Le Podcast du Foot #71 | 2º turno vem aí!

Após algumas semanas de pausa, o Campeonato Francês retorna com carga total a partir da próxima sexta-feira (12), com a abertura do 2º turno.

A expectativa fica para os mortais, podemos dizer assim. O poderosíssimo Paris Saint-Germain, de Neymar, Kyllian Mbappé e Edinson Cavani, é líder, com 50 pontos, e com 16 vitórias em 19 rodadas, dificilmente perderá o título.

Restam as brigas entre Monaco, Lyon e Marseille pelas vagas nas copas europeias, com a zebra Nantes, de Claudio Ranieri, correndo por fora. Além disso, fica a expectativa por Saint-Étienne, Bordeaux e Lille, equipes com nível de investimento alto para os padrões franceses, mas que estão na parte baixa da tabela.

As projeções do 2º turno estiveram em debate no Le Podcast du Foot #71. Eduardo Madeira, Filipe Papini e Renato Gomes participaram do programa, que analisou o campeonato até agora e imaginou as próximas rodadas da competição.

Ouça abaixo o programa completo:

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No fogo cruzado de Israel

Entre as centenas de milhares de rivalidades ocultas que existem mundo afora, reside em Israel uma das mais explosivas e controversas. Bnei Sakhnin e Beitar Jerusalem não são exatamente rivais, tampouco são comparáveis em tamanho dentro do país, mas são clubes fundamentalmente opostos em suas concepções.

O Bnei Sakhnin, da cidade árabe-israelense de Sakhnin, na Baixa Galileia, é um clube mais novo e menos vitorioso. Fundado em 1991 após a fusão do Maccabi Sakhnin e o Hapoel Sakhnin, o Bnei nunca venceu o Campeonato Israelense, mas, em 2004, se tornou o primeiro time de uma cidade árabe a ganhar a Copa de Israel e representar o país na então Copa da Uefa.

O Beitar, porém, tem história contrária. Fundado em 1936, a equipe de Jerusalem acumula seis títulos nacionais, além de ter disputado torneios europeus com alguma frequência a partir dos anos 90. Entretanto, é fora de campo que as diferenças com o Bnei Sakhnin, e especialmente com os árabes, são explicitadas.

O clube foi fundado lado a lado com a direita israelense e “La Familia”, principal grupo Ultra do clube, é reconhecidamente racista, anti-árabes e defende a “pureza” do Beitar.

O episódio simbólico dessa face perversa envolveu Gabriel Kadiev e Zaur Sadaev, dois jogadores chechenos. Para não me estender nisso, deixo dois materiais que resumem bem: o primeiro é uma reportagem “O gol que revelou a faceta racista do futebol”, feita pela BBC; e a outra é um vídeo do “Casual Football”, contando mais da história do clube.

E no meio disso tudo, há um brasileiro – sempre um brasileiro. Falo especificamente de George Minatto, o Georginho. Natural de Araranguá, no Sul de Santa Catarina, foi revelado pelo Criciúma no fim da década passada, antes de começar a trilhar pelo planeta e parar em Israel em 2015.

Passou duas temporadas no Bnei Sakhnin, onde fez história. Titular e astro do time, o meia atacante colocou a equipe duas vezes na fase final do Campeonato Israelense – apesar de não ter conseguido a vaga na Liga Europa. O destaque foi tanto que parou exatamente no… Beitar Jerusalem.

Em entrevista exclusiva ao Europa Football, Georginho revelou que houve certa revolta da torcida do Bnei e que chegaram a chamar-lhe de “traidor”. Apesar da rivalidade constatada pelo brasileiro, ainda assim, disse ter sido muito bem recebido pela torcida do Beitar.

Georginho defendeu o Bnei Sakhnin por duas temporadas | Foto: Divulgação

E em meio a essa notória rivalidade, vem o objetivo de recolocar o clube de Jerusalem no topo de Israel, o que não acontece há dez temporadas. “A torcida está faminta pelo título”, resumiu.

Se isso acontecer, uma outra meta de Georginho poderá ser concretizada: a naturalização para defender a seleção israelense.

No bate-papo que tive com o atleta do Beitar Jerusalem, falamos bastante da chance de vestir a camisa de Israel, a rivalidade Bnei e Beitar, a temporada israelense e também da vida no país. Confira mais:

Europa Football: Seu caminho em Israel é, no mínimo, curioso. O Bnei Sakhnin é o único clube que representa a comunidade árabe, enquanto o Beitar Jerusalem tem torcida historicamente conhecida por não aceitar árabes, ter atitudes racistas e se considerar um “clube puro”. Você, um brasileiro, como se encontrou no meio dessa confusão?

Georginho: Realmente, existe essa rivalidade pela religião entre os times, mas desde que cheguei ao Beitar, sempre fui muito bem recebido pelo clube, pela torcida e nunca tive nenhum problema pelo fato de ter passado pelo Sakhnin.

O principal rival do Bnei Sakhin é exatamente o Beitar Jerusalem. Como foi essa troca? E as torcidas, como lidaram com isso?

A torcida do Sakhnin ficou revoltada, me chamaram até de traidor. Mas a do Beitar me recebeu de braços abertos.

Deixando a rivalidade de lado, fale mais do Bnei Sakhnin. Como foi jogar lá, já que é um clube que não é dos mais tradicionais do país?

Foi uma experiência muito diferente porque a cultura é árabe. É um time que eu tenho muito respeito. Eles abriram as portas para mim em Israel.

A chegada ao Beitar foi nesta temporada | Foto: Divulgação/Beitar Jerusalem

Nesta temporada, chegasse ao Beitar Jerusalem, que diferentemente do Bnei Sakhnin, é um time mais tradicional. O que sentisse de diferença?

Beitar é um time muito maior. Comparando com o Brasil, é o Corinthians daqui. Tem muito mais cobrança pela parte do clube e da torcida.

A torcida do Beitar não tem uma ficha das mais positivas. Mas gostaria de saber a tua visão, do que já presenciasse e como é a participação deles no dia-a-dia do clube.

É uma torcida que cobra muito, querem sempre que o time ganhe de goleada, eles participam do dia-a-dia do clube, vão nos treinos. A parte boa é que quando o time está indo bem, eles são nosso 12º jogador e tem uma força muito grande para impulsionar o time a conseguir os objetivos.

O Beitar Jerusalem não ganha o campeonato nacional há dez temporadas. No momento, está em 3º, com 33 pontos, três atrás do líder, o Hapoel Beer Sheva. Como é essa cobrança dentro do clube?

É a maior cobrança! A torcida está faminta pelo título. Esse ano, o time está forte e estamos brigando ponto a ponto pela primeira colocação.

O Beitar não foi longe na Liga Europa, caiu na segunda fase para o Botev Plovdiv, da Bulgária. O que faltou para o time?

O time estava se conhecendo ainda e jogo de mata-mata não pode vacilar. Infelizmente, perdemos a chance da ir adiante na Liga Europa.

No seu time, estão dois atletas bem experientes: Yossi Benayoun, ex-Chelsea e Liverpool, e Itay Shechter, que jogou na Bundesliga e Premier League. Como é jogar com esses caras?

O Benayoun é o esportista mais conhecido de Israel e Shechter é nosso capitão. Os dois tem uma influência muito grande dentro do time. É um grande privilégio dividir vestiário com esses dois jogadores.

Com seu sucesso aí, fica inevitável perguntar: pensa em se naturalizar para defender a seleção de Israel?

Sim. Pelo fato da concorrência na seleção brasileira ser muito maior, quase impossível, essa ideia já passou pela minha cabeça. Mas é uma ideia que estou estudando e é um sonho, sim, conseguir o passaporte e defender a seleção israelense.

Perguntando mais sobre a cultura local, o que sentisse de diferença em Israel?

A língua é o maior obstáculo, pois nem todos falam inglês, e o hebraico, que é a língua oficial, é muito difícil. A mistura das religiões também é muito diferente do Brasil.

De que forma esses conflitos que o país vive envolvido afetam no teu dia-a-dia? Há um clima de insegurança em Israel?

Não. A imagem que é passada para o Brasil é totalmente diferente. Aqui é um país muito seguro, a inteligência e o exército de Israel são dos melhores do mundo e eu e minha família nos sentimos mais seguros aqui do que no Brasil.

O adeus de um subestimado

Cheyrou fez mais de 300 jogos pelo Marseille | Foto: OM.net

Fim da linha para Benoît Cheyrou. Aos 36 anos, o meio-campista com passagens por Lille, Auxerre e Olympique de Marseille pendurou as chuteiras por cima, como campeão da Major League Soccer, o campeonato norte-americano, com o Toronto FC.

Clássico meio-campista, daqueles que os saudosistas se acostumaram a ver e admirar, podemos dizer que Cheyrou deixa a carreira com fama de subestimado. Inteligente, dotado de ótima técnica e potente finalização e, acima de tudo, vitorioso, dificilmente ele estará nas grandes lembranças futebolísticas, principalmente por não ter se estabelecido em nível internacional.

Parte disso se deve as poucas lembranças na seleção francesa. Apesar da consistente carreira em clubes, nos Bleus foi poucas vezes lembrado. Cheyrou defendeu o time nas categorias sub-18 (conquistou a Eurocopa em 2000, no mesmo time de Philippe Mexès e Djibril Cissé) e sub-20, mas despediu-se das quatro linhas sem uma partida sequer pela equipe principal.

Explicações são difíceis de encontrar. A partir de 2007, ano em que chegou ao Marseille, Cheyrou atingiu grande nível técnico, se notabilizando como um meio-campista defensivo capaz de quebrar linhas através de passes longos e aproximação na grande área para criar jogadas. Entre 2008 e 2010, esteve no time do ano na UNFP (em tradução, a União dos Jogadores Nacionais de Futebol) e se tornou um dos grandes jogadores do país. Isso foi insuficiente para convencer os técnicos dos Bleus a convoca-los.

O contestadíssimo Raymond Domenech foi o único a convoca-lo em 2010, mas sem colocá-lo em campo, preferindo em seu período como treinador nomes como, por exemplo, Alou Diarra, Lass Diarra, no já envelhecido Claude Makélélé e Mathieu Flamini. Passaram ainda pelo comando técnico Laurent Blanc e Didier Deschamps – o atual treinador – e nada de Cheyrou ser lembrado.

Pode ser que ele nunca pudesse ser um fator desequilibrante na França da última década, alguém capaz de trazer um título de peso que não vem desde a Euro 2000, mas fica uma lacuna em sua carreira.

Cheyrou, que atuou profissionalmente desde 1999, conseguiu ter trajetória mais vitoriosa até que a do irmão, Bruno Cheyrou (que, curiosamente, fez três jogos pela seleção francesa) e foi símbolo de um Marseille que saiu de uma seca de quase duas décadas sem títulos (apesar de uma saída conturbada em 2014). Inclusive, em votação popular, ficou num “time reserva” da história do clube quando completou 110 anos e chegou a ser eleito o melhor jogador da temporada do time em 2008/09 – quando perdeu a Ligue 1 para o Bordeaux.

Há quem desgoste da banalização da palavra “craque”, que prefira usar só em casos especiais. Penso que quem preza pelo respeito a profissão de jogador de futebol e consegue apresentar um “algo a mais”, capaz de nos prender por 90 minutos e acompanhar a um recital com a bola nos pés merece ser chamado assim. Por vezes subestimado e esquecido, mas craque e vitorioso. Assim Benoît Cheyrou pendura as chuteiras.

Carreira:

Lille (1999-2004) | 116 jogos e 3 gols

*Campeonato Francês – 2ª divisão | 1999/2000

Auxerre (2004-2007) | 131 jogos e 8 gols

*Copa da França | 2004/2005

Marseille (2007-2014) | 306 jogos e 28 gols

*Campeonato Francês | 2009/2010

*Copa da Liga | 2009/2010 e 2010/2011

*Supercopa da França | 2010 e 2011

Toronto [Canadá] (2015-2017) | 68 jogos e 5 gols

*Campeonato Canadense | 2016 e 2017

*Major League Soccer | 2017

Os esquecidos da Ligue 1

Nunca tantos holofotes bateram em cima da Ligue 1. A chegada de Neymar ao Paris Saint-Germain, somada ao acréscimo de Kyllian Mbappé, Daniel Alves e de toda áurea midiática trouxeram para a liga francesa um aspecto talvez nunca antes visto.

Somado ao milionário PSG, ainda surgiram outros tópicos interessantes, como o fracasso de Marcelo El Loco Bielsa no Lille – que foi abordado na edição #69 de Le Podcast du Foot – e o poderoso ataque do Lyon. Dá para dizer que temos uma das temporadas mais agitadas e interessantes dos últimos anos, reunindo uma série de atrativos para acompanharmos rodada após rodada da competição.

Porém, apesar de todas as câmeras e flashes na competição, há quem fique esquecido nesse cenário todo. O próprio milionário PSG tem Lucas Moura e Hatem Ben Arfa, que já estão ultra aquecidos no banco de reservas do clube. Há outros como Wesley Sneijder, Grenier… É tanta gente que me senti obrigado a levantar uma lista com alguns dos esquecidos da atual temporada francesa. Confiram:

Do Chelsea para o banco do Amiens

Esse é um dos raros registros de Nathan no Amiens | Foto: Divulgação/Amiens

O meia Nathan é mais um daqueles clássicos casos de atletas que escolhem o Chelsea para jogar na Europa e passam a rodar pelo Velho Continente, sempre por empréstimo, e vão vendo a carreira ruir. Elogiadíssimo no Atlético-PR e com passagens por seleções de base, tinha um grande futuro. Hoje, aos 21 anos, amarga a reserva no Amiens. O meia acumula apenas 161 minutos na temporada, somente nove no Campeonato Francês – na 6ª rodada, na derrota por 2 a 0 diante do Marseille, em 17 de setembro.

Sem prestígio

Contento deve ser negociado nesta janela | Foto: Divulgação/Bordeaux

A situação de Diego Contento no Bordeaux mudou drasticamente de uma temporada para outra. Se em 2016/17 o ítalo-alemão era titular nos Girondins, agora ele sequer entrou em campo na Ligue 1. Suas únicas aparições foram em jogos da Liga Europa. Sem prestígio com o técnico Jocelyn Gourvennec, o lateral-esquerdo, de passagem vitoriosa pelo Bayern, deverá deixar o clube na janela de inverno.

Persona non grata

Grenier é sombra do que já foi | Foto: Divulgação/OL

Depois de três temporadas mágicas pelo Lyon, onde se notabilizou como um meia clássico e de ótima pegada na bola – o que ocasionou as inevitáveis comparações com Juninho Pernambucano no quesito cobrança de faltasClément Grenier virou persona non grata dentro do clube. Derrubado por gravíssimas lesões (que o tiraram da Copa do Mundo de 2014) e problemas extracampo, o meia, que tem contrato até junho de 2018, atuou por apenas quatro minutos na Ligue 1 e está fora dos planos do técnico Bruno Genesio. A tendência é que deixe o clube no meio da temporada.

Dupla de ferro

Atuações ruins e concorrentes como Rami e Abdennour tiraram o espaço de Dória | Foto: Divulgação/OM

Mesmo sem o poderio financeiro do Paris Saint-Germain, o Olympique de Marseille conseguiu investir bastante nessa temporada, fazendo com que alguns nomes calejados sumissem do mapa. Um deles é o do zagueiro brasileiro Dória. Após as chegadas de Aymen Abdennour e Adil Rami, passou a atuar pouco e, atualmente, acumula apenas 85 minutos jogados na temporada e míseros três jogos na Ligue 1. Ele ficou marcado pela catastrófica atuação na goleada sofrida diante do Monaco, por 6 a 1, onde recebeu nota 1 do jornal L’Equipe. O site 10 Sport informa que o Saint-Étienne poderia ser o destino do atleta pouco aproveitado por Rudi Garcia.

Quem vive situação pior é Rod Fanni. O defensor de 34 anos, com passagens pela seleção francesa e uma história de sucesso dentro do próprio Marseille, simplesmente não entrou em campo na atual temporada. O atleta se diz bem fisicamente e tenta encerrar seu contrato com o OM para seguir com a carreira em outro clube.

Na reserva do lanterna

Zagueiro alemão sequer jogou na Ligue 1 | Foto: Divulgação/FC Metz

A terrível campanha do Metz, com míseros 11 pontos em 19 rodadas, só não é mais estranha que a situação do zagueiro alemão Philipp Wollscheid. Com passagens até pela seleção nacional, ele fez apenas uma partida pelo clube grená, e foi pela Copa da Liga. Matéria do Le Républicain Lorrain aponta que o defensor vive péssima fase física, chegando a jogar no time amador do Metz, onde também encontrou dificuldades para mostrar bom nível. Como diz a mesma reportagem, é um mistério a situação de Wollscheid no clube.

Flop rubro-negro?

Sneijder voltou a sofrer com as lesões | Foto: Divulgação/Nice

Uma das principais apostas do Nice na temporada, o holandês Wesley Sneijder foi recepcionado com muita festa do torcedor. Dentro de campo, porém, a resposta não foi em nível igual. Ausente desde a 13ª rodada da Ligue 1, o meia de 33 anos vem sofrendo com a forma física e está fora de combate há um mês devido a um problema muscular. Somando todas as competições, fez oito jogos e deu apenas uma assistência.

Trinca milionária

Lucas e Trapp são reservas de luxo do PSG | Foto: Reprodução

No recheado e milionário elenco do Paris Saint-Germain, um reflexo claro é na sobra para o banco de reservas. Três casos claros são os de Kevin Trapp, Lucas Moura e Hatem Ben Arfa.

O goleiro alemão, que se revezou na titularidade com Alphonse Areola na temporada passada, não tem mais o mesmo espaço com o técnico Unai Emery e atuou por apenas três jogos – dois no campeonato e outro na Copa da Liga. Às vésperas da Copa do Mundo, a tendência é que busque novos ares para ser um dos escolhidos do técnico Jöachim Löw.

Já Lucas, que outrora almejava vaga na seleção brasileira, entrou em campo apenas seis vezes na temporada. Ao todo, acumula 79 minutos e é um dos alvos mais cobiçados do clube parisiense.

Só que mais esquecido que os dois está Hatem Ben Arfa. Num momento de devaneio, ele imaginou que poderia ter espaço entre os titulares, mesmo com o rendimento baixo e as públicas declarações de que não jogaria, e ficou no clube. Sequer entrou em campo e dificilmente seguirá em Paris na segunda metade da temporada.

Sobre as peças descartáveis do PSG, falei mais disso em agosto aqui no Europa Football.

E aí? Entre os esquecidos na Ligue 1, esqueci de mais alguém (com o perdão da redundância)? Deixe sua lembrança na caixa de comentários.

Tecnologia da discórdia

Talvez até mais atrasado que outros esportes, o futebol, enfim, começou a entrar na era tecnológica. Árbitros de vídeo, sistemas de linha de gol e outras tantas parafernalhas estão sendo introduzidas na modalidade para minimizar erros de arbitragem e tornar os resultados das partidas mais justos.

Só que na França, ao invés de solucionar esses problemas, a tecnologia da linha do gol, da empresa Goal Control, vem causando dores de cabeça e provocando mais incômodos em todos os envolvidos no Campeonato Francês, sejam times ou cartolas.

O ápice do incômodo foi no último sábado (16). Troyes e Amiens empatavam por 0 a 0, quando os azuis abriram o placar em cabeçada de Suk Hyun-jun, onde a bola acertou o travessão e o caiu rente à linha do gol.

Com relativa demora, o relógio do árbitro François Letexier confirmou o tento. Depois de muita reclamação e mais de cinco minutos de paralisação, o gol foi anulado, causando bastante polêmica e colocando pontos de interrogação quanto ao funcionamento do serviço – a mim, pelo menos, não ficou claro se a repetição frisou a bola exatamente em cima da linha.

Menos mal para o Troyes, que ainda conseguiu vencer por 1 a 0 com um chorado gol na etapa final. Porém, para a Liga de Futebol Profissional (LFP) a dor de cabeça é imensa.

Se fosse o primeiro bug, ainda passaria, mas não é o caso. O L’Equipe levantou uma série de equívocos que foram registrados desde que a Ligue 1 adotou esta tecnologia. Entre as falhas, “mau funcionamento do sistema” e até mesmo confusão da cor da bola com o uniforme do goleiro

A preocupação se torna mais latente porque outra recente reportagem do L’Equipe, traz uma entrevista com uma antiga funcionária da GoalControl, que afirma com todas as letras que o sistema não é confiável e que ao tentar aprimora-lo, tornaram-no mais deficitário.

Na manhã desta terça-feira (19), houve uma reunião da LFP com a empresa GoalControl para manifestar a insatisfação com os erros. O grupo alegou erro tecnológico e humano e justificou que a frequência e a intensidade luminosa dos LEDs alteraram a operação das câmeras. O resultado foi que o relógio do árbitro estava com vibração errada.

Outro ponto destacado foi de que o técnico responsável pelo controle na van demorou vários minutos para verificar as imagens recebidas e informar o delegado da partida.

Hoje, não se sabe até quando durará a relação da LFP com a GoalControl. A empresa, que foi indicada e aprovada pela FIFA como forma de evitar o monopólio da Hawk-Eye – já presente na Alemanha, Inglaterra e Itália – vem sendo questionada cada vez mais e fornecendo um serviço que está mais atrapalhando do que ajudando os árbitros.

Uma coisa é certa: para 2018/19, a Ligue 1 provavelmente terá o tão conhecido VAR (Árbitro Assistente de Vídeo). A medida já foi aceita no país, falta apenas a canetada da International Football Association Board (IFAB).

Enquanto isso não chega, a LFP propôs uma série de ações corretivas, reportou as ocorrências a FIFA e deu um ultimato a GoalControl: se o sistema não for melhorado até o fim da temporada, o contrato com a empresa, que é válido até 2019, será rescindido. 

Os olhos de águia já estão em cima desse imbróglio.

Le Podcast du Foot #70 | Em busca de um lugar ao sol

Natural de Maceió (AL), Otávio foi aparecer para o mundo do futebol no Sul do Brasil. Foi vestindo a camisa do Atlético Paranaense que o volante cresceu na carreira e chamou a atenção do Bordeaux, que o contratou no início da temporada 2017/18.

Sem saber falar francês, tem se virado como pode, seja no curso de idiomas, seja com os funcionários do clube, com os brasileiros do elenco ou até mesmo com o tcheco Jaroslav Plasil, figura icônica do Bordeaux e que aprendeu falar português ao se casar com uma brasileira.

Na língua da bola, tem se entendido bem. Desde que chegou aos Girondins, vem sendo titular com alguma frequência e tem buscado evoluir o quanto pode. A ideia é seguir a linhagem de brasileiros bem-sucedidos do clube, casos de Fernando Menegazzo, Henrique, Wendel, Jussiê, Mariano e, atualmente, Malcom.

O volante de 23 anos foi personagem central da edição #70 de Le Podcast du Foot. Otávio conversou com Eduardo Madeira e Renato Gomes sobre a chegada ao Bordeaux e a primeira metade de temporada na França.

Dê play abaixo e escute o programa:

 

Sob as bênçãos de Karim

Aos 19 anos, Aouar é uma das peças de desequilíbrio do Lyon | Foto: S. Guiochon/Le Progres

É difícil citar quem seria o principal jogador formado nas consagradas academias do Lyon, mas o certo é que entre tantos nomes citados, o de Karim Benzema estaria nas cabeças, seja pela qualidade e pelo que entregou dentro de campo, seja pela bem-sucedida carreira já fora do clube. E é exatamente sob as bênçãos do franco-argelino que surge a nova joia bruta do clube: Houssem Aouar.

Assim como Karim, o meio-campista de 19 anos tem raízes na Argélia, mas, por ter nascido em Lyon (curiosamente, nasceu em meio a Copa do Mundo no país, em 1998), adotou a França como casa. Igualmente ao madridista, Aouar também foi lapidado no OL assim que chegou ao clube aos 11 anos de idade.

Desde então, queimou etapas, explodiu no sub-17 ainda abaixo da idade limite (aos 16 anos, fez 27 gols e deu 15 assistências em uma única temporada na categoria) e defendeu a equipe sub-19 sem nem ter 17 anos. O caminho natural era crescer cedo entre os profissionais, e é isso que estamos vendo de Aouar desde 2016/17.

“Eu gosto dele. Ele é técnico, tem boa visão e se bem trabalhado, pode ir longe”, disse Benzema no mês de março a RMC. E sob a bênção de Karim, começou a trajetória do meia.

Assim como em outros tantos casos da história recente do Lyon, Aouar ganhou espaço mediante a lacuna deixada por outros atletas mais tarimbados que não corresponderam. No caso dele, foi do holandês Memphis Depay, contratado por pomposos 25 milhões de euros, mas que viveu períodos de inconstância nos primeiros seis meses de França. Como Maxwell Cornet e Rachid Ghezzal não ofereciam a competitividade desejada, Aouar passou a garimpar espaço.

Já havia sido assim com Alexandre Lacazette tomando lugar de Jimmy Briand, com Maxime Gonalons ocupando brechas de Jean II Makoun e, mais recentemente, com Mouctar Diakhaby desbancando Nicolas N’Koulou. Depay, que chegou ao OL com status de estrela, se viu obrigado a jogar mais após ver a presença de um atrevido garoto de 19 anos.

Versatilidade como ponto forte

Aouar e seu fino trato com a bola | Foto: Instagram Oficial/Aouar

Aouar é o que muitos chamam de “falso lento”: parece caminhar em campo, estar desligado da partida, quando, na verdade, está atento 100% do tempo, possuindo uma agilidade e rapidez de pensamento impressionantes. A capacidade de leitura de jogo e movimentos também chamam a atenção no garoto de precoces 19 anos.

Observando esses predicados, o técnico Bruno Genesio já encontrou algumas fórmulas para encaixar Aouar no time titular, mesmo tendo um poderoso setor ofensivo com o já citado Depay, Mariano Diaz e Bertrand Traoré. Mediante a versatilidade do garoto, que tem o drible para abrir espaços pelo lado, mas possui o passe que quebra linhas, já o aproveitou na primeira faixa do meio-campo, ao lado de Tousart, em um 4-2-3-1.

Apesar de atuar também pelos lados (assim que começou a incomodar Depay), foi na função encontrada por Genesio que conseguiu ser mais influente para o time. Pode não ser um meio-campista rompedor, como era Corentin Tolisso, transferido do Lyon para o Bayern nesta temporada, mas é combativo, enxerga e preenche bem os espaços e possui passe de extrema qualidade, capaz de romper linhas adversárias. Curiosamente, sempre teve como referências o próprio Tolisso e Juninho Pernambucano, que jogavam exatamente naquela função.

Fora essas virtudes no passe, Aouar é um driblador nato. Somando esta qualidade ao raciocínio rápido e leitura de movimentos de adversários, ele se mostra capaz de fazer os mais ríspidos marcadores parecerem baratas tontas quando baterem de frente com ele.

Hoje, Aouar está no time ideal do Campeonato Francês do site WhoScored, especializado em estatísticas, com média de 7.6. Já o Squawka aponta que ele tem média de 85% passes certos, sendo que 57,5% são passes para frente. Fatalmente, será eleito a revelação da temporada na França e, com alguma sorte, poderá pintar na lista dos favoritos de Didier Deschamps para a Copa da Rússia – por que não?

Sorte a nossa de ver mais um talento puro que o Lyon apresenta para o mundo. Sob as bênçãos de Karim, será mais um que nos fará admirar ainda mais o bom futebol que une em um único jogador as maiores virtudes argelinas e francesas.