Le Podcast du Foot #67 | Rumo à Rússia (?)

Foto: Divulgação / FFF

Líder do Grupo A das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo, a França está perto do Mundial da Rússia, em 2018. Só que os últimos dois jogos deixaram uma pontinha de dúvida na cabeça do torcedor: afinal, qual o real poder de fogo dos Bleus?

Diante de uma desesperada Holanda, que precisava do resultado para se manter viva na luta pela vaga na Copa, o selecionado francês, do técnico Didier Deschamps, se sobressaiu e goleou por 4 a 0, mas diante da inexpressiva seleção de Luxemburgo, fraquejou e empatou sem gols.

O cenário francês após essas duas partidas foi debatido na edição #67 de Le Podcast du Foot. Eduardo Madeira conduziu o programa, que contou com as participações de Filipe Papini, do blog C’Est Le Foot, e Renato Gomes, do Centrocampismo.

Clique no player abaixo e ouça o programa!

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Elas por ela

Corinne Diacre assume a seleção feminina da França | Foto: Divulgação/Clermont

Corinne Diacre é uma legítima desbravadora na França. Zagueira de larga carreira no país, inclusive com mais de dez anos de serviços prestados a seleção nacional, ela decidiu ir além, enfrentou a resistência e os preconceitos machistas, tornou-se assistente, treinadora e assumiu o Clermont, time da segunda divisão, tornando-se a primeira mulher a treinar uma equipe masculina no país.

Curiosamente, Corinne assumiu a equipe da região de Auvergne em 2014, exatamente após o fracasso de uma negociação do clube com outra treinadora. A portuguesa Helena Costa chegou a ser apresentada como comandante do time, mas, subitamente, renunciou ao posto alegando problemas particulares – versão que não bateu com a do presidente Claude Michy e a empresária Sonia Souid, que intermediou a transferência.

A passagem pelo Clermont, que muitos consideravam apenas uma jogada de marketing, foi encerrada surpreendentemente nesta semana. Só que diferentemente do que aconteceu no caso de Helena, Corinne deixou o clube por uma ótima causa: após três anos, com 50 vitórias, 39 empates e 44 derrotas, ela foi contratada pela Federação Francesa de Futebol (FFF) e assumirá a seleção feminina.

Neste meio tempo, Corinne fez história no Clermont, não apenas por ter sido a primeira mulher a dar a cara a tapa na França e no machista mundo do futebol, mas por ter obtido reconhecimento na função. Logo na primeira temporada, em 2014/15, evitou o rebaixamento da equipe – o que era cotado desde o começo da competição – terminando em 12º, com 49 pontos. Na temporada seguinte, chegou a sonhar com o acesso, terminando em 7º lugar, a sete pontos da zona de classificação, isso tendo o menor orçamento entre os 20 times.

O resultado final disso tudo foi o reconhecimento vindo da conceituada revista France Football, que a escolheu como melhor técnico de 2015 na segunda divisão francesa.

Mais até do que os méritos táticos e técnicos, a grande revolução de Corinne foi internamente. Mesmo enfrentando preconceitos e até mesmo estranhezas, baseou sua rotina na confiança do grupo de atletas. Rígida com seus conceitos e formas de trabalho, conquistou o apreço do elenco e o respeito da comunidade futebolística, fazendo com que obtivesse know-how a ponto de assumir a seleção, com contrato de quatro anos.

No Clermont, Corinne conquistou a confiança dos atletas | Foto: Divulgação/Clermont

Desafio nas Bleues

Na seleção francesa, Corinne substituirá Olivier Echouafni, que não durou sequer um ano no comando da equipe. Após substituir Phillipe Bergeroo depois dos Jogos Olímpicos, não conseguiu bons resultados e as duras críticas depois da decepcionante campanha na Eurocopa pesaram para a mudança.

Na história, Corinne será apenas a segunda mulher a treinar as Bleues. Antes dela, Élisabeth Loisel ficou dez anos no posto e revolucionou o futebol feminino do país, classificando a seleção para a Copa do Mundo de 2003, primeira do time.

Já Corinne tem um Mundial em casa pela frente, em 2019. Como herança, desempenhos decepcionantes nos Jogos Olímpicos e na Eurocopa, onde as Bleues caíram em nas quartas-de-final nos dois torneios.

Tudo isso contrasta com o cenário dos clubes, onde a França chegou a ter dois times fazendo a final da Liga dos Campeões, com o Lyon vencendo o PSG nos pênaltis – OL, aliás, ganhou quatro das oito edições da competição. Além disso, das 18 jogadoras escolhidas para o time ideal da temporada 2016/17 do torneio, sete eram francesas.

Ou seja, apesar dos resultados ruins, Corinne Diacre não encontra terra arrasada. Longe disso, até. Com uma base formada por atletas do Lyon e do PSG, tem tudo para desempenhar ótimo papel e fazer com que a seleção tenha desempenho tão exitoso quanto dos clubes.

Estreia

Dois amistosos em setembro marcam a estreia de Corinne Diacre | Foto: Divulgação/Clermont

E a estreia de Corinne já será breve. Estão marcados dois amistosos para setembro: em Caen, enfrenta Chile, e em Calais pega a Espanha, nos dias 15 e 18, respectivamente.

Mais de Corinne Diacre

Para quem quiser conhecer mais do trabalho e da história da nova treinadora da seleção feminina da França, o colega de Le Podcast du Foot, Filipe Papini comentou sobre a trajetória da profissional em dezembro de 2015 no blog C’Est le Foot:

O fim da geração 87

O time que prometeu e não vingou | Foto: Reprodução/L’Equipe

Antes mesmo de uma mescla de gerações, composta por Kyllian Mbappé, Thomas Lemar, Benjamin Mendy, Paul Pogba e outros tantos atletas talentosos, encherem os olhos dos franceses e criarem imensas expectativas para um novo título mundial, outro grupo de jogadores de imenso potencial cativou o Velho Continente.

A famosa Geração 1987 apresentou à Europa nomes de peso, como Franck Songo’o, Jérémy Ménez, Samir Nasri, Hatem Ben Arfa e Karim Benzema. Juntos, conquistaram o Campeonato Europeu Sub-17 em 2004, na própria França, com 100% de aproveitamento – cinco jogos, cinco vitórias, 11 gols marcados e apenas três sofridos.

Na grande decisão diante da Espanha, de Gerard Piqué, Cesc Fabregas e Javi García, um cartão de visitas logo no início, com um gol relâmpago de Kévin Constant, após assistência de Ménez, em cruzamento da direita. Os espanhóis buscaram o empate na etapa final, com Piqué, de cabeça – já era uma de suas especialidades na época. Só que aos 34 minutos, Nasri, o responsável por vestir a mística camisa 10, acertou um grandioso chute de fora da área e deu o título aos franceses.

Nasri (D) foi decisivo com o gol do título | Foto: Uefa

Nasri, na época com 16 anos, era um dos mais badalados atletas daquela geração. Habilidoso, inteligente, jogava de cabeça erguida e tinha no pé direito um precioso poder de finalização, capaz de furar as mais pesadas barreiras.

Poucos meses depois de conquistar a Europa ao lado de Benzema, Ménez e Ben Arfa, Nasri estreou como profissional pelo Olympique de Marseille. Na época, a joia do OM era cortejada por clubes da Premier League, como Arsenal, Chelsea e Liverpool.

O destino inglês, como era previsível, aconteceu, só que mais de dez anos depois e já com status de “trintão”, Nasri nunca foi nem metade do que prometeu. Passou por Arsenal e Manchester City, chegou a acumular bons números e desempenho aceitável, mas nada que lhe desse a importância e o peso que aparentemente teria quando surgiu.

Na seleção francesa, acumulou polêmicas extracampo e se aposentou precocemente após ser descartado para a Copa do Mundo de 2014.

Com a chegada de Pep Guardiola ao City na temporada 2016/17, foi escanteado em Manchester, passou uma temporada emprestado no Sevilla (onde ficou marcado por uma imbecil expulsão contra o Leicester, no jogo que marcou a eliminação na Liga dos Campeões) e agora se juntou a Samuel Eto’o e Maicon Bolt no Antalyaspor, disputando o Campeonato Turco.

Aliás, o Antalyaspor foi atrás de outro astro da Geração 87: Jérémy Ménez. Badalado pelas jogadas de velocidade e dos abusados dribles, ele chegou a Turquia em baixa, após ter temporada abaixo da crítica no Bordeaux. Formado no Sochaux, passou ainda por Monaco, Roma, PSG e Milan, em nenhum conseguiu se fixar como um jogador internacional e capaz de desequilibrar jogos.

O único daquele time que atingiu esse status foi Karim Benzema, que deixou o Lyon idolatrado pela torcida e acumula vencedora passagem pelo Real Madrid, onde já tem mais de 200 gols em quase 430 jogos. Sua carreira na seleção só não foi mais concreta por birra de Raymond Domenech e pela polêmica judicial com Mathieu Valbuena. Caso contrário, esse status seria ainda maior.

O grande caso a parte daquela geração é Hatem Ben Arfa. Indiscutivelmente talentoso e com uma capacidade incrível para driblar e criar espaços, mas com um gênio indomável, não houve um lugar onde não tenha arrumado polêmica extracampo. Hoje está encostado no PSG, sem saber para onde irá.

Anos depois, os quatro notáveis da Geração 87 se encontraram na seleção principal | Foto: Reprodução

Mas por que daquele time, apenas esses quatro atletas conseguiram se notabilizar e construir uma carreira, sejam elas sólidas ou não? Philippe Bergeroo, treinador daquela talentosíssima geração, detectou logo o problema por não terem explodido. “Depois do título, os respectivos clubes fizeram com que assinassem um contrato profissional para não os ver ir em outro time. Mas eles não estavam maduros o suficiente para ganhar dinheiro tão cedo e pensaram que tinham chegado lá”.

É uma geração que definitivamente morreu. Benzema é o único ponto fora da curva e que estabeleceu uma carreira mais consolidada. Talvez seja mera coincidência, talvez seja sinal de um grupo de atletas deslumbrados. O fato é que o hiato de novos valores que a França viveu entre a metade da última década e começo dessa tem muito a ver com o fracasso da Geração 1987.

Por onde andam?

Goleiros

Benoit Costil: Titular daquele time, Costil se notabilizou como um dos principais goleiros do futebol francês, especialmente após a carreira construída no Rennes. Porém, apesar dos cortejos de times de outros países, ficou na França e, hoje, aos 30 anos, está na primeira temporada no Bordeaux.

Remy Riou: Formado no Lyon, nunca jogou pelo OL, especialmente por ter surgido na época do excelente Grégory Coupet. Em função disso, rodou por equipes de menor porte e fez carreira no Nantes, onde jogou cinco temporadas. Em 2017/18, migrou para a Turquia e joga no Alanyaspor. Em 2004, foi reserva de Costil e não entrou em campo.

Defensores

Thomas Mangani: Titular em toda campanha, Mangani atuou por algumas temporadas no Monaco, clube que o formou, mas esteve entre os titulares quando a equipe foi rebaixada a Ligue 2 em 2011. Desde então, vem rodando por alguns clubes e, atualmente, está no Angers desde 2015.

Maxime Josse: Lateral-direito titular, Josse, hoje com 30 anos, foi um dos que teve carreira mais alternativa. No mesmo ano em que conquistou a Europa pela França, debutou entre os profissionais do Sochaux, onde jogou até 2011 (com rápidos empréstimos a Brest e Angers), só que desde que deixou os Lionceaux jogou na Bulgária, Israel, Grécia e Finlândia. Hoje defende o CA Bastia, clube da quarta divisão francesa.

Karim El Mourabet: Ele era zagueiro titular em 2004 e atuou por cinco anos no Nantes, clube que o formou, e teve um rápido empréstimo no Laval. Neste meio tempo, optou por defender a seleção marroquina e jogou um amistoso por Marrocos, e foi exatamente lá onde deu sequência à carreira jogando por Rabat e Safi (clube onde está até hoje). Antes disso, jogou dois anos no time B do Lille, que joga torneios amadores na França.

Steven Thicot: Assim como El Mourabet, Ticot, que foi capitão do time em 2004, é formado no Nantes. Nos Canários, porém, sequer atuou profissionalmente e debutou apenas no Sedan, em um curto período de empréstimo. Depois disso, virou uma espécie de nômade da bola. Jogou na Escócia, pelo Hibernian, na Romênia, pelo Dínamo Bucareste, e em Portugal por Naval, Belenenses e Tondela. Nesta temporada, acertou com o AEL Larissa, da Grécia.

Irélé Apo: A conquista de 2004 foi a única grande glória da carreira de Apo, mesmo sem ter entrado em campo, isso porque sequer jogou pelo Auxerre, clube que o formou, e ainda passou discretamente por Evian, Nantes e Carquefou. O registro mais recente que encontrei dava conta de que ele defendia o FC Chauray, da quinta divisão francesa, mas o site do clube já não indica a presença dele no elenco.

Serge Akakpo: O zagueiro, que fez apenas um jogo em 2004, é outro que foi parar na Turquia, mas teve carreira bem alternativa. No Auxerre, clube formador, jogou poucas partidas e depois trilhou por clubes da Romênia, Eslovênia, Eslováquia, Ucrânia e está desde 2015 no país turco – começou pelo 1461 Trabzon, passou pelo Trabzonspor e hoje veste a camisa do Gaziantep. Apesar de ter defendido as seleções sub-17 e sub-19 da França, optou pela segunda nacionalidade e desde 2008 veste a camisa de Togo, onde jogou duas Copas Africanas.

Kevin Constant: Lateral-esquerdo e autor do primeiro gol da grande decisão, Constant jogou poucas partidas pelo Toulouse, clube que o formou, e depois jogou no Chateauroux, passando a rodar no futebol italiano, onde defendeu o Milan, inclusive. Nesta temporada, é jogador do Sion, da Suíça. Bom frisar que Constant é mais um caso de atleta que optou por defender outra seleção: desde 2007, defende Guiné.

Meio-campistas:

Franck Songo’o: O filho do goleiro camaronês Jacques Songo’o, badalado por ter passado por La Masia ao lado de Lionel Messi, Gerard Piqué e Cesc Fabregas, jogou todas as cinco partidas, mas acabou sendo um andarilho da bola. Debutou como profissional em 2005, no Portsmouth (já havia passado por Metz, La Coruña e Barcelona na base) e depois foi emprestado a Bournemouth, Preston, Crystal Palace e Sheffield Wednesday. O melhor momento da carreira foi entre 2008 e 2010, onde jogou constantemente pelo Zaragoza e chegou a ser convocado para a seleção camaronesa. Desde 2010, porém, passou por Real Sociedad, Albacete, foi para os EUA defender o Portland Timbers e ainda jogou na Grécia por Glyfada e PAS Giannina – este foi, em 2014, o último clube o qual encontrei registros dele.

Pierre Ducasse: Formado no Bordeaux, foi volante titular na campanha e é mais um que não viu a carreira decolar. Nos Girondins, atuou regularmente, mas sem tanto prestígio, entre 2005 e 2011. Neste meio tempo, passou um ano emprestado ao Lorient. Já entre 2011 e 2014, defendeu o Lens e esteve no Boulogne entre 2015 e 2017. Nesta temporada, veste a camisa do Stade Bordelais, da quarta divisão nacional.

Stéphane Marseille: Esse atleta, que jogou três partidas na campanha, talvez tenha tido a história mais trágica. Marseille foi formado no Stade de Reims na época em que o clube tentava se remontar depois de se tornar amador nos anos 90, mas teve escassas oportunidades. Decidiu, então, migrar para o Nancy, onde não jogou e retornou ao Reims, onde novamente não entrou em campo. O meio-campista partiu para o futebol amador até 2012, quando decidiu se dedicar a família. Em 2015, retornou ao futebol amador, mas uma grave lesão no tendão de Aquiles fez com que abandonasse a carreira efetivamente.

Ahmed Yahiaou: O franco argelino não teve metade do status de Nasri ou Ben Arfa, mas o desempenho fora das quatro linhas foi similar. No Marseille, clube onde foi formado, foi dispensado após se atrasar a um treinamento. Em seguida, defendeu o Istres, na Ligue 2, e partiu para o Sion, onde foi demitido após viajar para a França para realizar exames médicos e nunca mais voltar. A partir daí virou um cigano da bola, migrando entre times amadores da França e profissionais da Argélia. O último registro encontrado dele foi no FC Martigues, clube amador francês, em 2015.

Jean-Christophe Cesto: Com apenas uma partida no torneio europeu, Cesto foi outro a ter carreira, de certa forma, trágica. Formado no Nantes, viu suas chances se esvaírem no clube após ter detectado um problema cardíaco em 2005. Após se recuperar, recomeçou do zero nas ligas amadoras e conseguiu um espaço no Bastia, então na segunda divisão, onde teve passagem discreta. Com a decepção no profissional, construiu carreira no futebol amador.

*Os atacantes eram os já citados Karim Benzema, Jérémy Ménez e Hatem Ben Arfa;

A curva descendente de Martin

Lesões e baixo rendimento no Lille atrapalharam Martin | Foto: Reprodução

Meia clássico, de toque de bola refinado, com passes precisos de pé direito e movimentos que confundiam as mais rígidas marcações. Ao despontar no fim da última década com essas características, Marvin Martin era certeza de sucesso no Velho Continente para os anos seguintes.

Ao surgir como capitão do Sochaux durante a histórica conquista da Copa Gambardella de 2007 (tradicional torneio de base francês), o talentoso meia de 1,71cm demonstrava estar pronto para ingressar no time profissional, o que se comprovou na temporada 2008/09. Com apenas 20 anos na época, ajudou a equipe a escapar do rebaixamento com um gol e três assistências – duas delas no decisivo 2 a 1 sobre o Nantes, na penúltima rodada, quando deixou a zona de queda.

O tempo foi passando e ele foi evoluindo. Ao lado de Ryad Boudebouz, formou uma das mais atrevidas duplas do futebol francês no que trata de times de menor expressão. O entendimento dos dois era perfeito. Uniam velocidade, agilidade e rapidez de raciocínio. Eram apostas certas para clubes maiores.

Quase dez temporadas depois, tudo isso ficou para trás. Se Boudebouz ao menos teve passagens de destaque por Bastia e Montpellier, conseguindo agora a sonhada transferência internacional – defenderá o Real Bétis na Espanha – aquele outro menino talentoso, de estilo refinado, que chegou a estabelecer um recorde de 17 assistências – quebrado há duas temporadas por Dí Maria – não cumpriu metade das expectativas que foram criadas quando iniciou a carreira profissional e se encontra numa espiral de queda na carreira.

Ainda no Sochaux, chegou a alcançar a seleção francesa em 2011 e, logo na estreia, marcou dois gols na goleada por 4 a 1 sobre a Ucrânia em amistoso disputado em Donetsk (confira os gols no vídeo acima). Dias depois dessa triunfante estreia, veio o fardo que carrega até hoje: o jornal Le Parisien estampou em sua capa uma foto de Martin e a pergunta: é o novo Zidane?

Martin e o fardo carregado desde 2011 | Foto: Reprodução

A matéria, que pode ser conferida neste link, buscou semelhanças, como uma maluca equação relacionando as letras iniciais dos nomes dos dois (ZZ = MM), os dois gols em menos de cinco minutos no debute pela seleção e o fato de jogar com a camisa 10, que fora do próprio Zidane e de outras lendas, como Michel Platini e Raymond Kopa. Isso que não inclui os afagos elogiosos, como “prodígio” e “menino de ouro”, enfatizados na reportagem.

Só que como fora com Camel Meriem, Yoann Gourcuff e outros, a alcunha “novo Zidane” se tornou mais do que um fardo e alcançou o peso de maldição para Martin. Por mais que ele negue ter se vislumbrado com tal reconhecimento, é fato inegável que a carreira não decolou.

Durante a Eurocopa de 2012, foi anunciada a transferência para o Lille. Os Dogues ainda estavam em época de vacas gordas, com elenco caro e prestes a inaugurar novo estádio.

O sonho de se fixar como um dos principais jogadores da França e ser um dos 23 convocados para a Copa do Mundo de 2014 virou pesadelo e Martin viveu quatro temporadas de ostracismo, sem nenhum gol marcado, assistências escassas, um discreto empréstimo ao Dijon e várias contusões (inclusive, passou por duas duras cirurgias no joelho), que fizeram com que os Dogues se arrependessem amargamente dos € 10,5 milhões investidos em sua contratação – era a mais cara do clube até a chegada de Thiago Maia, por € 14 milhões.

Sobre seleção? Esquece, desde 2012 não é chamado e dificilmente vestirá a camisa azul de novo.

Martins assinou com o Reims por uma temporada | Foto: Twitter Stade de Reims

Por fim, o vínculo entre Martin e Lille foi amigavelmente encerrado na última semana e o meia, agora com 29 anos, vestirá a camisa do Stade de Reims na segunda divisão por uma temporada. Ao anunciar a nova contratação, o tradicional clube que imortalizou Raymond Kopa destacou no site oficial a “técnica e a experiência” do jogador, que espera fazer uma temporada completa sob todos os aspectos e recuperar o tempo que perdeu, se livrando da pesada maldição de ser mais um dos fracassados “novos Zidanes”.

Le Podcast du Foot #66 | Neymar em Paris

Depois de uma arrastada novela, enfim Neymar estreou pelo Paris Saint-Germain. E o debute foi em grande estilo, com um gol e uma assistência na vitória por 3 a 0 sobre o Guingamp.

Pequena amostra ou o adversário facilitou? Foi dessa estreia e da projeção de Neymar em Paris que Eduardo Madeira, Renato Gomes e Vinícius Ramos se reuniram para a gravação de mais um Le Podcast du Foot.

Na edição #66 do programa, você confere a avaliação da estreia do brasileiro e os reflexos de sua chegada na Ligue 1. Ouça o podcast no player abaixo:

Os descartáveis

Lucas e Matuidi estão na lista de descartáveis parisienses | Foto: Getty

O Paris Saint-Germain virou o time mais visado da Europa nas últimas semanas. Dos apreciadores do bom futebol, há uma espera em ver como Neymar, contratado por generosos € 222 milhões, irá se encaixar na equipe e como se adaptará ao Campeonato Francês. Os adversários em nível doméstico também têm essa curiosidade, já que terão de encara-los a cada fim de semana.

Mas, certamente, quem está com os olhinhos atentos a tudo que cerca o PSG são os adversários de outras ligas, equipes com dinheiro para gastar e que procuram os alvos certos para negociar. A chegada de Neymar, além de provocar natural alteração no elenco para ajuste financeiro, deve mexer nos brios de alguns jogadores, que além de perder holofotes, devem ficar com espaço reduzido no elenco.

O exemplo mais claro disso é de Lucas Moura. Contratado em 2013 por € 40 milhões e com vínculo até 2019, o ex-são-paulino nunca foi peça unânime dentro do clube. Chegou na época do italiano Carlo Ancelotti, que atuava num clássico 4-4-2, onde não se encontrou. Não possuía capacidades para compor a segunda linha de quatro, tampouco conseguia render mais adiantado, junto de Ibrahimović.

Com Laurent Blanc, que trocou o 4-4-2 pelo 4-3-3, e também com Unai Emery, rendeu mais, cresceu nas estatísticas, mas nunca explodiu. Na última temporada, por exemplo, atuou 53 vezes, marcou 19 gols e deu 11 assistências, mas não completou 90 minutos nem em 15 jogos.

Na segunda metade da temporada, perdeu mais espaço ainda com o crescimento de Ángel Dí Maria e a chegada de Julian Draxler. Virou reserva e, na estreia contra o Amiens, sequer ficou no banco.

Avaliado pelo Transfermarkt em € 38 milhões, Lucas já virou peça descartável para o PSG. Uma saída é o melhor caminho para que os parisienses assumam o fracasso do negócio e que o próprio brasileiro tente render mais a menos de um ano da Copa do Mundo da Rússia.

Rumo a Itália?

Juventus é uma das interessadas em Matuidi | Foto: P.Lahalle/L’Equipe

Outro jogador que pode mudar de ares já visando o Mundial é Blaise Matuidi. Com contrato até junho de 2018, o PSG não demonstra intenção em renovar com o meio-campista de 30 anos, muito pela filosofia de jogo de Emery.

Matuidi não é dos jogadores mais técnicos e virtuosos e ganha espaço na aptidão física e condução de bola. O espanhol prepara seus times para reter a bola, atuar com triangulações, tendo combatividade. Talvez isso explique Adrien Rabiot ganhar mais espaço.

Já Blaise, que começou a temporada na reserva, deve estar pensando no melhor caminho para ganhar minutos visando 2018. Especulações colocam a Juventus como uma das interessadas no volante. O único impasse, porém, seria o desejo do time italiano de contar com um atleta mais jovem que o francês.

Avaliado em € 30 milhões, o empecilho da idade pesa, deve abaixar o valor e fazer com que essa novela se arraste até o fechamento da janela.

Os meninos-problemas

Aurier parece não fazer parte dos planos de Unai Emery | Foto: F.Faugere/L’Equipe

Se Matuidi e Lucas estão com a cabeça em outros times por pura falta de espaço ou de encaixe nas ideias de Emery, Serge Aurier e Hatem Ben Arfa vivem situações totalmente opostas e o PSG procura algum clube corajoso a segurar essas bombas.

Tanto o marfinense quanto o francês aprontaram o que podiam e o que não podiam e, mediante a atuação do clube no mercado, estão totalmente descartados. Ambos começaram a temporada sonhando em retomar espaço, mas viram as pretensões caírem por terra depois das chegadas de Daniel Alves para a posição de Aurier e Neymar para a função de Ben Arfa.

A questão financeira não é o principal impasse. O marfinense está avaliado em € 15 milhões, já o francês é cotado em € 14 milhões. Além disso, os dois tiveram nomes ventilados em algumas equipes, como Manchester United, Inter (Aurier) e Fenerbahçe (Ben Arfa). A grande questão é: o valor monetário não é problema, mas, e o valor agregado? Quem quer pegar a bomba de dois jogadores-problemas, de extracampo pesadíssimo e que reflete em campo? O PSG só espera algum clube responder “eu quero” para uma dessas perguntas.

Pílulas

– Além desses casos que detalhei acima, há outros em que o descarte é mais escancarado. Grzegorz Krychowiak e Jesé Rodríguez, por exemplo, dificilmente jogarão nesta temporada, muito em conta pelo rendimento decepcionante no último ano e pelas contratações que foram feitas;

– E ainda há quem esteja de stand by. No gol, por exemplo, Kevin Trapp começou o ano no banco de Alphonse Areola e, com a forte especulação de Jan Oblak, do Atlético de Madrid, pode ser que procure novos ares;

– Retornando a linha de frente, a nova especulação do momento envolve a contratação de Kylian Mbappé. Se o prodígio do Monaco vier, alguém deve ir embora de Paris. Há quem aposte que o goleador Edinson Cavani procuraria novos ares, outros acreditam que Julian Draxler poderia partir. Enfim, se confirmada a vinda do monegasco, as especulações das peças descartáveis tendem apenas aumentar;

Sem projeto consolidado, Lyon tenta não ficar para trás

Mesmo sob críticas, Genésio é o técnico nesta temporada | Foto: S. Guiochon

Entre os times postulantes ao título ou a vagas em torneios europeus, o Lyon é o que tem o ponto de interrogação maior para a temporada que recém iniciou na França. O OL não conta com o aporte financeiro do Paris Saint-Germain, tampouco tem projetos promissores e ousados como Lille e Olympique de Marseille.

Em contrapartida, o clube gerido por Jean-Michel Aulas tem dinheiro no bolso após as vendas pomposas de Corentin Tolisso e Alexandre Lacazette (juntos, suas vendas somaram € 94 milhões).

Apesar das negociações, a atuação no mercado de transferências não foi das mais agressivas. Das seis contratações efetuadas, quatro jogadores estão abaixo dos 25 anos e são legítimas apostas. Entre Bertrand Traoré, Mariano Díaz, Ferland Mendy, Kenny Teté e os brasileiros Marcelo e Fernando Marçal, não há nenhum que encha os olhos e seja garantia de retorno de imediato.

Até mesmo a dupla de brasileiros, que é a mais experiente (Marcelo tem 30 anos e Marçal 28), não possui muita rodagem na Europa, quase sempre atuando em ligas ou times de menor escalão. Os demais contratados mostraram valor por onde passaram (especialmente Traoré), mas ainda são jogadores em construção e a tendência é errar mais do que acertar.

Dentro deste cenário, abre-se um vazio para a formação de líderes. Os próprios Tolisso e Lacazette, vendidos nesta janela de transferências, eram figuras de respeito dentro do elenco. Christophe Jallet, lateral com Copa do Mundo no currículo, cabe na lista. Entre todos eles, porém, a figura máxima era a de Maxime Gonalons, vendido a Roma por € 5 milhões.

Gonalons trocou o Lyon pela Roma | Foto: S. Guiochon

Aos 28 anos de idade, o volante foi formado no Lyon e estava no clube desde 2000. Era capitão e líder nato no meio de campo, além de ser considerado ídolo da torcida. A saída, porém, foi tumultuada.

Além de já ter saída cogitada há algumas temporadas, publicamente ele disse “faltar ambição” ao time após tomar quatro do Ajax, na partida de ida das semifinais da Liga Europa. A frase foi o estopim de uma crise entre o staff do jogador e Aulas, que trocaram farpas via imprensa.

Esse vácuo acaba sendo amplificado na figura do próprio Mathieu Valbuena, que não era exatamente um líder do elenco, mas a vivência futebolística lhe daria um status diferente nesta temporada. O baixinho meia quase foi expulso do clube, vide a pouca vontade demonstrada pela direção em mantê-lo devido ao alto salário. Assim como Maxime, saiu se manifestando contra diretoria e comissão técnica.

A figura da liderança dentro do plantel, até mesmo como exemplo de adaptação para os novos contratados, recairá sobre Nabil Fekir, que tenta retomar o ótimo nível técnico após uma série de lesões, do goleiro Anthony Lopes e do próprio Memphis Depay, contratado a peso de ouro na metade da última temporada e que tem papel de referência cada vez mais evidenciado com as saídas de Lacazette e Tolisso.

E é dentro deste cenário que Genésio terá que se impor. Os rachas internos, que faziam com que os jogadores mais experientes perdessem parte do respeito pelo técnico, somadas as críticas da torcida, que não confiam em seu desempenho na casamata, fazem com que transforme esse desafio ainda maior.

Diferente dos outros clubes que citei ainda no primeiro parágrafo, o Lyon não conta com uma coesão de ideias entre comissão técnica e diretoria e isso pode pesar no fim da temporada.

Início animador

Apesar de todas essas variantes, o Lyon começou a temporada com o pé direito, goleando o recém-promovido Strasbourg, por 4 a 0. Mariano Díaz, vindo do Real Madrid, já marcou dois.

O domínio do OL ficou escancarado muito além do placar, aja vista que os comandados de Genésio finalizaram 12 vezes, sendo que sete desses arremates foram contra a meta de Kamara. Além disso, teve amplo controle da posse de bola, com 61,6% de domínio, tendo concluído mais de 457 passes.

Entretanto, preocupa o estilo “boxeador” que Genésio impõe. Apesar das 12 finalizações, o Strasbourg, que deve se limitar a lutar contra o rebaixamento, arrematou em sete oportunidades. Três desses chutes saíram quando a partida ainda estava 1 a 0, o que se tornou um risco sério de estrago do placar.

Nas próximas duas rodadas, o OL terá testes de fogo que poderão mostrar a que pé anda a própria evolução. Na sexta (11), o adversário será o remodelado Rennes, na Bretanha, e oito dias depois, recebe o Bordeaux, tentando se reerguer após um conturbado início de temporada – marcado por eliminação na Liga Europa e empate na rodada inicial da Ligue 1. Diferentemente do que ocorreu com o Strasbourg, a “trocação” característica da equipe pode pesar ao lado contrário nos próximos duelos.