomes sobre a chegada ao Bordeaux e a primeira metade de temporada na França.

Dê play abaixo e escute o programa:

 

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Sob as bênçãos de Karim

Aos 19 anos, Aouar é uma das peças de desequilíbrio do Lyon | Foto: S. Guiochon/Le Progres

É difícil citar quem seria o principal jogador formado nas consagradas academias do Lyon, mas o certo é que entre tantos nomes citados, o de Karim Benzema estaria nas cabeças, seja pela qualidade e pelo que entregou dentro de campo, seja pela bem-sucedida carreira já fora do clube. E é exatamente sob as bênçãos do franco-argelino que surge a nova joia bruta do clube: Houssem Aouar.

Assim como Karim, o meio-campista de 19 anos tem raízes na Argélia, mas, por ter nascido em Lyon (curiosamente, nasceu em meio a Copa do Mundo no país, em 1998), adotou a França como casa. Igualmente ao madridista, Aouar também foi lapidado no OL assim que chegou ao clube aos 11 anos de idade.

Desde então, queimou etapas, explodiu no sub-17 ainda abaixo da idade limite (aos 16 anos, fez 27 gols e deu 15 assistências em uma única temporada na categoria) e defendeu a equipe sub-19 sem nem ter 17 anos. O caminho natural era crescer cedo entre os profissionais, e é isso que estamos vendo de Aouar desde 2016/17.

“Eu gosto dele. Ele é técnico, tem boa visão e se bem trabalhado, pode ir longe”, disse Benzema no mês de março a RMC. E sob a bênção de Karim, começou a trajetória do meia.

Assim como em outros tantos casos da história recente do Lyon, Aouar ganhou espaço mediante a lacuna deixada por outros atletas mais tarimbados que não corresponderam. No caso dele, foi do holandês Memphis Depay, contratado por pomposos 25 milhões de euros, mas que viveu períodos de inconstância nos primeiros seis meses de França. Como Maxwell Cornet e Rachid Ghezzal não ofereciam a competitividade desejada, Aouar passou a garimpar espaço.

Já havia sido assim com Alexandre Lacazette tomando lugar de Jimmy Briand, com Maxime Gonalons ocupando brechas de Jean II Makoun e, mais recentemente, com Mouctar Diakhaby desbancando Nicolas N’Koulou. Depay, que chegou ao OL com status de estrela, se viu obrigado a jogar mais após ver a presença de um atrevido garoto de 19 anos.

Versatilidade como ponto forte

Aouar e seu fino trato com a bola | Foto: Instagram Oficial/Aouar

Aouar é o que muitos chamam de “falso lento”: parece caminhar em campo, estar desligado da partida, quando, na verdade, está atento 100% do tempo, possuindo uma agilidade e rapidez de pensamento impressionantes. A capacidade de leitura de jogo e movimentos também chamam a atenção no garoto de precoces 19 anos.

Observando esses predicados, o técnico Bruno Genesio já encontrou algumas fórmulas para encaixar Aouar no time titular, mesmo tendo um poderoso setor ofensivo com o já citado Depay, Mariano Diaz e Bertrand Traoré. Mediante a versatilidade do garoto, que tem o drible para abrir espaços pelo lado, mas possui o passe que quebra linhas, já o aproveitou na primeira faixa do meio-campo, ao lado de Tousart, em um 4-2-3-1.

Apesar de atuar também pelos lados (assim que começou a incomodar Depay), foi na função encontrada por Genesio que conseguiu ser mais influente para o time. Pode não ser um meio-campista rompedor, como era Corentin Tolisso, transferido do Lyon para o Bayern nesta temporada, mas é combativo, enxerga e preenche bem os espaços e possui passe de extrema qualidade, capaz de romper linhas adversárias. Curiosamente, sempre teve como referências o próprio Tolisso e Juninho Pernambucano, que jogavam exatamente naquela função.

Fora essas virtudes no passe, Aouar é um driblador nato. Somando esta qualidade ao raciocínio rápido e leitura de movimentos de adversários, ele se mostra capaz de fazer os mais ríspidos marcadores parecerem baratas tontas quando baterem de frente com ele.

Hoje, Aouar está no time ideal do Campeonato Francês do site WhoScored, especializado em estatísticas, com média de 7.6. Já o Squawka aponta que ele tem média de 85% passes certos, sendo que 57,5% são passes para frente. Fatalmente, será eleito a revelação da temporada na França e, com alguma sorte, poderá pintar na lista dos favoritos de Didier Deschamps para a Copa da Rússia – por que não?

Sorte a nossa de ver mais um talento puro que o Lyon apresenta para o mundo. Sob as bênçãos de Karim, será mais um que nos fará admirar ainda mais o bom futebol que une em um único jogador as maiores virtudes argelinas e francesas.

Le Podcast du Foot #69 | Decepção bielsista

O argentino Marcelo Bielsa, El Loco, era o sonho de consumo do milionário Gerard Lopez quando assumiu o comando do Lille. Em pouco tempo no clube, concretizou esse anseio e o trouxe para treinar os Dogues, mas num período tão curto quanto, essa relação estremeceu.

Bielsa foi afastado do comando técnico e dificilmente voltará a treinar o Lille. Via imprensa, uma série de troca de farpas entre o staff do treinador e a diretoria, além de obscuridades sobre o que de fato aconteceu. Em campo, decepção com a frustrante penúltima colocação.

Na edição #69 de Le Podcast du Foot, essa meteórica passagem de Bielsa pelo Lille esteve em pauta. Os já calejados Eduardo Madeira e Renato Gomes receberam o bielsista Bolívar Silveira, integrante do projeto Footure, que ajudou a destrinchar o trabalho de El Loco pelo clube do norte francês.

Escute no player abaixo:

 

Dossiê Benzema

Era março de 2007. A França olhava fixamente para a Eurocopa de 2008. Após um vice-campeonato mundial em 2006, com uma seleção já bastante envelhecida, o polêmico Raymond Domenech tentava renovar a seleção. Nomes hoje calejados, como Patrice Evra, Jérémy Toulalan, Rio Mavuba e Lass Diarra começavam a ganhar espaço especialmente em amistosos.

E foi exatamente em um desses jogos teste que começou a história de Karim Benzema na seleção francesa. Para encarar a Áustria, no dia 28 de março, no Stade de France, Domenech fez diversas experiências. Dos 11 da formação inicial, sete não tinham sequer dez jogos pelos Bleus, sendo um estreante: o prodígio, que tornaria-se mais tarde um garoto-problema, Samir Nasri.

Benzema, na época com 19 anos, assim como Nasri, era um prodígio francês. Desde que havia estreado entre os profissionais do Lyon na temporada 2004/05, não tinha números estrondosos. Mesmo assim, já ia para a segunda convocação. A primeira havia sido em novembro de 2006, ainda com 18 anos, quando somava meros quatro gols e 32 aparições no Campeonato Francês. Não debutou em função de uma lesão.

O azar não se repetiu naquela noite parisiense. No intervalo da partida, Domenech fez três alterações. Ao lado do veterano William Gallas e do companheiro de clube Eric Abidal, Benzema ingressara no time na vaga de Djibril Cissé.

O menino franco-argelino não precisou nem de dez minutos para mostrar do que era capaz. Em falta na linha de fundo pelo lado direito, Nasri, inteligente, cobrou rasteiro e para trás. Livre, Benzema acertou um chute ao seu estilo: colocado, de pé direito, nem muito forte, nem tão fraco, mas o suficiente para ser impossível de defender.

Era um amistoso, é verdade, mas já foi um belo cartão de visitas para um expoente de 19 anos: ali residia uma esperança de gols.

A partir dali, Benzema passou a sempre ser lembrado por Domenech e, constantemente, entrava no time. Com Thierry Henry e David Trezeguet em rota descendente da carreira e Nicolas Anelka longe de ser o nome dos sonhos, ter uma via alternativa se fazia necessário para aquele momento. Domenech sabia que Benzema era essa via.

Euro 2008: Primeira decepção

Com a explosão na temporada 2007/08, onde fez 20 gols em 36 jogos no campeonato nacional – 33 gols em 63 ao todo – tornou-se inevitável assumir a titularidade. E assim foi até a estreia na Eurocopa disputada na Suíça.

No debute contra a Romênia, Henry foi desfalque em função de um problema no nervo ciático. Com isso, Benzema formou dupla com Anelka. A partida foi decepcionante, fraca tecnicamente, e o placar não saiu do zero, em jogo que, definitivamente, não está na história da Eurocopa.

Foi o indício de que dias ruins viriam. Sem vencer diante da seleção mais fraca da chave e com Itália e Holanda pela frente, os Bleus precisariam mostrar mais caso quisessem avançar.

Nada feito. Com Benzema no banco e sem sequer entrar na reta final da partida, a França foi atropelada por uma irresistível Holanda de Sneijder, Robben e Van Persie, perdendo por 4 a 1. O atacante acabou sendo lembrado pela imprensa – ou aliviado por ela.

Na época, porém, Benzema já causava os primeiros furdunços internos. A imprensa francesa noticiava na época que o comportamento considerado arrogante e individualista incomodava outros atletas.

Ainda assim, bastava uma vitória diante da Itália para os franceses se classificar e Domenech acionou o garoto para iniciar o confronto. Entretanto, a expulsão de Eric Abidal, com menos de 25 minutos, selou o início da derrocada gaulesa. A Azzurra, assim como em 2006, mandava os franceses para casa decepcionados, desta vez, com o 2 a 0 no marcador.

Benzema atuou durante 90 minutos. Inclusive, no segundo gol italiano, anotado por Daniele De Rossi, a bola desviou nele, que estava na barreira, e saiu do alcance de Coupet. Ofensivamente, a participação mais efetiva foi em um chute rasteiro de fora da área, aos 13 minutos, com o placar ainda zerado, que saiu levemente a esquerda de Buffon. Apesar da frustrante participação, foi uma experiência válida para o atacante que tinha, na época, 20 anos.

Benzema participou de dois jogos da Euro 2008 | Foto: Reprodução

Boa parte do fracasso daquele time já se devia as convicções de Domenech. Foram três escalações diferentes em três jogos e um 4-4-2 muito engessado. No ataque, não havia uma clareza sobre os posicionamentos dos atacantes e Benzema, que nos dois jogos que fez atuou mais afastado da área, muitas vezes se embolou com companheiros exatamente por essa confusão do time.

Benzema, ainda garoto e começando a enfrentar jogos de maior peso, era o menor culpado disso.

Caso Zahia e a Copa da África

Quem sabe em 2010? Primeira Copa em continente africano, França sedenta para afastar a má impressão deixada em 2008, cenário favorável para Benzema explodir. Somado a isso, veio a transferência para o Real Madrid, por 36 milhões de euros. Jogar ao lado de Cristiano Ronaldo, Kaká e outros tenderia a potencializar ainda mais suas qualidades. Entretanto, as polêmicas extracampo começaram a entrar na rotina do atacante.

Tudo começou em 5 de setembro de 2009. Naquela noite, a França enfrentaria a Romênia, em Paris. Os Bleus passavam maus bocados nas Eliminatórias para a Copa, com vitórias magras diante de seleções pouco expressivas e atuações nada convincentes. Para quem adora propagar o discurso de vitórias obrigatórias, essa partida diante dos romenos se encaixava aí.

Benzema, entretanto, começou no banco. Foi chamado para entrar aos 28 minutos da etapa final, no lugar de Yoann Gourcuff. A partida estava empatada por 1 a 1 e assim ficou até o fim. A polêmica pegou porque o atacante teria mostrado certa má vontade para entrar no jogo.

A atitude foi considerável inadmissível para Domenech. Para completar, meses depois, Benzema foi indiciado por, supostamente, ter tido relações sexuais com Dehia Zahar, uma prostituta menor de idade. Ele foi absolvido apenas em 2014, o que foi suficiente para que fosse descartado definitivamente pelo treinador e ficasse fora da Copa do Mundo de 2010. Nem mesmo o surgimento de André-Pierre Gignac no Toulouse poderia explicar aquela decisão.

Sete anos depois, Benzema pode até se dizer aliviado, já que não compôs o elenco que promoveu uma grande rebelião contra o próprio Domenech e protagonizou o maior fiasco da história dos Bleus.

Volta e seca

Passado o vexame no África do Sul, Domenech se foi, Laurent Blanc chegou e Benzema voltou. No primeiro jogo pós-Copa, entrou aos 16 minutos do segundo tempo, na vaga de Guillaume Hoarau. A titularidade, porém, veio apenas na vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia, na qualificação para a Eurocopa.

A confiança de Blanc foi recompensada em grande estilo. Aos 26 minutos da etapa complementar, a partida estava empatada em 0x0, quando Benzema recebeu cruzamento rasteiro da esquerda. De costas para o gol, ele girou bonito, deixou o zagueiro para trás e mandou um lindo arremate de canhota para as redes.

Foi dali para cima. O começo de 2011 foi empolgante e Benzema dava pinta de que seria “o cara” tão procurado desde as aposentadorias de Zidane e Henry (da carreira e da seleção, respectivamente). Em amistosos ‘cascudos’ contra Brasil e Inglaterra, fez gols e ajudou nas duas vitórias, que deram cancha a um time que ainda estava desacreditado.

O que viria em diante, porém, foi decepção para o atacante. Depois da vitória contra os algozes brasileiros, em fevereiro de 2011, Benzema passou cinco jogos sem marcar, voltando a marcar em setembro do mesmo ano, na vitória por 2 a 1 sobre a Albânia. Seis partidas depois, às vésperas da Euro 2012, dois gols diante da Estônia, chegando a marca de 15 gols pela seleção francesa.

A empolgação de recuperar o respeito perdido na Copa de 2010 era grande, mas a Euro disputada na Polônia e na Ucrânia foi apenas mais um capítulo da turbulenta carreira de Benzema pela França.

Eliminado nas quartas-de-final, o atacante madridista deixou a competição de forma discreta, sem ter marcado um gol sequer e muito questionado pela imprensa local. O único jogo em que conseguiu se destacar foi no 2 a 0 diante da Ucrânia, onde deu as assistências para os dois gols.

Benzema deixou a Euro 2012 sem gols | Foto: Reprodução

Não havia dúvidas, Benzema era a grande decepção da França. Não apenas pelo nome que possui, tampouco por jogar no Real Madrid, mas estávamos falando do atacante que teve na temporada 2011/12 o período mais prolífico em gols na carreira. Em 64 jogos, marcou 35 gols, recorde máximo desde que surgiu em 2004/05.

A imprensa francesa valorizou o esforço, pontuou que o jogo dos Bleus fluía mais quando saia da área e ajudava a criar jogadas, mas não foi capaz de perdoar a ausência de gols.

Neste meio tempo, surgiram as críticas mais covardes, as direcionadas a sua origem argelina. Partidos de ultra-direita tentavam diminuí-lo e pediam sua expulsão da seleção. O fato de não cantar o hino nacional incomodava também. Não bastasse a falta de gols, havia a xenofobia em cima.

A seca, aliás, foi tenebrosa. Lembram dos dois gols contra a Estônia, ainda antes da Euro? O gol seguinte seria marcado quase 500 dias depois, 16 jogos seguintes, na goleada por 6 a 0 sobre a Austrália, em outubro de 2013.

Afirmação para 2014

Passada a decepção da Eurocopa de 2012, chegava o ciclo para a Copa do Mundo de 2014, no Brasil. A novidade era a presença de Didier Deschamps como treinador. Campeão do mundo em 1998 como jogador, DD já possuía uma sólida carreira na casamata nos comandos de Monaco, Juventus e Marseille.

A França seria o ápice de seu período como treinador, e logo o disciplinador Deschamps sabia que precisaria ter como ponto chave a recuperação de Benzema. Na época em que o madridista sofria sem gols, Olivier Giroud explodia no Montpellier e seguia para a Premier League, trilhando os campos ingleses com a camisa do Arsenal. Nem por isso abriu mão de Benzema.

Medida acertada. A França seguiu para a Copa e no jogo em que mais era preciso de Benzema, ele apareceu.

Na repescagem, após perder para a Ucrânia na ida por 2 a 0, um turbilhão de emoções cercava o jogo de volta no Stade de France. A França estava entre o medo de ficar fora da Copa do Mundo e o temor de conseguir a vaga como em 2010, diante da Irlanda, com uma mãozinha de Henry.

Antes dos 25 minutos, o zagueiro Mamadou Sakho colocou a França em vantagem. A primeira palhinha de Benzema veio aos 29. Em retomada de bola no setor ofensivo, Ribéry cruzou fechado da esquerda e encontrou o camisa 10, quase embaixo da trave, para marcar. Mesmo em posição legal, a jogada foi invalidada.

Se foi por peso na consciência ou pura incapacidade não sabemos, mas minutos depois, em impedimento flagrante, Benzema fez o gol que explodiu o Stade de France. O 2 a 0 forçava a prorrogação, mas, naquele momento, todos lá dentro sabiam: a classificação viria – e veio na etapa final, novamente com Sakho.

Passados os apuros das eliminatórias e da repescagem, veio uma Copa do Mundo que não foi exitosa, mas que ajudou a recuperar o caráter competitivo perdido em torneios anteriores. Benzema, zerado em gols nas duas Euros que disputou, deixou o Brasil com três tentos – e só não fez mais, assim como não foi mais longe que as quartas-de-final, por causa de uma defesa surreal de Manuel Neuer, da Alemanha.

Sextape e os capítulos finais

Se 2014 foi o torneio para a retomada da autoestima, 2016 seria o momento da afirmação francesa. Anfitriã da Eurocopa daquele ano, os Bleus teriam um Benzema cada vez mais amadurecido ao lado dos ótimos Antoine Griezmann e Paul Pogba, cada vez mais ambientados ao cenário internacional.

Tudo corria muito tranquilamente, sem grandes percalços, apenas no aguardo dos jogos da Eurocopa. Eis que vem a tona o escândalo que pôs capítulos finais a passagem de Benzema pela seleção francesa.

Em junho de 2015, conta Le Figaro, Mathieu Valbuena, na época concentrado com a seleção francesa para amistosos contra Bélgica e Alemanha, recebe um telefonema de alguém que dizia ter um vídeo íntimo do atleta com a namorada. Para não divulgar o vídeo, a pessoa pedia 100 mil euros.

O atleta, na época no Lyon, apresentou queixa à polícia e as negociações com os chantagistas passaram a ser feitas por um agente da polícia que se fazia passar por Valbuena.

No fim de outubro, a história ganhou outros contornos e jogadores começaram a abordar Valbuena sobre o vídeo. Benzema teria, inclusive, incentivado a pagar o resgate. A bomba explodiu quando Djibril Cissé foi detido por ter abordado o atleta. Ele foi liberado no mesmo dia quando disse que conversou com o meia-atacante na condição de amigo.

No fim de outubro, o jornal La Provence revelou que um homem chamado Axel Angot, próximo de vários jogadores franceses, estaria no centro da extorsão. Ele teria confirmado que o vídeo chegou até ele por um outro atleta e que, com a ajuda de outra pessoa, tinha decidido contatá-lo para extorquir 150 mil euros.

Chegava novembro e o caso se desdobrava. Uma pessoa que seria próxima de um dos irmãos de Benzema foi detida. Essa proximidade com os suspeitos, juntamente com a conversa entre os dois atletas em outubro, fez com que a polícia detivesse o madridista sob a suspeita de que tivesse tentado convencer Valbuena a pagar ao chantagista, o que faria dele cúmplice.

Benzema chegou a ser detido em 2015 | Foto: AFP

Desde então, o caso vem se arrastando. Na justiça, Benzema chegou a ver seu primeiro recurso ser rejeitado pela justiça francesa, mas em julho deste ano, o Supremo Tribunal de França concedeu razão ao madridista na sua luta contra a atuação da polícia durante o processo de investigação. Foi determinado que a investigação é ilegítima, mas a defesa do atacante continua com a briga para que o caso seja arquivado.

Se a justiça ainda não decidiu que rumo dar a essa história, dentro das quatro linhas o caminho parece bem traçado. Benzema, que foi suspenso, mas depois liberado a vestir a camisa da seleção francesa, não joga pelos Bleus desde outubro de 2015, na goleada por 4 a 0 sobre a Armênia. Curiosamente, fez dois gols naquela noite, provavelmente, os últimos dois com a camisa azul.

Com a renovação de Deschamps até 2020, difícil crer que volte a ser convocado, encerrando seu ciclo com 81 jogos e 27 gols (nono maior da história). O pior disso tudo é observar que, em tão pouco tempo, um dos atacantes franceses mais bem-sucedidos da história recente tenha conseguido ter uma passagem tão tumultuada pela seleção. A França merecia mais… Benzema merecia também. Nessa queda de braço, todos perdem.

Le Podcast du Foot #68 | A reconstrução do Monaco

#68Le Podcast du Foot está chegando a sua edição #68 e, nela, nossos debatedores falaram sobre o processo de reconstrução do Monaco. Após uma temporada 2016/17 brilhante, levando o título francês e chegando a uma impensável semifinal de Liga dos Campeões da Europa, a equipe monegasca passou por drásticas mudanças no elenco. Kyllian Mbappé, Bernardo Silva, Tiemoué Bakayoko e Benjamin Mendy foram apenas alguns dos que deixaram o clube após desempenho de altíssimo nível.

Na nova temporada, apesar de estar na segunda colocação no Campeonato Francês, as atuações ainda não estão em patamar semelhante ao do ano anterior, e o técnico Leonardo Jardim vem precisando encontrar novas soluções entre os reforços e atletas que ficaram.

Participaram do podcast o jornalista Eduardo Madeira, editor do Europa Football; Renato Gomes; e Simon Balacheff, correspondente do Lucarné Opposée no Brasil.

Dê play abaixo e escute a edição #68 de Le Podcast du Foot:

400 vezes Hilton

Hilton é o brasileiro com mais jogos na história do Campeonato Francês | Foto: Divulgação/MHSC

Ao pisar no gramado do Estádio de La Mosson na tarde do último sábado (4), no empate por 1 a 1 entre Montpellier e Amiens, Vitorino Hilton entrou para a história. Aos 40 anos, o zagueiro chegou a expressiva marca de 400 jogos na carreira no Campeonato Francês. Entre todos os brasileiros que já disputaram o torneio, ninguém tem mais aparições do que ele.

Desconhecido no Brasil, o brasiliense, de 40 anos – jogador mais velho da atual temporada da Ligue 1 – tem carreira sólida na França. Filho de mãe costureira e pai trabalhador de construção, Hilton passou pela base da Chapecoense, mas se profissionalizou pelo Paraná Clube, antes de passar três anos no Servette, da Suíça, entre 2001 e 2004. Por lá, trabalhou com o técnico Lucien Favre, hoje no Nice, e participou da melhor campanha europeia do clube, parando nas oitavas-de-final da Copa da Uefa de 2002.

Desembarcou em terras gaulesas na temporada 2003/04, quando tinha 25 anos, para defender o Bastia. A passagem, que seria apenas por empréstimo, ficou para a eternidade. Suas qualidades nas antecipações, recuperação de bola e visão de jogo chamaram a atenção no curto período em que ficou na Ilha de Córsega e, na temporada seguinte, foi contratado em definitivo pelo tradicionalíssimo Lens.

Lens foi o segundo clube de Hilton na França | Foto: Reprodução

A mudança de clube significava o primeiro dos saltos que daria dali em diante. Em 2004, enquanto o Bastia escapou do rebaixamento somente na última rodada, o Lens foi o 8º colocado e havia disputado a Liga dos Campeões na temporada anterior.

No Norte da França, foi titular por quatro temporadas e se tornou capitão rapidamente. Anos depois, em 2013, em entrevista ao Eurosport, disse ter vivido os melhores anos da carreira no clube e que, na França, não há torcida mais apaixonada que a do Lens. “Meu único arrependimento foi não ter ganhado nada no clube”, admitiu.

O destaque foi tanto que entrou na seleção da temporada 2007/08, elaborada pela União Nacional dos Futebolistas Profissionais (UNFP), mesmo tendo sido o ano em que o clube Sangue e Ouro foi rebaixado para a segunda divisão.

Com a queda, abriu-se caminho para o Olympique de Marseille, de Didier Deschamps, e logo Hilton foi contratado por um dos mais tradicionais clubes franceses – o único do país a conquistar a Liga dos Campeões.

No OM, a primeira temporada foi brilhante. Participou de 36 dos 38 jogos do campeonato, e novamente foi colocado na seleção da temporada da UNFP. Em 2009/10, sem ter a mesma regularidade de antes, foi campeão francês e da Copa da Liga pelo Marseille, quebrando uma seca de quase 20 anos sem qualquer título.

No OM, Hilton foi campeão francês | Foto: Divulgação/OM.net

Porém, a saída do OM foi turbulenta. Assaltantes invadiram a residência do atleta, o agrediram e apontaram uma arma para sua cabeça diante dos próprios filhos. Após escapar desse episódio que poderia ter consequências ainda piores, o reflexo parecia único: sair do clube.

Foi aí que surgiu o Montpellier na vida de Hilton, em 2010/11. No ano seguinte, formando uma sólida dupla de zaga com o jovem Mapou Yanga-Mbiwa, conquistou o inédito título nacional, batendo o já milionário Paris Saint-Germain. Na mesma temporada, novamente foi lembrado na seleção da temporada da UNFP.

Considerado um profissional exemplar, dentro e fora de campo, Vito é capitão do time desde 2012, quando Mbiwa deixou o clube para se aventurar no futebol inglês. Desde então, tem sido líder e extremamente regular. Apenas na temporada passada fez menos de 30 jogos – ficou perto, 27.

Até o fim do campeonato, Hilton deve quebrar recordes de outros jogadores históricos como, por exemplo, Ludovic Giuly (401 jogos), Jean Tigana (411) e Dominique Rocheteau (417).

Hoje, sem dúvida alguma, é idolatrado pelo torcedor. Um exemplo foi relatado pela RFI Brasil, em maio deste ano. “Ao final do apito da partida em que o Montpellier perdeu de 2 a 0 para o Paris Saint-Germain, pela 34ª rodada do Campeonato Francês, Hilton chamou seus companheiros para agradecer a presença de um grupo pequeno de torcedores acomodados na lateral do estádio Parc des Princes reservada à torcida adversária. Apenas um jogador seguiu o gesto elegante do capitão da equipe. ‘Essa é a imagem que um jogador tem que deixar aos seus torcedores. Eles fazem um esforço de viajar até Paris, e o mínimo que devemos fazer é agradecer a presença deles’, explicou na entrevista na saída do estádio”.

Aos 40 anos, Vito é idolatrado no Montpellier | Foto: MHSC

Na mesma entrevista, Hilton foi sincero e revelou que não pretende voltar ao Brasil, pois está estabelecido na França e que retornar ao país onde nasceu seria reiniciar uma vida. “Espero encerrar minha carreira no Montpellier”, confessou.

Quando isso acontecer, a tendência é continuar no clube. Em mais uma oportunidade, o brasileiro manifestou a intenção de trabalhar na formação de novos atletas, mas, à rede de televisão francesa TF1, Hilton revelou que, mais adiante pode ser até treinador no MHSC.

Com 1,80m, Hilton é um gigante. A história que construiu, aliás, é gigante. Se adaptou rápido a França, cresceu no meio da paixão sangue e dourada do Lens, saiu da fila com o Marseille e calou muitas boca$ no Montpellier. Merece respeito e admiração por ser um dos zagueiros mais regulares do século XXI no futebol francês. Bicampeão, quatro vezes entre os melhores do país. Podemos repetir isso 400 vezes para valorizar um dos grandes brasileiros que trilhou os gramados gauleses.

Deschamps 2020: Os reflexos da renovação de contrato

O que vinha sendo especulado há algumas semanas se concretizou na terça-feira (31): Didier Deschamps renovou contrato com a Federação Francesa de Futebol (FFF) e treinará a seleção nacional até 2020.

Até lá, DD, que assumiu a equipe em 2012, concluirá o ciclo da Copa do Mundo do próximo ano e terá mais uma Eurocopa pela frente. O desafio será conquistar feitos relevantes a frente de uma das mais talentosas gerações do futebol mundial, recolocando a França no hall das grandes seleções do planeta.

Essa renovação traz à tona diversos reflexos, negativos e positivos, e que devem ser contrabalanceados na hora de uma análise mais precisa sobre o benefício da escolha da FFF por manter DD por mais anos.

Negativamente, a conclusão é quase unânime: a pequena margem de progressão em qualidade de jogo. Deschamps tem em suas mãos uma vasta lista de atletas de grande talento, como Kyllian Mbappé, Antoine Griezmann, Paul Pogba, Thomas Lemar e outros tantos que compõem o elenco atual – fora os que sequer são lembrados. É gente suficiente para montar uma equipe capaz de fazer frente a qualquer seleção do mundo, apresentando futebol de ótimo nível.

O que tem sido visto dentro de campo, entretanto, está longe disso. Até mesmo na Eurocopa, onde foi vice-campeã, perdendo a final em casa para Portugal, os franceses estiveram longe de convencer. Tirando a excelente exibição na semifinal, diante da Alemanha, foram poucas aparições convincentes.

Iniciou-se o ciclo mundial, mas mesmo com o acréscimo de outros nomes talentosos, como Mbappé, o progresso foi mínimo. Apesar de ter garantido presença na Copa da Rússia sem grandes sustos – sete vitórias, dois empates e uma derrota – alguns dados chamaram a atenção, como ter o 15º ataque da qualificação europeia com 18 gols.

O site da UEFA aponta ainda que a França finalizou 180 vezes durante toda a competição, o que lhe dá média de um gol a cada dez chutes. Como exemplo de comparação, Bélgica e Alemanha, que tiveram os melhores ataques, precisavam de menos de cinco arremates (43 gols em 214 chutes e 43 em 209, respectivamente).

O contrastante é ver que os Bleus tiveram a sétima média de finalizações entre todas as seleções europeias. Muito chute e pouco aproveitamento.

Além do desempenho dentro de campo, Deschamps possui ainda os seus “soldadinhos”, expressão que o colega Renato Gomes gosta de usar nas edições de Le Podcast du Foot. Moussa Sissoko, Blaise Matuidi, Kingsley Coman são alguns dos exemplos de atletas que, invariavelmente, aparecem no time titular em momentos importantes, onde outros poderiam estar entre os titulares.

Deschamps deverá continuar fora da seleção | Foto: AFP

Nessa mesma linha, surge o caso de Karim Benzema. Seu último jogo pela seleção francesa foi em 8 de outubro de 2015. Desde então, esteve envolvido na polêmica do sex tape de Mathieu Valbuena, foi afastado e, de certa forma, perdoado pela FFF. Não por Deschamps.

Prestes a completar 30 anos, podemos cravar que aquela goleada por 4 a 0 sobre a Albânia, há dois anos, ficará registrada na história como sua última aparição pela seleção francesa.

Um fim trágico de um dos melhores atacantes que surgiu na França desde Thierry Henry. Habilidade, inteligência e faro de gol desperdiçados por polêmicas extracampo. E falo “polêmicas” mesmo, no plural.

Para refrescar a memória, vale lembrar que Benzema sempre foi alvo de críticas, especialmente de pessoas ligadas a extrema-direita francesa, por sua origem argelina, o que lhe tornaria “menos francês”, e também por não cantar a tão exaltada Marselhesa, o hino nacional.

Seus problemas também estiveram relacionados a relação com o técnico Raymond Domenech, que lhe deu a primeira chance nos Bleus em março de 2007. Em 2010, Benzema, na época se adaptando ao Real Madrid, sequer ficou na lista de 30 jogadores pré-convocados para a Copa do Mundo.

Um curto período antes, o atacante esteve envolvido em um escândalo sexual com uma prostituta menor de idade – importante frisar que a prostituição é legalizada na França, mas as prostitutas precisam ser maiores de idade. Além dele, Franck Ribéry também estava nesse imbróglio judicial – que resultou na absolvição da dupla.

Em menos de dez anos de serviços prestados à seleção, Benzema acumulou um histórico de polêmicas maior do que de boas atuações dentro de campo – 27 gols em 81 jogos, Olivier Giroud, por exemplo, já têm 28 tentos em 68 aparições.

Pontos positivos

Próximo desafio de DD será a Copa de 2018 | Foto: Guillaume Bigot

Sim, amigos, há pontos positivos na renovação de Deschamps. O principal deles, a meu ver, é a questão da recuperação do respeito internacional. Vamos lembrar que de 2008 a 2012, a seleção francesa emendou uma série de vexames, todos por causa de problemas extracampo que refletiram no desempenho coletivo, tendo como ápice a greve comandada por Nicolas Anelka, Patrice Evra e cia ltda. na Copa do Mundo de 2010, onde os Bleus foram eliminados na fase de grupos.

Desde que assumiu o comando da equipe, após a saída de Laurent Blanc depois da decepcionante participação na Eurocopa de 2012, DD tratou de afastar problemas alheios as quatro linhas. Não só Benzema não voltou mais depois da polêmica com Valbuena, mas Samir Nasri, outro menino-problema, foi descartado sumariamente pelo treinador. Evra só retornou depois de muito tempo e de uma enquadrada do comandante.

Essa nova linha de trabalho fez com que a França passasse sem sustos ou turbulências pela Copa do Mundo de 2014 e pela Euro de 2016. Claro que controlando os ânimos dos atletas, é hora de cobrar resposta do conjunto armado pelo treinador dentro de campo.

Mas, mais do que a disciplina imposta e o afastamento de crises extracampo, vale a indagação: suponhamos que Deschamps seja demitido agora, quem assumiria? Vamos sempre nos lembrar que o futebol de seleções é um tabu para grandes técnicos, já que o dia-a-dia dos clubes, as repetições, os treinamentos constantes com os mesmos atletas, são substituídos por encontros esporádicos e em épocas que lhe impossibilitam de tratar o time com a intensidade que possa entender necessário.

Quem toparia essa bucha?

Zinedine Zidane? Será mesmo que Zizou deixaria o futebol de clubes, e arriscaria seu status obtido dentro de campo comandando agora a seleção?

Arsène Wenger? Seria um prêmio a sua brilhante carreira na Inglaterra, mas, aos 68 anos, teria interesse em assumir a França?

E um estrangeiro? Duvido muito que a FFF possa fazer essa escolha.

A decisão de renovar com Deschamps, antes mesmo de saber o que acontecerá no Mundial, pode ser controversa, mas a federação não deixa de ter seus argumentos para fazer isso. O problema é o contexto diferente. DD pegou uma seleção em frangalhos, com a moral afundada nas catacumbas do Stade de France e com uma série de perguntas na cabeça. Hoje, com o surgimento de jogadores talentosíssimos e o status de favoritismo para 2018, na Rússia, fica o questionamento de suas capacidades para levar esse time a um lugar maior.