Os flops da temporada francesa

Há duas semanas, trouxe os destaques da temporada 2016/2017 do Campeonato Francês. Só que o ano não teve somente gente se dando bem, gritando “é campeão”, fazendo gols bonitos e encantando os amantes do bom futebol. Tivemos também aqueles que prometeram muito e cumpriram pouco dentro de campo.

Após um período de certa triagem nos escolhidos e até conversas com os colegas de Le Podcast du Foot, fechei a lista e, hoje, trago cinco desses nomes que, como dizem no popular futebolístico, floparam na temporada – ou que pelo menos frustraram qualquer expectativa positiva. Reconheço que a maior parte da lista vem do Paris Saint-Germain, que viu a sequência de conquistar nacionais sendo quebrada, mas dá uma boa discussão.

Sem mais enrolações, vamos aos nomes:

5 – Jesé e Krychowiak

Vindos do futebol espanhol, Jesé e Krychowiak não renderam em Paris | Foto: Geoffroy van der Hasselt/AFP/Getty Images

Só em Jesé Rodríguez e Grzegorz Krychowiak, o Paris Saint-Germain investiu € 58 milhões. É uma grana federal que comprova a inflação do mercado de jogadores, convenhamos. Ambos estão entre as 15 mais caras contratações da história do clube e até custaram mais que nomes importantes da história recente do clube, como Zlatan Ibrahimovic e Marco Verratti.

Uma temporada depois de fazer esse investimento, a sensação é de desolação. Jesé fez apenas nove jogos e anotou um gol na Ligue 1. Na metade da temporada, foi emprestado ao Las Palmas e saiu sem deixar saudades. Hoje, ele é tratado como um problema a ser resolvido internamente. Como firmou contrato de cinco anos, voltará a Paris, mas a contragosto. Em recente entrevista à Rádio Cadena Ser, na Espanha, ele disse que não gostaria de retornar por causa das poucas chances que recebeu. Já Nasser Al-Khelaifi, presidente do clube, disse em dezembro do último ano que errou ao trazer o espanhol. Pepino a vista sobre a situação do atleta.

Já Krychowiak, contratado com o status de peça de confiança de Unai Emery dos tempos de Sevilla, jogou apenas 11 vezes na competição. No meio da temporada, o polonês chegou a jogar no time B por perceber que não tinha espaço na equipe principal. A paciência com ele acabou na reta final e o último jogo que fez foi no dia 12 de março, pela 29ª rodada, na vitória por 2 a 1 sobre o Nancy. Com contrato até 2021, é outro problema a ser contornado em Paris.

4 – Jérémy Ménez

Apesar da decepção, a diretoria do Bordeaux ainda aposta em Ménez | Foto: AFP

Voltando ao futebol francês após duas temporadas no Milan, Jérémy Ménez custou a singela bagatela de € 9,5 milhões ao Bordeaux, segunda maior contratação da história do clube. Dentro de campo, porém, o retorno não aconteceu nesta edição da Ligue 1. Foram 26 jogos (somente sete por 90 minutos), três gols marcados e duas assistências.

Ménez, que almejava retornar à seleção francesa após quatro anos, vê agora essa meta cada vez mais distante. Já com 30 anos e vindo de uma temporada bastante baixa, ele ainda observa nomes talentosos explodirem, com Ousmane Dembélé e Kyllian Mbappé. Hoje está claro que é preciso ir passo a passo e, primeiro, retomar bom futebol dentro do Bordeaux, que não quer se desfazer do alto investimento feito no começo da temporada.

3 – Torcida do Bastia

O ápice das confusões da torcida do Bastia foi contra o Lyon | Foto: OLWeb

Nenhuma torcida incomodou tanto na França quanto a do Bastia. No hall de confusões dos corsos, uma tentativa de agressão ao brasileiro Lucas, do PSG, durante uma cobrança de escanteio, insultos racistas a Mario Balotelli, do Nice, além das cenas de guerra campal com os jogadores do Lyon, fazendo a partida ser suspensa após 45 minutos de bola rolando. As imagens rodaram o mundo e mancharam ainda mais o status de um time que teve a pior campanha entre os 20 times da Ligue 1.

Para quem quiser entender mais a origem desses acontecimentos, que muito tem a ver com a tumultuada região da Córsega, o assunto esteve em debate na edição #63 de Le Podcast du Foot, quando, inclusive, recebemos o correspondendo do Lucarne Opposée no Brasil, Simon Balacheff.

2 – Ben Arfa

Ben Arfa clamou por uma oportunidade em Paris | Foto: C. Gavelle/PSG

Depois de uma temporada acima da média no Nice (com 17 gols e seis assistências), Hatem Ben Arfa parecia ter afastado o status de “garoto-problema” e investir € 10 milhões nele parecia ser um bom negócio. Mero engano – pior para o PSG, que ficou com a batata quente em mãos.

O retorno em campo foi mínimo, com míseros quatro gols e uma assistência (disso tudo, apenas a assistência foi na Ligue 1). Internamente, Ben Arfa era duramente questionado pela falta de empenho nos treinamentos e teria chegado a ouvir de Emery a frase “você não é Messi”.

Não bastasse isso, o atleta externou a insatisfação com a reserva. Na reta final da temporada, publicou um vídeo onde suplicou por uma chance. Disse que não queria jogar em uma posição específica ou algo semelhante, apenas queria uma oportunidade.

Apesar da iminente chance de saída, ele começou o mês de junho dizendo querer ficar em Paris. No Instagram, o atacante publicou um vídeo treinando em uma praia, com a trilha sonora de “Only God Can Judge Me” (Só Deus pode me julgar), de Tupac, e encerrou com o recado “nos vemos em julho”. Resta vez se Emery vai passar a mão na cabeça dele desta vez.

1 – Unai Emery

Emery veio com a meta de fazer o PSG jogar mais… e até agora, não cumpriu | Foto: C. Gavelle/PSG

Não gosto da expressão “obrigação” para títulos, mas ao chegar em Paris, Unai Emery precisava fazer o PSG render mais e dar o passo adiante que não deu com Laurent Blanc – que apesar dos 11 títulos em três temporadas, era cobrado por participações mais convincentes no cenário europeu. Além disso, Emery teve a chance de trazer alguns jogadores que desejava, como os já citados Krychowiak e Ben Arfa, além de Julian Draxler.

O que se viu dentro de campo, porém, foi um rendimento menor do que nos tempos de Blanc. Sem inspiração, lento em transições e nas combinações ofensivas, o PSG de Emery fez força para ganhar jogos que ganhava facilmente em anos passados. A perda do título francês para o Monaco foi puro reflexo de um time que foi sombra de um adversário com menos recursos financeiros, mas que ampliou as capacidades técnicas.

Somado a isso, veio o fracasso diante do Barcelona na Liga dos Campeões e a péssima gestão de elenco, constatada nas mais variadas notícias de insatisfações e cobranças externas dos atletas.

Apesar disso tudo, Emery vai continuar no PSG para a próxima temporada, mas cada vez mais pressionado a fazer o time jogar para salvar a própria pele – e do presidente Nasser Al-Khelaifi.

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E aí? O que achou da lista? Dê sua opinião e amplie o debate!

Os tops da temporada francesa

Encerrada mais uma temporada do Campeonato Francês, é chegada àquela hora bacana de retrospectiva e análise de tudo o que aconteceu ao longo das 38 rodadas. Desta vez, me empolguei em levantar listas com os tops e os flops do ano.

Claro que houve uma predominância: entre os tops, o Monaco, que com uma impressionante campanha e um ataque avassalador, ocupou as principais opções. Já entre os flops, o Paris Saint-Germain, que mais uma vez gastou tufos de grana e apresentou um futebol muito pobre, se sobressaindo muito na base da individualidade.

Hoje trago quem se destacou e, ainda nesta semana, trarei quem decepcionou. Confira a primeira lista:

5 – Balotelli ressurge

Super Mario foi o artilheiro do Nice na Ligue 1 | Foto: Divulgação/OGC Nice

Quando o Nice anunciou a contratação do italiano Mario Balotelli, muitos torceram o nariz. Polêmico, de extracampo complicado, Super Mario vinha de temporada pífia pelo Milan, com míseros três gols em 23 jogos. Parecia ser uma aposta perdida. Mero engano.

O italiano encerrou a temporada com 15 gols em 1.746 minutos na Ligue 1 (um a cada 116.4 ou um jogo e 26 minutos). O detalhe dos tentos é a distribuição deles. Foram oito na primeira etapa e sete na segunda, sendo sete em ações de jogo, três de pênalti, três após cruzamentos e dois de falta. Foi o artilheiro do time e peça-chave da formação ao lado do excelente meio-campista Jean Seri.

Ah, e sobre a tão cobrada questão disciplinar – com razão – Balotelli recebeu seis cartões amarelos e dois vermelhos.

4 – Nice voltando à Liga dos Campeões

Favre recolocou o Nice em uma Liga dos Campeões | Foto: Divulgação/OGC Nice

Com Lucien Favre no comando, o Nice fez história e, finalmente, terá a honra de disputar a Liga dos Campeões – mesmo que seja a fase prévia. Foram apenas duas vezes na história que isso aconteceu e a última foi na temporada 1959/60, quando caiu nas quartas-de-final para o Real Madrid.

Apesar de tradicionalíssimo, o Nice não tem grande carreira europeia, especialmente em anos mais recentes. Neste século, por exemplo, disputou duas edições da extinta Taça Intertoto e, mais recentemente, participou da Liga Europa sem grande sucesso – na atual temporada, caiu na fase de grupos.

Boa parte dos méritos vão para Favre, que armou uma equipe extremamente competitiva, capaz de bater de frente com os poderosos PSG e Monaco – nos 12 pontos disputados contra os dois, somou sete. Parte disso é explicado pela eficiência ofensiva, registrada nos números: 4º melhor ataque da Ligue 1, com 63 gols marcados, mas com a marca de ser apenas o 12º time no ranking de chutes por jogo.

Pena que Favre não deve permanecer nas Águias para a próxima temporada – o Borussia Dortmund é o principal cotado para tê-lo como treinador.

3 – Quadrado mágico do Monaco

Falcao foi um dos pilares do poderoso ataque monegasco | Foto: Divulgação/AS Monaco

Disparado o ataque mais positivo da Ligue 1, com 107 gols marcados – 60 (!!!) há mais que na temporada passada – o Monaco deve parte desse sucesso ao mágico quadrado ofensivo, formado pelos habilidosos Thomas Lemar e Bernardo Silva e dos letais Kyllian Mbappé e Radamel Falcao.

Dos 107 gols, 53 saíram do quarteto, ou seja, impressionantes 49,5% dos tentos. Destaque, é claro, para o colombiano, que voltou a ter uma temporada relevante e marcou 21 gols, e para o prodígio Mbappé, autor de 15 tentos.

Interessante destacar também a distribuição das assistências de Silva e Lemar: das nove do português, quatro foram para Mbappé, enquanto três das dez do francês foram para Falcao. No jogo de duplas de Leonardo Jardim (dois meio-campistas, dois articuladores e dois homens de frente), foi a formação de um quarteto que transformou a avassaladora máquina de gols do Monaco.

2 – El Pistolero!

Cavani fez 35 gols em 36 jogos na Ligue 1 | Foto: Divulgação/PSG

Em 36 jogos, 35 gols. Nunca Cavani marcou tantos quanto nessa temporada, superando, inclusive, 2012/13, quando marcou 29 na Série A italiana, ainda com a camisa do Napoli. Foi o artilheiro da Ligue 1 com sobras.

O detalhe interessante da temporada de El Pistolero é a regularidade: 18 gols foram feitos no primeiro turno e 17 no segundo. Se dividirmos o jogo em três partes de 30 minutos, observaremos que 15 tentos do uruguaio saíram na faixa final (contra 12 entre 0-30; 8 entre 30-60), mostrando que foi decisivo – coisa a qual era cobrado em temporadas anteriores.

Em dez ocasiões fez ao menos dois gols, incluindo uma em que fez quatro, no 6 a 0 sobre o Caen. Além disso, dos 36 jogos em que atuou, só não marcou em 13. Em uma temporada bem decepcionante dos parisienses, Cavani foi o ponto fora da curva e o diferencial do time.

1 – O campeão!

Com méritos, a taça Ligue 1 ficou no Principado | Foto: Divulgação/AS Monaco

Enquanto todos esperavam o quinto título consecutivo do Paris Saint-Germain, surgiu o Monaco. Time de futebol envolvente, de dominação de espaço, mas, ao mesmo tempo, agressivo, os monegascos ergueram o troféu de campeão nacional após 17 anos.

A campanha foi irretocável, com maior número de vitórias (30), menor de derrotas (3), melhor ataque (107 gols) e melhor campanha como mandante e visitante. Somado a isso, o Monaco encerrou a Ligue 1 invicto a 20 jogos, com 12 vitórias seguidas e nenhum tropeço em 2017.

Interessante ressaltar ainda que, segundo o WhoScored, o Monaco foi o time que teve maior média de finalizações na temporada, mas foi apenas o quinto em posse de bola e sexto em porcentagem de passes certos. Ou seja, foi uma equipe de controle espacial e de intensa eficácia com a bola no pé.

Somado a isso, o time comandado por Leonardo Jardim apresentou ao mundo jovens talentos que quem acompanha o Francesão há algum tempo já conhece, como Benjamin Mendy, Tiemoué Bakayoko, Thomas Lemar, Fabinho, Bernardo Silva e, é claro, a estrela da companhia, Kyllian Mbappé. É, amigos, daqui algum tempo, teremos história para contar desse fantástico time.

O que acharam dos tops da Ligue 1? Faltou alguém? Exagerei em algum ponto? Dê seu pitaco! Ainda nesta semana trago os flops da temporada.

A bola da vez

Desempenho na temporada faz Lacazette ser cobiçado por grandes clubes europeus | Foto: S. Guiochon/Le Progrés

Com contrato válido até junho de 2019 e avaliado em € 40 milhões, segundo o site Transfermarkt, o atacante Alexandre Lacazette é a bola da vez da França. No inconstante time de Bruno Genésio, é ele quem desequilibra, decide jogos e vem se tornando alvo de grandes clubes do continente europeu.

Até o momento, Laca já balançou as redes 31 vezes em 40 jogos na temporada, o que lhe dá uma impressionante média de um gol a cada 101 minutos. Só para termos ideia, o gabonês Pierre-Emerick Aubameyang, artilheiro da atual temporada da Bundesliga, tem 34 gols em 41 jogos na temporada inteira e, ainda assim, e tem a mesma média de um tento a cada 101 minutos.

Na Ligue 1, o aproveitamento do camisa 10 do Lyon é ainda mais impressionante: 24 gols em 2.173 minutos, distribuídos em 27 jogos, o que lhe dá média de um gol a cada 91 minutos, praticamente um por jogo. Ele é o vice artilheiro do torneio, atrás apenas do uruguaio Edinson Cavani, do PSG, que está com absurdos 31 gols em 31 jogos, um a cada 84 minutos.

Para serviço de comparação com os artilheiros das principais ligas europeias, em tempo médio de tentos, Lacazette só está atrás de três jogadores: além de Cavani, está Lionel Messi, do Barcelona (um gol a cada 78 minutos), e Aubameyang, do Borussia Dortmund (um a cada 90 minutos).

Camp. Artilheiro Clube J G Tempo pra gol
ESP Lionel Messi Barcelona 29 31 78 minutos
FRA Edinson Cavani Paris SG 32 31 84 minutos
ALE Pierre Aubameyang Dortmund 28 27 90 minutos
ITA Andrea Belotti

Edin Dzeko

Torino

Roma

33

33

25

25

105 minutos

109 minutos

ING Romelu Lukaku Everton 33 24 121 minutos
FRA Alexandre Lacazette Lyon 27 24 91 minutos

Convenhamos que ficar atrás de Messi é algo natural. Cavani, no nível que atingiu nesta temporada, também. Com Aubameyang, é praticamente um empate técnico nos números.

Hoje é fato: Lacazette é um dos principais fios condutores do Lyon nesta temporada. Decisivo, importante e poderoso em suas finalizações, ele é o ponto de desequilíbrio e quem pode decidir jogos para a equipe. Na Liga Europa, por exemplo, já vimos isso contra Roma e Besiktas nas últimas fases. Aliás, apenas um parêntese: a lesão que sofreu contra a equipe turca pode o tirar das semifinais diante do Ajax, o que significa um prejuízo quase que incalculável para o técnico Bruno Genésio.

Mas voltando aos números, essa importância de Lacazette ao Lyon fica mais evidente quando observamos que 36% dos gols da equipe no Campeonato Francês saíram de conclusões dele. Mais impressionante ainda é constatar que 50% dos gols do time como visitante foram do artilheiro lyonnais.

Contrato de Laca com o OL vai até o meio de 2019 | Foto: S. Guiochon/Le Progrés

Atualmente, Lacazette possui muitas valências que um jogador de sua posição precisa ter: inteligência, bom posicionamento, velocidade, saída da área e poder de finalização. Peca ainda em algumas questões de repertório na hora da conclusão, tendo em vista que 19 dos 24 gols foram marcados de pé direito – um foi de cabeça e outro de canhota.

Ainda assim, vale o investimento. Aos 25 anos de idade, ele já está atuando em excelente nível e ainda possui boa margem de progressão para as próximas temporadas. A renovação contratual dificilmente irá sair e, com isso, Ligue 1, que tem sido um ótimo celeiro de atletas para clubes de ligas mais competitivas (a Premier League me confirma essa afirmação), apresenta ao mercado um Lacazette pronto para explodir. Cabe agora chegarem a um meio-termo com Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon.

Le Podcast du Foot #63 | Violência nos estádios franceses

Bastia e Lyon foi paralisado no intervalo | Foto: OLWEB

A onda de violência que assola os estádios franceses foi pauta de mais uma edição de Le Podcast du Foot. O apresentador Eduardo Madeira comandou a mesa redonda ao lado de Flávio Botelho e do convidado especial Simon Balacheff, correspondente do Lucarne Opposée no Brasil, que trouxe uma visão local e de quem conheceu de perto a cultura das torcidas francesas.

Recentemente, tivemos a torcida do Bastia invadindo o gramado do Armand Cesari para brigar com jogadores do Lyon, ampliando o vasto de leque de incidentes que vem provocando nesta temporada. Além disso, o próprio Lyon foi punido pela Uefa em função da confusão diante do Besiktas, na Liga Europa, e caso a torcida volte a aprontar, será automaticamente suspenso por dois anos.

Abaixo você pode ouvir a edição #63 de Le Podcast du Foot:

Trilha: Ao fundo da edição #63 do podcast, você ouve as músicas do álbum “Comme on a dit”, da banda francesa Louis Attaque. Foi o segundo álbum do grupo, lançado em 2000, e que foi eleito o melhor do ano na categoria “rock” em 2001. O CD completo está disponível no YouTube.

Limite ultrapassado

Os jogadores do Lyon passaram por apuros na Córsega | Foto: OlWeb

Violência nos estádios é um assunto bastante delicado e difícil de se abordar. Por mais que se cobrem punições a “torcedores” brigões, é quase impossível isolar os clubes dessas discussões. Muitos deles são coniventes e fazem vista grossa por interesses alheios aos jogos e que, por muitas vezes, possuem até cunho político.

Mas há momentos em que medidas radicais precisam ser tomadas em prol da coletividade. Ver os ultras do Bastia – a “Bastia 1905” – invadirem o gramado do estádio Armand Cesari para brigar com jogadores do Lyon no aquecimento e no intervalo do jogo foi algo totalmente fora do compasso e que obriga a LFP (Liga de Futebol Profissional, em português) a tomar medidas bruscas para evitar problemas maiores e diminuir a sensação de impunidade.

Para quem quiser entender mais do ocorrido, o colega Filipe Papini, do Brasil Lyonnais, fez um compilado dos acontecimentos. Veja e se espante com a brutalidade, que fez com que o jogo durasse apenas 45 minutos.

Já vi muita coisa em termos de violência nos estádios, mas nada parecido com aquilo. Vi confusões entre torcedores e jogadores do próprio time, brigas entre si e com organizadas adversárias, mas nada a ponto do que foi visto na Córsega, uma invasão a campo antes mesmo de a bola rolar. Foi desproporcional e inconsequente.

Vale ressaltar que a torcida do Bastia já possui um histórico violento nesta temporada. O L’Equipe fez o levantamento:

vs PSG: Lucas foi cobrar um escanteio e tentaram agredi-lo com um cabo de bandeira. Por mais que o brasileiro tenha simulado, fica nítido que o torcedor teve a intenção de atingi-lo.

vs Nice: o italiano Mario Balotelli foi perseguido desde o aquecimento por gritos racistas. Não foram um ou dois gritos. Foram vários, insistentes e ofensivos. Como mostra o vídeo abaixo, a “torcida” chegou a imitar macacos e ainda soltaram ofensas como “espécie de m…”.

vs Nantes: Durante o jogo, os Canários empataram no último minuto em 2×2. O técnico Sérgio Conceição vibrou efusivamente e desagradou o banco do Bastia. Na saída para o vestiário, muito tumulto e isso passou para a torcida, que atacou o ônibus do Nantes. Os atletas e a comissão técnica tiveram que esperar os ânimos se acalmarem e a escolta chegar para se dirigirem ao aeroporto.

É uma ficha corrida bastante preocupante e suficiente para punições duras. É claro que os infratores precisam ser identificados e punidos, mas mediante a reincidência e a aparente falta de vontade em coibir esse tipo de situação, é preciso colocar o próprio Bastia no jogo.

A LFP precisa pensar em medidas eficazes, mas exemplares. Só os acontecimentos desta temporada já são razão suficiente para, pelo menos, banir a Bastia 1905 dos estádios franceses ou colocar o clube da Córsega para atuar com portões fechados. Qualquer medida que afaste esse grupo dos estádios será positiva. É hora de dar um “basta” e mostrar que o limite já foi esgotado.

Histórico cultural

Vale acrescentar a discussão que a violência vista pela torcida do Bastia, especialmente pelo grupo Bastia 1905, tem uma relação muito próxima com a questão cultural da Ilha da Córsega. Historicamente, a região tem ligações com grupos separatistas e nacionalistas. A própria Bastia 1905 é ligada a esses blocos e já usou do argumento de xenofobia e preconceito para rebater punições passadas – já foram impedidos de viajar e obrigaram a equipe a atuar com portões fechados.

Para acrescentar a discussão, recomendo dois conteúdos do Xadrez Verbal:

– o post do blog do historiador Filipe Figueiredo, que conta bem como é a política e a cultura da Ilha da Córsega:

– e o podcast no Central 3, que abordou esse mesmo tema, tendo o viés futebolístico:

Só restou a rivalidade entre as torcidas

OM e PSG fazem o maior clássico da França | Foto: Yannick Parienti/OM

Olympique de Marseille e Paris Saint-Germain possuem vários atrativos para formar uma rivalidade destrutiva na Europa. Os dois clubes são de cidades antagônicas, com diferenças culturais e sociológicas, além de possuírem torcidas fanáticas que não se bicam, fazendo com que tenham um forte potencial comercial, que foi devidamente explorado durante as décadas de 1990 e 2000. Assim surgiu Le Classique, tido como o maior clássico da França.

Dentro das quatro linhas também há grande rivalidade. Enquanto o PSG se orgulhava do Parque dos Príncipes e do rápido crescimento, o Marseille batia no peito e, com muito orgulho, gritava que era o único francês a vencer uma Liga dos Campeões.

Todos esses fatores, porém, estão indo por água abaixo pela disparidade técnica entre as duas equipes nos últimos anos. Ambos se mostram incapazes de competir em níveis iguais. O cenário atual mostra um Paris milionário desde a chegada da Qatar Sports Investiments defronte um OM, que passou por dificuldades financeiras e somente agora, com o norte-americano Frank McCourt no comando, tenta se reerguer. O reflexo disso é uma doutrinação parisiense que perdura seis anos.

A última vez que os torcedores do Marseille voltaram para casa com uma vitória foi no dia 27 de novembro de 2011, quando derrotaram o já milionário PSG por 3×0. Era a primeira temporada do time da capital francesa com investimento do Qatar e a equipe ainda passou alguns maus bocados no primeiro semestre com o técnico Antoine Kombouaré, que viria a ser demitido na virada do ano. Um dos pontos altos desse preocupante rendimento foi exatamente esta derrota no Vélodrome.

Desde aquele dia, foram 14 jogos, com impressionantes 12 vitórias do PSG e dois empates. Neste período, o Paris fez 32 gols (média de 2.28 por jogo) e sofreu somente 11. Graças a esse novo cenário, o time da capital francesa passou a ser o dominador do clássico. Em 91 jogos ao longo da história, acumulou 38 vitórias contra 32 do OM e 21 empates.

No último jogo, aliás, o PSG sequer tomou conhecimento do maior rival e meteu 5×1, em pleno Vélodrome. Foi a maior goleada do clássico, igualando o mesmo placar aplicado pelo próprio PSG em janeiro de 1978.

Em fevereiro deste ano, o PSG meteu cinco na casa do rival | Foto: C. Gavelle/PSG

Se dividirmos Le Classique em antes e depois do PSG milionário, notaremos bem o desequilíbrio em que ficou este grande jogo. Antes da versão qatarina do Paris, foram 76 jogos, com 26 vitórias parisienses, 19 empates e 31 triunfos do OM, que também tinha o melhor ataque, com 105 gols contra 92. Na nova versão parisiense são 15 jogos, com 12 vitórias do time da capital, dois empates e somente uma vitória marselhesa.

É essa discrepância que me preocupa. O Marseille tinha a vantagem antes, mas era equilibrado. O OM nunca teve esses 14 jogos de invencibilidade – o máximo que atingiu foram nove jogos entre 1990 e 1994, com seis vitórias e três empates – tampouco acumulou dez vitórias seguidas como fez o PSG entre 2012 e 2016. É fora do comum e preocupante para o futuro do clássico. Hoje, somente a rivalidade entre as cidades de Marseille e Paris e das duas torcidas mantém o confronto vivo.

O homem que colocou o Stade de Reims no mapa do futebol

Kopa fez história no Reims | Foto: Divulgação/Stade de Reims

Kopa fez história no Reims | Foto: Divulgação/Stade de Reims

Quem é mais novo talvez não reconheça a grandeza do Stade de Reims, clube de mais de 80 anos, que já transitou entre o profissionalismo e o amadorismo e que hoje disputa a segunda divisão da França. Porém, não são todos que lembram que os Vermelhos e Brancos, em um intervalo de 15 temporadas, conquistaram cinco títulos do Campeonato Francês e se notabilizaram como um dos times mais fortes do país.

Um dos grandes responsáveis por colocar o Reims no mapa do futebol atende por Raymond Kopa. Meia-atacante de grande inteligência tática e de um drible letal, ele chegou ao clube em agosto de 1951, após ser comprado junto ao Angers, equipe que o revelou.

Foi exatamente no Reims que o mundo conheceu Kopa. Em cinco temporadas, foram quase 180 partidas disputadas em 54 gols anotados. Ao lado de grandes craques, como Michel Hidalgo, Pierre Sinibaldi e Roger Piantoni, conquistou dois títulos do Campeonato Francês e ainda foi vice-campeão europeu em 1956, perdendo uma emocionante final diante do Real Madrid, vencida de virada por 4×3 pelo time espanhol.

Na época, o Reims, comandado pelo lendário técnico Albert Batteux (técnico campeão francês oito vezes entre 1953 e 1970 e que trouxe Kopa ao clube), se notabilizou como uma equipe ofensiva, de jogo vistoso e muitos gols. Em 1952/53, por exemplo, ano em que foi campeão nacional, marcou 86 gols em 34 jogos, média de 2.52 por partida. Na época, esse time que encantou a França e cravou nome na história dos grandes esquadrões dos anos 50 era conhecido por ter o “futebol Champagne” (a região de Reims é muito conhecida por ser a “terra do Champagne”).

O Reims atuava numa espécie de 3-5-2, variante para 3-4-3, e essa variação se dava exatamente pela presença de Kopa. Dotado de grande inteligência tática e ocupação de espaço, ele já fazia algo semelhante ao que chamamos hoje de “falso 9”. Sua capacidade de abrir espaços e movimentar-se pela faixa ofensiva era fundamental para o sucesso da equipe.

Tais características fizeram com que fosse chamado de “Napoleão do Futebol”. Esse apelido foi dado pelo jornalista inglês Desmond Hackett, do Daily Express. Segundo ele, Kopa, assim como o líder político, também era baixinho e controlava o jogo como poucos, fazendo da bola a melhor forma de conquistar territórios.

De campeão a rebaixado

Depois de três temporadas de sucesso no Real Madrid, Kopa retornou ao Reims em 1959/60. Por lá, passou oito anos, os últimos da carreira. No começo, obteve sucesso e ergueu mais duas taças do Campeonato Francês. Na primeira, em 1960, formou poderosa dupla do Just Fontaine (autor de 28 gols em 28 jogos).

Entretanto, após o segundo lugar em 1962/63, o mundo de Kopa desabou. O Reims foi rebaixado à segunda divisão e não conseguiu retornar a elite no ano seguinte, voltando apenas em 1966/67, onde novamente caiu. No meio deste período, o talentoso meia chegou a ser suspenso por dois meses por recusar uma convocação para a seleção francesa por uma briga com o técnico Georges Verriest e por mais seis meses por criticar as condições de trabalho dos jogadores – que beirava a escravidão, segundo Kopa. Impotente diante desta situação, ele nada pode fazer para ajudar o clube.

Após a segunda queda, em 1967, Kopa decidiu abandonar a carreira aos 35 anos para cuidar do filho, que sofria de leucemia e também para reivindicar melhores condições de trabalho aos jogadores. A partir dali, entretanto, o clube perdeu o brilho de forma definitivamente, tornando-se uma equipe “ioiô”, transitando entre as primeiras divisões – e chegou a perder o status profissional entre 1991 e 2002.

Kopa se tornou presidente de honra do clube | Foto: Divulgação/Stade de Reims

Kopa se tornou presidente de honra do clube | Foto: Divulgação/Stade de Reims

Kopa, porém, eternizou-se na história do clube. Seja pelos títulos ou pelo futebol apresentado, ele foi um dos grandes responsáveis por colocar a pequena cidade de Reims, com pouco mais de 180 mil habitantes, no mapa francês do futebol. Não à toa, Jean-Pierre Caillot, presidente do clube desde 2004, declarou ao site oficial do clube que “Monsieur Kopa é o Stade de Reims e o Stade de Reims é Monsieur Kopa”.

Aos 86 anos, Kopa nos deixa com um legado que vai além de um futebol bem jogado e de uma carreira brilhante, com títulos coletivos e individuais que o colocam na lista dos imortais no esporte. Seu legado é de comprometimento e talento, que foram capazes de colocar um clube modesto entre os maiores de seu país, marcando época. Kopa é eterno e o Reims deve essa a ele.

Raymond Kopa | 1931-2017

Títulos pelo Stade de Reims:

  • Campeonato Francês: 1953, 1955, 1960 e 1962
  • Copa Latina: 1953;

Alguns títulos individuais:

  • Bola de Ouro: 1958;
    • 2º colocado: 1959;
    • 3º colocado: 1956 e 1957;
  • Seleção da Copa do Mundo da Suécia: 1958
  • Jogador francês do ano: 1961
  • Seleção do ano da FIFA: 1963
  • Seleção do ano da Revista World Soccer: 1963
  • Os 100 jogadores de todos os tempos da Revista World Soccer

– Para quem quiser conhecer mais da história do Reims dos anos 50, que imortalizou Raymond Kopa e outros tantos, indico dois conteúdos. O primeiro é do colega Wladimir de Castro Rodrigues Dias, de “O Futebólogo”, e o segundo é dos “Imortais do Futebol”, de Guilherme Diniz;